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Capítulo 49 de 57
Parte 46 de 54
A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle
—‘Da Índia.’ —‘Que pássaro é este?’ —‘É chamadolá pardal da floresta.’ “Fiquei com o ninho e passei uma manhã com Mr. Chubb, do museu local, para verificar se realmente o ninho era de tal pássaro. Parecia muito pequeno para um Pardal Indiano, entretanto não podíamos classificar nem o ninho nem o ovo entre os tipos australianos. Outros ninhos e ovos transportados por Mr. Boiley têm sido identificados.
Certamente é um bom argumento que, enquanto tais pássaros tenham que ser importados e comprados aqui, na verdade é um insulto à razão admitir que ninhos e ovos frescos também sejam encontrados no mercado. Assim, apenas posso garantir a extensa experiência e os elaborados ensaios do Doutor Mc Carthy de Sydney e afirmar que acredito que na ocasião Mr. Bailey foi um verdadeiro médium, com o notável dom de transporte. É justo declarar que quando voltei a Londres levei um dos tijolos assírios de Bailey ao Museu Britânico e que aí declararam que era falso. Inquérito posterior mostrou que tais falsificações são feitas por judeus num subúrbio de Bagdad — e, até onde se sabe, somente ali.
Assim, a coisa não está muito mais adiantada. Para o trabalho de transporte, pelo menos, é possível que a peça falsificada, impregnada de recente magnetismo humano, é mais fácil de ser manejada do que o original, tirado de um monumento. Bailey produziu pelo menos uma centena desses objetos e nenhum funcionário da Alfândega informou como eles poderiam ter entrado no país. Por outro lado, Bailey me disse claramente que os tabletes tinham passado pelo Museu Britânico, de modo que temo não poder harmonizá-lo com a verdade — e nisto está a maior dificuldade para decidir o caso. Mas a gente deve lembrar sempre que a mediunidade de efeitos físicos não tem conexão, desta ou daquela maneira, com o caráter da pessoa, do 205 mesmo modo que os dotes poéticos”. 206 Os críticos esquecem, ao citar continuamente a impostura de Bailey, que imediatamente antes da experiência de Grenoble ele havia suportado uma longa série de testes em Milão, no curso dos quais os investigadores tomaram a extrema e injustificável medida de vigiar o médium secretamente, quando no seu próprio quarto de dormir.
A comissão composta de nove homens de negócio e de doutores, não achou nenhuma falha em dezessete sessões, mesmo quando o médium foi posto num saco. Essas sessões duraram de fevereiro a abril de 1904, e foram minuciosamente discutidas pelo Professor Marzorati. À vista de seu sucesso, muito mais foi feito na acusação na França. Se a mesma análise e o mesmo cepticismo fossem mostrados contra as mistificações como são mostrados contra os fenômenos, a opinião pública seria dirigida mais justamente. O fenômeno de transporte parece tão incompreensível às nossas mentes que certa vez o autor perguntou a um Espírito guia se ele podia dizer algo que lançasse luz sobre o assunto.
A resposta foi: “Isto envolve alguns fatores que estão acima da ciência humana e que não podem ser esclarecidos. Ao mesmo tempo vocês devem tomar como grosseira analogia o caso da água que se transforma em vapor. Então esse vapor, que é invisível, pode ser conduzido para qualquer lugar, para ser apresentado na forma visível da água”. Isto é, como se vê, antes uma analogia do que uma explicação, mas pelo menos parece apta. Deveria acrescentar-se, como foi referido na explicação, que não só Mr.
Stanford, de Melbourne, como também o Doutor Mac Carthy, um dos primeiros médicos de Sydney, realizaram uma série de experiências com Bailey e ficaram convencidos da legitimidade de seus poderes. De modo algum os médiuns citados esgotam a lista daqueles com que o autor teve oportunidade de fazer experiências; e ele não deve deixar o assunto sem aludir ao ectoplasma de Eva, que ele teve entre os dedos, ou às brilhantes luminosidades de Frau Silbert, que ele viu sair como uma coroa cintilante de sua cabeça. Ele espera que já tenha sido dito bastante para mostrar que a série de grandes médiuns não se acaba para quem quer que diligencie a sua procura seriamente e também para assegurar ao leitor que estas páginas são escritas por alguém que não mediu sacrifícios para ganhar o conhecimento prático daquilo que estuda.
Quanto àacusação de credulidade invariavelmente dirigida pelos não receptivos contra quem quer que tenha uma opinião positiva sobre este assunto, o autor pode solenemente confessar que, no curso de sua longa carreira como investigador, não pode recordar um único caso em que tenha sido mostrado claramente que ele se havia enganado sobre qualquer ponto sério, ou tenha dado um 205 “The Wanderings of a Spiritualist”, páginas 103 a 105. 206 “Annals of Psychical Science”, Volume 9º. atestado de honestidade a uma realização que posteriormente ficasse provado que era desonesta. Um homem crédulo não passa vinte anos lendo e fazendo experiências antes de chegar a conclusões fixas.
Nenhum relato de mediunidade de efeitos físicos seria completo se não aludisse aos notáveis resultados obtidos por “Margery”, nome adotado para efeito público por Mrs. Crandon, a bela e dotada esposa de um dos primeiros cirurgiões de Boston. Esta senhora mostrava poderes psíquicos há alguns anos e o autor teve a oportunidade de chamar para o seu caso a atenção da Comissão do Scientific American. Assim fazendo, sem o quereis expôs a muitos aborrecimentos, que eram suportados com extraordinária paciência por ela e pelo marido. É difícil dizer o que era mais aborrecido: se Houdini, o mágico, com as suas intempestivas e ignorantes teorias de fraude, ou os tais “cientistas” assistentes, como o Professor McDougall, de Harvard, que, depois de cinquenta sessões e de assinar outras tantas atas, no fim de cada sessão, endossando as maravilhas registradas, ainda se sentia incapaz de fazer um julgamento, contentando-se com vagas deduções.
O negócio não foi salvo pela interferência de Mr. E. J. Ding. wall, da SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH de Londres, que proclamava a verdade da mediunidade em cartas particulares cheias de entusiasmo, mas negava a sua convicção em reuniões públicas. Esses supostos especialistas saíram da história com pouco crédito; em compensação mais de duzentos assistentes de bom senso tiveram bastante sabedoria e honestidade para exprimir realmente em depoimento aquilo que aos seus olhos se passara.
Deve o autor declarar que pessoalmente experimentou com Mrs. Crandon e ficou satisfeito tanto quanto o podia numa sessão, quanto à verdade e a variedade de suas faculdades. Neste caso o guia se diz Walter, irmão falecido daquela senhora e mostra uma personalidade muito marcada, com um grande senso de humor e considerável domínio de linguagem irônica. A produção da voz é direta, uma voz máscula, que parece atuar a poucas polegadas em frente ao rosto do médium. As forças têm sido progressivas, aumentando continuamente, até que agora alcançaram quase todas as variedades de mediunidade.
O toque de campainhas elétricas sem contacto tem sido feito ad nauseam, de tal maneira que se poderia pensar que ninguém, a não ser um surdo como uma pedra ou um especialista, não tivesse mais dúvidas. Movimento de objetos a distância, luzes espirituais, soerguimento de mesas, transportes, e, finalmente, a clara produção de ectoplasma em boa luz vermelha têm ocorrido frequentemente. O paciente trabalho do Doutor Crandon e de sua senhora certamente será recompensado e seus nomes viverão na história da ciência psíquica, bem como, numa categoria diferente os de seus detratores. De todas as formas de mediunidade a mais alta e valiosa, quando pode ser controlada, é a da escrita automática, de vez que nesta, quando na forma pura, se nos afigura um método direto de obtenção de ensinos do Além. Infelizmente é um método que se presta muito facilmente para decepções, de vez que é certo que o subconsciente do homem tem muitos poderes com os quais ainda estamos pouco acostumados.
É impossível também aceitar qualquer escrita automática com absoluta confiança como uma informação cem por cento de verdade do Além. O vidro opaco ainda coa a luz que o atravessa; e o organismo humano jamais será um cristal transparente. A veracidade de qualquer comunicação particular dessa escrita deve depender não de meras afirmações, mas de detalhes corroborantes, da dissemelhança geral da mente do escritor e de sua semelhança com a do suposto inspirador. Por exemplo, se no caso do finado Oscar Wilde, obtivemos longas comunicações que não só são características de seu estilo, mas que contêm frequentes alusões a obscuros episódios de sua própria vida e que, finalmente, são escritas com a sua própria caligrafia, deve admtir-se que a evidência é superiormente forte. Há um grande derrame de tais escritos presentemente em todos os países de língua inglesa.
São bons, maus, indiferentes, mas os bons contêm muita matéria que encerra os traços da inspiração. O cristão e o judeu bem podem se perguntar por que partes do Velho Testamento, ao que se pensa, assim teriam sido escritas, enquanto os modernos exemplos devam ser tratados com despreso. “E foi-lhe trazida uma carta do profeta Elias, em que estava escrito: Eis aqui o que diz o Senhor Deus de 207 David, teu pai”: etc. Isto é uma das muitas alusões que mostram o antigo uso, neste particular, da comunicação de Espíritos. De todos os exemplos de data recente nenhum se compara em grandeza e dignidade com os escritos do Reverendo George Vale Owen, cuja grande obra “A Vida Além do Véu” deve ter uma influência tão permanente quanto a de Swedenborg.
Um ponto interessante, focalizado pelo Doutor A. J. Wood, é que nos mais sutis e complexos pontos há uma grande semelhança no trabalho destes dois videntes e tanto mais quanto se sabe que Vale Owen é muito familiarizado com os escritos do grande mestre sueco. George Vale Owen é uma figura tão destacada no moderno espiritismo que algumas notas a seu respeito não estariam fora de propósito. Nasceu em Birmingham em 1869 e foi educado no Midland Institute e no Queen’s College, em Birmingham.
Depois dos curatos de Seaforth, Fairfield e da baixa Scotland Road, divisão de Liverpool, onde teve uma grande experiência entre os pobres, tornou-se vigário de Orford, perto de Warrington, onde a sua energia conseguiu erguer uma nova igreja. Aí ficou vinte anos, trabalhando em sua paróquia, que muito apreciava o seu ministério. Surgiram então algumas manifestações psíquicas e, finalmente, foi ele compelido a exercer as suas próprias forças latentes na escrita inspirada, inicialmente como se viesse de sua própria mãe, depois continuada por alguns Espíritos elevados ou anjos, que tinham vindo em seu cortejo. No todo elas constituem uma descrição da Vida após a morte e um corpo filosófico e de conselhos das fontes invisíveis, que ao autor se afigura possuir todos os sinais íntimos de uma origem elevada. A descrição é digna e amena, feita num inglês ligeiramente arcaico, que lhe dá um sabor muito característico.
Alguns extratos desses escritos apareceram em vários jornais, atraindo mais atenção por serem da pena do Vigário de uma Igreja Estabelecida. Finalmente a Lord Northcliffe chegou notícia do manuscrito; ele ficou muito impressionado com o assunto e com a recusa do autor em receber qualquer remuneração por sua publicação. Esta foi feita semanalmente no jornal de Lord Northcliffe, o Weekly Dispatch, e nenhuma outra coisa contribuiu, mais que esta, para o mais alto ensino 207 Há uma diferença de denominação entre as bíblias protestante e católica. espírita diretamente às massas. Incidentalmente foi demonstrado que a política da Imprensa no passado tinha sido não só ignorante e injusta, mas redondamente equivocada do baixo ponto de vista do interesse material, pois a circulação do Dispatch cresceu enormemente durante a publicação daqueles escritos. Tais coisas, entretanto, ofenderam muito a um bispo muito conservador, e Mr.
Vale Owen achou-se, como todos os reformadores religiosos, como objeto de desagrado e sofreu uma velada perseguição dos superiores de sua Igreja. Com essa força a impulsioná-lo e com o impulso perante toda a comunidade espírita, ele abandonou a Igreja e entregou-se, com a família, a mercê do que a Providência lhe reservasse; sua corajosa esposa concordou inteiramente com ele num passo que não era fácil para um casal que passara da mocidade. Depois de um giro de conferências na América e um outro na Inglaterra, Mr. Vale Owen está atualmente presidindo uma congregação espírita em Londres, onde o magnetismo de sua presença atrai uma assistência considerável. Num excelente retrato, assim Mr.
David Gow pinta Vale Owen: “A figura alta e fina do ministro, sua face pálida e ascética, iluminada por grandes olhos, luminosos de ternura e de humor, sua atitude modesta, suas palavras calmas carregadas de magnetismo e de simpatia, tudo isto dava a justa medida da espécie de homem que é ele. Revelavam uma alma de rara devoção, que se mantinha sã e doce por um bondoso senso de humor e por uma visão prática do mundo. Parecia mais carregado pelo Espírito de Erasmo ou de Melanchton do que pelo áspero Lutero. Talvez hoje a Igreja não precise de Lutero.” Se o autor incluiu esta pequena notícia ante a sua existência pessoal, é porque foi honrado por uma estreita amizade de Mr. Vale Owen e ficou em condições de poder estudar e garantir a realidade de seus dotes psíquicos.
O autor acrescentaria que teve a sorte de ouvir a Voz Direta numa sessão com sua esposa. A voz era profunda, máscula, vinda de alguns pés acima de nossas cabeças e murmurando apenas um curto mas bem audível cumprimento. É de esperar que com um ulterior desenvolvimento melhores resultados sejam obtidos. Durante anos o autor, em seu grupo doméstico, tem obtido mensagens inspiradas, através da mão e da voz de sua esposa as quais têm sido da maior elevação e, muitas vezes, da mais evidente natureza. São, entretanto, muito pessoais e íntimas para serem discutidas num exame geral do assunto.
O Espiritismo e a Guerra uita gente jamais tinha ouvido falar de Espiritismo antes do período que se iniciou em 1914, quando de súbito o Anjo da Morte penetrou em M muitos lares. Os adversários do Espiritismo acharam mais conveniente considerar o cataclismo mundial como a causa principal do crescente interesse na pesquisa psíquica. Esses oponentes inescrupulosos também disseram que a defesa do assunto, feita pelo autor, bem como por seu ilustre amigo, Sir Oliver Lodge, era devida ao fato de cada um ter perdido um filho na guerra, daí deduzindo que o pesar lhes havia reduzido a capacidade de crítica e os levado a pensar em coisas que não aceitariam em períodos normais. O autor já refutou muitas vezes essa grosseira mentira e mostrou o fato de suas investigações datarem de 1886. Por sua vez, assim 208 se exprime Sir Oliver Lodge: “Não se deve pensar que meu ponto de vista tenha mudado aprecíávelmente desde esse acontecimento e com as experiências particulares relatadas nas páginas que se seguem; minha conclusão foi sendo formada gradativamente, durante anos, posto que, sem dúvida, baseada em experiências da mesma espécie.
Mas o acontecimento fortaleceu e liberou o meu testemunho. Agora posso ligar-me com minha experiência pessoal, e não com a alheia experiência. Enquanto a gente depende de provas relacionadas, ainda que indiretamente, com a desolação da morte dos outros, tem que ser reticente e cauteloso e, nalguns casos, silenciar. Somente por permissão especial certos fatos poderiam ser mencionados; e essa permissão, nalguns casos importantes, não poderia ser obtida. Então as minhas deduções foram as mesmas de agora.
Mas agora os fatos me pertencem.” Se é verdade que, antes da guerra, os Espíritos se contavam por milhões, não há dúvida que o assunto não era compreendido pelo mundo em geral, nem mesmo reconhecido como um fato. A guerra mudou tudo isto. As mortes ocorreram em quase todas as famílias, assim despertando um súbito interesse concentrado na vida após a morte. A gente não só perguntava: “Se um homem morrer viverá de novo?” Procurava, ansiosa, saber se era possível a comunicação com os entes queridos que haviam perdido. Procurava-se “o toque da mão destruida e o som da voz que emudecera”.
Não só milhares de pessoas investigaram diretamente, mas, como no início do movimento, a primeira tentativa era feita pelos que haviam partido. A Imprensa era incapaz de resistir à pressão da opinião pública e muita publicidade foi feita de casos de soldados que voltavam e, em geral, da vida após a morte. Neste capítulo apenas uma ligeira referência será feita às diferentes maneiras por que o mundo espiritual se manifestou nas várias fases da guerra. O 208 “Raymond”, página 374. próprio conflito fora predito muitas vezes; soldados mortos se mostravam em casa e davam avisos de perigo aos seus camaradas no campo de batalha; deixavam as suas imagens em chapas fotográficas; figuras solitárias e hóspedes legendários, não deste mundo, eram vistos na área da luta; na verdade, sobre toda a cena pairava, de vez em quando, uma forte atmosfera da presença e da atividade do outro mundo.
Se, por um momento, o autor pode dar uma nota pessoal, dirá que, enquanto a sua própria perda não tivesse tido efeito sobre os seus pontos de vista, o espetáculo de um mundo esmagado pela dor e que ansiosamente pedia auxílio e conhecimento, certamente afetou a sua mente e o levou a compreender que esses estudos psíquicos, que durante tanto tempo ele vinha fazendo, eram de uma enorme importância prática e não mais poderiam ser considerados como mero passatempo intelectual ou fascinante busca a nova pesquisa.
A prova da presença de mortos se fez em sua própria casa e o conforto trazido por mensagens póstumas lhe ensinou que grande consolação seria para um mundo torturado se ele pudesse compartilhar do conhecimento que se havia tornado claro para o autor. Foi tal realização que, desde 1916, o levou, e à sua esposa, a se dedicarem largamente ao assunto, a fazer conferências em muitos países, a viajar para a Austrália, Nova Zelândia, e Canadá, em missões de instrução. Na verdade, esta história, pode dizer-se, obedece ao mesmo impulso que, de início, o atirou de corpo e alma na causa. Este assunto se presta para algumas linhas numa história geral, mas se torna parte de um capítulo que trata da guerra, desde que foi a atmosfera da guerra que o engendrou e desenvolveu. A profecia é um dom espiritual e qualquer prova clara de sua existência indica forças psíquicas, fora de nosso conhecimento normal.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.