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Capítulo 39 de 57

Parte 36 de 54

A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle

Para contrabalançar essas referências abreviadas, vamos dar em detalhe três experiências da formação de ectoplasma. Um dos assistentes do grupo de Madame d’Esperance, deu a seguinte descrição: “Primeiro foi observada no chão, em frente à cabine, uma mancha como uma fita nevoenta e esbranquiçada. Aumentou gradualmente, estendendo-se visivelmente como se fosse uma mancha animada de musselina, jazendo camada sobre camada no chão, até se estender por cerca de três pés e com uma profundidade de algumas polegadas — talvez seis ou mais. Então começou a se erguer lentamente, mais ou menos ao centro, como se uma cabeça estivesse por baixo, ao passo que a fita nevoenta no chão começou a parecer mais com musselina caindo em dobras junto da porção que se erguia misteriosamente. Depois atingiu dois pés ou um pouco mais e parecia que uma criança estava debaixo dela, movendo os braços em todas as direções, como se por baixo estivesse manipulando alguma coisa.

Continuava a se erguer, por vezes mergulhando um pouco para novamente se erguer mais, até atingir uma altura de cinco pés, quando sua forma pôde ser vista como se arranjando as dobras do panejamento em redor de sua forma. Então os braços se ergueramconsideravelmente acima da cabeça e se abriram através de uma massa nebulosa de um panejamento espiritual, e Yolanda se apresentou desvelada, graciosa e bela, com cerca de cinco pés de altura, com uma espécie de turbante na cabeça, do qual caíam sobre os ombros e as costas seus longos cabelos negros... O excesso de panejamento esbranquiçado se compôs em redor dela ou projetou-se no tapête, até ser utilizado novamente. Tudo isto se 135 realizou em cerca de quinze minutos”. 136 O segundo relato é de Mr. Edmund Dawson Rogers.

Diz que na sessão exclusiva de Mr. Eglinton, havia catorze pessoas presentes, todas bem conhecidas e que havia luz suficiente para permitir que o escrevente do relatório “observasse bem a todos e a tudo na sala” e quando a “forma” ficou à sua frente ele era “perfeitamente capaz de notar todos os detalhes”. Em estado de transe Mr. Eglinton passeou pela sala, entre os assistentes, durante cinco minutos, e então... “Começou delicadamente a tirar de seu lado e a atirar em ângulo reto uma substância fumacenta e esbranquiçada, que caía á sua esquerda.

A massa de matéria branca no chão ia aumentando de largura, começou a pulsar e a se mover para cima e para baixo, oscilando para um lado e para o outro, como se a força motora estivesse por baixo. A massa cresceu até três pés de altura e logo depois a forma cresceu ràpidamente, silenciosa-mente até a plena estatura. Por um rápido movimento das mãos Mr. Eglinton separou o material branco que cobria a cabeça da forma e aquele caiu para trás, sobre os ombros, tornando parte da indumentária do visitante, O laço de ligação — o fio esbranquiçado que saía do lado do médium — foi cortado ou se tornou invisível, e a forma avançou para Mr. 134 “The Spiritualist”, 1873, página 83. 135 “Shadow Land”, by E. d’Esperance (1887), páginas 254 e 255. 136 “Life and Experience”, página 58. Everitt, deu-lhe um apêrto de mão e correu todo o círculo, tratando cada um da mesma maneira”. Isto aconteceu em Londres, em 1885.

A última descrição é de uma sessão em Argel, em 1905, com Eva C., então 137 conhecida como Marthe Béraud. Assim descreve Madame: “Marthe estava só na cabine, nessa ocasião. Depois de esperar cerca de vinte minutos, ela mesma abriu completamente a cortina e sentou-se em sua cadeira. Quase imediatamente — estando Marthe bem à vista dos assistentes, suas mãos, a cabeça e o corpo bem visíveis — vimos uma coisa branca, de aparência disforme, se formando junto a ela. A princípio parecia uma grande mancha nevoenta perto do cotovelo direito de Marthe e parecia ligada a seu corpo.

Era muito móvel e crescia rapidamente para cima e para baixo, assumindo finalmente uma aparência de certo modo amorfa de uma coluna nevoenta, que ia desde cerca de dois pés acima da cabeça de Marthe até os seus pés. Não me era possível distinguir nem as mãos nem a cabeça; o que eu via era semelhante a nuvens brancas e floculentas, de brilho variável, que se iam condensando gradualmente, e se concentrando como que em redor de um corpo para mim invisível”. Eis um relato que se pode comparar de modo maravilhoso com os que foram citados, de sessões realizadas há muitos anos. Quando examinamos as descrições do aparecimento de ectoplasma em grupos espíritas há quarenta ou cinquenta anos, e as comparamos com o que ocorre em nossos dias, vemos como os primeiros resultados eram mais ricos. Os métodos não científicos estavam em voga, conforme o ponto de vista de muitos modernos investigadores do psiquismo.

Contudo, os primeiros investigadores pelo menos observaram uma regra de ouro. Cercavam o médium de uma atmosfera de amor e simpatia. Discutindo as primeiras manifestações ocorridas na Inglaterra, diz The Spiritualist, num artigo de 138 fundo: “A influência do estado espiritual dos observadores encontra uma expressão ótica nas sessões de materializações. A gente mundana e suspeitosa consegue as manifestações mais fracas; então os Espíritos por vezes têm apenas uma expressão, como de costume, quando a força é pouca. Isto é síngularmente exato como descrição de muitos rostos em sessões com Eva C.

A gente espírita, em cuja presença os médiuns se sentem muito felizes, vêm muito mais e melhores manifestações... Con quanto os fenômenos espíritas sejam regidos por leis fixas, aquelas leis funcionam de certa maneira na prática que, inquestionàvelmente, o Espiritismo assume mais o caráter de uma relação especial para gente escolhida”. Mr. E. A.

Brackett, autor daquele notável livro que é“Materialized 139 Apáginasaritions” , exprime a mesma verdade por outras palavras. Aliás o seu ponto de vista excita a ironia dos chamados círculos científicos, mas encerra uma verdade profunda. É antes o espírito de suas palavras do que a sua significação literal que ele quer exprimir: “A chave que abre as portas de uma outra vida é pura afeição, simples e confiada como aquela que leva a criança a atirar os braços em redor do pescoço de sua mãe. Para aqueles que se prezam acima de seu alcance 137 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º, página 305. 138 1873, páginas 82 e 83. 139 “Aparições Materializadas”. N. do T. espiritual, isto pode parecer uma submissão àquilo a que chamam faculdades mais altas. Neste caso posso dizer verdadeiramente que enquanto adotei essa atitude, sinceramente ou sem reservas, nada aprendi a respeito dessas coisas.

Em vez de obumbrar a minha razão e o meu raciocínio, isso abriu a minha mente a uma percepção mais clara e mais inteligente do que ocorria à minha frente. Esse espírito de delicadeza, de bondade amorosa que, mais do que qualquer outra coisa, coroa de eterna beleza os ensinos do Cristo, deveria encontrar completa expressão em nosso contacto comaqueles seres.” Se alguém, ao ler esta passagem, pensasse que o autor era um pobre maluco fanático, sobre o qual qualquer médium desonesto pudesse impor-se facilmente, um relance sobre o seu excelente livro provaria o contrário imediatamente. Além disso o seu método deu resultados. Estava ele lutando com a dúvida e a perplexidade quando, a um terno conselho de um Espírito materializado, decidiu pôr de lado toda a reserva “e saudar essas formas como queridos amigos mortos, que tinham vindo de longe e tinham lutado para chegar a mim”. A mudança foi instantânea.

“Desde aquele instante as formas, as quais parecia faltar vitalidade, tornaram-se animadas de uma força maravilhosa. Eles avançaram para me cumprimentar; braços delicados me enlaçaram; formas que tinham sido quase mudas durante a minha investigação agora falavam livremente; rostos que tinham revestido mais o aspecto de máscara, do que de vida real, agora irradiavam, beleza. Aquilo que se dizia minha sobrinha... cumulou-me de demonstrações de carinho. Lançando os braços em redor de mim e debruçando a cabeça sobre o meu ombro, olhou para cima e disse: ‘Agora podemos vir tão perto do senhor’!” Foi uma pena que Eva C. não tivesse tido uma oportunidade de exibir seus dons numa atmosfera amorosa, numa sessão a velha moda espírita. É muito provável que o resultado tivesse sido muito diverso quanto às materializações.

Como prova disso, Madame Bisson, numa íntima sessão particular com ela, obteve maravilhosos resultados, jamais alcançados através dos métodos desconfiados dos investigadores científicos. O primeiro médium de materializações que se pode dizer que tenha sido investigado com cuidados científicos foi essa moça Eva, ou Eva C., como é geralmente chamada, pois seu nome era Carriere. Em 1903 foi examinada numa série de sessões em Villa Carmen, em Argel, pelo Professor Charles Richet; e foi a sua observação desse material esbranquiçado, que parecia sair do médium, que o levou a cunhar o vocábulo “ectoplasma”. Eva tinha então dezenove anos e estava no auge de suas forças, que foram gradativamente minadas por longos anos de investigação sob constrangimento. Tentaram pôr em dúvida os resultados constatados por Charles Richet, pretendendo que as figuras materializadas eram, na verdade, um disfarce doméstico; mas a resposta final foi que as experiências tinham sido realizadas a portas fechadas e que semelhantes resultados tinham sido obtidos muitas vezes.

É uma justiça poética pensar que o Professor Richet tenha sido submetido a essa crítica deselegante e deprimente, porque em seu grande livro “Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas”, é ele ainda mais deselegante para com os médiuns, acreditando em cada história para seu descrédito e agindo continuamente de acordo com o princípio de que ser acusado é o mesmo que ser condenado. Em seu primeiro relatório, publicado em “Anais da Ciência Psíquica”, Richet descreve minuciosamente a aparência com o médium Eva C., da forma materializada de um homem que dizia chamar-se “Bien Boa”. Diz o Professor que essa forma possuía todos os atributos de vida. “Anda, fala, move-se e respira como um ser humano. O corpo é resistente e tem uma certa força muscular.

Nem é uma figura de gesso, nem uma boneca ou uma imagem refletida num espelho; é um ser vivo; é um homem vivo; e há razões para resolutamente pôr de lado qualquer outra suposição que uma ou outra dessas hipóteses — de que seja um fantasma com atributos de vida; ou de que seja uma pessoa viva, fazendo o papel de um 140 fantasma”. Ele discute minuciosamente as suas razões para afastar a possibilidade de ser um caso de desdobramento da personalidade. Descrevendo o desaparecimento da forma, diz ele: “Bien Boa procura, segundo me parece, vir ao nosso meio, mas anda coxeando e hesitante. Não poderia dizer se ele anda ou desliza. Em certa ocasião escorrega e quase cai, mancando como se a perna não pudesse suportá-lo. (Dou a minha própria impressão).

Então se encaminha para a abertura da cortina e subitamente mergulha, desaparecendo no chão; ao mesmo tempo ouve-se um ‘clac! clac!’ como o ruido de um corpo atirado no chão.” Enquanto isto acontecia, a médium era vista perfeitamente na cabine por um outroassistente, Gabriel Delanne, editor da Revue du Spiritisme. Continua Richet: “Pouco tempo depois, — dois ou três minutos — bem aos pés do General, à abertura da cortina, vemos novamente a mesma bola branca — a sua cabeça? — no chão. Sobe rápidamente, quase vertical, atinge a altura de um homem, então de súbito cai no chão, com o mesmo barulho de ‘clac! clac!’ de um corpo que cai no chão. O General sentiu o choque dos membros que, caindo, bateram violentamente em suas pernas.” O súbito aparecimento e desaparecimento parecia tanto uma ação através de uma porta falsa que no dia seguinte Richet fez minuciosa observação nos ladrilhos do piso, bem como no teto da garage que ficava embaixo, mas não encontrou o mais leve indício de uma porta falsa.

Para afastar os rumores de sua existência obteve posteriormente um certificado do arquiteto. Ointeresse desses registros das primeiras manifestações aumentou pelo fato de que, ao tempo, a médium obtinha materializações completas, enquanto posteriormente, em Paris, estas eram extremamente raras em suas sessões. Uma curiosa experiência com Bien Boa foi tentar que ele soprasse num frasco contendo uma solução de barita, para ver se a respiração mostrava óxido de carbono. Com dificuldade a forma fez o que lhe pediam e o líquido mostrou a reação esperada. Durante essa experiencia as formas da médium e de uma nativa que se sentava com ela na cabine foram vistas claramente.

Richet registra um incidente divertido durante essa experiência. Quando a solução de barita se tornou branca, os assistentes gritaram “Bravo!”, com o que a forma de Bien Boa apareceu três vezes à abertura da cortina, curvou-se como um ator no teatro, ao ser chamado a cena. Richet e Delanne tomaram muitas fotografias de Bien Boa, as quais são descritas por Sir Oliver Lodge como as melhores que ele tinha visto no gênero. Uma 140 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º página 273. particularidade interessante a esse respeito é que um braço da médium se apresenta achatado, indicando um processo de desmaterialização tão bem observado com outra 141 médium, Madame d’Esperance. Richet observa com muita finura: “Não receio dizer que o vazio da manga, longe de demonstrar a presença de uma fraude, ao contrário estabelece que não houve fraude; também que isto parece depor em favor de uma espécie de desagregação material da médium, que ela própria era incapaz de suspeitar.”

Em seu último livro, já referido, Richet publica pela primeira vez a história de uma esplêndida materialização a que ele próprio assistiu em Villa Carmen: “Quase no mesmo momento em que as cortinas foram baixadas, foram reabertas e entre elas apareceu o rosto de uma mulher jovem e bonita, com uma espécie de fita dourada ou diadema, cobrindo seu bonito cabelo e o alto da cabeça.

Ria gostosamente e parecia muito satisfeita; ainda me recordo perfeitamente de seu riso e das pérolas que eram os seus dentes. Apareceu duas ou três vezes, mostrando a cabeça e escondendo-a, como uma criança brincando de esconde-esconde”. Pediram-lhe que trouxesse uma tesoura no dia seguinte, quando lhe permitiriam cortar uma mecha de cabelos dessa rainha egípcia, como era ela chamada. E assim aconteceu. “A rainha egípcia voltou mas só mostrou a coroa de sua cabeça com cabelos muito bonitos e abundantes; estava ansiosa por saber se eu tinha trazido a tesoura.

Então tomei uma mãocheia de seus longos cabelos, mas dificilmente lhe podia ver o rosto, que ela escondia por detrás da cortina. Quando eu ia cortar uma longa mecha, uma mão firme, por detrás da cortina, baixou a minha, de modo que apenas cortei uma ponta de quinze centímetros. Mas como eu demorasse para fazer isso, ela disse em voz baixa: ‘Depressa, depressa!’ e desapareceu. Eu havia tomado a mécha; o cabelo é muito fino, sedoso e vivo, O exame microscópico mostrou que era cabelo autêntico; e me informam que um postiço daqueles custaria uns mil 142 francos. O cabelo de Marthe é muito escuro e ela os corta bem curtos”.

Cabe aqui uma referência àquilo a que o Professor Richet denomina “histórias de jornais ignóbeis”, de uma suposta confissão de fraude pela médium e ainda a informação de um cocheiro árabe, empregado pelo General Noel, que teria representado o papel de Espírito em Vila Carmen. Em relação a este último, a verdade é que jamais foi ele admitido na sala das sessões; e quanto a ela, negou públicamente a acusação. Observa Richet que, ainda quando verdadeira a acusação, os pesquisadores psíquicos estavam advertidos do valor que deviam emprestar a tais revelações, que apenas mostram a instabilidade dos médiuns. Assim resume Richet: “As materializações produzidas por Marthe Béraud têm a mais alta importância. Apresentaram numerosos fatos que ilustrem o processo geral das materializações, e forneceram à ciência metapsíquica dados inteiramente novos e imprevistos.” Eis o seu raciocinado julgamento final. 141 “Annals of Psychical Science”, Volume 2º, página 288. 142 “Thirty Years of Psychical Research” página 508. A primeira investigação sistemática e prolongada do ectoplasma foi empreendida por uma senhora francesa, Madame Bisson, viúva de Adolphe Bisson, conhecido homem público.

É possível que Madame Bisson venha a ocupar um lugar ao lado de sua compatriota Madame Curie nos anais da ciência. Madame Bisson adquiriu considerável influência sobre Eva que, após as experiências de Argel, tinha sido vítima das costumeiras perseguições. Tomou-a aos seus cuidados e proveu-a de tudo. Então começou uma série de experiências que duraram cinco anos e que produziram resultados tão sólidos que no futuro, não uma ciência, mas várias, marcarão daí a sua origem. Nessas experiências associou-se com o Doutor Schrenck Notzing, um cientista alemão de Munique, cujo nome também será imperecível, no que se relaciona com a original investigação do ectoplasma.

Seus estudos se realizaram entre 1908 e 1913 e se acham registrados em seu livro “Os Chamados Fenômenos de Materialização” e em “Fenômenos de Materialização”, de Schrenck Notzing, ambos em francês, e este último vertido para o inglês. Seu método consistia em fazer Eva C. mudar toda a roupa, sob controle, e vestir uma espécie de camisola sem botões, e fechada pelas costas. Apenas as mãos e os pés ficavam livres. Assim era levada para a sala de experiências, onde não entrava senão nessa ocasião. Numa das extremidades da sala havia um recanto fechado por cortinas, por detrás, pelos lados e por cima, mas aberto pela frente.

Isto era chamado a cabine e a sua finalidade era concentrar os vapores de ectoplasma. Descrevendo os seus resultados conjugados, diz o cientista alemão: “Muitas vezes fomos capazes de verificar que, por um processo biológico desconhecido, vem do corpo da médium um material, a princípio semifluído, que possui algumas das propriedades da substância viva, principalmente a do poder de transformação, de movimento e de aquisição de formas definidas”. E acrescenta: “Poderia duvidar-se da verdade desses fatos, se os mesmos não tivessem sido verificados centenas de vezes no curso de laboriosos ensaios sob variadas e estritas condições”. Poderia haver, no que diz respeito a essa substância, mais completa vingança para os Espíritas que, durante duas gerações suportaram o ridículo do mundo? Schrenck Notzing termina o seu digno prefácio exortando os seus companheiros de trabalho a tomarem coragem.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.