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Capítulo 12 de 57
Parte 9 de 54
A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle
É provável que Leah tivesse sabido que havia então uma tendência para o alcoolismo e tivesse feito uma intervenção com mais força do que tato... Alguns espíritas também interferiram e deixaram as duas irmãs meio furiosas, pois tinha sido sugerido que os dois filhos de Kate fossem separados dela. Procurando uma arma — uma arma qualquer — com a qual pudessem ferir aqueles a quem tanto odiavam, parece que lhes ocorreu — ou, de acordo com seu depoimento posterior, que lhes foi sugerido sob promessa de vantagens pecuniárias — que se elas injuriassem todo o culto, confessando que fraudavam, iriam ferir a Leah e a todos os confrades no que tinham de mais sensível. Ao paroxismo da excitação alcoólica e da raiva juntou-se o fanatismo religioso, pois Margaret tinha sido instruída por alguns dos principais Espíritos da Igreja de Roma, e convencida — como também ocorreu conforme durante algum tempo — que suas próprias forças eram maléficas. Ela se refere ao Cardeal Manning como tendo-a influenciado neste sentido, mas tal declaração não pode ser levada muito a sério.
De qualquer modo, todas essas causas combinadas a reduziram a um estado vizinho da loucura. Antes de deixar Londres escreveu ao New York Herald denunciando o culto, mas sustentando numa frase que as batidas “eram a única parte dos fenômenos digna de registro”. Chegando a Nova Iorque onde, conforme sua subsequente informação, deveria receber certa quantia pela sensacional declaração prometida ao jornal, teve uma verdadeira explosão de ódio contra sua irmã mais velha. É um curioso estudo psicológico e, também, curiosa a atitude mental do povo, imaginar que as declarações de uma mulher descontrolada, agindo sob o império do ódio, mas, também — como ela própria o confessou — na esperança de recompensa em dinheiro, pudesse prejudicar uma investigação criteriosa de uma geração de observadores. Não obstante, temos que considerar o fato de que então ela produz batidas ou dá lugar a que estas se produzam, numa sessão subsequente na Academia de Música de Nova Iorque.
Deve ser levado em conta que em tão grande auditório seria impossível qualquer ruído antecipadamente preparado para ser atribuído ao médium. Mais importante é a prova dada a um redator do Herald, em sessão particular, que ele assim relata: “Primeiro ouvi uma batida no solo, perto de meus pés, depois debaixo da mesa, ante a qual estava sentado. Aí me levou á porta e ouvi o mesmo som se produzir do outro lado. Então, quando ela se sentou ao piano, o instrumento vibrou mais alto e as batidas ressoaram emsua caixa.” Este relato deixa claro que os ruidos eram produzidos pelo controle, embora o jornalista deva ter sido menos céptico do que outros do meu conhecimento, para pensar que os sons, variando de qualidade e de posição, procedessem de um truque do pé do médium. É claro que ele não sabia como se produziam os sons e o autor é de opinião que Margaret também o ignorava.
Está provado que realmente tinha ela algo que podia exigir, e não só pela verificação do jornalista, como pela de Mr. Wedg. wood, um espírita londrino, ao qual fez ela uma demonstração antes de voltar para a América. Assim, pois, é em vão que negam base às manifestações de Margaret. O que era essa base e o que procuramos saber. O escândalo de Margaret Fox-Kane foi em agosto e setembro de 1888 — aproveitado pelo jornal que a havia explorado.
Em outubro ela veio unir-se à sua irmã. Era preciso explicar que a disputa, até onde se pode saber, era entre Kate e Leah, porque esta última tinha tentado separar Kate dos filhos, alegando que a influência materna não era boa. Portanto, embora Kate não se irritasse e deliberadamente não desse demonstrações públicas ou particulares, se havia aliado à irmã com o objetivo comum de derrubar Leah a qualquer preço. “Foi ela a causadora de minha prisão na última primavera”, declarou Kate, “originando a posterior acusação de que eu era cruel para com os meus filhos. Não sei por que sempre teve inveja de Maggie e de mim; talvez porque nós pudéssemos fazer coisas no Espiritismo de que ela era incapaz.” Ela se achava presente na Sala de Música, na sessão de 21 de outubro, na qual Margaret firmou a sua reputação, produzindo batidas.
Ficou calada na ocasião, mas o silêncio pode ser tomado como uma aprovação àquilo que então ouvia. Se assim o foi, se disse aquilo que o repórter publicou, seu arrependimento deve ter vindo muito rapidamente. A 17 de novembro, menos de um mês após a famosa sessão, escreveu ela a uma senhora de Londres, Mrs. Cottell, que residia na velha casa de Carlyle, esta admirável carta de New York e publicada no Light, em 1888, página 619: “Eu lhe deveria ter escrito antes, mas minha surpresa foi tão grande, ao chegar e saber das declarações de Maggie sobre o Espiritismo, que não tive ânimo de escrever a ninguém. “O empresário da exibição arranjou a Academia de Música, o maior auditório da cidade de Nova Iorque; ficou superlotado.
“Fizeram uma renda de mil e quinhentos dólares. Muitas vezes desejei ter ficado com você e se tivesse meios agora voltaria para me livrar de tudo isso. “Agora penso que podia fazer dinheiro, provando que as batidas não são produzidas pelos dedos dos pés. Tanta gente me procura por causa da declaração de Maggie que me recuso a recebê-los. “Insistem em desmascarar a coisa, se puderem; mas certamente não o conseguirão.
“Maggie está realizando sessões públicas nas grandes cidades americanas, mas só a vi uma vez desde que cheguei.” Esta carta de Kate denuncia a tentação do dinheiro representando um grande papel na história. Entretanto parece que cedo Maggie verificou que rendia pouco e que não havia vantagem em dizer mentiras pelas quais não era paga e que apenas provavam que o movimento espírita se achava tão firmemente estabelecido que não chegava a ser abalado pôr sua traição. Por esta ou por outras razões — esperamos que com algum remordimento de consciência pela parte que havia tomado, agora admitia ela que estivera dizendo falsidades pelos mais baixos motivos. A entrevista foi publicada na imprensa de Nova Iorque a 20 de novembro de 1889, cerca de um ano depois do escândalo. “’Praza a Deus’, — disse ela com voz trêmula de intensa excitação — ‘que eu possa desfazer a injustiça que fiz à causa do Espiritismo quando, sob intensa influência psicológica de pessoas inimigas dele, fiz declarações que não se baseiam nos fatos.
Esta retratação e negação não parte apenas do meu próprio senso daquilo que é direito, como também do silencioso impulso dos Espíritos que usam o meu organismo, a des peito da hostilidade da horda traidora que prometeu riqueza e felicidade em troca de um ataque ao Espiritismo, e cujas esperançosas promessas foram tão falazes... ‘Muito antes que falasse a quem quer que fosse sobre este assunto, estava sendo incessantemente advertida por meu Espírito-Guia daquilo que devia fazer; por fim cheguei à conclusão de que era inútil contrariar as suas recomendações’. — ‘Não houve qualquer consideração de ordem monetária nesta declaração?’ —‘Não, por mínima que fosse; absolutamente.’ —‘Então a senhora não visa vantagens pecuniárias?’ — ‘Indiretamente, sim. O Senhor sabe que embora governado pelos espíritos, uminstrumento mortal deve zelar pela manutenção da vida. Isto pretendo conseguir de minhas conferências. Nem um centavo me veio ás mãos em consequência da atitude que tomei’.
—‘Por que motivo denunciou as batidas dos Espíritos?’ — “Naquela ocasião necessitava muito de dinheiro, e criaturas, cujo nome prefiro não citar, se aproveitaram da situação. Daí a embrulhada. Também a excitação ajudou a perturbar o meu equilíbrio mental’. — ‘Qual o objetivo das pessoas que a induziram a fazer a confissão que a senhora e todos os outros médiuns traficavam com a credulidade do povo?’ — ‘Visavam diversos objetivos, O primeiro e mais importante era a ideia de esmagar o Espiritismo, fazer dinheiro para si mesmos e provocar uma grande excitação, por lhes ser um elemento favorável’. — ‘Havia alguma verdade nas acusações que a senhora fez do Espiritismo?’ — ‘Aquelas acusações eram falsas em todas as minúcias.
Não hesito em dizê-lo... Não. Minha crença no Espiritismo não sofreu mudanças. Quando fiz aquelas terríveis declarações não era responsável por minhas palavras. Sua autenticidade é um fato incontroverso.
Nem todos os Hermans vivos serão capazes de reproduzir as maravilhas que se produzem através de alguns médiuns. Pela habilidade manual e por meio de espertezas podem escrever em papéis e lousas, mas mesmo assim não resistem a uma investigação acurada. A produção da materialização está acima de seu calibre mental e desafio a quem quer que seja a produzir batidas nas condições em que as produzo. Não há ser humano na Terra que possa produzir as batidas do mesmo modo que elas o são por meu intermédio.’ —‘Propõe-se fazer sessões? — ‘Não.
Dedicar-me-ei inteiramente ao trabalho de propaganda, pois este me dará melhores oportunidades para refutar as calúnias que eu mesma lancei contra o Espiritismo.’ —‘Que diz sua irmã Kate desua presente atitude?’ — ‘Está de pleno acordo. Ela não concordou com a minha atitude no passado’. —‘Terá um empresário para o seu ciclo de conferências?’ — ‘Não, senhor. Eu lhes tenho horror. Também eles me ultrajaram muito.
Frank Stehen tratou-me ver gonhosamente. Fez muito dinheiro à minha custa e deixou-me em Boston sem um centavo. Tudo quanto recebi dele foram quinhentos e cinquenta dólares, dados no começo do contrato.’ Para dar maior autenticidade à entrevista, por sugestão dela foi escrita a seguinte carta aberta, à qual ela apôs a sua assinatura: 128, West Forty-third Street New York City 16 de novembro de 1889. AO PÚBLICO. Tendo-me sido lida a entrevista que se segue, nada encontrei que não fosse a expressão correta de minhas palavras e exata expressão de meus sentimentos.
Não fiz um retrato minucioso dos meios e modos empregados para me levar à sujeição e arrancar-me uma declaração de que os fenômenos espírit as, manifestados através de meu organismo, eram fraudulentos. Reservar-me-ei para preencher esta lacuna quando subir á tribuna de propaganda. A autenticidade desta entrevista foi comprovada por algumas testemunhas, em cujo número se incluem J. L. O’Sullivan, Ministro dos Estados Unidos em Portugal, durante vinte e cinco anos.
Disse ele: “Se alguma vez eu ouvi uma mulher dizer a verdade, foi nessa ocasião”. Assim deve ter sido. Mas a falta de um empresário deve ter sido um fator determinante da falta de êxito financeiro. A constatação levantaria a questão de saber se as palavras da conferencista deveriam merecer inteiro crédito, pois infelizmente o autor é obrigado a convir com Mr. Isaac Funk, infatigável e imparcial investigador, que naquele período de sua vida Margaret não podia ser controlada.
O que representa muito mais para o objetivo é que Mr. Funk fez sessões com Margaret, ouviu as batidas “por toda a sala”, sem lhe apreender a origem e que eles deletrearam um nome e um endereço, tudo correto e inteiramente acima do conhecimento do médium. A informação dada estava errada mas, por outro lado, uma força supranormal foi revelada na leitura do conteúdo de uma carta no bolso de Mr. Funk. A mistura desses resultados é perturbadora, como outro problema mais amplo, discutido adiante.
Há um fator no qual tocamos de leve neste exame. É o caráter e a carreira de Mrs. Fish, mais tarde Mrs. Underhill, que, como Leah, a irmã mais velha, representa tão importante papel no assunto. Conhecemo-la principalmente por seu livro “O Elo que falta no Espiritismo” (Knox e Co.
Nova Iorque, 1885). O livro foi escrito por um amigo, mas os fatos e os documentos foram fornecidos por Mrs. Underhill, que conferiu toda a narrativa. São ligados simplesmente e mesmo cruamente, e o espírita é levado a concluir que as entidades com as quais o grupo Fox teve os primeiros contactos nem sempre eram da mais elevada classe. Talvez em outro plano, como neste, sejam os plebeus e os humildes que se encarreguem do pioneiro trabalho espiritual na sua própria maneira e abram o caminho para outros e mais refinados mensageiros.
De lado isto, pode dizer-se que o livro dá uma forte impressão de candura e de bom senso e, como descrição pessoal de quem esteve tão envolta nos momentâneos acontecimentos, está destinado a sobreviver à maioria dos livros comuns e a ser lido com maior atenção e mesmo com respeito pelas gerações futuras. Aquela gente humilde que participou do recente movimento — Capron, de Auburn, que fez a primeira conferência pública; Jervis, o elegante ministro metodista, que exclamou: “Eu sei que é verdade e enfrentarei o mundo carrancudo!”; Georges Villetts, o quaker; Isaac Post, que realizou a primeira sessão espírita; o galante grupo que deu testemunho no palco de Rochester, enquanto os agitadores ferviam o alcatrão — todos estão fadados a viver na História. De Leah pode dizer-se que realmente reconheceu a significação religiosa do movimento muito mais claramente do que as suas irmãs e que se opôs ao seu emprego com objetivos puramente materiais, por ser uma degradação do que era divino. A seguinte passagem é de grande interesse, pois mostra como a família Fox primeiro considerou essa manifestação, e deve impressionar o leitor pela sinceridade de sua autora: “O sentimento geral de nossa família... era visceralmente adverso a toda essa coisa estranha e grosseira. Nós a considerávamos como uma grande infelicidade caída sobre nós; como, quando e por que, não o sabemos...
Resistimos, lutamos contra ela e constantemente e corajosamente oramos para nos livrarmos dela, ainda mesmo quando um estranho fascínio ligado a essas maravilhosas manifestações a elas nos forçavam, contra a nossa vontade, por forças e agentes invisíveis, aos quais nem podíamos resistir, nem controlar ou entender. Se a nossa vontade, o nosso ardente desejo e as preces pudessem ter prevalecido ou servido, tudo teria acabado então, e o mundo exterior à nossa pequena vizinhança jamais teria ouvido falar das batidas de Rochester ou da infeliz família Fox.” Estas palavras dão uma impressão de sinceridade e, por outro lado, em seu livro Leah aparece — com o testemunho de muitas pessoas citadas nominalmente, como digna do papel que desempenhou num grande movimento. Tanto Kate Fox-Jencken quanto Margaret Fox. Kane morreram no começo do decênio último do século e seu fim foi triste e obscuro. O problema que apresentam é exposto ao leitor, evitando-se a extrema sensibilidade espírita, que não enfrenta os fatos e as acusações dos cépticos, que carregam na narrativa daquelas partes que melhor servem aos seus propósitos, enquanto omitem ou reduzem tudo o mais. Vejamos, à custa de um desvio de nossa narrativa, se é possível achar uma espécie de explicação para o duplo fato de que aquilo que essas irmãs podiam fazer era absolutamente anormal e que o era, ao menos até certo ponto, dependente de seu controle.
Não é um problema simples: ao contrário, é muitíssimo profundo e exaustivo e mais que exaustivo, pois o conhecimento psíquico de que então se dispunha estava muito acima do nível em que viviam as irmãs Fox. A simples explicação então apresentada pelos espíritas não deve ser logo posta de lado — ao menos por aqueles que conhecem algo mais. Era que um médium que emprega mal os seus dons e sofre uma degradação do caráter através de hábitos ruins, torna-se acessível a influências maléficas, que podem utilizar a sua mediunidade para informações falsas ou para o descrédito da causa. Isto bem pode ser certo como a causa. Mas devemos ir mais adiante, em busca do como e do porquê.
O autor é de opinião que a verdadeira explicação será encontrada pela reunião de todos esses acontecimentos com as recentes investigações do Doutor Crawford sobre os meios pelos quais se produzem os fenômenos físicos. Mostrou ele muito claramente e em detalhes no capítulo seguinte, que as batidas — e no momento só tratamos dessa fase — são causadas pela projeção, da pessoa do médium, de um longo fio de uma substância possuidora de propriedades que a distinguem de qualquer outra forma de matéria. Tal substância foi cuidadosamente examinada pelo eminente fisiologista francês Doutor Charles Richet, que a chamou de ectoplasma. Esses fios são invisíveis aos nossos olhos, parcialmente visíveis à placa fotográfica e ainda conduzem energia de tal maneira que produzem sons e dão batidas à distância. Agora, se Margaret produzia as batidas da mesma maneira que o médium de Crawford, temos apenas que formular uma ou duas hipóteses prováveis em si mesmas e, cabendo à ciência do futuro prová-lo em definitivo, deixar a coisa inteiramente às claras.
Uma hipótese é que o centro da força psíquica é formado nalguma parte do corpo de onde sai o fio de ectoplasma. Supondo que o centro seja o pé de Margaret, isto lançaria uma intensa luz no testemunho coligido no inquérito de Seybert. Examinando Margaret e se esforçando por obter batidas por ela, alguém da comissão e com o consentimento dela, pôs a mão sobre o seu pé. Imediatamente as batidas se seguiram. O investigador exclamou: “Isto é a coisa mais maravilhosa que há, Mrs.
Kane. Eu os percebo distintamente em seu pé. Não há o menor movimento do pé, mas há uma pulsação invulgar”. Esta experiência de modo algum admite a ideia de um deslocamento da junta ou de estalos dos dedos. É exatamente o que se poderia imaginar no caso de um centro do qual fosse projetada uma força psíquica.
Essa força é de forma material e é tirada do corpo do médium, de modo que deve haver algum nexo. Este nexo pode variar. No caso citado estava no pé de Margaret. Foi observado pelos doutores de Buffalo que havia um movimento sutil do médium no momento da batida. A observação era correta embora errada a interferência.
O próprio autor viu distintamente, no caso de um médium amador, uma ligeira pulsação geral no momento em que era dada a batida — uma espécie de contração, após a descarga da força. Admitindo que a força de Margaret trabalhasse dessa maneira, temos apenas que discutir se os bastões ectoplásmicos em qualquer circunstância podem projetar-se à vontade. Até onde o autor pode saber, não há observações que sustentem diretamente esse ponto. Parece que o médium de Crawford sempre caía em transe, de modo que a questão não foi levantada. Em outros fenômenos físicos há uma certa razão para pensar que em sua forma mais simples estejam intimamente ligados ao médium, mas à medida que se desenvolvem escapam ao seu controle e são influenciados por forças estranhas a ele.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.