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Capítulo 20 de 57
Parte 17 de 54
A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle
Poucos meses mais tarde, Mr. Wason, advogado de Liverpool, com sete outros, assistiram ao mesmo fenômeno. Diz ele: “Mr. Home atravessou a mesa, passando por cima das cabeças das pessoas sentadas em sua volta”. E acrescenta: “Alcancei a sua mão a sete pés do solo e dei cinco ou seis passos enquanto ele flutuava no espaço, acima de mim.” Em 1861 Mrs.
Parkes, de Cornwald Terrace, Regent’s Park, conta como se achava presente, com Bulwer Lytton e Mr. Hall, quando Home, em sua própria sala de visitas, foi levantado até que a mão chegou ao alto da porta e então flutuou horizontalmente. Em 1866 Mr. e Mis. Hall, Lady Dunsany e Mrs. Scnior, em casa de Mr.
Hall, viram Home, com o rosto transfigurado e brilhante, erguer-se duas vezes até o teto e deixar uma cruz, feita com lápis, na segunda levitação, de modo a assegurar às testemunhas que não eram vítimas de sua própria imaginação. Em 1868 Lord Adare, Lord Lindsay, o Capitão Wynne e Mr. Smith Barry viram Home levitado várias vezes. Uma descrição minuciosa foi deixada pela 40 primeira daquelas testemunhas da ocorrência de 16 de dezembro daquele ano, quando em Ashley House, em estado de transe, Home flutuou do quarto para a sala de estar, passando pela janela, a setenta pés acima da rua. Depois de chegar à sala, voltou para o quarto com Lord Adare e, depois que este observou que não compreendia como Home poderia ter passado pela janela, apenas parcialmente levantada, “ele me disse que se afastasse um pouco.
Então passou pelo espaço aberto, primeiro a cabeça, muito rapidamente, estando o seu corpo aparentemente rígido e quase na horizontal. Voltou novamente, com os pés para a frente”. Tal a informação dada por Lord Adare e Lord Lindsay. Diante de sua publicação, o Doutor Carpenter, que gozava de uma reputação nada invejável por uma perversa oposição a tudo quanto se relacionava com este assunto, escreveu exultante indicando que havia uma terceira testemunha que não tinha sido ouvida, admitindo sem o menor fundamento que o depoimento do Capitão Wynne seria em sentido contrário. Por fim disse que “um simples céptico honesto declara que Mr.
Home esteve sentado todo o tempo em sua cadeira” afirmação que apenas pode ser tomada como falsa. Então o Capitão Wynne escreveu corroborando os outros depoimentos e acrescentando: “Se o senhor não acredita na prova corroborante de três testemunhas insuspeitas, então será o fim de toda a justiça e das cortes da lei”. Para ver quanto a crítica procurou uma saída para escapar ao inevitável, basta dizer que ela se agarrou ao que Lord Lindsay escreveu algum tempo depois, dizendo que a coisa tinha sido Vista à luz da Lua. Entretanto o calendário mostra que naquele dia a Lua era invisível. Observa Mr.
Andrew Lang: “Entretanto, mesmo com cerração, a gente numa sala pode ver um homem entrar por uma janela e sair novamente, com a 41 cabeça para a frente, com o corpo rígido” . A todos nós parece que se víssemos uma coisa tão maravilhosa, não nos preocuparíamos em determinar se a víamos à luz da Lua ou de lâmpadas da rua. Contudo deve admitir-se que a descrição de Lord Lindsay é redigida grosseiramente — tão grosseiramente que a gente quase desculpa Mr. Joseph Mc Cabe, quando diz numa conferência que os observadores não olhavam a coisa diretamente e a sua 40 O almanaque mostra que era domingo, dia 13. 41 “Historical Myteries”, página 236. sombra no peitoril da janela, mas que se achavam de costas para a janela e apenas viam a sombra da coisa na parede. Entretanto, quando a gente considera a segurança das três testemunhas de vista que depuseram sobre o caso, tem o direito de perguntar se, quer no passado, quer no presente, qualquer fato extraordinário já foi mais claramente provado.
Tantos são os outros casos de levitação de Home que facilmente seria escrito um longo artigo sobre este particular aspecto de sua mediunidade. O Professor Crookes foi outras tantas vezes testemunha do fenômeno e se refere a cinquenta exemplos que haviam chegado ao seu conhecimento. Haverá porém alguém de cérebro equilibrado que, tendo lido o incidente aqui referido, não diga, com o Professor Challis: “Ou os fatos devem ser admitidos tais quais são relatados, ou devemos dizer adeus à possibilidade de nos certificarmos de fatos através do testemunho humano” “Voltamos, então, à era dos milagres?”, perguntará o leitor. Não há milagres. Nada neste plano é sobrenatural.
Aquilo que vemos agora e o que lemos de tempos passados é apenas a operação da lei que ainda não foi bem estudada e definida. Já imaginamos algo de suas possibilidades e de suas limitações, que são tão exatas na sua maneira quanto as de qualquer força puramente física. Devemos fazer um balanço entre os que em nada acreditam e os que acreditam demais. Gradativamente a bruma se vai clarificando e poderemos definir os contornos da costa sombria. Quando pela primeira vez uma agulha foi movida pelo magneto, não houve infração às leis da gravidade.
É que houve a intervenção local de outra força mais poderosa. Esse é também o caso quando as forças psíquicas atuam no plano da matéria. Se a fé que Home tinha em sua força tivesse faltado, ou se o seu círculo tivesse sido perturbado indevidamente, ele teria falhado. Quando Pedro perdeu a fé afundou-se nas ondas. Através dos séculos a mesma causa ainda produziu o mesmo efeito.
A força espiritual ainda está conosco se não lhe voltamos a face e nada foi concedido à Judéia que fosse negado à Inglaterra. A esse respeito é como uma confirmação do poder do invisível e como uma resposta final ao materialismo, tal qual o entendemos, que a carreira pública de Home é de suprema importância. Ele foi uma testemunha a afirmar a verdade daqueles chamados “milagres” que foram o pesadelo para tantas mentes espertas e agora se destinam a ser a prova sólida e forte da exatidão das narrativas primitivas. Milhões de almas em dúvida, na agonia dos conflitos espirituais reclamavam provas definitivas de que nem tudo era um vazio em redor de nós, de que havia forças fora do nosso alcance, de que o ego não era uma mera secreção do tecido nervoso e de que os mortos realmente levavam sua indestrutível existência pessoal. Tudo isso foi provado pelo maior desses grandes missionários modernos, a qualquer um capaz de observar ou de raciocinar.
É possível achar graça em mesas dançantes e em muros que tremem, mas estes foram os mais próximos e os mais naturais objetos que podiam, em termos materiais, registrar aquela força que estava acima do alcance humano. Um cérebro que fosse imobilizado por uma sentença inspirada seria levado à humildade e a novos caminhos de pesquisa em presença até do mais caseiro desses inexplicáveis fenômenos. É fácil chamá-los de pueris, mas realizaram o objetivo para que foram destinados, sacudindo em seus fundamentos a complacência daqueles materialistas homens de ciência que eram postos em contacto com eles. Eles não devem ser achados como um fim em si, mas como um meio elementar pelo qual a mente deveria ser conduzida a novos canais do pensamento. E esses canais do pensamento levaram ao reconhecimento da sobrevivência do Espírito.
“Trouxestes incalculável alegria e consolo ao coração de muita gente”, disse o Bispo Clark, de Rhode Island. “Iluminastes lugares habitados que antes eram trevas”. “Mademoiselle”, disse Home à moça que ia ser sua esposa, “há uma missão a mim confiada. Ela é grande e santa”. O famoso Doutor Elliotson, imortalizado por Thackeray sob o nome de Doutor Goodenough, era um dos chefes do materialismo britânico.
Encontrou Home, viu os seus poderes e teve a coragem de dizer imediatamente que tinha vivido toda a sua vida em trevas e pensava que nada havia na vida que não fosse material; mas que agora tinha a firme esperança que, assim pensava, haveria de alimentar enquanto vivesse. Poderiam citar-se inúmeros exemplos do valor espiritual do trabalho de Home; mas ele jamais foi melhor sintetizado do que num período escrito por Mrs. Webster, de Florença, que viu muito da sua atuação. “Ele é o mais maravilhoso missionário dos tempos modernos e da maior de todas as causas, e o bem que ele tem feito não pode ser avaliado. Quando Mr.
Home passa, derrama em seu redor a maior de todas as bênçãos —a certeza da vida futura”. Agora que é possível conhecer detalhes de sua vida, pode dizer-se que é para o mundo inteiro que se dirige a mais vital de todas as mensagens. Sua atitude, em relação à sua própria missão, foi expressa numa conferência feita em Londres, na Sala Willis, a 15 de fevereiro de 1866. Disse ele: “Sinceramente penso que essa força aumentará cada vez mais para nos aproximar de Deus. Perguntareis se ela nos torna mais puros.
Minha única resposta é que somos mortais apenas e, como tal, sujeitos ao erro. Mas ela ensina que aqueles de coração puro verão a Deus. Ela nos ensina que Deus é amor e que não há morte. Aos velhos ela vem como uma consolação, quando se aproximam as tempestades da vida e quando vem o descanso. Aos moços ela fala do dever que temos uns para com os outros e diz que colheremos o que houvermos semeado.
A todos ensina resignação. Vem desfazer as nuvens do erro e trazer a manhã radiosa de um dia interminável”. É curioso notar como a sua mensagem afetou os de sua geração. Lendo o relato de sua vida, escrita por sua esposa — um documento muito convincente, de vez que foi ela, de todas as criaturas, a que mais deveria ter conhecido o homem real — ressalta que o mais cordial apoio e o maior apreço lhe veio dos aristocratas da França e da Rússia, com os quais tinha tomado contacto. O caloroso brilho de admiração pessoal e até a reverência em suas cartas é tal, que dificilmente pode ser igualada em qualquer outra biografia.
Na Inglaterra tinha ele um círculo íntimo de ardentes defensores, alguns das altas camadas sociais, como os Halts, os Howitts, Robert Chambers, Mrs. Milner Gibson, o Professor Crookes e outros. Mas havia uma lamentável falta de coragem entre estes, que admitiam os fatos na intimidade e se mantinham alheios em público. Lord Brougham e Bulwer Lytton eram do tipo de Nicodemos, principalmente o novelista. De um modo geral a “inteligência” saiu-se muito mal neste assunto e muitos nomes festejados sofreram com a história.
Tyndall e Faraday foram fantasticamente anticientíficos nos seus métodos de prejulgar a questão, logo de saída, e posteriormente se ofereceram para a examinar, sob a condição de que fosse aceita a sua opinião. Sir David Brewster, como ficou dito, disse algo de honesto, e depois, em pânico, negou que o houvesse dito, esquecendo-se de que a prova já estava feita. Browning escreveu um longo poema — se é que aquilo se pode chamar poesia — descrevendo uma manifestação que jamais ocorreu. Carpenter conquistou uma notoriedade pouco invejável como opositor sem escrúpulos, ao proclamar uma singularíssima tese espírita de sua invenção. Os secretários da Sociedade Real recusaram o convite para assistirem às demonstrações de Crookes sobre os fenômenos físicos, enquanto se manifestavam terminantemente contra os mesmos.
Lord Giffard despejou da Tribuna contra um súdito os primeiros elementos daquilo que ignorava. Quanto ao clero nenhuma ordem deve ter sido dada, durante os trinta anos em que a mais maravilhosa dispensação espiritual desde muitos séculos foi dada ao público. Não é possível recordar o nome de um único clérigo britânico que tivesse mostrado um interesse inteligente. E em 1872, quando começou a aparecer em The Times uma descrição minuciosa das sessões de São Petersburgo, a coisa foi cortada logo, segundo Mr. H.
T. Humphreys, “devido ás fortes queixas feitas a Mr. Delane, seu diretor, por algumas figuras da alta direção da Igreja da Inglaterra.” Tal foi a contribuição dos nossos dirigentes espirituais. O Doutor Elliotson, o nacionalista, era muito mais vivo do que eles. Eis o amargo comentário da senhora Home: “O veredito de sua própria geração foi o do cego e do surdo contra quemvê e ouve”.
A caridade era uma das mais belas características de Home. Como toda verdadeira caridade, era secreta e só se tornava conhecida indiretamente, e por acaso. Um de seus numerosos caluniadores declarou que lhe havia endossado uma letra de cinquenta libras em favor de seu amigo Mr. Rymer. Em legítima defesa apurou-se que não era uma letra, mas um cheque, enviado muito generosamente por Mr.
Home para tirar aquele amigo de um apuro. Considerando a sua constante pobreza, cinquenta libras talvez representassem uma boa parte de suas reservas bancárias. Sua viúva se detém com perdoável orgulho sobre muitas provas encontradas em suas cartas, após a sua morte. “Agora é um artista desconhecido, para cujo pincel o generoso esforço de Home havia encontrado emprego; depois, é um trabalhador infeliz que escreve sobre a sua esposa doente, cuja vida foi salva pelo conforto proporcionado por Mr. Home; ou uma mãe que agradece o seu apoio para a iniciação de seu filho na vida.
Quanto tempo e quanta atenção devotou ele aos outros quando as circunstâncias de sua vida levariam muitos homens a pensar apenas em si próprios e em suas necessidades.” “Mande-me uma palavra do coração que tantas vezes soube consolar um amigo!” exclamava um de seus protegidos. “Poderei um dia mostrar-me digno de todo o bem que você me fez?” pergunta outro numa carta. Encontramo-lo vagando pelos campos de batalha, perto de Paris, às vezes debaixo de fogo, com os bolsos cheios de cigarros para os feridos. Um oficial alemão escreve afetuosamente para lhe lembrar como o salvou de morrer de hemorragia, carregando-o em seus fracos ombros para fora da zona de fogo. Certamente Mrs. Browning era um melhor juiz do caráter do que seu esposo e Sir Galahad um nome melhor do que Lama.
Ao mesmo tempo seria absurdo pintar Home como um caráter sem jaça. Tinha ele a fraqueza de seu temperamento e algo de feminino em sua disposição que se mostrava de muitas maneiras. Estando na Austrália, o autor teve oportunidade de ler uma correspondência datada de 1856, entre Home e o filho mais velho dos Rymer. Tinham viajado juntos pela Itália e Home tinha abandonado o amigo em circunstâncias que demonstravam inconstância e ingratidão. Mas é justo dizer que sua saúde era então tão precária que dificilmente poderíamos considerá-lo normal.
“Tinha ele os defeitos de um caráter emotivo”, disse Lord Dunraven, “como a vaidade altamente desenvolvida, talvez sabiamente lhe permitindo subtrair-se ao ridículo que então era despejado sobre o Espiritismo e tudo quanto a este se ligava. Era sujeito a grandes depressões e crises nervosas dificilmente compreensíveis, mas era, também, simples, bondoso, de bom humor, de disposição amorável, que me atraía... Minha amizade ficou inalterável e sem diminuição até o fim.” Há poucos daqueles variados dons, que chamamos “mediúnicos” e que São Paulo chama “do Espírito”, que Home não possuísse. Na verdade, a característica de sua força psíquica era uma invulgar versatilidade. Geralmente falamos de um médium de Voz Direta, de um que fala em transe, de um clarividente ou de um de efeitos físicos, quando Home era os quatro.
Tanto quanto podemos verificar, tinha ele pouca experiência quanto à fôrça de outros médiuns e não estava isento daquele ciúme psíquico, que é um traço comum desses sensitivos. Mrs. Jencken, antes Miss Kate Fox, foi o único médium a quem teve amizade. Sentia amargamente qualquer mistificação, e denotou sempre esse excelente fraco do caráter, qual o de guardar suspeitas de todas as formas de manifestações que não correspondessem exatamente às suas. Essa opinião, expressa de modo não comprometedor em seu último livro “Lights and Shadows of 42 Spiritualism” naturalmente magoaram outros médiuns, que pretendiam ser tão honestos quanto ele.
Um mais largo e profundo contacto com os fenômenos o teriam tornado mais caridoso. Assim, ele protestou fortemente contra toda sessão feita no escuro, o que é um conselho de perfeição, de vez que as experiências sobre o ectoplasma, que é a base física de todas as materializações, mostram, em geral, que aquele é afetado pela luz, exceto pela vermelha. Home não tinha grande experiência das materializações completas, tais como foram obtidas naqueles dias por Miss Florence Cook ou por Madame d’Esperance, ou em nossos dias pela mediunidade de Madame Bisson. Assim, podia ele dispensar a obscuridade completa em seu trabalho. Por isso sua opinião foi injusta para com os outros.
Por outro lado, Home declarou enfaticamente que a matéria não podia passar através da matéria, porque os seus fenômenos não tomavam esse aspecto. Ainda a prova de que, em certos casos, a matéria podia passar através da matéria era esmagadora. Até pássaros de variedades raras foram trazidos para as salas de sessões, em circunstâncias que excluem qualquer fraude e as experiências de madeira que atravessa a madeira, como as que foram apresentadas 42 “Luzes e Sombras do Espiritismo”. N. do T. a Zõllner e outros professores em Leipzig, foram tão concludentes que se acham relatadas pelo famoso físico na Física Transcendental, de suas experiências com Slade. Deste modo, deve levar-se como uma pequena fraqueza do caráter de Home o fato de gritar e duvidar das forças que porventura ele não possuísse.
Podem alguns acusá-lo de dirigir sua mensagem antes aos dirigentes da sociedade do que às massas trabalhadoras. É provável que, de fato, Home tivesse a fraqueza, assim como as graças de sua natureza artística, que o faziam sentir-se mais feliz numa atmosfera de elegância e de finura e uma repulsa visceral por tudo quanto fosse sórdido e desfavorecido. Se outras razões não existissem, o precário estado de saúde o tornava inapto para qualquer tarefa pesada; as contínuas hemorragias o levaram a preferir a agradável e refinada vida na Itália, na Suíça e na Riviera. Mas, em relação ao desenvolvimento de sua missão, de lado o auto-sacrifício pessoal, não há a menor dúvida de que a sua mensagem, levada ao laboratório de um Crookes ou à Corte de um Napoleão, foi mais útil do que se tivesse sido levada à multidão. A aprovação da ciência e do caráter era necessária antes que o público ficasse seguro de que essas coisas eram verdadeiras.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.