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Capítulo 2 de 57
Parte 2 de 3
A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle
E pagou arras ao espírito francês, tirando da “dança das mesas” uma filosofia, do mesmo modo que da “dança das rãs” Galvani havia tirado princípios fundamentais da eletricidade e do magnetismo. Esse homem, típico representante da cultura francesa — médico e astrônomo, filósofo e poliglota, teólogo e matemático, filólogo e biologista — passeou o seu Espírito equilibrado sobre todos os departamentos do saber humano de seu tempo, tudoreferindo aos eixos coordenados de um sistema, de modo que os seus variados conhecimentos não apresentavam fissuras nem hiatos, paradoxos nem incongruências. Vale dizer que, à luz dos conhecimentos modernos, ele sistematizou uma ciência nova, captou os princípios basilares de uma nova filosofia — uma filosofia espiritualista que, ao contrário de suas congêneres, tudo estabelecia a posteriori, isto é, à base de fatos verificados e verificáveis, assim oferecendo ás criaturas honestas — queremos dizer cientificamente honestas — os elementos para a superação do materialismo clássico e do agnosticismo comteano, que estavam avassalando mentes nobres, mas limitadas e presas aos preconceitos religiosos, ou a estes fanaticamente antagônicas.
E como a base da fenomenologia era o fato das manifestações das almas dos mortos — e, por vezes, dos vivos também — aconteceu uma coisa singularíssima. De um lado a Igreja, cujos dirigentes ensinavam uma vida além da morte, mas que nunca souberam, puderam ou quiseram provar, passou a atacar ferozmente os fatos e os únicos indivíduos através dos quais essa prova é cientificamente possível, e que o faziam e o fazem sem qualquer intuito de combate ou de desdouro às organizações religiosas.
Perdia a Igreja a grande oportunidade de demonstrar a existência da alma e o seu cortejo de conseqüências e, do mesmo passo, de levar os seus profitentes para uma nova etapa, além de a eles anexar os que em nada criam — passando-os de fé imposta, do credo quia absurdum, ou do desinteresse e da negação sistemática para uma fé sistemática, para uma fé raciocinada, na qual os próprios dogmas e os ritos viriam a ser respeitados como valores históricos e como símbolos que tinham tido a sua função no espaço e no tempo e dos quais os Espíritos se iam emancipando, à medida de sua mesma evolução. Do outro lado, atraídas pelos fatos, tomando contacto com os seus mortos queridos, as massas menos cultas, ou mesmo incultas, foram, por um compreensível sincretismo religioso, que a ortodoxia não tolerava, mas que, à fina força, aquelas queriam que subsistisse, transformando o Espiritismo numa religião ritualística.
Se, de um lado, o despreparo geral as empurrava nessa direção, foram acoroçoadas pelos anátemas, pelas excomunhões, pela pressão política exercida pela Igreja contra as massas espíritas e principalmente contra os médiuns. E o Espiritismo, que de início atraíra a atenção das camadas mais cultas, pouco a pouco foi sendo por estas abandonado, ou praticado ás ocultas, para que se não comprometessem interesses materiais — sobretudo os políticos — dado o prestígio que a Igreja desfrutava junto ao poder civil, mesmo nos países em que havia separação legal entre ela e o Estado. Então a doutrina caiu nas mãos do povo e a sua prática se abastardou.
Mas houve uma diferenciação entre neolatinos e anglo-saxões. Nos países de origem latina, onde predominam a Igreja Católica — de todas a mais intolerante — os espíritas foram excluídos de seu seio. E, teimosamente, ela apresentou aquele do qual poderia ter feito o seu melhor aliado como um adversário temível, como uma nova religião, embora lhe faltassem os requisitos essenciais de uma religião, a saber: um conjunto de dogmas, um ritual e uma hierarquia sacerdotal. De maneira que, se luta existe entre ela e o Espiritismo, não foi este quem a provocou. Mas nos países saxônicos a coisa é diferente.
Com a predominância do Protestantismo, os profitentes da religião estão mais íntima e solidamente ligados à sua igreja: são eles e não os pastores que a administram e desenvolvem as obras assistenciais; com um ritual mais pobre, enriquecem o Espírito pelo estudo. Assim, a irrupção dos fenômenos espíritas não foi ignorada nem amaldiçoada, mas recebida como uma prova da sobrevivência da alma e uma confirmação dos ensinos bíblicos. Por isso, pouco proliferam os centros espíritas. Em compensação, há na língua inglesa mais de cinco mil títulos de obras sobre o Espiritismo. * Os estudiosos desses problemas não têm projetado a atenção sobre essa diferenciação do desenvolvimento do Espiritismo entre neolatinos e anglo-saxões, para lhe penetrar as causas e oferecer elementos para a compreensão do interessante fenômeno. O assunto merece atenção.
Na França, o Doutor Gustave Geley, a quem tanto deve a Medicina, fez notáveis estudos sobre o ectoplasma — esse novo elemento cuja importância cresce dia a dia e que vem correndo parelha com o proto plasma na explicação dos fenômenos da vida; que fez demonstrações insofismáveis das materializações parciais, através das moldagens em cera fervente, impossível de obter-se por qualquer outro processo que não o da materialização de mãos; que convidou cem cientistas para assistirem às suas experiências — muitas das quais em plena luz e todas sob o mais rigoroso controle científico; que foi presidente do Instituto de Metapsíquica de Paris, onde se afirmou um legítimo pioneiro; que fez avançar enormemente os conhecimentos da Psicologia com o seu “Do Inconsciente ao Consciente”; o Doutor Geley, íamos dizendo, assiste ao terrível drama íntimo do Doutor Paul Gibier, essa outra figura de cientista, a quem tanto devem a Microbiologia e os trabalhos iniciados pelo ilustre Pasteur, dada a intolerância da chamada ciência oficial.
Gibier teve que abandonar os laboratórios e a própria pátria, onde o seu trabalho se havia tornado impossível, e foi abrigar-se nos grandes centros norte-americanos, deixando uma triste advertência a outra figura ainda mais notável — Charles Richet. Com efeito, esse grande mestre, talvez o maior de seu tempo, que investigou tanto os fenômenos espíritas, que, além da sua obra clássica sobre Metapsíquica, legou — nos “Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas”; que assistiu aos testes de Geley com Kluski e com Eusapia Palladino; que teve as mais notáveis provas através da correspondência cruzada; que cunhou o vocábulo ectoplasma, por força de tanto estudar essa substância, que é um verdadeiro proteu e um novo estado da matéria a responder pelos fenômenos físicos, ou melhor, hiperfísicos, que se passam através dos médiuns; esse homem, que desfrutava do respeito de seus pares como um legítimo mestre e uma das glórias da cultura francesa, convenceu-se da legitimidade dos pontos de vista espíritas, mas temeu aquelas forças negativas que haviam sacrificado o Doutor Gibier.
Não teve a coragem de o confessar. Fê-lo apenas em carta reservada ao seu amigo e opositor Ernesto Bozzano, depois de ter tido a franqueza de erigir dezenas de hipóteses que jamais se prestariam a uma generalização amplíssima, como a hipótese espírita.
Do outro lado, vemos na Inglaterra homens de ciência do melhor quilate organizando uma Sociedade de Pesquisas Psíquicas que, desde 1882, vem fazendo estudos rigorosos, com muita circunspecção e que toma, por vezes, uma atitude hostil aos princípios espíritas, mas acaba dando o testemunho dos fatos supranormais, embora fuja sistemàticamente das generalizações filosóficas. Quem sãoesses homens? Dos mais categorizados: físicos, químicos, fisiologistas, matemáticos, Membros da Sociedade Real, honraria raríssima concedida na Inglaterra a um homem de ciência. Daí a atitude de Lord Dowding. Marechal do Ar da Inglaterra, primo do último rei, Lord Dowding comandou a RAF (Royal Air Forces) durante a última guerra.
Protestante, os fatos o convenceram das verdades espíritas. Tanto bastou para que tomasse atitude pública. Como bom inglês, não compreendia que na comunidade britânica alguém sofresse restrições na sua liberdade, da qual uma faceta importante é a liberdade de crença. Em consequência, e liderados por ele, os Espíritas ingleses conseguiram que o Parlamento Inglês, o mais respeitável do mundo, votasse uma lei, reconhecendo o direito ao exercício da mediunidade, com o que os sensitivos ficavam subtraídos as perseguições religiosas, exercitadas nos termos de duas leis obsoletas, mas não prescritas: o Vagrancy Act e o Witchcraft Act, através das quais mais de 50.000 médiuns já haviam sido multados ou condenados à pena de prisão. Continuando a sua campanha, isto é, procurando levar por diante as conseqüências da nova lei, foi obtido pelos espíritas que o Estado Maior das Forças Armadas da Inglaterra determinasse que em todos os corpos de tropa onde houvesse instalações para o serviço religioso, também as houvesse para oficiais e soldados espíritas. * A obra que tivemos a honra de traduzir é de autoria de um membro da Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Inglaterra, geralmente conhecido do nosso público por suas novelas policiais.
Como até hoje não se escreveu, no gênero e em qualquer língua, um trabalho semelhante, julgamo-nos no dever de escrever uma ligeira biografia de Sir Arthur Conan Doyle, para que o leitor brasileiro possa aquilatar do valor e das cogitações de um dos mais nobres caracteres da passada geração de escritores e de homens de ciência. A obra não poderia ser minuciosa e completa. Passa, porém, em revista os maiores médiuns da Europa e dos Estados Unidos, desde o século passado até o começodeste século. É, assim, um roteiro magnífico. A fenomenologia espírita aí aparece bem dividida, por capítulos; os maiores médiuns são apresentados divididos em grupos, conforme as suas peculiaridades.
É feita uma crítica muito equilibrada a médiuns e pesquisadores. O leitor atento verá que o autor não sai de uma linha de centro, de um perfil de equilíbrio, de modo que não será nunca confundido com um crente fanático, de vez que é, em todas as circunstâncias, o observador percuciente, o filósofo sereno e o cientista que está convencido da lei do progresso, do sentido amplíssimo da evolução geral da Vida. Ele não teme aquelas coisas que se apresentam na zona de penumbra do pesquisador, porque usa aquilo que sabe, a fim de avaliar aquilo que lhe falta saber. Sir Arthur Conan Doyle não nos apresenta uma história puramente descritiva do Espiritismo, mas, na verdade, uma história filosófica do Espiritismo. A sua obra — única no gênero — preenche uma lacuna na estante dos espíritas estudiosos; mostra-lhes um mundo de coisas importantes — direi mesmo, indispensáveis — que ignoravam.
E, nessa fase do nosso desenvolvimento intelectual, é de súbito valor para os estudantes das nossas Faculdades de Filosofia. Achamo-la, sobretudo, inestimável para os dirigentes de sociedades espíritas. Mais esclarecidos por ela, certamente darão novo rumo aos trabalhos ditos de efeitos físicos, já selecionando os médiuns, já excluindo essa prejudicial assistência de curiosos, já — e nisto reside a sua melhor lição — colocando a pesquisa psíquica num plano isento de fanatismo religioso, de intolerância pseudocientífica, sem o que tão cedo esses fenômenos não entrarão nos ambientes universitários, onde nem o professor Richet serve de exemplo, porque a atitude acadêmica continua sendo a do avestruz: enterrar a cabeça na areia e negar a tempestade. Este é um livro que nos faz pensar. Que o leiam os nossos homens de ciência; que o leiam os nossos pensadores; que o leiam aqueles que pensam que pensam. Os frutos não se farão esperar.
Julio Abreu Filho SIR ARTHUR CONAN DOYLE ESBOÇO BIOGRÁFICO autor da obra que se vai ler era muito conhecido da juventude de uns cinquenta anos passados, como o criador de Sherlock Holmes. Naquele O tempo líamos literatura neolatina no original e anglo-saxônica através de boas traduções francesas ou em nossa língua. Hoje a mocidade lê histórias em quadrinhos, onde o vocabulário representa apenas um décimo do que manejávamos. O nível baixou. Se, então, eram as biografias um aspecto pouco explorado em literatura, hoje pouco se conhece das vidas grandes e nobres.
Tanto que, quando o autor destas linhas disse que estava traduzindo uma HISTÓRIA DO ESPIRITISMO de Sir Arthur Conan Doyle, despertou atenção por estas coisas: que o criador de Sherlock Holmes tivesse sido “knighted”, como se diz em inglês; que fosse algo mais que um escritor de contos policiais; que tivesse tido a cachimônia de levar a sério o Espiritismo e fazer, com aquela proverbial seriedade dos escritores ingleses, uma História do Espiritismo. Estavam certos — relativamente certos — os interlocutores de quem traça estas linhas. Por dois motivos: o primeiro é que o nível dos contos policiais baixou; o segundo é que em geral se ignora, nos países latinos, que os ingleses de cultura universitária não tomam cursos de técnica superior — como em geral os latinos e particularmente os brasileiros — a fim de serem chamados doutores, ou como um meio fácil de fazer dinheiro. É uma questão de educação, há muito ali resolvida e na qual andamos tateando, sem coragem de modificar o nosso figurino. Sobre o assunto bastaria recomendar três livros de um único escritor inglês, representativo de brilhante período da cultura inglesa — o período vitoriano — Sir John Ruskin — a saber: Sesame and Lulies, The Seven Lamps of Architecture e The Stone of Venice.
Na verdade o inglês de certa classe, mesmo de qualquer classe, que houvesse atingido mais alto grau de cultura através da universidade, não tinha apenas um verniz: os conhecimentos e o ambiente lhe haviam lapidado o espírito, transformado a compreensão da Vida e criado novos rumos para o seu comportamento social. Por isso o inglês desses níveis mais altos exercia a profissão, parcialmente, para ganhar dos que podiam pagar sem serem explorados, parcialmente, para servir aos que não podiam pagar, mas deviam sentir que a solidariedade humana não era mero tema para discursos políticos de campanhas eleitorais. Paralelamente, esses homens de padrão universitário exercem uma atividade extra que, se por um lado contribui para o seu próprio progresso espiritual, por outro ajuda o levantamento da cultura do povo. Isto é, sem dúvida, um dos mais belos efeitos da concepção inglesa de religião; esta não se separa da vida e a vida é considerada como que vascular, segundo a expressão do Reverendo Stanley Jones, que assim explica: “onde quer que a firamos, ela sangrará”.
Deste jeito tem o inglês um sentido prático de religião, — que deixa de ser uma fuga para os planos abstratos, que ficam depois dos túmulos, do mesmo passo que tem umanoçãomais objetiva de humanismo — que deixa de ser uma verbiagem excitante para ser uma soma de conhecimentos de imprescindível aplicação à Humanidade. Assim, não é de admirar que um Churchill cultive a pintura ainda aos oitenta anos; que um John Ruskin vá para o campo com os universitários trabalhar na reparação de estradas que se haviam tornado intransitáveis; que Frederic Myers, Lord Balfour, Sir William Crookes, Sir Oliver Lodge e tantos outros, que se encontram no topo das graduações científicas de várias especialidades, se apliquem, paralelamente, a outras atividades monetàriamente improdutivas, mas que contribuem largamente para o bem-estar espiritual do povo.
Ora, todos estes nomes do último grupo deram exemplo de compreensão de quanto o conhecimento do porquê da vida, do porquê da diversificação das existências pode contribuir para o bem-estar geral, depois de ter criado aquela serenidade espiritual que nos torna altamente conscientes e nos subtrai daquele fatalismo da massa muçulmânica, que amesquinha a criatura. Mas não quiseram basear-se em sermões mais ou menos sonoros nem nas citações mais ou menos papagaiadas de textos bíblicos: basearam-se nos fatos. E se o fenômeno espírita era um fato da natureza, até então pouco estudado, estudaram-no; buscaram apreender a lei que os rege. E nisso nada viram daquele ridículo que pseudo-sábios ou pseudoreligiosos procuram lançar sobre coisas que ignoram. Para eles, verdadeiros sábios, não existe ridículo nem imoralidade nas leis da Natureza, que são as mesmas leis de Deus.
Ridículo e imoralidade estão em nós, na nossa maneira de ver a vida; constituem, por assim dizer, os óculos da nossa observação. Mas voltemos a Sir Arthur Conan Doyle. * Estamos dizendo que o nível do conto policial havia baixado. Baixou, pelo menos daquela cota em que Conan Doyle havia elevado a produção do suposto criador desse gênero literário — o escritor francês Gaboriau. Mostra-nos a cronologia que o iniciador desse tipo de literatura foi um escritor americano, também espírita e certamente um médium inconsciente de suas faculdades criptopsíquicas — o grande poeta americano Edgard Allan Poe, autor do Mary Roger Case e outros contos policiais. Mas não desgarremos; frisemos um contraste essencial: enquanto o policial atual é violento, Sherlock é suave; aquele usa a força muscular, este o vigor do raciocínio.
Dir-se-ia que, mesmo antes de se tornar espírita, Sir Arthur marcava, na sua obra popularíssima, a superioridade do Espírito sobre a Matéria, da Inteligência sobre a Força Física, do Conhecimento sobre a Pistola Colt. E já que entramos por este raciocínio, seja-nos permitido admitir que as cidades, como as famílias, parece que têm um certo poder atrativo para determinados tipos de Espíritos. Dir-se-ia que elas possuem aquilo que os orientais chamam de karma coletivo, como o possuem as famílias, e que nos indivíduos é uma espécie de magnetismo espiritual. Não será isso que cerca de encanto a vida de certas universidades e de certas cidades, como, por exemplo, Florença? Não estará no mesmo caso a cidade escocesa de Edimburgo? De onde o seu nome?
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.