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Capítulo 3 de 57

Parte 3 de 3

A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle

De um certo rei Edwin, de Northumberland, que a fundou no século VII? Edimburgo que foi elevada a cidade por Carlos 3º em 1633, é considerada mais uma cidade intelectual do que industrial, posto que seja um importante centro de tecidos de lã, algodão e seda; tinha fábricas de cristais, destilarias e fundições, além de importante indústria livreira. Mas os seus estabelecimentos de ensino entre os quais se destacam a universidade, a escola de medicina, o conservatório de belas artes e a escola de artes e ofícios, lhe valeram o epíteto de Nova Atenas. Entre os filhos notáveis que a honram — e dos quais Sir Arthur Conan Doyle não é dos menos celebrados — contam-se John Ogilby, nascido em 1600, tradutor e editor das obras de Virgílio e de Homero e das Fábulas de Esopo; a família Blair, entre cujos membros sobressaem John Blair, ligado à história de sua independência e Hugh Blair (1718, 1800), notável orador e professor na universidade de Saint Andrews, onde seu nome foi ligado à cadeira de retórica e belas letras; a célebre família Napier ou Neper, segundo a grafia latina, onde aparecem destacados vultos na Marinha e no Exército, mas cujo tronco ilustre foi John Napier ou Joannis Neper, grande matemático e inventor dos logaritmos ditos neperianos, cuja publicação apareceu com este longo título, ao gosto da época: Logarithmorum canonis descripto seu Arithmeticorum supáginasutatwnum marabilis abbreviatio, ejusque usus in utraque trigonometria, ut etiam in omni logistica matemática amplissimi, jacilimi et expeditissimi explicatio, auctore ac inventore Joanne Nepero, barone Merchistonii, Scoto (1614).

Não esqueçamos David Hume, filósofo e historiador (1711. 1776), que nos deixou um Tratado sobre a Natureza Humana, Ensaios Morais e Políticos, História Natural da Religião, Ensaios Sobre a Imortalidade da Alma, além de vários outros trabalhos sobre moral e religião e, de parceria com outros advogados, uma História da Inglaterra.

Por fim destaquemos um típico escritor escocês — Sir Walter Scott (1771 1832). Iniciando-se em 1802, com o Canto da Fronteira Escocesa, escreveu mais trinta obras, entre as quais são mundialmente conhecidas e apreciadas A Dama do Lago, que inspirou a Rossini a ópera do mesmo nome, Guy Mannering; A Prisão de Edimburgo; A Noiva de Lammermoor, de onde foi extraído o libreto da ópera de Donizetti, Lucia de Lanrmermoor; A Formosa Donzela de Penh e Ivanhoe, talvez, de suas obras a mais conhecida e que conta maior número de traduções. Toda essa tradição magnífica de sua cidade deve ter influído poderosamente na formação espiritual de Sir Arthur. Sabe-se que seu avô era o caricaturista de nomeada — John Doyle, sobre o qual, entretanto, temos poucas indicações. Os traços genealógicos de que dispomos dizem que seu pai, Charles Doyle, era um artista.

Quem seria esse artista? Certamente era Sir Francis Hastings Charles Doyle, poeta nascido no Condado de York, em 1810 e morto em 1888. Foi funcionário da administração e publicou várias obras, entre as quais Poemas Diversos; Dois Destinos; Édipo, Rei de Tebas; Os Firnerais do Duque; A volta dos Guardas, etc. Foi professor de poética na Universidade de Oxford, entre 1867 e 1872. Teve, assim, o jovem Arthur um ambiente propício, quer em sua casa e em sua pátria, quer no estrangeiro, onde seu pai esteve a serviço do governo, pois se sabe que o nosso biografado fez parte de sua educação na Alemanha.

Nascido a 22 de maio de 1859, sua educação foi feita sucessivamente no Stonyhurst College, na Alemanha e na Universidade de Edimburgo, onde, em 1881, terminou o curso de medicina (M.B.) e quatro anos mais tarde o doutorado em medicina (M.D.) Sabe-se que viajou muito pelas regiões árticas e pela costa ocidental da África. Escreveu algumas obras na juventude, que devem ter passado inadvertidas ou que ele próprio teria retirado da circulação, pois a primeira citada cronologicamente é “A Study in Scarlet”, publicada em 1887, quando já estava clinicando em Southsea. No ano seguinte publicou outro romance — Micah Clarck. A história da rebelião de Monmouth. “The sign of Four”, em 1889 e em 1891 “The White Company”, que obteve grande sucesso, e que foi seguida por um romance da época de Du Guesclin.

Nesse ano de 1891 Sir Arthur Conan Doyle conquistou imensa popularidade com as “Aventuras de Sherlock Holmes”, que apareciam em The Strend Magazine. Como indicamos pouco antes, dizem que o seu inspirador foi Emile Gaboriau, escritor francês que havia fracassado no gênero romance e que em 1866 publicara, com estrondoso sucesso, em folhetim em Le Pays, um romance judiciário policial intitulado l’Affaire Levou ge, que lhe valera grande nomeada e o sucesso para mais dez outras obras no gênero. É possível. Mas é mais provável que, dadas as inclinações artísticas e literárias de Sir Arthur, tivesse ele conhecido toda a obra de Edgard Allan Poe, que é, ao nosso ver, o verdadeiro criador do conto e do romance policial, quer quanto às características literárias, quer quanto à precedência histórica. Em nossa opinião, o criador de Sherlock está mais próximo dos métodos de raciocínio de Poe, que dos de Gaboriau.

Com a importância literária e a popularidade de Sherlock, cujas aventuras se iniciam em “A Study in Scarlet”, a prática da medicina de Sir Arthur Conan Doyle passa para segundo plano, à medida que cresce o escritor. Em 1893 reaparece o herói nas “Memórias de Sherlock Holmes”, seguidas de “O Cão dos Baskervilles”, em 1902 e de “A Volta de Sherlock Holmes” em 1905. Enganam-se, porém, os que pensam que Sir Arthur haja cultivado apenas este gênero literário. Já em 1896 publicava ele estudos históricos em “As Explorações do General Gerard” e em “As Aventuras de Gerard”. Antes, porém, em 1894, havia publicado “A História de Waterloo”, na qual Sir Henry Irving havia tomado parte tão saliente.

Em 1909 lançou “The Fires oj Fate” e “The House of Tem periey” e em 1913 outro volume interessante — “The Poison Belt”. A pena de Sir Arthur Conan Doyle esteve, entretanto, ao serviço da pátria, nos momentos críticos. Sem ser um político, na acepção limitada do vocábulo, soube ele prestar valiosos serviços políticos ao seu país. Pode a gente discordar de seu ponto de vista particular, em relação à tese por ele defendida; mas há que reconhecer-se que ele não procurou servir a um partido, mas à comunidade britânica. E o fez com honestidade e com elegância.

É assim que, em defesa do Exército Britânico na África do Sul, publicou em 1900 “The Great Boer War” e, dois anos depois, um estudo mais minucioso dessa guerra, intitulado “The War in South Africa; its Causes and Conduct”. Durante a primeira Grande Guerra sua pena esteve ao serviço dos Aliados. Escreveu abundantemente. Entre outros trabalhos, largamente traduzidos, podemos citar “Cause and Conduct of the World War”, que logrou traduções em doze línguas. Suas preocupações pelas colônias inglesas não eram do tipo das de um agente do governo, mas das de um pensador de raça.

Iniciando-se nesse gênero com a guerra dos boers, pode a rigor dizer-se que aqueles dois livros pouco antes citados foram precedidos por “The Tragedy of the Korosko”, em 1898, que é uma pequena história do Sudão anglo-egípcio e “The Green Flag”, que versa ainda assuntos africanos. Neste grupo se inclui uma obra lançada em 1906, considerada a sua obraprima — “Sir Nigel.” Como obras menores e de temas variados — todas, porém, defendendo uma tese de subido interesse, podem citar-se, cronologicamente, a partir de 1894, até 1912, as seguintes: “Round the Red Lamp”, The Stark Mumro Letters”, “A Duet with an Occasional Chorus”, “Tlironglt the Magic Door”, “A Modern Morality Plity”, “The Crime of the Congo”, “Songs of tire Rüad” e “Tire Last World”.

Entre as suas últimas obras uma se conta, de grande importância e que alcança seis volumes, publicados entre 1915 e 1920: “History of the Britislr Compaign in France and Flanders” e que representa a sua última contribuição para a sua terra e para a sua gente no setor político propriamente dito. * É que, a essa altura, grandes médiuns ingleses, americanos e da Europa continental haviam chamado a atenção de conspícuas figuras do mundo científico inglês. Os fenômenos que em inglês se diziam do neo-espiritismo provocavam estudos e polêmicas, entusiasmos e revoltas. Em 1882, fundara-se, em razão disto, a Society for Psychical Research; os nomes mais brilhantes dos céus da ciência se haviam ligado a essa criteriosa organização que, se críticas merece, certamente é por sua teimosia em não querer reconhecer numa fenomenologia amplíssima e constatada sob os mais rigorosos métodos de ensaio, que a geratriz de tantos fenômenos eram os Espíritos dos mortos e, por vezes também, os Espíritos dos vivos.

— Que nomes prestigiavam a SOCIETY FOR PSYCHICAL RESEARCH? — Os mais brilhantes, com efeito, entre outras notabilidades, o Professor Sidgwick, Sir William Crookes, F. W. H. Myers, Frank Podmore, Professor Jomes H.

Hyslop, Doutor R. Hodgson, Professor Charks Richet, Sir Oliver Lodge, Professor C. G. Jung, Sir William Barrett, Doutor Gustave Geley, Doutor Edmund Gurney, Professor Von Schrenck-Notzing, Professor Henry Bergson e tantos outros, muitos dos quais eram membros da Sociedade Real e da Academia Francesa, vale dizer, portadores das mais altas distinções honoríficas. Sir Arthur Conan Doyle ingressou na Sociedade de Pesquisas Psíquicas. Convencido do fenômeno da manifestação do Espírito dos mortos, aderiu à causa do Espiritismo.

Fez pesquisas, por conta própria, com os maiores médiuns da Europa. Lobrigando o alcance religioso e filosófico de tais fenômenos, a eles se dedicou e procurou servir com a honestidade e com a segurança que lhe permitiam um caráter inteiriço e uma enorme bagagem de conhecimentos científicos. Não se limitou a ver e ouvir. Viajou, fazendo conferências de propaganda. Esteve mais de uma vez nos Estados Unidos, na África, na Europa continental e no Oriente, até a Austrália e a Nova Zelândia.

Entre outros escritos sobre o assunto publicou em 1918 “A New Revelation”, dois volumes de recordações dessas viagens, dos quais o último, saído em 1924, tem por título “My Memories and Adventures”. Em 1926 lançou em dois volumes “History o! the Spiritualism”, que tivemos o ensejo de traduzir agora para a editora “O Pensamento”, precedendo-a destas ligeiras notas biográficas e de um prefácio à edição brasileira. Pode dizer-se que é a única História do Espiritismo surgida até agora. Fora dela o que apareceu até aqui não passa de estudo limitado no tempo e no espaço e que, de forma alguma pode emparelhar-se com o presente volume onde, além da história descritiva, se encontra, realmente, muito de filosofia da história do Espiritismo. Estas notas foram escritas para mostrar ao leitor menos familiarizado com as letras inglesas que Sir Arthur Conan Doyle não é apenas o criador de Sherlock e o escritor de contos policiais: é uma figura expressiva nas letras inglesas e uma das figuras a que o Espiritismo — inclusive o Espiritismo de feição religiosa — muito deve.

Em plano internacional a sua obra se inscreve logo depois da de Allan Kardec e se alinha com a desses luminares que se chamaram Ernesto Bozzano, Léon Denis, Camille Flammarion, Alexander Aksakof, Vale Owen e Stainton Moses. Os espíritas de fala portuguesa estão de parabéns com a apresentação em nossa língua, da obra magnífica de Sir Arthur Conan Doyle. Julio Abreu Filho PREFÁCIO sta obra surgiu de pequenos capítulos sem conexão, terminando numa narrativa que abrange, de certo modo, a história completa do movimento 1 Eespírita. Sua gênese requer uma ligeira explicação. Eu havia escrito alguns estudos sem qualquer objetivo ulterior a não ser o de me proporcionar, e a outras pessoas, uma visão clara do que se me afigurava episódios importantes no moderno desenvolvimento espiritual do gênero humano.

Compreendiam estudos sobre Swedenborg, Irving, A. I. Davis, sobre o incidente de Hydesville, sobre a história das irmãs Fox, sobre os Eddys e sobre a vida de D.D. Home. Estes já se achavam prontos, quando me ocorreu a ideia de ir mais adiante, dando uma história mais completa do movimento espírita, mais completa do que as até então publicadas — uma história que tivesse a vantagem de ser escrita de dentro e com um pessoal conhecimento íntimo dos fatores característicos desse moderno desenvolvimento.

É realmente curioso que esse movimento, que muitos de nós consideramos como o mais importante na história do mundo desde o episódio de Jesus Cristo, jamais tenha tido um historiador, entre os que a ele estavam ligados, e que possuísse uma larga experiência pessoal de seu desenvolvimento. Mr. Frank Podmore reuniu um grande número de fatos e, desprezando os que não se ajustavam aos seus propósitos, esforçou-se por sugerir a desvalia dos restantes, especialmente os fenômenos físicos que, no seu modo de ver, eram principalmente tidos como produto da fraude. Há uma história do Espiritismo por Mr. McCabe, que reduz tudo a fraude e que é, ela mesma, uma fraude, desde que o público compraria um livro com esse título certo de que era um registro ao invés de uma mistificação.

Há também uma história por J. Arthur Hill, escrita do ponto de vista estritamente da pesquisa psíquica e que se acha muito longe dos fatos reais prováveis. A seguir temos: “Moderno Espiritismo Americano: um Registro de Vinte anos” e “Milagres do Século XIX”, pela grande e esplêndida propagandista que é a Senhora Emma 1 Em inglês a forma corrente é spiritualism e suas derivações, para significar o Espiritismo e outros vocábulos derivados. Allan Kardec criou a voz do espiritismo e as suas derivações, para exprimir, evitando as naturais confusões que a linguagem científica e filosófica não poderia permitir, um ramo do espiritualismo, Isto é, da doutrina que admite Deus e a alma. Este ramo, além de admitir Deus, causa primeira, e a alma ou espírito, força atuante e inteligente da natureza, instrumento do Criador para a evolução geral da vida, admite, ainda, que o ser humano tem vidas sucessivas, solidárias e sempre progressivas, ao menos na sua feição moral e que Deus não castiga nem premia: a nossa existência, boa ou má, é consequência de uma existência anterior.

Os vocábulos cunhados por Allan Kardec hoje se acham em todos os grandes léxicons, muito embora na Inglaterra e nos Estados Unidos também se usem, em relação ao Espiritismo, e para evitar confusões, a forma new spiritualism e suas derivações. — Nota do Tradutor Hardinge Britten, mas estes livros apenas se ocupam de fases, embora sejam muito valiosos. Finalmente — e o melhor de todos — há a “Sobrevivência do Homem após a Morte”, pelo Reverendo Charles L. Tweedale. Mas se trata, antes, de uma bela exposição relacionada com a verdade do culto do que uma história continuada.

Há histórias gerais do Misticismo, como as de Ennetnoser e Howitt, mas não há nenhuma história clara e compreensiva dos desenvolvimentos sucessivos desse movimento universal. Quando este entrava para o prelo apareceu um utilíssimo compêndio de fatos psíquicos, por Campbell-Holms. O seu título “Os Fatos da Ciência Psíquica e a Filosofia” indica, entretanto, que não pode ser apresentado como uma história metódica. É claro que semelhante trabalho necessitava muito de investigação — muito mais do que lhe poderia dedicar em minha vida ocupadíssima. É verdade que, de qualquer modo, o meu tempo era dedicado a ele, mas a literatura é vasta e havia muitos aspectos do movimento que me atraíam a atenção.

Em tais circunstâncias solicitei e obtive a leal cooperação de Mr. W. Leslie Curnow, cujos conhecimentos do assunto e cuja habilidade demonstravam ser inapreciáveis. Ele trabalhou assiduamente nessa vasta mina; separou minérios e escória e deu-me enorme assistência em todos os sentidos. Inicialmente eu não esperava mais que matéria-prima, mas ocasionalmente ele me apresentava metal puro, do qual me servi, apenas alterando-o de maneira a ter o meu ponto de vista pessoal.

Não posso exprimir a leal assistência que me foi dada; e se não inclui o seu nome com o meu no topo deste livro, foi por motivos que ele compreende e com os quais concorda. Arthur Conan Doyle The Psychic Bookshop, Abbey House, Victoria Street. S. W.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.