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Capítulo 51 de 57
Parte 48 de 54
A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle
Repetiu a mesma descrição que eu tinha recebido e acrescentou o seu nome — Charlie — e lhe pediu que desse o recado à sua mãe e sua irmã — a mesmíssima mensagem que eu deixara de entregar. Estava tão ansioso pela coisa que, ao terminar a sessão voltou e implorou que ela não lhe faltasse. Agora, estes fatos se passaram em datas diferentes —julho e setembro — exatamente a mesma mensagem foi dada através de médiuns diferentes e diferentes pessoas, e ainda há quem diga que isso é um mito e que os médiuns apenas têm os nossos pensamentos. ‘Quando a minha amiga me contou a sua experiência imediatamente lhe pedi que fosse comigo à mãe do rapaz e tenho a satisfação de verificar que essa dupla mensagem as convenceu a ambas, mãe e filha, e que a tia do rapaz está quase convencida da verdade, se é que não o está completamente’. 221 Sir William Barret registra essa comunicação probante, que foi recebida em Dublin, através da prancheta, com Mrs. Travers Smith, filha do falecido Professor Edward Dowden. Sua amiga, Miss C., que é mencionada, era filha de um médico.
Sir William chama a este “O Caso do Alfinête de Pérola”. Miss C., assistente, tinha um primo, oficial do nosso exército na França, o qual fora morto numa batalha, um mês antes da sessão. Ela o sabia. Um dia em que o nome de seu primo tinha sido deletreado inesperadamente numa sessão de prancheta e o nome dela dado em resposta à pergunta “Sabe quem sou eu?”, veio a seguinte mensagem: “Diga a mamãe que dê um alfinete de pérola à moça com quem eu ia casar-me. Penso que ela deve ficar comele.” Quando perguntaram o nome e o endereço da moça, estes foram dados.
O nome deletreado compreendia o seu nome de batismo, o sobrenome, que era muito pouco comum e desconhecido de ambos os assistentes. O endereço dado em Londres era fictício ou captado incorretamente, pois uma carta para lá enviada foi devolvida. Então pensou-se que toda a mensagem fosse fictícia. Seis meses depois, entretanto, foi descoberto que o oficial tinha ficado noivo, pouco antes de ir para a frente, exatamente da moça cujo nome fora dado. Entretanto não tinha dito isso a ninguém.
Nem sua prima, nem sua família na Irlanda sabiam do fato, nem tinham jamais visto a moça ou ouvido falar em seu nome até que o Ministério da Guerra mandou os objetos do morto. Então verificaram que ele havia posto o nome da? moça com seu testamento, como sua parenta mais próxima 221 “On the Threshold of the Unseen ”, página 184. — e tanto o prenome quanto o nome eram precisamente aqueles dados na sessão; e o que é igualmente notável, é que o alfinête de pérola foi achado entre os seus objetos. Ambas as senhoras assinaram um documento que me enviaram, afirmando a exatidão do relato. A mensagem foi gravada na ocasião e não escrita de memória depois de obtida a confirmação. Aqui não poderia haver a explicação da memória subliminal, telepatia ou coincidência e a evidência indica, sem sombra de dúvida, como mensagem telepática do oficial morto. 222 Descreve o Reverendo G.
Owen a volta de George Leaf, um de seus colegas do Curso de Bíblia, em Oxford, Warrington, que entrou para a R.A.F. e morreu na Grande Guerra: “Algumas semanas depois sua mãe estava limpando o ladrilho da lareira, na sala de estar. Estava ajoelhada diante da grelha quando sentiu um impulso para se virar e olhar a porta que se abrira na entrada. Voltou-se e viu seu filho, vestido com roupas de trabalho, exatamente como costumava voltar para casa todas as tardes, quando vivo. Tirou o casaco e pendurou-o na porta, como era velho hábito familiar. Então virou-se para ela, moveu a cabeça e sorriu; marchou para a cozinha, onde tinha o hábito de se lavar, antes do jantar.
Tudo era muito natural e vívido. Ela reconheceu que era o seu filho morto, que tinha vindo para lhe mostrar que estava vivo no mundo dos Espíritos e vivendo uma vida natural, bem, feliz e contente. Também aquele sorriso de amor lhe disse que seu coração ainda estava com os velhos em casa. Ela é uma criatura sensível e não duvida da história um instante. Aliás, desde a morte do filho tem sido vista na Igreja de Orford, que ele costumava freqüentar e tem sido visto em vários outros lugares.” Há muitos exemplos de visses de soldados, coincidentes com a sua morte.
Nos “Dreams and Visions of the War”, de Rosa Stuart, encontra-se este caso: “Uma história muito tocante me foi contada por uma senhora de Bournemouth. Seu marido. sargento nos Devons, foi para a França a 25 de julho de 1915. Ela havia recebido cartas suas regularmente, todas muito felizes e amáveis, de modo que ela começou a ficar com a mente calma a seu respeito, sentindo que se qualquer perigo o ameaçasse ele se sairia bem. Na noite de 25 de setembro de 1915, cerca de dez horas, achava-se sentada na cama, em seu quarto, conversando com outra moça, que morava com ela. A luz estava acesa e nenhuma delas pensava em ir para a cama, tão absorvidas estavam na conversa sobre os fatos do dia e da guerra.
Sübitamente houve um silêncio. A esposa parou de súbito, no meio de uma frase e sentou-se, olhando fixamnente no espaço. Diante delas, fardado, estava o seu marido! Durante dois ou três minutos assim ficou, olhando para ele, e ficou chocada pela expressão de tristeza de seus olhos. Levantando-se rapidamente avançou para o lugar onde ele estava, mas lá chegando a visão tinha desaparecido.
Con quanto naquela manhã tivesse recebido uma carta dizendo que ele se achava são e bom, teve a certeza de que a visão era de mau augúrio. Tinha razão. Pouco depois recebia uma carta do Ministério da Guerra, dizendo que ele tinha sido morto em combate em Laos, a 25 de setembro de 1915, na mesma data em que lhe parecera tê-lo visto ao lado de sua cama.” Um lado místico mais profundo das visões da Grande Guerra gira em torno dos “Anjos de Mons”. Mr. Arthur Machen, conhecido jornalista londrino, escreveu 222 “Facts and Future Life”, (1922, páginas 5354). uma história, dizendo como os arqueiros ingleses do campo de Agincourt tinham interferido durante a terrível retirada de Mons.
Mas confessou depois que havia inventado o incidente. Mas aqui, como tantas vezes antes, a verdade provou que a ficção era um fato, ou pelo menos que fatos da mesma ordem eram contados por muitas testemunhas fidedignas. Mr. Harold Begbie publicou um livrinho, “On the Side of the Angels”, dando muitas provas e Mr. Ralph Shirley, editor da Occult Review, de Londres, o seguiu com “The Angel Warriors at Mons”, reforçando o testemunho de Mr.
Begbie. Respondendo a Mr. Machen no jornal Londrino Evening News, de 14 de setembro de 1915, um oficial britânico diz que estava lutando em Le Cateau, a 26 de agosto de 1914, e que sua divisão se retirava e marchava durante a noite de 26 e durante o dia 27. E diz: “Na noite de 27 eu cavalgava ao lado da coluna, com dois outros oficiais. Tinha estado falando e fazendo o possível para não dormir montado.
Enquanto marchávamos, tive consciência de um fato: no bosque, de ambos os lados da estrada, por onde marchávamos, eu via um grande corpo de cavaleiros. Esses cavalarianos tinham a aparência de esquadrões de cavalaria e pareciam andar dentro do bosque, na mesma direção que nós e se mantendo em linha conosco. A noite não era muito escura e imaginei que via muito distintamente os cavalarianos. A princípio não disse uma palavra, mas os observei durante uns vinte minutos. Os outros dois oficiais tinham parado de falar.
Por fim um deles me perguntou se eu havia visto alguma coisa no bosque. Então lhe disse o que tinha visto. O terceiro oficial também confessou que tinha observado aqueles homens nos últimos vinte minutos. Tão convencidos estávamos de que eram realmente cavalarianos que na parada seguinte um dos oficiais tomou uma patrulha de reconhecimento e lá não encontrou ninguém. Então a noite se tornou mais escura e nada mais vi.
O mesmo fenômeno foi observado por muitos homens da coluna. Aliás, nós estávamos cansadíssimos e sobrecarregados, mas é uma coisa extraordinária que o mesmo fenômeno tivesse sido observado por tanta gente. Eu mesmo estou absolutamente convencido que vi esses cavalarianos; tenho certeza de que não existem apenas na minha imaginação. Não tento explicar o mistério —apenas verifico os fatos.” A prova parece boa e ainda se deve admitir que no esforço e na tensão da grande retirada a mente dos homens não estava nas melhores condições para suportar provas. Por outro lado é nesses momentos de dificuldades que as forças psíquicas do homem geralmente estão mais ativas.
Um profundo aspecto da Guerra Mundial está envolvido na consideração de que a guerra na Terra é apenas um aspecto das batalhas invisíveis em planos mais altos onde se chocam os poderes do Bem e do Mal. O finado A. S. Sinnett, eminente teosofista, aborda essa questão num artigo sob o título de “Super-Physical Aspects 223 of the War” . Não podemos aqui entrar no assunto, salvo para dizer que há provas de muitas fontes a indicar que Mr.
Sinnet fala de coisas que se baseiam em fatos. Um considerável número de livros e um muito maior de manuscritos registram as supostas experiências dos que morreram na guerra, que, aliás, não 223 “The Occult Revew”, Dezembro 1914, página 346. diferem de modo algum da dos que morreram em outras ocasiões, mas se tornam mais dramáticas, dada a ocasião histórica. O maior desses livros é “Raymond”. Sir Oliver Lodge é um cientista tão famoso e um pensador tão profundo que a sua corajosa e franca confissão produziu uma grande impressão sobre o público. O livro apareceu últimamente em forma condensada, e parece que fica por muitos anos como um clássico do assunto.
Outros livros da mesma classe, todos corroborativos dos principais detalhes são “The Case of Lester Coltman”, “Claude’s Book”, “Rupert Lives”, “Grenadier Rolf”, “Private Dowding” e outros. Todos pintam a sorte da vida do além, que é descrita no capítulo seguinte.
Aspecto Religioso do Espiritismo Espiritismo é um sistema de pensamento e de conhecimento que se pode conciliar com qualquer religião. Os fatos básicos são a continuidade da O personalidade e o poder de comunicação após a morte. Estes dois fatos básicos são de tão grande importância para um brâmane, um maometano ou um parse, quanto para um cristão. Assim, o Espiritismo faz um apelo universal. Há apenas uma escola de pensamento com a qual é absolutamente irreconciliável: é a escola do materialismo, que sustenta o mundo em suas garras no presente e é a causa fundamental dos nossos infortúnios.
Portanto a compreensão e a aceitação do Espiritismo são essenciais a salvação da humanidade, que de outro modo está fadada a descer cada vez mais no puro utilitarismo e no ponto de vista egoísta do universo. O estado tipicamente materialista foi a Alemanha de pré-guerra, mas cada um dos outros modernos estados é do mesmo tipo, senão do mesmo grau. Perguntarão por que não seriam as velhas religiões suficientemente fortes para recolher o mundo de sua degradação espiritual? A resposta é que todas tentaram mastodas falharam. As Igrejas que as representam tornaram-se, até o extremo, formais, mundanas e materiais.
Perderam todo o contacto com os fatos vivos do Espírito, e se contentam a tudoreferir ao passado e a fazer um serviço de preces e de culto externo num sistema tão antiquado e tão misturado com incríveis teologias que a mente honesta sente náuseas só em pensar. Nenhuma classe se mostra mais céptica e incrédula das modernas manifestações espíritas do que aquele próprio clero que professa a crença em ocorrências similares nos tempos passados; e a recusa de aceitá-las agora é a medida da sinceridade de sua profissão. Tanto abusaram da fé que esta se tornou impossível para muitas mentes honestas, que pedem provas e conhecimento. É o que o Espiritismo fornece. Ele baseia a nossa crença na vida depois da morte e na existência de mundos invisíveis — e não sobre a velha tradição ou sobre vagas intuições, mas sobre fatos provados, de modo que uma ciência da religião deve ser constituída, para dar ao homem um caminho seguro através do pantanal dos credos.
Quando afirmamos que o Espiritismo pode conciliar-se com qualquer religião não queremos dizer que todas as religiões tenham o mesmo valor, ou que o ensino do Espiritismo por si só não possa ser melhor do que o Espiritismo misturado com qualquer outro credo. Pessoalmente, o autor pensa que o Espiritismo sozinho satisfaz a todas as necessidades do homem; mas verifica que muitos homens de alto espírito, que foram incapazes de se desvencilharem de velhas convicções, também foram capazes de aceitar a nova verdade sem se desfazerem das velhas crenças. Mas se alguém tivesse como guia apenas o Espiritismo, não se encontraria numa posição oposta ao Cristianismo essencial, mas sim numa posição explanatória. Ambos reconhecem que o post-mortem é influenciado no seu progresso e na sua felicidade pela conduta aqui. Ambos. professam a crença na existência de um mundo de Espíritos, bons e maus, que o Cristão chama anjos e demônios e que o Espiritismo chama de guias, contrôles e Espíritos atrasados.
Ambos acreditam, em geral, nas mesmas virtudes, no desinteresse, na bondade, na pureza, na honestidade, que marcam um nobre caráter. Enquanto os espírítas consideram o fanatismo como uma séria ofensa, ele é acoroçoado pela maioria das seitas cristãs. Para os Espíritas todo caminho de elevação é recomendável e eles reconhecem plenamente que em todos os credos existem almas santas e altamente desenvolvidas, que receberam por intuição tudo quanto o espírita pode dar por ensino especial. A missão do espírita não é junto a estes. Sua missão é junto àqueles que abertamente se declaram agnósticos, ou junto a outros, mais perigosos, que professam alguma forma de credo, mas nem têm ideias, nem são agnósticos sinceros.
Do ponto de vista do autor, o homem que recebeu o grande benefício da nova revelação é aquele que diligentemente procurou toda a escala das crenças e as achou todas igualmente vastas. Então se encontra no Vale da Escuridão, com a Morte, no fim, à espera de nada mais que deveres comuns e normais como sua religião ativa. Essa condição produz muitos homens de mérito, da estirpe estóica, mas não os conduz à felicidade. Então vem a prova positiva da existência independente, por vezes súbita, por vezes em convicção lenta. A nuvem se foi para o fim de seu horizonte.
Já não mais se acha no vale, mas sobre uma elevação, lobrigando uma série de elevações, cada qual mais bela que a anterior. Onde antes havia treva, existe agora a claridade. O dia dessa revelação tornou-se o dia de glória de sua vida. Contemplando a excelsa hierarquia de seres espirituais que lhe são superiores, o Espírita imagina de tempos em tempos que um outro grande arcanjo virá visitar a humanidade com uma missão de ensino e de esperança. Até a humilde Katie King, com a sua mensagem de humildade, dada a um grande cientista, era um anjo das alturas.
Francisco de Assis, Joana D’Arc, Maomé, Bab-ud-Din e todo verdadeiro chefe religioso da História se encontram entre esses arcanjos. Mas acima de todos, de acordo com o nosso julgamento de ocidentais, estava Jesus, filho de um artesão judeu, a quem chamamos O Cristo. Não é para os nossos cérebros de mosquitos dizer qual o grau de divindade que havia nele, mas na verdade podemos dizer que Ele certamente estava mais próximo de Deus do que nós, e que o Seu ensino, de acordo com o qual o mundo ainda não agiu, é o mais altruísta, misericordioso e belo de quantos temos conhecimento, a não ser aquele de seu santo companheiro Buda, que também foi um mensageiro de Deus, mas cujo credo é antes para as mentes orientais do que para as européias. Quando, porém, lançamos o olhar sobre a mensagem do nosso inspirado Mestre, verificamos que há pouca relação entre os Seus preceitos e os dogmas e a ação de Seus atuais discípulos. Vemos também que muito daquilo que Ele ensinou naturalmente se perdeu, e que, para encontrar essa porção perdida, que não se achava escrita nos Evangelhos, temos que examinar as práticas da Igreja Primitiva, que era guiada por aqueles que com Ele tinham estado em íntimo contacto.
Esse exame mostra que tudo quanto chamamos de Espiritismo Moderno parece ter sido familiar ao grupo do Cristo, que os dons do Espírito, exaltados por São Paulo, são exatamente os que exibem os nossos médiuns e que aquelas maravilhas que deram a convicção da realidade de um outro mundo à gente daqueles dias agora podem ser apreciadas e deveriam agora ter um efeito semelhante, se mais uma vez os homens procurassem a certeza sobre esse problema vital. Este assunto terá uma referência ligeira, bastando dizer que, longe de ter vagado pela ortodoxia, há boas razões para pensar que o espírita humilde e não dogmático, com as diretas mensagens espíritas, com a sua comunicação com os santos, e com a sua associação com aquele alto ensino que foi chamado Espírito Santo, está mais próximo do Cristianismo primitivo doque qualquer outra seita existente. É muito interessante ler os primeiros documentos da Igreja e, principalmente, os escritos dos chamados Pais da Igreja e ver o ensino espírita e a prática espírita em voga naqueles dias.
Os primeiros cristãos viviam em íntimo e familiar contacto com os invisíveis, e sua absoluta fé e constância se baseavam num pessoal conhecimento positivo que cada um havia adquirido. Sabiam, não como especulação, mas como um fato absoluto, que a morte não significa mais que a passagem para uma vida mais ampla, que deveria ser chamada mais propriamente nascimento.
Então não a temeriam absolutamente e a achariam antes como o Doutor Hodgson, quando exclamou: “Oh! Como me custa a espera!” Tal atitude não afetou o seu trabalho e o seu valor neste mundo, o que é atestado pelos seus próprios inimigos. Se, nos dias que correm, os habitantes de terras. distantes se mostram ainda piores quando convertidos ao Cristianismo, é porque o Cristianismo que abraçaram perdeu todo o poder e virtude que existia no primitivo. Além dos primeiros Pais da Igreja, temos provas dos sentimentos dos primeiros cristãos nas inscrições das catacumbas. Um livro interessante sobre os cristãos primitivos de Roma, escrito pelo Reverendo Spencer Jones, Deão de Gloucester, trata parcialmente desses estranhos e patéticos registros.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.