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Capítulo 9 de 51

Parte 9 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Eram cerca de sete horas da noite e no castelo Valdstein preparavam-se para jantar. Na grande sala de jantar, toda em madeira de carvalho trabalhada, estava posta uma mesa com rica prataria e cristal veneziano; a condessa, o bispo Brancassis e o padre Bonaventura entraram, sentaram-se à mesa, e os pajens, que estavam em pé atrás deles, começaram a servi-los. A condessa, aparentando um certo descontentamento, estava distraída e a cada minuto olhava para a porta de entrada ou para o lugar vazio do outro lado da mesa. - Não entendo essa ausência de Vok! Ele deveria ter voltado há meia hora e isso é uma imperdoável desatenção de sua parte! - Disse ela, severamente. - Não vale a pena se enervar, cara prima. - Sorriu o bispo, tentando acalmá-la. - Seu filho, provavelmente, atrasou-se na caçada ou com algum amigo. A despreocupação, própria da idade dele, e não a desatenção à senhora, deve ser a causa de sua ausência. O padre Hilário também não veio; ele adoeceu? - Não!

O padre Hilário foi visitar um paciente e provavelmente se atrasou pelo caminho. - Explicou Bonaventura. Naquele instante, do quarto vizinho ouviram-se passos e na porta apareceu um jovem de 16 anos, cuja presença fez o rosto da condessa desanuviar-se imediatamente. O jovem conde Valdstein era um rapaz muito bonito; alto para a idade, esbelto e bem-formado. O rosto levemente bronzeado respirava coragem e até ousadia; nos grandes olhos negros herdados da mãe, cintilava uma alma orgulhosa e apaixonada. Aproximando-se da condessa, beijou-lhe a mão, desculpou-se pelo atraso e, em seguida, cumprimentou o bispo de forma educada mas fria. A julgar o amor e o orgulho com que a condessa acompanhava cada movimento seu, percebia-se que adorava o filho. O jovem sentouse e começou a comer, mas repentinamente, olhando em volta, franziu o cenho. - Onde está Svetomir? - Perguntou. - Onde estaria aquele glutão bobo, senão na penitência? - Respondeu com desprezo a condessa e, dirigindo-se a Brancassis, acrescentou: - Nem posso expressar o desgosto que esse inútil moleque está me causando!

Para o padre Hilário é um verdadeiro castigo ensinarlhe latim e ciências; ele é tão preguiçoso que nem os salmos consegue saber de cor! - E qual foi o crime que ele cometeu hoje? - O padre Hilário pegou-o comendo presunto! Isso, num dia de jejum! Ele ainda mentiu dizendo que a mulher do zelador tinha lhe dado o presunto. - Percebo que Svetomir é bastante culpado! E onde está o digníssimo padre? Castiga o criminoso oferecendo-lhe sermões em vez do jantar e serve ele próprio de exemplo de abstenção e jejum? - Perguntou, sarcasticamente, Vok. A condessa corou. - Vok! - Disse ela, num tom de insatisfação. - Você novamente está se permitindo piadas não condizentes com o ambiente e esquecendo dos presentes! Você tem obrigação de respeitar o meu confessor! Saiba que o bom padre Hilário foi visitar um paciente. Vok nada respondeu e sorriu, sarcasticamente. Brancassis - que o observava atentamente - tentou evitar o confronto e passou a falar da notícia recebida pela manhã sobre a chegada do conde trazendo Rugena dentro de dois dias.

Passaram a falar sobre o falecido barão Rabstein e o seu papel na união dos senhores, juntamente com Rosenberg, Gradetski, Landstein e outros. Por fim, todos saíram da mesa. Deixando a mãe e o bispo passarem adiante, Vok parou à porta e com um sinal chamou um dos pajens, sussurrando-lhe algo no ouvido. O pajem aquiesceu com a cabeça e correu para cumprir a ordem. Alguns minutos depois, voltou com uma cesta nas mãos e começou a enchê-la com o resto de comida que havia sobrado nas travessas da mesa: peixe, carne assada, pastéis e frutas. - Bogomil! Seu moleque sem-vergonha! Como ousa roubar da mesa? Coloque imediatamente tudo no lugar, senão lhe arranco as orelhas! - Gritou com ele o irado mordomo, agarrando-o pelo cangote. Mas o pajem, feito cobra, escorregou de suas mãos. - O conde Vok ordenou que levasse para os seus aposentos comida para os cães. O senhor pode perguntar-lhe! - Respondeu o menino, em tom de desafio. Em seguida, desapareceu pela porta levando do bufê um pedaço de queijo. - Mas que absurdo!

Alimentar cães com peixe assado, pastéis e frutas! - Resmungava o mordomo, que contava deliciar-se ele próprio com aqueles restos. Alegando cansaço do longo passeio a cavalo, Vok foi para seus aposentos, despedindo-se da mãe e do prelado. Seus dois quartos estavam mobiliados com todo o luxo daquele tempo. Já escurecia, pois pelas estreitas janelas abertas nas grossas paredes passava pouca luz e o criado acendeu as velas nos castiçais de cobre. Naquele instante, o pequeno pajem Bogomil preparava a mesa e colocava sobre ela a provisão que trouxera. Vok deu-lhe um pastel de prêmio e mandou-o sair, proibindo-o de perturbá-lo sem ser chamado. Refletindo um pouco, Vok voltou-se e saiu para o corredor, no fim do qual havia uma porta trancada. Tentou abri-la sem sucesso e, finalmente, dando um soco, gritou: - Svetomir, seu bobão! Você está dormindo ou morreu de fome? Responda! - Estou trancado aqui desde a manhã, Vok, e não posso nem sair nem abrir para você. - Respondeu do outro lado uma fraca voz infantil, entremeada de lágrimas.

No expressivo rosto do jovem Valdstein apareceu um ar de piedade e compreensão. - Então me aguarde e abra a janela, que vou buscá-lo. - Respondeu ele e correu de volta pelo corredor. Pela escada em caracol, ele desceu para o jardim que se estendia em volta do castelo e aproximou-se da torre, em cuja janela aberta viase uma tênue figura infantil. - Estou aqui, Vok! Mas como vou descer desta altura? - Soou a vozinha, tristemente. - O quê? Chama isso de altura? Se estivesse em seu lugar eu já estaria em liberdade há muito tempo, mesmo que fosse somente para apertar o nariz daquele demônio tonsado que o tiraniza! Você é um galinha-morta! Veja, vou mostrar-lhe o caminho. A torre estava envolvida por uma espessa hera de escura folhagem; Vok, aproveitando os poderosos galhos, subiu corajosamente, com rapidez e facilidade, até a janela que realmente não estava muito alta. Foi, então, parar num quarto redondo, cujas paredes nuas e cuja pobre mobília contrastavam radicalmente com o luxo e o conforto dos seus aposentos.

A luz bruxuleante da lamparina colocada diante da imagem sacra iluminava uma cama simples, uma mesa, alguns bancos de madeira e uma estante num canto. Sobre a mesa, perto de um monte de livros, havia uma caneca de água e alguns pedaços de pão. - Pronto, cheguei! E descer não é mais difícil do que subir. - Disse Vok, rindo satisfeito. - Você prefere se enfurnar aqui e esperar a volta do bravo Hilário ou ir ao meu quarto, jantar bem e ganhar um presente? Escolha! - É claro que prefiro ir jantar! Estou com muita fome. Mas não sei se consigo descer como você. - Bah! A necessidade gera heróis! Tenha coragem, eu o ajudo a descer da janela. Veja aquele galho grosso que parece um degrau. Segure com as mãos e não solte até que esteja firme em pé. Ele ajudou Svetomir a sair pela janela e segurou-o até ele dizer que estava firme. - Coragem e não tenha medo! Você não pesa mais do que um gato esfomeado. Eu desço depois para não quebrar a hera.

A descida foi tranqüila e, cinco minutos depois, eles já estavam no quarto de Vok, que imediatamente trancou a porta. - Coma bem para recuperar as forças. - Disse, apontando para a mesa posta. - Depois do sagrado jejum de padre Hilário você está com péssima aparência. - Obrigado, Vok! De toda a casa você é o único que tem pena de mim. - Respondeu o garoto faminto, sentando à mesa e começando a engolir rapidamente o jantar preparado. Agora, no quarto iluminado, dava para enxergar Svetomir. Era um garoto magrinho, de uns 13 anos, com longos, espessos, louros e crespos cabelos e grandes e claros olhos de cor verde-cinza. Seu rosto fino e atraente era transparente como se fosse de cera; nos lábios pálidos passeava um triste, amargo e dócil sorriso. O traje velho, puído e largo demais não conseguia esconder a esbeltez e a graça natural da sua aparência dócil e infantil.

Quando finalmente a torta foi engolida até a última migalha, e depois da torta desapareceu o pedaço de queijo, Svetomir correu para lavar o rosto e as mãos e sentou-se perto de Vok que todo o tempo ficara observando-o calado. - Puxa, como comi bem! - Disse ele, com um suspiro de satisfacão. - Estou muito grato a você, Vok, por sua bondade para comigo. - Pobre bobão! - Respondeu Vok, com simpatia, acariciando com ternura a cabecinha cacheada. - Por que fica calado diante daquele patife que lhe judia tanto? - Mas como quer que eu o enfrente, se ele é mais forte e a tia está do lado dele? Faz quatro dias que ele voltou e já me surrou três vezes e eu nenhuma vez almocei nem jantei sob a alegação de que um futuro padre deve acostumar-se a jejuar e mortificar a carne e não encher o estômago. Ainda hoje, por causa do pedaço de presunto que me deu a bondosa Martina, ele me deu chibatadas até sangrar e decidiu manterme trancado por uma semana a pão e água.

O garoto calou-se porque as lágrimas começaram a sufocá-lo. - Patife! - Murmurou Vok por entre os dentes. - Sim, ele é um homem mau e eu o odeio, assim como a todos os padres! Prefiro afogar-me a vestir uma batina! - Exclamou Svetomir energicamente, cerrando os punhos e com brilho nos olhos por debaixo dos longos cílios. - Até que enfim! É assim que eu gosto de vê-lo e, como prêmio, vou dar-lhe o presente prometido. O jovem conde retirou debaixo da camisola um rolo de pergaminho e abriu-o sobre a mesa. - Veja, Svetomir. Esta é uma indulgência para todos os pecados corporais, assinada verdadeiramente pelo arcebispo de Praga. O nome do possuidor ainda não foi preenchido e eu já o vejo: Svetomir Kryjanov. Depois disso você poderá comer presunto debaixo do nariz do Hilário e ele não ousará lhe dizer nada. Se você, mentalmente, der-lhe um bofetão, mesmo assim os portões do céu estarão abertos para você. - Explicava Vok, rindo.

Svetomir correu para o quarto vizinho e trouxe de lá a pena e o tinteiro. - Onde conseguiu essa preciosidade? - Perguntou, feliz, enquanto Vok escrevia no pergaminho. - Comprei-a de um monge mendicante que cambaleava bêbado na estrada. Ele, pelo jeito, roubou-a de alguém, pois me vendeu barato: por um dobrão de ouro. Mas o documento, como uma chave para o céu, nada perde com isso. Bem, parece que o padre Hilário voltou de sua filantrópica viagem. Realmente, no corredor soavam pesados e rápidos passos. Svetomir estremeceu e ficou pálido. - O que ele vai dizer quando não me encontrar no meu quarto? - Sussurrou ele, apavorado e com voz abatida. - Isso nós vamos ver! Eu me entendo com ele aqui e colocarei uns arreios em sua intenção de transformá-lo num santo. - Disse Vok, abrindo de supetão a porta para o corredor, no fundo do qual apareceu Hilário, vermelho de raiva, - Se o senhor procura o Svetomir, reverendo padre, ele está aqui comigo! - Gritou-lhe Vok, convidando-o a entrar com um gesto. - Por que o senhor o esconde em seus aposentos?

Aguarde-me, miserável, sobre esta molecagem nós conversaremos depois! - Disse ele, dirigindo-se com ar ameaçador ao garotinho, mudo de medo e agarrado à mesa. - Desculpe, reverendo padre, mas quero que o senhor se explique com Svetomir agora e na minha presença, pois fui eu que o trouxe aqui. O senhor deveria se envergonhar de tratar com tanta desumanidade uma criança que não tem ninguém para protegê-la. A cor da ira espalhou-se pelo rosto redondo e gordo de Hilário. - Como ousa, garoto insolente, me ditar sermões? Vou queixar-me à sua mãe por este desrespeito, e ao miserável, colocado aos meus cuidados, vou extenuar à minha maneira por abstenção e jejum, fazendo dele um digno servidor de altar. - Sibilou ele, irado. Vok empalideceu. Então, agarrando-se ao cabo do punhal e com ar ameaçador, deu um passo na direção do monge. - Nesse caso, antes de fazer de Svetomir um digno servidor da Igreja, comece por si mesmo e não judie da criança, acostumando-a a mentiras e fingimento.

Saiba o senhor, digníssimo Hilário Shwartz, que conheço o motivo de suas viagens filantrópicas: o paciente que o senhor visita nada mais é do que a filha do carvoeiro Miguel, que o senhor seduziu ainda na primavera passada e agora obriga a ela e ao pai permanecerem calados sob a ameaça de perder o posto. Se eu contar isso ao meu pai, o senhor terá muitos problemas, pois ele não gosta que os confessores de mamãe se divirtam tão alegremente em suas terras. Fique com a sua boa influência sobre a condessa, que é suficientemente cega para não ver as suas conquistas, mas se prive do mau tratamento dispensado a Svetomir que, além do mais, possui uma indulgência que o libera da necessidade de jejuar! - Finalizou Vok, sarcasticamente, apontando para o pergaminho aberto sobre a mesa. O monge nem o olhou. Sufocado pela raiva, sem dizer palavra, ele se voltou e saiu rapidamente do quarto, batendo a porta. - Maldito! Você ainda irá me pagar por isso! - Sibilava ele por entre os dentes, correndo como um furacão pelo corredor.

A ira impotente do confessor da mãe deixou o jovem conde bastante alegre. Ele caiu na poltrona gargalhando, e somente quando passou o primeiro ataque de riso, dirigiu-se a Svetomir, que continuava parado e calado junto à mesa. - Não tenha medo! Você não vai pagar nada por essa nossa conversa. Se ele ousar lhe bater, venha queixar-se a mim. Saberei amordaçar esse cão alemão. Entretanto, hoje você vai dormir aqui. Deixe que a raiva dele passe antes de encontrá-lo novamente. Enquanto o criado, por ordem do jovem conde, fazia a cama de Svetomir, Vok subiu pela escada em caracol para o andar superior da torre onde morava o pequeno Kryjanov. O ambiente lá também era muito simples e somente um grande número de espadas, punhais, lanças, maças, bestas e outras armas davam à sala uma aparência militar. À mesa estava sentado um homem de compleição fortíssima que, sob a luz de uma lamparina a óleo, lia o Evangelho. Esse homem era Anton Broda - professor de artes marciais do castelo.

O velho conde e Vok, principalmente, tinham por ele um respeito especial, pois ele fora o "mestre-de-armas" do garoto, ensinando-o a arte do combate. Ao ver entrar o jovem Valdstein, ele se levantou; mas Vok fez um gesto para ele sentar-se e, empurrando o banco, sentou-se ao seu lado. - Broda! - Falou, alegremente, o jovem. - Preciso contar o meu confronto com Hilário. Ele quase estourou de raiva quando soube que conheço a história dele com a filha do velho Miguel. Você aprontoulhe uma boa, contando-me as suas aventuras. E relatou-lhe a conversa com Svetomir, a compra da indulgência e o confronto com o monge. - Está vendo, Anton? Cumpri a minha palavra e tomei Svetomir sob a minha proteção. - Finalizou o jovem, com satisfação. - Deus lhe pague, senhor conde, pela boa ação! Já não suportava mais o choro e os gritos da infeliz criança quando aquele cão alemão a judiava. O patife, sem-vergonha e depravado ainda ousa portar o título de padre! - Agora ele está em minhas mãos!

Mas devo lembrar-lhe, Broda, que cumpri o que prometi e você ainda não me levou nos encontros secretos sobre os quais me contou. Quero muito participar deles. Broda encostou-se na mesa e pensou em pouco. - Eu não me decidia por não saber se seu pai aprovaria isso, senhor Vok. Mas se o quer tanto, por que não? Não é nenhum crime. Nós nos reunimos para rezar como rezavam nossos pais e para conversar sobre as desgraças da pátria, que nenhum tcheco consegue ver sem dor no coração. Então, iremos no próximo sábado. Sei que você não irá me trair... -Juro por Cristo! -Acredito, acredito, meu senhor! Tenha paciência, pois de qualquer modo você não poderá se ausentar até a chegada de seu pai. Depois de conversar mais um pouco, o conde voltou aos seus aposentos e Anton prosseguiu a sua leitura do Evangelho. Broda era uma pessoa surpreendente: sombrio, sério e pouco sociável.

Toda a criadagem, mesmo temendo-o, gostava dele e respeitavao por seu senso de justiça, por seu desinteresse e também pelo fato de ele utilizar sua grande influência sobre o jovem conde para salvar pessoas em dificuldade ou para livrá-los da ira do administrador alemão, protegido da condessa. Sua vida fora agitada e cheia de aventuras. Naqueles difíceis tempos, a vida fora dura para a família de seu pai, um senhor da baixa nobreza, que tinha uma pequena propriedade perto do mosteiro de Kladbur. As desavenças do senhor Nikolai com o clero quanto ao cumprimento das obrigações religiosas haviam levantado suspeitas de que a família pertencia à "antiga crença", considerada heresia no país, e de que comungava em ambas as formas (corpo e sangue). Essas acusações infundadas haviam provocado a indisposição do pároco e não era segredo para ninguém que o abade desejava fervorosamente limpar o

seu rebanho de ovelhas gafadas que poderiam contaminá-lo. Apesar das dificuldades, o senhor Nikolai agarrava-se ao seu pedacinho de terra e era respeitado pelos camponeses vizinhos. Mas seu ponto fraco era a pobreza. Num momento difícil, ele acabara sendo obrigado a pegar emprestado dinheiro em condições desfavoráveis, de um cidadão alemão. Dois anos depois, ao viajar para visitar seu credor, ele desaparecera sem deixar pistas. Mais tarde, aquele alemão exigira da família o ressarcimento da dívida. O montante revelara-se tão grande que toda a pequena propriedade passara a pertencer-lhe. A viúva e os dois filhos, Martin e Anton, haviam ido parar na rua. Ela logo morrera, levando para o túmulo a convicção de que, no dia do desaparecimento, seu marido estava levando o dinheiro para pagar a dívida, cujo valor, conforme suas palavras, era muito menor. Ele fora morto por incumbência de seu credor, com o objetivo de tomar as terras, onde depois passara a morar um sobrinho do agiota alemão.

Órfãos e sem um tostão, Martin e Anton, um com 18 anos e outro com 16, haviam sido obrigados a levar uma vida errante. Destacandose pela rara beleza e pelo físico privilegiado, Anton abraçara o ofício de "soldado mercenário", guerreando em muitos lugares, inicialmente na pátria e depois até na Itália, no exército do conde de Mantuá. Todavia, apesar de todas as mudanças de sua vida agitada, dois sentimentos haviam permanecido guardados em sua alma: o amor à pátria e uma fervorosa e insuperável repugnância por tudo o que fosse alemão. O acaso levara-o ao conde Valdstein, que lhe oferecera o lugar de mestre-de-armas; esse honroso e bem-remunerado cargo agradara a Broda. Durante a longa estada do conde em Praga, Broda tornara-se um assíduo ouvinte dos sermões de Mathias de Janow. Como, no entender de Broda, o alemão e o catolicismo eram coisas inseparáveis — e por isso odiadas -, ele tornara-se um fervoroso defensor da Reforma. Des-

Ovelhas gafadas: doentes, contaminadas - Nota da editora. pertara nele a antiga forma de religião, levando-o de corpo e alma ao rito grego dos seus antepassados, cujos adeptos continuavam a existir

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.