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Capítulo 36 de 51

Parte 36 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

No dia 26 de março, uma segunda-feira, o velho conde Valdstein, junto com a nora e o seu cortejo, chegou a Constança. Apesar de ser a semana da Paixão (antes da Páscoa), as ruas estavam apinhadas de gente e no ar havia uma inimaginável gritaria e muito barulho. Rugena, que cavalgava ao lado do conde, não sabia para onde olhar, pois tudo à sua volta era colorido, novo e fervilhante de vida e movimento. Para chegar até a casa de sua parenta, era preciso passar por toda a cidade. Eles tiveram que parar a cada passo, para atravessar pelas multidões que se reuniam em volta de algum mercador, cantor de rua etc., ou fechar fileiras e dar passagem a pomposos cortejos de prelados em magníficas vestes, montando cavalos luxuosamente equipados e que olhavam com indiferença as pessoas que os cercavam. Grupos de soldados dos mais diferentes tipos andavam por todos os lados: os italianos, morenos com olhos flamejantes, os arrogantes e volumosos ingleses, os magros e elegantes franceses que exageravam na rebuscada moda da época, os robustos eslavos com olhar de inocência infantil.

Tudo reunido, como num caleidoscópio que atrapalhava a visão e fazia a cabeça girar. Num certo momento, eles tiveram que fazer um contorno para evitar passar perto de uma briga de rua: os servos de um dos emissários poloneses desentendiam-se com o séquito de um cavaleiro teutônico. Finalmente, conseguiram chegar até a casa de Brigitte von- Laufenstein, viúva de um nobre alemão; ela recebeu amavelmente os parentes tchecos e separou-lhes um grande e confortável recinto, um verdadeiro achado naquela confusão. Rugena conquistou imediatamente o coração da velhinha, que prometeu mostrar à jovem condessa todas as curiosidades da cidade, começando pelo imperador e pela imperatriz, graças aos seus contatos na corte. - Se vocês tivessem chegado um pouco antes, teriam visto o Papa. Mas, imaginem só, ele desapareceu na semana passada e isso agitou toda a cidade! - contava Brigitte, com ar preocupado. - Na manhã seguinte, quando a notícia de sua fuga espalhou-se, todos perderam a cabeça: os mercadores começaram a fechar suas barracas, os carregadores esconderam-se, temendo assaltos. Realmente, o povo atirou-se sobre muitas casas abandonadas pelos prelados que seguiram o Papa, saqueando-as.

O burgomestre até convocou os cidadãos para pegarem em armas. Parecia o dia do Juízo Final! - E ninguém sabe onde se escondeu o papa? - Perguntou o conde. - Supõe-se que foi em Shafhausen. Meu Deus! Quem poderia imaginar que o caso chegaria a tal ponto, quando Sua Santidade chegou triunfalmente à cidade, cercado de cardeais, bispos e pomposo séquito? - Observou a velhinha, com tristeza. - Mas imagino que a chegada do imperador não tenha sido menos triunfal... - Inquiriu Rugena. - Ah, sim! Aquela foi uma visão inigualável - Disse Brigitte, entusiasmada. - Fiquei a noite inteira na rua e até me resfriei, mas não lamento nem um pouco as três semanas que passei na cama. Aconteceu, querida condessa, que o imperador chegou à noite, no dia 25 de dezembro. A cidade não dormia, aguardando-o. Então, tantas tochas, tantos barris com piche foram acesos, e tantos fogos foram queimados, que tudo ficou claro como dia. O imperador vinha a cavalo sob um baldaquim de tecido de ouro levado por quatro senadores da cidade; ele estava magnífico e respondia amavelmente às alegres saudações do povo.

Debaixo de outro baldaquim vinha a imperatriz Bárbara, toda envolta em pele de arminho. Atrás deles seguiam príncipes, cavaleiros e damas nobres, numa fileira interminável. A grande quantidade de ouro, tecidos brilhantes e pedras preciosas fazia a vista doer. Mas o que aconteceu depois sob a abóbada do templo foi, pode-se dizer assim, ainda mais grandioso! Com a ajuda de um canônico amigo meu, arrumei um ótimo lugar de onde assisti a tudo. Dentro da catedral tudo estava iluminado! Construíram um magnífico trono para o imperador! O próprio Papa rezou três missas, e Sigis-mundo - com a coroa na cabeça - fez a vez de diácono. Vocês nem podem imaginar a impressão que aquela grandiosa cerimônia causou no púbico presente.

O Santo Padre parecia também estar nervoso: quando o imperador começou a ler as palavras do Evangelho: "Naquele tempo, veio a ordem de César Augusto..." -, todos perceberam que a mão do Papa tremeu, ele corou e empalideceu. - Isso significa que ele pressentiu a aproximação do castigo celestial e temia que o imperador o obrigasse a renunciar ao trono. - Respondeu, sorrindo, o conde Hinek. - Acho que não! Depois da missa, o próprio Papa colocou uma espada na cintura do imperador, entregando-lhe simbolicamente uma arma para a defesa do concilio, e, enquanto isso, Sigismundo mostrava por ele um grande respeito. - E o que isso prova? Que duas raposas tentavam enganar uma à outra! - Continuou o conde, em tom de zombaria. Deixando as damas conversando, ele dirigiu-se à casa do barão Jan de Khlum. O valoroso cavaleiro Jan, corajoso e incansável defensor de Huss, estava sentado em seu quarto escrevendo uma carta aos senhores da Morávia, na qual protestava contra a prisão de Huss apesar do seu salvo-conduto. A inesperada chegada do velho amigo alegrou o barão.

Ele imediatamente deixou a pena de lado, abraçou o conde e ordenou que trouxessem vinho. A conversa começou pelas questões mais pungentes do momento: a prisão de Huss e a fuga do Papa... Para eles, tchecos e fiéis partidários de Huss e da Reforma na Igreja, a primeira questão era a mais importante e Jan de Khlum, com compreensível indignação, contou os detalhes da prisão do amigo. - Entende, senhor Hinek, que fiquei fora de mim e não poupei expressões, declarando abertamente a eles tudo o que pensava dessa armadilha preparada? Depois fui ao Papa e tentei convencê-lo a manter a sua promessa de defender Huss. "O que você quer de mim?", respondeu-me ele, dando de ombros. "Ele está sendo acusado por seus compatriotas!".

Depois, indicando com os olhos os cardeais e bispos, acrescentou, baixinho: "Será que não percebe que eu também estou sendo preso por eles?". - Pelo menos, ele confessou o seu pérfido plano de entregar uma inocente vítima ao clero, imaginando que com a captura de Huss atrairia os "padrecos" para o seu lado. - Observou, enojado, Valdstein. - Dessa vez sua traição não trouxe lucros; mas, para o infeliz mestre Jan, as conseqüências foram desastrosas! Ele caiu indefeso nas mãos de seus piores inimigos e estes o trataram da forma mais revoltante! Jogaram-no na prisão do mosteiro dominicano: uma cova malcheirosa, ao lado do esgoto, que realmente pode ser chamada in pace. As paredes estão inteiramente úmidas e Jan adoeceu gravemente. Mesmo assim, esses bárbaros continuaram a torturá-lo com interrogatórios, na esperança de que o moribundo caísse em contradição. - E o Sigismundo? O que ele disse contra tão insolente ofensa ao seu próprio salvo-conduto? -No início, pareceu ficar indignado e ouviu com benevolência o nosso protesto.

Depois, desde que aqui chegou, aparentemente mudou de opinião e não deu um passo para libertar o infeliz que acreditou em sua palavra imperial... Só Deus sabe o que vai acontecer com o concilio depois dessa fuga do Papa! - João XXIII deve ter colaboradores poderosos, senão não ousaria agir assim. - Sem dúvida! Todos acham que esse colaborador é o duque da Áustria, cuja proteção o Papa comprou. Para facilitar sua fuga, o duque Friedrich organizou um grande torneio. Enquanto toda a cidade se distraía com isso, Cossa fugiu disfarçado e conseguiu chegar a Shafhausen, que pertence ao duque. Agora que está livre e dono da situação, ele dará muito trabalho a Sigismundo. Os amigos conversaram por longo tempo, pois as divergências religiosas e políticas preocupavam a ambos. Por fim, o assunto passou para as coisas familiares e Valdstein lembrou-lhe de que viera junto com a nora. - Aliás, você sabe que aqui também se encontra o seu ex-protegido Svetomir Kryjanov? - Perguntou o barão. - Verdade?

Como ele veio parar aqui? - Ele está no séquito do senhor Zavicha, representante do rei Jagellon; já conversei várias vezes com ele. Quer que mande algum de meus homens informá-lo de sua chegada? - Eu ficaria muito agradecido! Para Rugena será uma grande alegria rever o seu amigo de infância. No dia seguinte, a condessa estava terminando de se vestir para dar um passeio com Túlia, sob a proteção de Broda, quando chegou o sorridente Svetomir. Rugena, achando que ele estava em Cracóvia, ficou muito feliz em vê-lo e adiou o passeio. Eles começaram a falar sobre a viagem e o concilio. Rugena estava admirada com a animação reinante na cidade e falava do seu espanto diante da mistura de raças e trajes estrangeiros reunidos em Constança. - É claro que por aqui há agora muitas curiosidades, e se você me permitir acompanhá-la, terei prazer em mostrar-lhe tudo, começando pela saída do séquito imperial para a missa no templo. - Aceito, agradecida, a sua proposta.

Ainda mais que, com essa confusão nas ruas, será mais agradável estar acompanhada de um cavaleiro, pois se pode cair, sem querer, no meio de uma briga... - E ela contou como, ao chegarem, eles haviam tido que dar uma grande volta por causa de uma briga entre poloneses e teutônicos. - Ouvi falar dessa história. Um polonês e dois alemães saíram feridos... - Que controle eficiente que existe aqui! Vocês ficam sabendo de qualquer briga! - Observou Rugena, rindo. - O controle não é tão bom como parece. Na briga de ontem participaram os homens do castelão do senhor de Kalich, Ganush Tulikovsky. Ele próprio contou sobre o ocorrido à noite na casa do senhor Zavish. Mas tudo isso é bobagem e aqui acontecem coisas bem mais interessantes... - Riu Svetomir. - Num banquete, os arcebispos de Pisa e de Maints divergiram nas opiniões. A conversa engrossou, eles passaram a ofender um ao outro e chegaram à luta corporal. Os respeitáveis pastores da Igreja não tinham armas e, agarrados pelos cabelos, rolaram para debaixo da mesa, um tentando estrangular o outro.

Muitos dos padres presentes ficaram assustados e pularam pela janela. - O espetáculo deve ter sido muito instrutivo... - Disse Rugena, às gargalhadas. Depois, fizeram uma lista de tudo o que desejavam ver - inclusive a sacristia da catedral onde eram guardados muitos tesouros da vizinhança de Constança e a igreja da velha abadia beneditina com a cripta do imperador Carlos, o Gordo. Ana, que estava presente à conversa, observou que gostaria de participar da visita aos mosteiros e lugares santos, mas se negou terminantemente a ver artistas mambembes, equilibristas e outros. - A pobre Ana ainda não adquiriu a paz de espírito. Seu coração continua a doer como antes. - Observou Svetomir, com tristeza, quando Ana saiu do quarto. - Infelizmente. Parece que o seu mal é incurável. - Suspirou Rugena. - Às vezes ela fica tão estranha que me deixa assustada. - O que acontece com ela? - Ela, por exemplo, fica por horas sentada olhando para o vazio, sem perceber nada do que acontece à sua volta. Ou, de repente, começa a falar coisas que ninguém saberia, como se fosse bruxa.

Quando estávamos em casa e nem imaginávamos a possibilidade de prisão de Jan, de repente, ela disse com expressão estranha: "Recebeu alguma notícia de Huss?". "Não", respondi, "mas a julgar por sua última carta, podemos esperar que tudo irá terminar bem". "Mas eu o vi numa cela escura, úmida e malcheirosa e me pareceu que era uma prisão". Na época, pensei que ela havia sonhado com isso, pois pela sua atração fanática por Huss, ela pensa nele constantemente. Ontem, o tio Hinek confirmou que o mestre Jan foi preso num buraco podre, onde adoeceu. Isso me fez ficar assustada com Ana. - Pelo amor de Deus, Rugena, instrua-a para ficar calada sobre essas coisas, senão pode ser presa como bruxa. - Observou Svetomir, persignando-se. Após alguns segundos em silêncio, acrescentou: - Ainda bem que vocês não chegaram antes, senão poderiam topar com Brancassis, e então Ana perderia completamente a cabeça. - Deus do céu! Brancassis está por aqui? - Perguntou a con-dessa, horrorizada e empalidecendo. - Ele esteve aqui, acompanhando o Papa.

Três dias após a fuga de Cossa, ele foi embora de Constança e agora deve estar com o Papa em Shafhausen. - Graças a Deus esse monstro não está aqui... - Suspirou Rugena, aliviada. - Oh, mas como minhas mãos cocavam toda vez que o via! Estou pronto a sacrificar um olho só para ter a oportunidade de enfiar um punhal em sua garganta! - Resmungou Svetomir, cerrando os punhos. A conversa foi interrompida pela chegada do conde Hinek, visivelmente irritado com algo. - Imaginem o que eu fiquei sabendo: Huss não está mais em Constança! - Disse ele, jogando-se no sofá. - Foi libertado? Fugiu? - Perguntaram juntos Rugena e Svetomir. - Libertado? Acreditam que essas sanguessugas libertarão a vítima que perseguiram por tanto tempo? - Respondeu o conde, com raiva. - Não! Aconteceu o seguinte: após a fuga do Papa, Huss estava em poder do imperador e Khlum e todos os outros amigos do padre Jan queriam aproveitar aquela situação para libertá-lo.

De repente, o esperto Sigismundo colocou o infeliz à disposição do bispo de Constança - inimigo pessoal de Huss -, que, naturalmente, não o perdoou pela acusação direta que sofreu outrora. Esta noite Otton von-Khokhberg transferiu-o para o seu castelo Gottliben, sob a guarda de 170 soldados. Só isso já comprova que eles ainda temem o pobre e humilde sacerdote, armado unicamente com a sua bondade e a palavra divina. - Meu Deus! Agora não será possível nem vê-lo nem ajudá-lo! - Observou Svetomir, num tom de tristeza. - Então você visitava Huss na prisão? - Perguntou Rugena. - Mas é claro! Eu e outros amigos estivemos com ele, graças à colaboração dos carcereiros, que gostavam muito do humilde e paciente prisioneiro. Um deles, Robert, e sua esposa - ambos ótimas pessoas - faziam o que podiam por ele. - E eles tinham que levá-lo justamente quando chegamos aqui?! - Disse Rugena, começando a chorar.

Capítulo III

Numa das ruas distantes do centro da cidade, havia uma ampla casa, cercada de dois lados por um jardim, com o terceiro lado saindo para um beco sem saída que a separava das casas vizinhas. A casa parecia vazia, um verdadeiro milagre naquele tempo, quando cada quartinho em Constança custava uma fábula e os moradores ou abandonavam a cidade, ou passavam a morar no trabalho alugando suas casas aos ricos estrangeiros provenientes de todos os cantos do mundo. Mas a casa parecia vazia só externamente. Num dos quartos, cujas janelas saíam para o jardim, um homem andava de um canto a outro, agitado. Seu rosto demonstrava preocupação, a testa apresentava profundas rugas e, esporadicamente, um forte palavrão italiano escapava-lhe da boca. Esse homem era Brancassis, que todos pensavam ter viajado atrás do papa João XXIII, mas que voltara às escondidas para essa casa que já ocupara anteriormente. Voltara com a intenção de manter contato com diversos prelados que haviam permanecido fiéis ao papa fugitivo e, por meio deles, descobrir a disposição do concilio e do imperador. Depois, se surgisse a oportunidade, salvaria a tiara papal para o tio a preço de ouro e outras tramóias. Entretanto, os cálculos do Papa e seu enviado não se confirmaram. Apesar de algumas artimanhas de sucesso do esperto Tomasso Brancassis -como, por exemplo, a ameaça da

nacionalidade italiana de deixar Constança e não participar do concilio - e apesar da carta do Papa, escrita de próprio punho, ao rei da França, o jogo de João XXIII estava definitivamente perdido. Nos últimos dois anos Brancassis mudara muito: envelhecera e ficara obeso; a cor do seu rosto ficara amarelada e até cinzenta; seus olhos haviam-se tornado fundos e olhavam ferozmente de dentro das profundas órbitas. O terrível golpe de Broda não o matara, mas deixara em seu organismo profundos sinais que se haviam feito sentir durante a viagem a Constança. Uma insuportável dor nas costas obrigara-o até a usar liteira no caminho. Essa viagem fora muito triste. Baltazar Cossa (João XXIII) fora para o concilio, guardando um impotente rancor, e pressentindo que seu terrível protetor, Sigismundo, insistiria em levá-lo à morte. A tiara papal não alterara a vivacidade, a crueldade e a rebeldia do antigo bandido; seus insucessos, ele descontava nos subordinados, maldizendo as estradas ruins, o clima severo e o cansaço da difícil e longa viagem. Perto de Arlsberg, a carruagem inclinara-se de repente e Cossa caíra na neve.

Naquele momento havia muita gente na estrada, multidões se juntavam para ver o Papa. Sem dar importância à má impressão que poderia causar seu comportamento sobre aquelas pessoas, Sua Santidade explodira em maldições e palavrões e, ao criado que correra para saber se ele havia-se machucado, o Papa vociferara: - Jaceo hic in nomine diabolil Ele considerara a própria queda como um presságio de mau agouro. - Eis a armadilha para capturar raposas! - Dissera ele a Brancassis, apontando a cidade que já aparecia ao longe. Esse acidente veio à mente do cardeal. O presságio cumprira-se literalmente. As notícias que Brancassis recebera preocupavam-no demais.

113 O concilio dividia-se em quatro nacionalidades: italiana, francesa, alemã e tcheca - Nota do autor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.