Voltar ao livro Os Luminares Tchecos

Capítulo 37 de 51

Parte 37 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Todos as suas cartas haviam sido batidas no confronto com a energia demonstrada pelo imperador. No dia seguinte ao desaparecimento de Cossa, Sigismundo passara por toda a cidade precedido por arautos e corneteiros, anunciando a todos que a fuga do Papa não interromperia a ação do concilio. Naquela manhã, Brancassis soubera que já estava pronto um respeitável exército para a deposição do duque da Áustria - declarado traidor do império e do concilio - e para a captura de Cossa à força, para ser julgado como pirata e criminoso, culpado de simonia e devassidão... Uma leve batida na porta afastou o cardeal de seus terríveis pensamentos. No quarto entrou um monge e retirou o capuz que cobria sua cabeça. - Trouxe uma notícia inesperada, reverendíssimo. - Disse ele. - O conde Valdstein chegou à cidade acompanhado pela condessa Rugena! Brancassis estremeceu. - Você não se enganou, Hilário? Vok e a esposa estão em Constança? -Não Vok, mas o conde Hinek. Com ele vieram a jovem condessa, Ana de Trotsnov, Túlia, Broda, ou seja, todo aquele maldito bando!

À medida que ia ouvindo aqueles nomes, Brancassis ia ficando rubro e em seus olhos negros acendia-se uma feroz fagulha. - Per Bacco! Que notícia valiosa, Hilário! Devemos pensar um pouco para proporcionar uma recepção condizente às amáveis moças e ao corajoso Broda. Conte-me em detalhes tudo o que soube a respeito deles; mas, primeiro, ordene ao Januário que me sirva uma caneca de vinho - estou cansado e a minha cabeça hoje está pesada. Dez minutos depois, um velho monge de barba grisalha trouxe vinho, duas taças e uma torta de frango. Brancassis sentou-se e indicou uma cadeira desmontável a Hilário, que se tornara seu secretário depois da morte do valoroso Bonaventura. - Agora, conte-me tudo! - Disse o cardeal, enchendo com vinho as duas taças. - Não omita nenhum detalhe, pois cada um deles pode ser importante para mim. - Depois de entregar sua mensagem ao reverendo secretário do cardeal Ursino, eu voltava pela praça da igreja.

De repente, vi diante da entrada da sacristia alguns cavalos de montaria ricamente enfeitados e seguros por pajens; num deles reconheci imediatamente laromir, o pajem preferido da condessa Rugena. Colocando o capuz sobre o rosto, fiquei observando-os de longe. Depois de algum tempo apareceu a condessa Valdstein de braço dado com um senhor polonês e atrás deles saíram Ana, toda de preto... Ele foi interrompido pela louca gargalhada de Brancassis. - Mas como? A minha viúva ainda está de luto? — Sim! Está tão magra e mudada que mal a reconheci. Mas Túlia, pelo contrário, desabrochou como uma rosa e está mais bonita do que nunca. - Ah, maldita delatora! Agora pagará caro por suas proezas! Ela está vindo direto para as minhas mãos! - Resmungou por entre os dentes Brancassis, cerrando os punhos. - O último a sair foi Broda. - Continuou Hilário. - Eles montaram os cavalos, saíram devagar e eu os segui de longe. Ao ver que eles entravam no quintal de uma casa, decidi saber se haviam ido visitar alguém ou se moravam lá.

Para isso entrei numa taberna próxima e, depois de uma caneca de vinho, descobri que a casa pertence à velha senhora Laufenstein, que é parente dos Valdstein, e que agora o conde Hinek e a sua nora estão hospedados lá. - Obrigado, Hilário, por todas essas informações. Mas para mim isso ainda é pouco e precisaria saber mais: quanto tempo irão ficar aqui, onde costumam ir, a que horas saem de casa e retornam - em suma, descobrir tudo o que se refere a eles. Depois, deveremos tentar estabelecer relações com alguém da casa. Hilário empalideceu. - Mas, como? O senhor quer tentar de novo... chegar até Rugena? Brancassis mediu-o com um olhar de desprezo. -Você é curioso demais, meu amiguinho! Quando ordeno alguma coisa, você deve cumpri-la sem pensar, che diavolo\ Tenho a impressão de que pago generosamente por sua velha pele e para que você possa arriscá-la por mim! Mas sei há muito tempo que você só é corajoso quando pode torturar um fraco ou enganar um bobo impunemente. Por isso vou deixá-lo em paz com a sua covardia. Se eu conseguir chegar até Rugena, não será em sua companhia.

Enfim, nem pretendo fazer isso: quero vingança e não amor. - Farei o possível para obter as informações que o senhor deseja. Acredite-me: não é covardia, mas o perigo que me ameaça é que me obriga a ser prudente. Isso porque, se alguém do séquito do conde me reconhecer, estou morto! - Respondeu Hilário, contraindo-se de medo. - Faça como quiser! Quero que, em três dias, me traga as informações de que preciso e que entre em contato com alguém da casa! - Respondeu Brancassis, dispensando seu secretário com um aceno de mão. Rugena - obviamente sem imaginar o perigo que a ameaçava e aos seus - estava absorta em outros assuntos. Dois acontecimentos inesperados haviam alterado sua tranqüilidade. O primeiro referia-se a Huss. Os senhores tchecos, indignados, haviam ficado sabendo de detalhes horríveis a respeito do tratamento que estava sendo dispensado ao infeliz: ele não somente estava preso numa torre isolada e algemado com correntes nos pés, mas, à noite, algemavam-lhe também as mãos e prendiam-no à parede.

Nada parecia justificar tanto rigor com relação ao prisioneiro, cuja bondade e cuja encantadora humildade haviam desarmado de tal modo seus carcereiros em Constança, que estes lhe haviam feito algumas concessões - deixando, inclusive, que amigos o visitassem. Agora, em Gottliben, Huss estava afastado do mundo, privado de qualquer ajuda humana e até religiosa, pois não lhe era permitido comungar. Os terríveis sofrimentos causados ao homem respeitado por todos entristeciam profundamente Rugena e Svetomir. Ana, surpreendentemente, não vertera uma única lágrima. Em compensação, algumas palavras que dissera sobre isso continham tanto ódio ao clero e ao concilio, tanto desprezo pelo imperador e por todos os traidores tchecos, que a condessa, assustada, convencera-a a calar-se para não atrair sobre si alguma desgraça. O segundo acontecimento que deixara Rugena preocupada dizia respeito a Jerônimo. Por ele, em seu coração escondia-se um sentimento muito particular: era dolorido e profundo, como um ferimento que se fechara externamente, mas que continuava a arder e vazar ao menor contato. Aquilo não lhe parecia amor no sentido comum dessa palavra.

Mesmo porque, a magnanimidade demonstrada por Vok quanto à sua confissão conquistara a amizade de Rugena. Ela estava profundamente agradecida ao marido por ele não ter procurado briga com Jerônimo, o que já era um grande feito para o ciumento, impulsivo e mimado conde. Tendo por base esse reconhecimento, nela desabrochara aos poucos um sentimento bom e caloroso por Vok. Jerônimo, entretanto, continuara sendo um ideal. Rugena preocupava-se com ele e rezava quando sentia que algum perigo o ameaçava - e, nesses momentos, a velha ferida se abria. Por isso ela ficara muito inquieta quando Jan de Khlum chegara, certa vez, emocionado, para falar com o conde Hinek e contara-lhe que encontrara na véspera o mestre Jerônimo, que viera a Constança na esperança de ajudar seu amigo a defender sua causa. Temendo o perigo que ameaçava Jerônimo, o barão Jan levara-o ao senhor Venceslau e eles mal haviam conseguido convencê-lo a sair rapidamente da cidade.

Jerônimo realmente saíra da cidade, mas só depois de pregar, naquela mesma manhã, nas portas das igrejas e da câmara municipal, uma declaração, na qual levava ao conhecimento de todos o objetivo de sua chegada e exigia do imperador e do concilio um verdadeiro salvo-conduto, para ter possibilidade de aparecer livremente diante deles. Jan de Khlum e outros senhores tchecos e morávios, que já não esperavam nem a verdade nem favores do concilio, não haviam aprovado aquela medida. Jerônimo, então, deixara Constança. Rugena pôde, assim, acalmarse um pouco.

Capítulo IV

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.