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Capítulo 49 de 51
Parte 49 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Não satisfeito com isso, o povo jogava no chão os corpos deformados e ensangüentados e matava impiedosamente os que ainda respiravam. A turba tratou Guints de modo especial e seu cadáver deformado logo se transformou num pedaço de carne sangrenta. Ana e Marga observavam com ansiedade a revolta que se desenrolava à sua frente. Ao verem os conselheiros sendo jogados pelas janelas, Marga caiu de joelhos, chorando e rezando. Ana não se moveu; ela não tirava seu brilhante olhar do cenário e somente o tique nervoso das finas narinas indicava sua emoção. O desfecho sangrento parecia não assustá-la - pelo contrário, provocava nela uma selvagem exaltação. Das casas e ruas corriam pessoas armadas; todas as igrejas da cidade começaram a tocar o alarme e os sinos dobravam em triste acompanhamento ao rugido do mar humano, cuja disposição era tão ameaçadora que Jan Jasan, que chegara com 300 cavaleiros para dispersar o levante, achou por bem bater em retirada.
Fortes pancadas na porta de entrada chamaram a atenção de Ana: ela debruçou-se na janela e viu um pequeno grupo de pessoas, entre as quais teve tempo de distinguir Vok e Broda, que seguravam um homem ensangüentado. - Trouxeram um ferido! - Gritou ela, correndo para baixo pela escada. Mas Marga chegou antes; a idéia de que o ferido podia ser Milota dera-lhe asas. O ferido era Matias, que foi deitado sobre um banco num quarto do andar térreo. - Ana, traga água! - Ordenou Zizka, que ajudou, com Kuss, Vok e Broda, a transportar o velho. Este tinha dois ferimentos profundos, um no lado do corpo e outro na cabeça. Examinando o ferimento, Zizka balançou a cabeça. - O velho está acabado. Aquele cão alemão feriu-o mortalmente. Nós deveríamos ter esperado para salvá-lo depois, quando tudo tivesse se acalmado. Acordado com água fria, Matias logo abriu os olhos e seu olhar turvo brilhou de alegria quando reconheceu os que o cercavam. - Estou morrendo... - sussurrou ele fracamente - mas morro feliz!
Meu bom senhor e você, Broda, não esqueceram do velho... libertaram-no e não o abandonaram em seus últimos momentos... Logo encontrarei a querida senhora condessa e seu pai... e lhes direi que a Boêmia está se levantando para... vingá-los dos malditos "padrecos"... Naquele instante, Matias percebeu Zizka, semicerrou os olhos e começou a olhá-lo fixamente. Algo estranho acontecia com ele. Levantou-se de repente, com inesperada força; seus olhos, agora bem abertos, estavam dirigidos para algo invisível aos presentes. - Tome da espada, Jan "Zizka" de Trotsnov... Deus o inspirará, dar-lhe-á sorte e fará de você um guerreiro invencível pela santa verdade, pela qual morreram Huss e Jerônimo. Coloque o cálice na sua bandeira e você nunca será derrotado! Como um flagelo de Deus, você cairá sobre os nossos inimigos... Glória e sucesso à nossa causa! Sua voz repentinamente se apagou. Esse esforço pareceu cortar sua última ligação com a vida. Matias desabou, seu corpo esticou-se e o braço levantado caiu inerte. Profundamente impressionados com o acontecido, os presentes ficaram um tempo em silêncio.
Zizka foi o primeiro a se recuperar. - Que se cumpram as palavras de Matias! Não por mim, pois não sou ambicioso nem anseio fama pessoal, mas pela nossa querida pátria, a quem desejo felicidade e liberdade. - Disse ele, com comoção, persignando-se. - Entretanto, para que os acontecimentos de hoje não passem em vão, não podemos ficar de braços cruzados! Deixemos as mulheres cuidando do bom velho e voltemos à prefeitura. É necessário dar um prosseguimento correto ao movimento popular e tomar medidas defensivas que nos permitam possuir a cidade. Assim que nos cercarmos, o rei perceberá o que lhe resta fazer. - Vou levar-lhe a notícia do que aconteceu aqui. - Disse Vok. Após rezarem em silêncio em volta do corpo, todos eles saíram. O castelo Ventselstein - a nova residência real - fora recentemente construído por Venceslau, perto do povoado de Kunratitska. Desde o momento em que Zizka colocara diante do rei um exército de praguenses armados, este deixara de se sentir seguro na capital. Agora - verão de 1419 -, Venceslau residia no novo castelo.
Sentado junto à janela e cercado por alguns favoritos, o rei ouvia a leitura de um livro sobre caçadas, sem prestar atenção. Seus olhos passeavam em volta distraidamente e com ar de insatisfação – ele, às vezes, abria-os por completo e ficava olhando estupidamente diante de si; outras vezes, semicerrava-os e mexia estranhamente com as sobrancelhas descabeladas. Sua mão apalpava nervosamente o cabo dourado do estilete que trazia à cintura. Venceslau chegara aos 60 anos. A vida turbulenta e o abuso do vinho haviam deixado marcas em sua face outrora bonita e atraente. Seu rosto definhara e sua cor tornara-se rubro-cinzenta; o lábio inferior caíra e os olhos - inchados e opacos de ancião, com a parte branca agora amarelada - enchiam-se de sangue à menor emoção; uma maldosa zombaria pronunciava-se em todos os seus traços. O caráter do rei mudara tanto quanto sua aparência. Sua benevolência - por vezes, maliciosa -, o sentimento da verdade, a alegria, a franqueza no falar e o gosto por histórias picantes haviam-se alterado para uma sombria desconfiança que freqüentemente se transformava em fúria.
Sua desconfiança, aliás, não poupava ninguém, nem mesmo sua submissa e religiosa esposa, a quem ele grosseiramente acusava de heresia e de agir em conjunto com seus inimigos. A rainha Sofia suportava sem rancor as atitudes do marido, sofrendo em silêncio. Somente a prece lhe dava forças para suportar até o fim o amargo destino. De manhã, acontecera uma triste cena, que magoara muito a rainha - ainda mais por ter sido presenciada por alguns cortesãos. Profundamente ofendida, Sofia retirara-se para seus aposentos e, engolindo as lágrimas, tentava distrair-se bordando uma toalha para o altar da capela do castelo. Com ela estava uma jovem dama da corte, sobrinha do senhor Vartenberg. Percebendo o estado de espírito da rainha, ela não se decidia a quebrar o silêncio e observava o que acontecia no pátio do castelo. - Majestade! - Exclamou ela, de repente. - O conde Valdstein acabou de chegar. Aparentemente, veio com muita pressa, pois está todo empoeirado e seu cavalo está coberto de espuma.
A rainha levantou a cabeça, olhou fixamente para a jovem e um triste sorriso passou por seus lábios. - Percebo, querida Maria, que a chegada do conde deixou-a muito emocionada. Talvez o motivo da pressa dele seja alguém que ele quer logo ver, alguém que lhe agrada e atrai em Ventselstein. A jovem corou e balançou negativamente a cabeça. - Não, não! Nada aqui atrai o conde Vok. Ele ainda não esqueceu sua falecida esposa. E, no momento, está com um ar sombrio e preocupado. Provavelmente esteja trazendo uma importante novidade. A rainha empalideceu. - Oh, meu Deus! Será que aconteceu algo em Praga? - Balbu-ciou ela, à meia-voz. - Isso irá novamente perturbar o rei, que está doente. O médico proibiu-lhe qualquer emoção! Depois de pensar por um momento, Sofia levantou-se e, segurando a ponta do seu longo vestido de veludo, dirigiu-se às pressas aos aposentos do marido. Maria seguiu-a como uma sombra. Sem entrar no quarto onde se encontrava o rei, a rainha parou atrás da cortina abaixada.
Um pajem interrompeu a leitura, informando que o conde Valdstein solicitava permissão para ver o rei imediatamente. - Que entre! - Ordenou Venceslau. - Ele já não é mais o Vok de antigamente, mas mesmo assim poderá nos divertir com algo e desanuviar este tédio mortal. Depois de alguns instantes, entrou o jovem Valdstein. Ao ver seu traje empoeirado e seu ar sombrio, o rei franziu o cenho. - Meu amigo, você está com uma triste aparência. Parece-me que, em vez de me divertir, ir£ somente me zangar! Mas o que quer que seja, diga logo as más notícias. Pelos seus trajes, concluo que se apressou muito para traze-las. - O senhor está absolutamente certo. O que devo informar a Vossa Majestade é muito triste... - Ah! Ah! Ah! - Riu, de repente, Venceslau. - Será que os praguenses elegeram Nikolai Huss para ser rei da Boêmia em meu lugar? Seus olhos em órbitas profundas acenderam-se de raiva. - Sua Majestade deve estar brincando! A idéia de tal eleição somente poderia originar-se da cabeça de algum delator excessivamente prestativo.
De qualquer modo, não seria eu a lhe trazer semelhante notícia. - Respondeu Vok, ficando levemente emburrado. - Que maravilha! Estou encantado com as provas de fidelidade de todos os que me cercam. E, como ainda sou rei, ordeno-lhe que me diga com o que me alegraram desta vez os meus fiéis praguenses... - Resmungou Venceslau, raivosamente. Com todo o respeito, mas não omitindo nem abrandando nada, Vok descreveu o terrível acontecimento de 30 de julho. À medida que ia contando, o rosto do rei ia ficando rubro-lilás, para surpresa e horror dos cortesãos presentes, também perplexos com a narrativa de Vok. Quando o conde contou sobre os conselheiros municipais que haviam sido jogados pelas janelas e mortos, a ira do rei explodiu. Ele estremeceu como em febre e seus olhos injetaram-se de sangue. - Ah! Esses patifes subversivos! - Rugiu, selvagemente, cerrando os punhos. - Eles ousaram me desobedecer e matar os conselheiros que eu próprio designei! Mas, desta vez, esses malditos revoltosos pagarão caro a sua insolência! Vou mostrar quem sou e arrancar-lhes para sempre a vontade de ignorar as minhas ordens!
Conheço os traiçoeiros mentores de todos esses assassinatos e confusões: lakubek, Jan de lessenits, Nikolai Huss, Jan de Geliv e outros cães sarnentos! A minha paciência finalmente esgotou! Vou acabar com esse ninho de hereges! Vou enforcar todos... Vou esquartejar... Empalar... Ele sufocava e não conseguia mais falar.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.