Voltar ao livro Os Luminares Tchecos

Capítulo 51 de 51

Parte 51 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Descera uma linda noite de julho, quente e perfumada. No véu negro do céu, luziam brilhantes estrelas e a lua cobria a terra com sua luz amena e sonolenta. O rio, coberto por reflexos prateados, serpenteava como uma larga faixa. Em suas duas margens, estendia-se uma grande cidade, com esguias construções de igrejas, campanários e torres, que encantavam pela beleza de sua arquitetura. Por entre belos prédios contemporâneos, apareciam antigas edificações, com paredes enegrecidas pelo tempo - grandiosos monumentos, cobertos de mistério e tradições, testemunhas de um passado glorioso ou sangrento, enfim, envoltos naquele encanto místico que somente séculos são capazes de proporcionar às frágeis obras humanas. Essa cidade é Praga tcheca, a beldade, a Praga Dourada. Ela cresceu e desenvolveu-se nas centenas de anos que se passaram desde que nela residiram e lutaram pela pátria e pela fé Huss e Jerônimo. Mas a alma da cidade não se alterou. Da mesma forma como nos tempos passados, aqui ainda bate o coração, trabalha a mente e ferve o gênio da velha terra tcheca. Mas nessa encantadora noite de verão, acontecia algo inusitado.

Nas alturas circundantes, estão acesos fogos; apesar da hora tardia, a cidade ferve de vida. E, até no ar, puro e translúcido, invisível ao olho humano, acontece algo misterioso. Sobre a terra voa vagarosamente um ser estranho, de contornos indistintos e nebulosos. Somente a cabeça parece viva, com grandes, sérios, profundos e indiferentes olhos; é uma cabeça de ancião - a julgar pelas rugas e pela amarga decepção que expressa sua boca de finos e apertados lábios; é uma cabeça de jovem - a julgar pela energia que emana dela, uma poderosa vivacidade e uma profunda consciência de sua força. Os cabelos branco-prateados da cabeça e da barba perdemse nas dobras do traje que o cobre como uma névoa, alongando-se para trás como um enorme lençol que cinge o horizonte e perde-se no infinito. Passando vagarosamente pelo ar, a visão atingiu a margem do rio e parou. Diante dela, descortinava-se uma parte de parede desmoronada, um resto mal perceptível de uma edificação outrora existente.

Sobre os escombros estava sentada uma maravilhosa e imponente mulher, de cabelos escuros e grandes olhos nos quais brilhavam a inteligência e a poderosa vontade. Ela vestia um alvíssimo traje; sobre sua cabeça, uma tiara dourada sustentava o véu transparente que a envolvia. - Saudações, senhor Tempo! - Disse ela, levantando os olhos ao ancião. - Há muito não via o seu rosto; somente sentia a sua passagem. - Eis que a encontro novamente em seu posto, minha pobre Liubu-

che! - Respondeu ele. - Quando, afinal, você irá descansar? - Como descansar, se o meu querido povo ainda sofre e luta? O

cruel inimigo mortal está cada vez mais insolente e ganancioso, querendo exterminá-lo, e estraçalha seu corpo com suas garras. - E você continua a chorar e a desesperar-se? A cabeça de Liubuche endireitou-se, orgulhosamente. - Pelo contrário! Rezo e espero, porque o meu povo é sábio e forte, paciente e insistente e não esquece o seu glorioso passado. Ela levantou o braço transparente e apontou para os fogos que ardiam nos morros. - Vê aquelas fogueiras? Elas foram acesas por tchecos fiéis à memória de Jan Huss e Jerônimo, em homenagem ao dia de sua horrível

128 Liubuche - conforme a tradição, princesa que fundou a primeira dinastia de Przemysl, os primeiros reis da Boêmia - Nota do tradutor. 129 Graves conflitos entre os tchecos e os alemães - "o cruel inimigo mortal" - voltaram a ocorrer no século XX. Este livro foi finalizado em 1912; dois anos depois - 1914 - estourou a Primeira Guerra. Mas foi principalmente sob a Alemanha expansionista de Hitler que os conflitos recrudesceram. Em 1938, os alemães ocuparam os Sudetos, região tcheca de população alemã, marcharam sobre Praga em março de 1939 e menos de seis meses depois iniciaram a Segunda Guerra Mundial. Praga só foi libertada em 1945 - Nota da editora.

morte. Hoje é dia 6 de julho, aniversário da vergonhosa condenação dos grandes mártires de Constança. O amor e a veneração de milhões de corações trazem para cá as almas de Huss e de seu amigo. Veja! Está vendo aqueles feixes de fagulhas que o vento leva para todos os lados? São as cinzas revividas dos dois mártires heróis! As fagulhas, impregnadas com seu pensamento, voam e caem como um vivo orvalho no coração do povo, acendendo nele um inextinguível amor à pátria e uma coragem que o faz invencível. Ao longe, ouviu-se um barulho surdo, que aumentou gradativamente e transformou-se no ruído confuso de uma multidão que se aproximava; em seguida, apareceram rápidas e inúmeras sombras. Sem dúvida, estava vindo um exército. Com passos pesados e medidos, ele se aproximava cada vez mais; agora, ouviam-se nitidamente o tilintar das armas e correntes, o rangido das rodas e o relin-char dos cavalos. Na frente ia um velho alto portando uma bandeira na qual brilhava um cálice de ouro.

Atrás dele seguiam guerreiros armados de lanças, foices, correntes e maças, machados, espadas e bestas; a maioria vestia roupas de camponês, mas os rostos severos transpareciam tal confiança no poderio de sua força indestrutível, tal desprezo pela morte e tão calorosa fé em sua santa causa, que qualquer obstáculo deveria cair diante deles. Como uma incontrolável força da natureza, devagar mas inexoravelmente seguia a avalanche humana. Atrás deles vinham as pesadas carroças, cobertas com ferro e equipadas com correntes -as ameaçadoras e móveis defesas dos exércitos hussitas. - Quem são esses guerreiros que saem das dobras do meu manto, onde descansa o passado de todos os povos? - Perguntou o Tempo. - São os intrépidos soldados de Zizka, que ele conduziu de vitória em vitória e que fizeram tremer os seus inimigos mortais. - Respondeu Liubuche, com orgulho. - Nesta noite sagrada, a velha terra tcheca revive, impregnada de sangue e semeada de ossos desses fortes que deram sua vida pela pátria e pelo cálice. Está ouvindo? Eles estão cantando a sua canção de guerra:

Não esqueçam o regulamento: Obedeçam ao seu chefe, Ajudem um ao outro, E mantenha-se no seu grupo! - Para onde estão indo? - Para o monte Blanik, perto de Tabor. Lá dorme Zizka, com seus comandantes. Ele aguarda a voz do povo, convocando-o para a batalha decisiva pelo destino de sua pátria. Eles estão indo acordá-lo: "Chegou a hora! Levante, Zizka! O hussismo ainda não disse a última palavra!"... Liubuche calou-se, acompanhando com os olhos as sombras dos guerreiros, e apurou os ouvidos. De longe se ouviam as palavras: Peguem em armas, Gritem: "Deus é nosso rei!", Abatam o inimigo sem piedade, Arrasem tudo!130 Em seguida, sua imagem começou a empalidecer e, finalmente, dissipou-se no ar, como uma leve névoa soprada ao vento...

São Petersburgo, 1912.

Fim

130 ' Canção de Zizka "Kdotjste Bozi Bojovnici" — Nota do autor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.