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Capítulo 2 de 51
Parte 2 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
As novas condições de vida, sociais, econômicas, urbanas principalmente, a partir do final do século XI, vão gerar, de forma mais marcante em meados do século XII, um certo "renascimento cultural", embora de proporções e conseqüências bem mais modestas que o afamado renascimento seiscentista. As maiores cidades têm universidades, intelectuais e um maior consumo de livros. O estudo volta a ser valorizado. Mas, importante não sairmos da realidade do mundo medieval. Tudo isso é muito circunscrito, passa ao longe dos camponeses, dos artesãos urbanos, mesmo da grande parte dos comerciantes e nobres. Ainda são poucos os que sabem ler, se tomarmos a sociedade medieval como um todo; o livro é ainda artesanal, ainda vive dos copistas, embora a quantidade de livros já fosse bem maior. O que não podemos perder de vista é que, na Idade Média, os destinos da sociedade civil e da sociedade eclesiástica estão estreitamente ligados. O intelectual, o filósofo, o teólogo, em sua maioria, são clérigos, ou aprenderam com estes.
Em todas as épocas, a vida religiosa e as manifestações de pensamento no domínio literário são diretamente influenciadas pelas estruturas sociais, pela evolução da economia e da sociedade, e as influenciam por sua vez. Era o clero quem dominava as escolas dos mosteiros, as escolas paroquiais e as universidades. A escolástica é a forma de pensamento que se impõe nesse período. Entre muitos outros, nos séculos XII e XIII destacam-se os nomes de São Tomás de Aquino e Alberto Magno, influenciados profundamente tanto pela herança de Santo Agostinho e São Jerônimo, entre os principais autores dos primeiros tempos do cristianismo, como pela influência grego-árabe. Basicamente, a escolástica é um método de estudo e de exposição. É fruto de um momento específico, de uma confluência histórica, e digere o passado da civilização ocidental. A Bíblia, os padres da Igreja, Platão, Aristóteles, os árabes - esses foram os dados de seu saber, os materiais de sua obra. Em meados do século XII e no século XIII, assistiu-se à propagação de um sentimento novo.
A partir do momento em que a cristandade tomou consciência de sua força, passou a ser tentador fundamentar a fé numa base racional mais vasta do que a de uma revelação. Esta foi, fundamentalmente, a grande tentação desse período: privilegiar a filosofia na leitura da palavra de Deus. É nesse contexto que se dá o trabalho dos grandes doutores do século XIII, destacando-se São Tomás de Aquino. A escolástica realista desse pequeno renascimento aceitou a leitura aristotélica do universo e cristianizou-a. São Tomás de Aquino não diminuiu a parte da revelação, mas a colocou no topo, como complemento e não em oposição ao sentimento racional. Pretendeu conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Os escolásticos chamavam a isso de razão teológica, isto é, razão iluminada pela fé. Apesar disso, o pensamento escolástico no seu próprio desenvolvimento, no final do século XIII, com a morte de São Tomás e em virtude de seu próprio aprofundamento, descobriu seus limites e suas fraquezas.
No domínio do pensamento manifesta-se desde então uma viva reação contra as teorias "tomistas", criticadas por uma fidelidade excessiva a Aristóteles. Os maiores críticos pautavam que a dogmática não se fundamenta na razão, cujo manuseamento Aristóteles ensina na sua "Lógica", mas sim na palavra de Deus confiada à Igreja. Segundo esses adversários, a filosofia dos "tomistas" atentava contra o essencial da revelação: a soberana liberdade e o poder absoluto do Deus cristão. A grande síntese reconciliadora pela qual São Tomás lutara encontrava-se combatida no final de sua vida. O pensamento do século XIV tornara-se mais cético, mais pessimista. É na morte de São Tomás de Aquino, na viragem da escolástica, que se situa a origem, o ponto de partida do que chamamos de Primeira Reforma. Se é válido periodizar por meio de datas, de rupturas, destacaríamos esse período de crise da cristandade entre 1274 - morte de São Tomás de Aquino - e 1517 - data em que Lutero fixa suas 95 teses na porta da igreja de Witenberg, como o período da Primeira Reforma.
A viragem da escolástica inicia-se com Duns Escoto (1266-1308). Ele propõe outra concepção de fé, um Deus mais livre, acessível não pelo raciocínio, mas por um impulso do homem, um ato de caridade, espiritual e não intelectual. Segundo ele, a religião não pode explicarse pela razão, como pretendiam até então os filósofos: é artigo de fé e de crença direta. Duns Escoto já é um homem do tempo da Reforma da Igreja. Mas é na primeira metade do século XIV, com Guilherme de Ockham, que muito influenciou John Wyclif e Jan Huss, que se deu a verdadeira viragem. O século XIV é um tempo de crise. Tempo de guerra, peste, fome, normalmente retratado como de uma atmosfera cinzenta, em que o divórcio entre a filosofia e a religião acabou levando ao misticismo. O pensamento escolástico tradicional do escol pensante da Igreja não respondia mais à necessidade daqueles novos tempos. Guilherme de Ockham, por sua vez, restringiu mais do que o seu predecessor o domínio da demonstração filosófica, acentuando a separação "iniciada" entre a filosofia e a teologia.
Para Ockham, nada devia existir entre o conhecido e o conhecedor. Não havia mediador entre Deus e a criação. Sua filosofia deixava o caminho livre a uma teologia limitada ao conteúdo objetivo da revelação. Ockham elaborou a personalidade do Deus do século XIV, ou seja, a personalidade do Deus do primeiro tempo da Reforma. O Deus de Ockham - Deus da tradição mais antiga e mais segura da Igreja - não é decididamente o Deus dos filósofos. O seu Deus é o Deus da Sagrada Escritura. Para ele, toda a revelação de Deus sobre si próprio - tudo o que a Igreja ensina sobre a salvação - está contida na Sagrada Escritura. Apesar da afirmação da autoridade da Escritura, para que a Escritura confiada à Igreja funcionasse como juiz prático da verdadeira Igreja, seria ainda necessário que à destruição da teologia natural se acrescentasse a diminuição do magistério, do poderio, da Igreja visível. A corrente que tende a reatar com o recurso direto à Escritura, como fonte de pensamento e de crítica, nasce mesmo com o Grande Cisma e com Wyclif. Culminará no século XVI, quando os teólogos da Reforma esforçam-se por estabelecer a autoridade global da Sagrada Escritura.
O tempo das Deformas Os séculos XIV e XV
O final da Idade Média é um período de transformações. Período obscuro, do qual a história guardou principalmente as catástrofes, os grandes conflitos políticos e espirituais. A interrupção do desenvolvimento demográfico - seguida de um grande refluxo agravado pelas fomes e pestes, entre as quais foi catastrófica a de 1348 - e as perturbações no suprimento de metais preciosos na economia ocidental - produzindo uma carência de prata e depois de ouro, tornada mais aguda pelas guerras (Guerra dos Cem Anos, Guerra das Duas Rosas, guerras ibéricas, guerras italianas) - aceleraram a transformação das estruturas políticas e socioeconômicas do Ocidente. O século XIV, especialmente, é conhecido pela união simultânea dos três grandes flageles da humanidade: fome, epidemia e guerra. No que diz respeito às mentalidades, apesar das fortes diferenças regionais, é uma época assolada pela psicose do medo. Nas cidades e nos campos, tanto os ataques da peste negra como as crises frumentárias eram encarados como castigos de Deus. O sentimento religioso evolui, e é freqüentemente angustiante em virtude da morte e dos infortúnios que rodeiam a todos.
Surge uma fé diferente, mais complexa que a dos séculos anteriores, mais pessoal, chegando ao misticismo. É a época em que as angústias e os males do tempo levam o homem a procurar uma religião mais humana, mais familiar, um Deus mais próximo. A sociedade religiosa do final da Idade Média - somos tentados a dizer: a sociedade da primeira fase informal do longo tempo solidário das Reformas - está profundamente desarticulada. Tanto no aspecto da religiosidade popular, do sentimento, quanto no aspecto político. As crises que sacudiram o topo da sociedade eclesiástica, no final do século XIV, também tiveram grandes repercussões no plano da sensibilidade e do pensamento. Isso porque, apesar de uma profunda dissociação aparente entre as diferentes camadas da piedade popular e a religião da elite, a religião popular aceitava, sem hesitação, a mediação eclesiástica da Igreja em relação a Deus. Era uma intermediação completamente aceita nas camadas populares, que representavam a grande maioria da população - quase 90% de analfabetos.
O fervor do batismo, o temor reverencial dos outros sacramentos, os gestos de imitação eucarística, tudo isso traduz uma forte impregnação de formas de pensar e agir próprias da cristandade. Apesar da sua relativa autonomia, a religião popular é cada vez mais dependente da religião elaborada dos clérigos. Nessa situação, tudo o que pudesse afetar a Igreja como instituição era particularmente grave. Se era posta em dúvida, a alternativa era avançar para o elo seguinte da cadeia das autoridades: o recurso direto à Sagrada Escritura.
A crise da cristandade O Grande Cisma
A Igreja Católica como instituição político-religiosa também entrara em crise a partir dos anos finais do século XIII. As disputas e os conflitos entre o papado e os estados acirravam-se. Ora um, ora outro grupo político ligado a determinado estado exercia um domínio sobre os rumos da Igreja. Jogar um adversário contra o outro de forma a buscar a melhor aliança era um hábito político corriqueiro dos papas. Logo no começo do século XIV, tivemos o episódio que foi batizado como "Cativeiro da Babilônia", em que o papado ficou sediado em Avignon, na França, não mais em Roma - daí o termo "cativeiro" inventado pelos romanos. A eleição do papa Clemente V, arcebispo francês, e a instalação do papado em Avignon por 69 anos (1309-1378) iniciaram um período de sérias dificuldades e discórdias. Esse papado de Avignon era aliado e submisso aos reis franceses, o que tornou os papas muito impopulares. Eles eram odiados pelos italianos, mais particularmente pelos romanos. Toda a cristandade condenava violentamente a submissão papal aos franceses.
Em 1377, o papa Gregório XI voltou a Roma, mas a situação acabou se complicando ainda mais. O Papa morreu seis meses depois e o povo romano aproveitou a oportunidade para forçar o colégio dos cardeais a eleger um papa italiano, o que acreditavam restabeleceria definitivamente o papado em Roma. Os cardeais elegeram o arcebispo de Bari, que recebeu o nome de Urbano VI, e fugiram assim que puderam, renegando a escolha forçada que haviam feito. Enquanto o Papa eleito permanecia em Roma amparado por um colégio de cardeais totalmente novo e escolhido por ele, os outros cardeais dissidentes reuniram-se e escolheram um novo Papa, mais do seu agrado. Com a eleição de Clemente VII como o Papa dos dissidentes iniciou-se o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), que separou toda a cristandade romana em duas obediências - papado de Avignon e papado romano - e arruinou o prestígio pontificai. De início, a crise no topo da estrutura eclesiástica desenvolveu-se num clima até favorável, reflexo das disputas políticas e econômicas que assolavam a Europa de então.
De um lado, o imperador alemão Carlos IV, a Inglaterra e uma parte da Itália urbanista opõem-se a Avignon, à França, à Escócia, à Espanha e a alguns outros aliados menores. As associações refletem as alianças políticas do momento. A Igreja como instituição estava doente; o impasse continuaria. Urbano VI morre e seus cardeais elegem Bonifácio IX (1389). Sobrevém a morte de Clemente VII (1394), e os cardeais deste último, reunidos na França, elegem, por sua vez, Benedito XIII. A triste verdade é que nenhum papa desse período, de ambas as facções, foi digno do cargo. Serão necessários vários anos para que, neste mundo lento, surjam condições para um retorno à unidade. As idéias para romper o impasse surgiram primeiramente fora das estruturas centralizadoras da Igreja. Justificando-se por meio de referências a princípios teológicos, passaram a circular propostas da convocação de um concílio-geral. Os partidários dessas idéias defendiam a tese de que a verdadeira autoridade da Igreja estava com o episcopado, como um organismo, e que os concílios-gerais estavam acima do Papa.
Respondendo a instâncias feitas pela Universidade de Paris, em 1409, um concílio foi convocado em Pisa. Uma parte dos cardeais de ambos os papas compareceu a esse concilio de Pisa, além de numerosos bispos e doutores em teologia. Os dois papas foram citados para que comparecessem e, como deixassem de fazê-lo, foram, à revelia, condenados por heresia. Os cardeais elegeram então um novo Papa, que recebeu o nome de Alexandre V. Entretanto, o apoio externo para o concilio não fora bemestruturado. Seus partidários haviam-se apressado e convocaram-no demasiado cedo. Nem o Papa de Roma nem o de Avignon haviam sido privados de obediência, enquanto se esboçava a obediência a um terceiro Papa. Essa primeira tentativa de um concílio "conciliatório" acabou resultando num retumbante fracasso. A Igreja passa a ter três cabeças. De 1409-1414 a Igreja passa do cisma ao caos. Toda a instituição parece desfazer-se no seu topo. O papa Alexandre V durou apenas dez meses e o partido de Pisa elege para seu sucessor Baldassare Cossa, que recebeu o nome de João XXIII.
Homem indigno de ocupar qualquer cargo eclesiástico, buscava recursos negociando indulgências pela Europa. Apesar do fracasso da via conciliatória em Pisa, será por meio de outro concilio que a Igreja sairá do impasse. Com a intervenção dos laicos e o apoio político e policial do imperador Sigismundo, outro concilio foi preparado com bastante antecedência e, dessa vez, com a articulação política necessária. O concilio de Constança- 1415-1417 -, convocado pelos laicos, organiza-se em nações. As decisões eram tomadas pelas nações que os compunham. Os cardeais não tinham nenhuma autoridade além da que possuía qualquer outro membro individual de seu país. Simultaneamente, afirma-se, na prática, superior ao Papa, depondo os três papas. A cristandade vive um pouco mais de dois anos sem Papa, com um singular governo de assembléia. O lugar estava livre para a designação de um papa, mas o partido imperial pretendia retirar vantagens da situação. Finalmente, após uma série de disputas internas, é indicado em 1417 o cardeal Colonna, proclamado Martinho V. Os últimos refratários fizeram voto de obediência e o cisma, aparentemente, resolveu-se. Contudo, esse mesmo concílio, que havia dado paradeiro ao cisma, tinha lançado as sementes da futura dissensão, a Reforma Luterana, que começaria exatos cem anos mais tarde, em 1517.
-John Wyclif- Profeta de uma nova era
A crise institucional da Igreja levantou uma série de interrogações sobre sua estrutura e seus fundamentos dogmáticos. Vistos dentro de uma perspectiva verdadeiramente vasta e integrante da história da Igreja, wyclifismo e hussismo são movimentos indissociáveis da crise que se revela no Grande Cisma do Ocidente. Devem ser compreendidos como expoentes principais da primeira fase da Reforma, dentro da linha de continuidade que os une a Lutero e Calvino. Com Wyclif e Jan Huss é ultrapassado um limiar na cadeia histórica da transmissão da revelação: o limiar do recurso direto, do recurso à autoridade da Sagrada Escritura, palavra de Deus. O pensamento de Wyclif não é fruto direto do cisma, mas este proporcionou um terreno favorável ao seu desenvolvimento. Nascido por volta de 1324, em pleno "Cativeiro da Babilônia", afirmara-se na Universidade de Oxford como um dos mais brilhantes canonistas do seu tempo. Wyclif foi um teólogo da Igreja - o primeiro teólogo da Igreja "protestante" seiscentista. Em poucos anos, grandes tratados.
Em seu tratado De civili domínio - 1377 - afirma veementemente que a Igreja não tem qualquer poder delegado - apenas verifica e proclama a ação de Deus. A ação da providência é sempre direta, ignorando a Igreja como instituição. A Igreja já não é encarada como a instituição, o canal de todas as mediações. O De civili domínio contém, potencialmente, toda a eclesiologia hussita e toda a eclesiologia protestante. O pensamento de Wyclif expressa-se também em outros dois brilhantes tratados: o De veritate Scripturae sancta e o De Ecclesia, os dois em 1378. À primeira vista, não havia nada mais tradicional e menos contestável do que a afirmação da verdade e da autoridade da Sagrada Escritura, palavra de Deus. Se isso, mesmo assim, surpreendeu, é porque foi expresso de forma mais autônoma, mais clara. Melhor ainda, ele descobre que a autoridade da Escritura pode combater a da Igreja. A Escritura foi, durante séculos, o postulado nunca desmentido de toda e qualquer construção teológica. A Igreja baseia sua autoridade e seu ensino na Sagrada Escritura, encarando-a como um ditado de Deus.
Wyclif propõe: Deus, a Escritura e só depois a Igreja. É o primeiro a propor, como alternativa, a autoridade da Escritura, juiz da Igreja. No espírito de Wyclif o cisma que se desenrolava era a maior manifestação da impossibilidade radical do poder divino delegado. Seus tratados propõem a Escritura em abordagem direta. As Escrituras são suficientes, são bastante claras; o comentário da Igreja e sua intermediação não são necessários. É por essa radical simplificação que, sem ter a clara consciência da inovação, Wyclif é revolucionário. É também nesse sentido - da Escritura oferecida a todos - que se compreende seu esforço na tradução da Bíblia para o inglês. John Wyclif é o primeiro artesão da sangrenta e profética ruptura da Igreja despedaçada, do século XIV. Ao contestar a transubstanciação, a missa, e toda e qualquer forma de expressar a presença real do corpo de Cristo na hóstia, traçou uma via anunciadora de perturbações e de rupturas. Foi ele quem inspirou a Jan Huss a sua eclesiologia, e a eclesiologia de Lutero é hussita.
Morreu tristemente abandonado, em 1384, sendo enterrado em terras da Igreja até sua condenação como herege pelo concilio de Constança, o que provocou a exumação e a dispersão das suas cinzas. Sua descendência deve ser procurada na Boêmia.
A Boêmia e o Império
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.