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Capítulo 42 de 51

Parte 42 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Na escura e úmida prisão do mosteiro franciscano, que estava destinado a abandonar somente na hora de ir para a morte, Huss lia o Evangelho, sob a fraca luz da lamparina a óleo - um luxo que o prisioneiro agradecia aos amigos. Estava muito magro; seu rosto encovado pela doença, pelas privações e pelos sofrimentos físicos e morais parecia de cera. Entretanto, nos grandes, tristes e sonhadores olhos ardia o mesmo orgulhoso e inquebrantável espírito. Ele não estava acorrentado à sua cama, como em Gottliben, mas tinha correntes nas mãos e nos pés. Finalmente, fechou o livro e, debruçando-se sobre a mesa, ficou pensativo. Naquele dia, ele passara terríveis momentos, e muitos sentimentos que considerava vencidos e extintos haviam despertado novamente e agora atormentavam sua alma. Durante os longos meses daquela agonia moral, todo o seu ser transformara-se completamente - purificara-se e inspirara-se; as fraquezas terrenas deixavam-no aos poucos; todo desejo humano desaparecia na extasiada fé em Deus, a Quem ele entregava sua vida e seu destino. Alguns dias antes, os bispos haviam-lhe perguntado se desejava confessar-se e ele aceitara com alegria a proposta.

Com a humildade e a bondade de verdadeiro cristão que o destacaram mesmo entre as gloriosas multidões de mártires de idéias, ele escolhera Estéfano Paletch para seu confessor. - É o meu pior inimigo. - Dissera Huss. - Quero confessar-me com ele. Até Paletch ficara comovido com a grandeza da alma de sua vítima. Inicialmente, ele rejeitara a pesada incumbência de perdoar os pecados do homem a quem ele próprio causava tanto mal. Depois, vencido talvez pela dor de consciência, acabara indo visitar o examigo na prisão com o objetivo de convencê-lo a renunciar. O encontro fora comovente. Huss pedira ao seu algoz que o perdoasse se diante do concilio escapara-lhe alguma palavra ofensiva; mas, aos argumentos de Paletch, respondera: - O que faria você se o obrigassem a renunciar a heresias que você nunca pregou? - Isso realmente seria difícil. - Respondera Paletch e caíra em prantos. - Como pôde você dizer que não creio em Deus - continuara Huss - e que desde o nascimento de Cristo não houve um herege mais perigoso do que eu?

Paletch tentara negar isso e, numa nova investida, implorara-lhe para que renunciasse a suas convicções. Huss negara-se terminantemente e acrescentara: - Por que você me fez tanto mal? Paletch fora embora, chorando. O prisioneiro ainda estava impressionado com aquela visita quando, depois do meio-dia, aparecera Miguel de Causis para ofendê-lo e, com maldosa alegria, informá-lo do próximo martírio. A amargura da desilusão com as pessoas, a amizade enganosa, a insatisfação com o imperador que, em vez da prometida proteção, incitara traiçoeiramente os juizes contra ele e a indignação pela injusta crueldade para com a sua pessoa - tudo isso abalara a resistente alma de Huss. Dentro dele tudo doía e tremia. Lamentava profundamente deixar a causa não levada a efeito, o fiel rebanho e a capela de Belém. Seu corpo estremecia diante do horror dos sofrimentos que o aguardavam... Eram momentos de luta do espírito perturbado e da fraqueza humana, que freqüentemente visitam os eleitos de Deus. Huss procurava em vão no Evangelho o apoio, a força e a tranqüilidade que estava acostumado a extrair de lá.

Tentou rezar, mas o ímpeto de extasiada renúncia a Terra e seus amargores não vinha. O barulho do trinco da porta da cela se abrindo interrompeu seus pensamentos. "Deve ser algum dos amigos vindo visitar-me, e o carcereiro vem me avisar", pensou Huss. Para sua surpresa, viu entrarem duas mulheres envoltas em capas. Uma delas segurava a outra que, visivelmente, não conseguia se sustentar em pé, e que depois caiu de joelhos diante de Huss e, com a mão trêmula, levantou o véu. - Rugena! - Escapou-lhe a exclamação de surpresa, na qual se percebiam alegria e tristeza. - Minhas caras crianças! Como lhes agradecer por não se terem esquecido deste pobre prisioneiro e por me alegrarem com este encontro? Nem tenho onde acomodá-las nesta pobre cela! - Para Rugena, que está doente, tem um lugar ao seu lado, padre Jan; quanto a mim, deixe-me ficar aos seus pés, onde me sentirei melhor do que em qualquer outro lugar... - Disse Ana, levantando a amiga e ajudando-a a sentar-se. A emoção enfraquecera tanto Rugena, que Huss teve que vir em seu auxílio e segurá-la.

Ela estremeceu ouvindo o tilintar de suas correntes. - O senhor está acorrentado, padre Jan? Mas que monstros! Como eles podem tratar assim a um santo e ao mais justo dos homens? Huss balançou a cabeça com desaprovação. - Não fale assim, minha filha, e não compare um grande pecador como eu com os eleitos de Deus! - Mas como? Que pecados o senhor tem e quando os cometeu? - Retrucou Rugena. Huss sorriu tristemente. - Todos os pecados humanos, minha filha! Na juventude, eu adorava a sociedade, trajes, jogos de xadrez, vanglorias sobre sucessos nas ciências, e tinha tendência para a irritação. Oh! A lista de meus enganos é muito longa e a provação que Deus me enviou é inteiramente merecida! - Mas o senhor já pagou tudo isso com seus sofrimentos! Ana, Svetomir e eu estamos planejando sua fuga, senão seus inimigos o matarão. Huss balançou a cabeça negativamente. - Agradeço a dedicação, meus filhos. Saibam que mesmo que as portas da prisão estivessem abertas - mesmo assim, eu não sairia enquanto não me justificasse diante de todos.

Nunca vou trair a verdade para salvar o meu desprezível corpo e não darei aos meus irmãos um mau exemplo fugindo diante do perigo. O que faria depois com a minha vida manchada, desonrada e inútil? - Mas eles irão entregá-lo a uma horrível morte! Todos o traem e perseguem! - Não agüentou Ana, com lágrimas nos olhos. - Sei que o imperador me condenou antes mesmo dos meus juizes! Mas, se a minha morte puder servir de exemplo aos irmãos, sacrificome de boa vontade. - Oh! Por que não existe a verdade no mundo? - Gemeu Rugena. - Será que, alguma vez, a calúnia e a mentira foram perseguidas? Que importância tem a minha morte se Jesus morreu na cruz? E quanto consolo me concede a misericórdia divina! Deus me apoia, enviame amigos que não se envergonham de nada - como, por exemplo, o senhor Jan de Khlum, que veio aqui apertar a mão do infeliz herege, abandonado e desprezado por todos. Hoje chegaram vocês...

Ele parou, percebendo que Kugena empalidecera e, sem torças, encostara a cabeça no seu ombro. Desde o primeiro olhar para a condessa Huss ficara impressionado com a terrível mudança que nela ocorrera - sua palidez mortal, o brilho febril dos olhos e aquele ar inexplicável de pessoa envolta pelo sopro da morte. Naquele instante, com os olhos fechados e a boca semi-aberta, Rugena parecia morta - mas estava linda como sempre, de uma beleza etérea e não terrena. - O malfeitor Brancassis a envenenou e agora nenhum remédio consegue ajudá-la... - Sussurrou apressadamente Ana, molhando a testa e as têmporas de Rugena com água da caneca. A condessa logo abriu os olhos e, encontrando o olhar de Huss, que refletia claramente preocupação e pena, caiu em prantos. - Padre Jan! - Exclamou ela, agarrando com ambas as mãos a mão de Huss - O senhor também percebeu que a minha morte está próxima? Sinto que ela já pôs a sua mão gélida sobre mim e tenho medo, tenho muito medo de morrer! Eu quero viver! O pranto abafou suas palavras.

A comiseração tomou conta do coração de Huss. - Não deve entregar-se a pensamentos negativos e achar que a sua fraqueza passageira é um prenuncio da morte, minha filha! -Disse ele, compadecido, inclinando-se para ela. - A juventude possui uma inesgotável reserva de forças e acredito firmemente que você irá se curar. Além disso, não se deve considerar a morte como um algoz. Ela é um bom gênio que vem do céu para saciar os sofrimentos e levar as nossas almas de volta à sua pátria celestial. A morte é terrível somente aos pecadores cuja alma, comprometida pelos tropeços, aparecerá envergonhada e nua diante do Tribunal Divino. A esses, os portões do paraíso estarão fechados enquanto não pagarem sua culpa com terríveis sofrimentos! Você é jovem, inocente, pura e acredita em Deus; então, não tem que temer o outro mundo onde na porta a estará aguardando seu querido pai. Reze somente com vontade e f é e o Senhor fará tudo para seu bem e sua felicidade.

Nesse instante, a porta entreabriu e ouviu-se a voz do carcereiro: - O tempo passou, caras senhoras! - Agora mesmo, bom Roberto, elas já irão sair. - Respondeu Huss, levantando-se. Virando-se para Ana, ele colocou a mão sobre sua cabeça. - Adeus, minha filha! Agradeço a sua dedicação, que me serve de doce consolo. Seja firme na vida e permaneça a amada irmã de Rugena. Ele inclinou-se para ela, abençoou-a e beijou-a na testa. Depois, virou-se para a condessa, que o olhava com lágrimas nos olhos. A amargura da despedida para todo o sempre pesava no coração de Rugena. O pensamento de que estava vendo pela última vez o olhar límpido e bondoso de Huss e de que nunca mais ouviria a voz do amigo tão querido - que desde a infância a apoiara e aconselhara nos momentos difíceis da vida - era insuportável para a jovem condessa. Era como se perdesse novamente um pai. Ela caiu em pranto convulsivo e, abraçando Huss, encostou a cabecinha de cabelos dourados em seu ombro. O coração de Huss bateu forte.

Ele também sofria com a despedida da única mulher que lhe inspirara um sentimento que, mesmo puro e desinteressado, o lembrava de que ele era um ser humano. Naquele instante, a Natureza, que controla os mundos e os seres, despertou dentro dele e suas pálidas faces cobriram-se com um leve rubor. O olhar de Huss descansava com amor em Rugena. Depois, num ímpeto, ele abraçou-a e, levantando a sua cabecinha, olhou-a longa e pensativamente, como se quisesse gravar seus traços para sempre na memória. A vontade férrea já vencera a momentânea fraqueza. Ele encostou os lábios trêmulos na testa de Rugena, recuou um passo para trás e levantou a mão como se a benzesse. - Agora, vão, minhas filhas! Deus as abençoará, apoiará e aconselhará. A pálida Ana, também mal se sustentando em pé, pegou Rugena pela mão e levou-a para fora da cela. Svetomir, preocupado com a longa demora de ambas, encontrou-as no corredor - e bem na hora, pois a condessa desmaiou e ele quase não teve tempo de segurá-la.

Quando a liteira tomou o caminho de volta, Ana inclinou-se para Rugena, que estava deitada, inerte. - Felizarda! - Murmurou ela, com lábios trêmulos. - O Criador a fez para ser amada por todos; até no coração dele você ocupou o primeiro lugar. Ficando só, Huss sentou-se no banco e tapou o rosto com as mãos; a emoção experimentada estava ainda viva dentro dele. - Homo sum. - Murmurou ele, numa mescla de tristeza e de enlevo. - Seria essa a última provação em vida - perguntava-se ele, involuntariamente - ou uma dádiva de Deus, que lhe enviara aquela mulher moribunda, colhida pela mão criminosa no auge de sua juventude e de sua beleza? - A dedicação que Rugena e Ana haviam demonstrado indo vê-lo na prisão era realmente uma dádiva celestial. A consciência de que tantos corações sofriam por ele servia-lhe de consolo. Deus, sem dúvida, perdoaria seus sentimentos por Rugena, desprovidos de qualquer sombra de egoísmo e envoltos em preocupações pelo bemestar dela.

Aos poucos, a calma retornava à sua sofrida alma; parecia-lhe que tinha sido cortada a última ligação com a Terra e que ele se livrava da carne e elevava-se nas iluminadas regiões do mundo do além. De repente, lembrou-se da maravilhosa visão que tivera na véspera do casamento de Rugena e cujo sentido tornava-se agora absolutamente claro. A furiosa multidão que fervilhava no abismo, arremessandolhe pedras e lama, eram os seus inimigos reunidos no concilio; a nuvem flamejante que o elevara era a chama da fogueira que talvez já no dia seguinte consumiria seu corpo. Sim, agora tudo estava claro: ele deveria marcar com o próprio sangue a verdade que pregava. Restavalhe somente pedir a Deus que o ajudasse nos sofrimentos que viriam. Então, ajoelhou-se e concentrou-se em fervorosa prece, que imperceptivelmente transformou-se em êxtase. Num impulso beatífico, sua alma elevou-se sobre a crosta terrestre e voou para as longínquas regiões onde reina eternamente a harmonia e onde as almas mergulham na própria fonte da inesgotável misericórdia divina.

Mas o corajoso vôo em direção ao Pai Celestial esgota o espírito humano enquanto sobre ele pesa o rude invólucro carnal e ele acaba caindo de uma altura acima das estrelas, debilitado pela tensão. Ao retornar ao mundo terreno, Huss sentiu ir-se apagando a luminosa claridade do outro mundo e à sua volta foram reaparecendo as paredes da prisão, restando somente a paz que o envolvera. Suspirando profundamente, ele endireitou-se e, tateando - pois a lâmpada já tinha apagado nesse ínterim -, arrastou-se até o seu catre. Repentinamente, sua atenção foi atraída por um leve crepitar e, surpreso, percebeu a alguns passos à sua frente uma nuvem esbranquiçada, crepitando em faíscas, que formava um redemoinho, aumentava e se espalhava, iluminando a cela com uma brilhante e azulada luz, preenchendo o ambiente com um sopro delicado e fresco. Sobre aquele fundo iluminado surgiu gradativamente a figura alta de um homem em trajes clericais bizantinos trazendo nas mãos uma cruz e um Evangelho. O rosto da aparição era solene e severo, mas seus olhos olhavam com brandura e amor. Toda a imagem era consistente e viva.

Esquecendo que o estranho poderia ser somente um visitante do outro mundo, Huss sussurrou: - Quem é você, respeitável ancião? Uma voz profunda, como se vinda de longe, ecoou: - Sou aquele que primeiro trouxe a luz divina do Evangelho à sua pátria e cujos restos descansam em Velegrad. Cada filho desta terra - que é minha filha espiritual - está em meu coração. A você, que está morrendo pela verdade e pela palavra de Deus, vim dizer: seja firme e não tema nem as desgraças terrenas nem os sofrimentos corporais. A passagem para a nova vida é dolorosa, mas curta; em compensação, o prêmio é doce. Minha presença e minha prece irão ajudá-lo. A visão começou a rarear e derreter, desaparecendo finalmente. Huss, entretanto, não viu como se apagou a luz e, em volta, restabeleceu-se a escuridão - ele orava com o rosto no chão, agradecendo a Deus e ao apóstolo de sua nação pela revelação recebida. Em sua alma não havia mais confusão nem medo; ele sentia-se animado e armado de coragem para a grande e última provação...

Capítulo VIII

No dia 6 de julho, um sábado, o povo se aglomerava desde a manhã em volta do templo de Constança. Ali, ocorreria uma solenidade por certo notável e que por isso reunia grande massa de curiosos - seria proferida a sentença de Huss. A espera justificou-se. Bispos e até simples prelados chegavam em luxuosos trajes; atrás deles, seguiam cardeais vestindo púrpura e montando cavalos ricamente enfeitados, cercados de cavaleiros, pajens e corte clerical. Seguiam-se depois representantes de diversos povos, príncipes, duques e outras personalidades. Por fim, chegou Sigismundo, acompanhado por altos funcionários do Império. O interior do templo tinha uma aparência solene. Sobre o trono elevado e portando a manta imperial, sentava Sigismundo. À sua volta

estavam em pé: o "curfiurista" Ludovico da Bavária - com a derjava na mão; o prefeito de Nuremberg, Frederico - com o ce-ro; o duque Henrique da Bavária - com a coroa; e um magnata húngaro - com a espada. A multidão de prelados, nobres e cavaleiros em roupagens pomposas e multicoloridas formava uma moldura brilhante e colorida em volta do trono. No centro do templo fora construído um palanque de madeira. Em cima dele, num poste, havia uma vestimenta sacerdotal completa. Durante a missa, os guardas trouxeram Huss, mas o mantiveram perto da entrada, para que a presença do "torpe" herege não contaminasse o sagrado ofício, ao fim do qual o bispo de Lodi subiu ao púlpito. Somente então fizeram o prisioneiro entrar e colocaram-no perto do palanque. Huss caiu de joelhos e rezou em silêncio durante o sermão que versava sobre as palavras do apóstolo Paulo "que se elimine o corpo pecaminoso" e que se destacava pela extraordinária crueldade. O orador convocava o imperador a terminar a sua missão e eliminar, sem piedade, a heresia e os hereges.

Depois desse discurso "puramente cristão", o bispo recitou a decisão do concilio convocado e inspirado pelo Espírito Santo - que obrigava a todos os presentes, sob pena de maldição e prisão, a não interromper o silêncio com quaisquer expressões de sentimentos, palavras, aplausos, ou qualquer outro movimento corporal. Em seguida, levantou-se Henrique Piron, o síndico do concilio, e exigiu, em nome deste, a condenação de Huss e seus ensinamentos. O infeliz acusado foi então conduzido para cima do palanque e colocado à vista de todos. Começou a leitura do ato de acusação, contendo os artigos criminosos de Wyclif ou outros, extraídos das obras de Huss,

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.