Voltar ao livro Os Luminares Tchecos

Capítulo 39 de 51

Parte 39 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

O fim de maio caiu num lindo dia. Chegando à casa dos Valdstein, Svetomir contou ter visitado na véspera uma adivinha, que não somente descrevera em detalhes o seu passado mas também lhe predissera um futuro brilhante. E começou a convencer as damas a ir consultá-la, oferecendo-se como acompanhante. A tristeza e a apatia de Rugena preocupavam Svetomir e ele inventara aquele passeio para distrair a condessa. Há dias ela não vinha se sentindo bem, queixando-se de tonturas e dor no peito. Na véspera da visita de Svetomir, após beber um copo de leite, ela vomitara e tivera um longo desmaio. A conselho de Túlia, o marido de sua amiga, um jovem médico italiano que fazia parte do séquito do cardeal Ursino, fora chamado. Depois de cuidadoso exame da paciente, Kosimo Benelli prescrevera-lhe um remédio que provocara mais vômitos, após o que a condessa adormecera. No dia seguinte, Rugena parecia completamente recuperada e até recebeu amavelmente Svetomir. A vontade de entreabrir a cortina que oculta o futuro é inata no ser humano. Rugena estava disposta a ir e Túlia, italiana supersticiosa, mais ainda.

O ambiente feliz e tranqüilo de sua nova vida havia-lhe devolvido a juvenil alegria de viver e a proposta de Svetomir motivara-a a querer saber o que o destino lhe reservava. Rugena esperava saber o resultado dos processos de Huss e Jerônimo, e, com relação a si, se Deus lhe enviaria o filho que Vok tanto queria. A visita à adivinha ficou definitivamente acertada e todos começaram a se preparar, com exceção de Ana, que disse não ter futuro e por isso não ter nada para ser adivinhado. O conde, perguntado sobre isso, aprovou, rindo, a vontade dos jovens, com a condição de que Broda os acompanhasse, pois nas freqüentes desordens daqueles últimos tempos, duas espadas seriam melhores do que uma para defender as damas. O tempo estava bom e eles resolveram ir a pé, apesar de a adivinha morar em outro lado da cidade. Ninguém notou que, junto à saída da casa, dois monges observavam-nos insistentemente a uma certa distância. Somente Broda, que ia ao lado de Túlia e atrás da condessa e de Svetomir, percebeu-os e ficou vigiando.

Eles, entretanto, desapareceram na multidão e ele logo os esqueceu, pois monges das mais diversas ordens corriam por todos os cantos da cidade. O grupo já se aproximava do objetivo do passeio quando, de repente, do fim da rua à frente deles ouviu-se o ruído de uma multidão se aproximando e que lotou a rua em toda a sua largura. O povo cercava algo que estava difícil de enxergar e somente as lanças e bestas da guarda municipal brilhavam sobre as cabeças. Para evitar o empurra-empurra, Svetomir começou a procurar em volta um local para se abrigar e aguardar a passagem da multidão. Mas, naquele instante, das casas vizinhas começaram a sair pessoas atraídas pelo barulho e Rugena e ele foram imediatamente cercados pela massa excitada e curiosa. Inicialmente ambos ficaram prensados à parede, depois foram por acaso empurrados para a frente e viram-se na primeira fileira dos espectadores. Dali dava para ver soldados que cercavam uma carroça levando um homem amarrado e acorrentado. Svetomir empalideceu, reconhecendo Jerônimo no prisioneiro. Este parecia tranqüilo, seu pálido e orgulhoso rosto estava sombrio e concentrado.

Rugena também o reconheceu e, no primeiro momento, emudeceu, olhando-o com olhos arregalados; depois soltou um grito lancinante e caiu sem sentidos. Apesar do barulho, aquele grito cortante alcançou os ouvidos de Jerônimo, que olhou em sua direção e também reconheceu Rugena. Ele estremeceu, endireitou-se e suas correntes tilintaram; tentou pular para o chão, mas todos os seus esforços foram em vão. Sem nada conseguir, ele voltou a sentar-se e uma expressão de indignação, raiva e desespero desfigurou seu rosto. Com a ajuda de um cidadão prestativo e com grande dificuldade, Svetomir conseguiu atravessar a multidão e levar Rugena até os degraus da casa vizinha. A carroça com o prisioneiro já estava longe, mas a multidão que a acompanhava continuava a mover-se e lotar a estreita rua. De repente, o fluxo da massa parou, começou uma confusão e ouviram-se estridentes gritos de mulher e depois uma alta voz gritou: - Segurem, segurem-no! Então, tudo se misturou novamente, pois os que chegavam empurravam os que estavam à sua frente. Svetomir ficou alerta. Aquele grito poderoso parecia a voz de Broda.

Todavia, era impossível distinguir algo na multidão; as pessoas à sua volta estavam muito tensas, gritando e agitando os braços. À pergunta de Svetomir uma cidadã, pálida e emocionada, respondeu de passagem: - Mataram alguém. Naquele instante, abriu-se uma clareira na multidão e apareceram alguns homens carregando uma mulher que ele reconheceu com horror ser Túlia. Ela estava imóvel como morta e foi colocada no chão a alguns passos de Rugena, que ainda não tinha voltado a si. Svetomir ficou perdido sem saber o que fazer, não ousando deixar a condessa para chamar uma condução para Túlia. De repente, para sua grande felicidade, notou dois soldados poloneses do séquito do senhor Tarnovsky. Chamando-os, ele deixou-os guardando Rugena e, aproximando-se rapidamente do grupo de pessoas que comentavam o ocorrido, perguntou como tudo acontecera. - Vi tudo e, mesmo assim, não entendi nada! - Respondeu um dos cidadãos. - Ela estava próxima de mim e parecia querer sair do aperto da multidão, o que era difícil pois havia muita gente.

Eu estava um pouco mais adiante e não lhe prestava atenção, quando o meu vizinho me cutucou com o cotovelo e disse: "Veja! O monge quer levar consigo a sua amante. Como são insolentes esses homens de batina preta!". Olhei para trás e vi um monge arrastando uma bonita mulher enquanto outro companheiro seu ia abrindo caminho para ele na multidão. Inicialmente, a mulher ficou muda de susto ou de vergonha e não reagiu. Depois, passou a debater-se e gritou chamando pela ajuda de algum amigo, porque um soldado de meia-idade, mas ágil e forte como um touro, começou a tentar chegar até ela. Os monges também o perceberam; um disse algo para o outro em língua estrangeira; alguma coisa brilhou na mão desse outro e ambos desapareceram na multidão. A mulher ficou por instantes parada como se nada tivesse acontecido e, depois, abrindo os braços, caiu no chão. Nós nos aproximamos e vimos um punhal em seu peito. Então a trouxemos para cá, enquanto aquele soldado desapareceu junto com os monges! Svetomir inclinou-se e examinou Túlia.

Ele notou que o ferimento não era mortal mas de qualquer modo perigoso, pois o estilete penetrara até o cabo. O coração ainda batia fracamente e, se ela recuperasse os sentidos, talvez pudesse indicar o assassino. Avisando aos presentes que a vítima pertencia ao séquito da condessa Valdstein - que estava ao lado, desmaiada, com o susto do empurra-empurra da multidão -, Svetomir pediu ajuda para levar a ambas para casa e prometeu uma boa recompensa. O pedido teve rápida aceitação e um dos cidadãos ofereceu-se para chamar o médico Benelli. Naquele momento, a multidão praticamente havia-se dispersado e Rugena abriu os olhos. Para não assustá-la, Svetomir disse-lhe que Túlia perdera os sentidos em virtude do aperto da multidão e que ele já chamara o médico. A jovem condessa estava demasiadamente fraca para voltar a pé; para ela e Túlia foram providenciadas liteiras. O triste séquito seguiu seu caminho acompanhado por Svetomir, irritado com o desaparecimento de Broda. O médico chegou quase junto com eles.

Como Rugena estava caindo de fraqueza, Benelli mandou que a colocassem na cama avisando que iria examiná-la assim que fizesse o curativo na ferida. Túlia estava deitada e não recobrava os sentidos. Ana, pálida e emocionada, aplicava compressas de água em sua testa e em mãos. - Ela respira, senhor Benelli, mas continua sem sentidos. Temo despi-la, pois o traje grudou no ferimento. - Disse ela, cedendo seu lugar ao médico. Ele cortou cuidadosamente o corpete e, desnudando o peito da vítima, examinou-o. - O ferimento é mortal. Ela morrerá se retirarmos a arma. - Disse ele a Svetomir. - Mas não seria possível fazê-la voltar a si? Talvez ela nos diga algo que possa esclarecer esse estranho atentado. - Observou Svetomir, olhando com compaixão o rosto sem vida de Túlia. - Vou tentar! Tenha a bondade de levantar um pouco a paciente enquanto eu a faço cheirar um excitante. Benelli retirou dois frascos da sacola que trouxera; com o conteúdo de um deles, umedeceu as mãos e as têmporas de Túlia e o outro levou até seu nariz.

Alguns minutos depois, um tremor passou pelo corpo da paciente, ouviu-se um gemido de dor, seus olhos abriram-se e olharam para os presentes com um olhar apagado e vítreo. Ela, aparentemente, reconheceu-os e seu olhar brilhou. - Brancassis me matou... - Disse, com voz rouca e sibilante. -Ele e Hilário tentaram me raptar... Ela perdeu as forças e calou-se. Depois, recuperando-se, continuou, num sussurro: - Está escurecendo em volta... adeus... obrigado a todos e à senhora Rugena... pelo bem que fizeram à pobre Túlia... Vou rezar por vocês todos e vou... vingar-me... daqueles miseráveis... As últimas palavras ela proferiu inesperadamente alto e um ódio selvagem brilhou em seu olhar moribundo; mas esse esforço pareceu cortar o último fio de vida. A cabeça de Túlia caiu para trás, o sangue correu pela boca, o corpo agitou-se em convulsões e parou. - Está tudo acabado... - disse Benelli, com voz trêmula. Antes disso, ao ouvir Túlia dizer que seu assassino fora Brancassis, o jovem médico estremeceu e ficou pálido.

O nome do cardeal caiu como um trovão sobre Ana e Svetomir e ambos estancaram diante da cama completamente pasmados. Nesse instante, a porta abriu-se e entrou o conde Hinek, agitado. Ele tinha acabado de chegar em casa e soubera do triste acontecimento, vindo perguntar os detalhes a Svetomir. O velho conde ouviu, indignado, o relato sobre o assassinato e as últimas palavras de Túlia. Incumbindo Svetomir de organizar os funerais, ele já ia sair, quando Benelli se aproximou e pediu-lhe alguns minutos para falar a sós. O conde, surpreso, conduziu o médico ao seu quarto. Quando ficaram sozinhos, Benelli, visivelmente preocupado, disse: - Senhor conde, considero meu dever preveni-lo de que o estado de saúde de sua nora é extremamente perigoso. A condessa Rugena foi envenenada e... - O senhor deve estar enganado, doutor Kosimo! Como Rugena pode estar envenenada? Por quem? Isso é impossível, o senhor está enganado! - Interrompeu-o o conde, com irritação. - Gostaria muito de estar enganado, mas infelizmente tudo o que digo é a triste verdade! Antes de ontem, quando fui chamado para atender a jovem condessa, alguns sintomas levantaram as minhas suspeitas de envenenamento.

Para mim, isso também parecia improvável e decidi não falar nada até estar completamente convencido. O remédio prescrito por mim provocou imediatamente o vômito, parte do qual levei comigo para pesquisar por um método que conheço. Hoje de manhã, obtive a prova positiva de que a condessa ingeriu um veneno tão perigoso que não posso responder por sua vida. Eu já me preparava para vir aqui com essa informação, quando vieram buscar-me. O conde empalideceu e estancou ouvindo o relato do jovem médico, cujo tom sério não deixava dúvidas sobre a veracidade de suas conclusões. - O que devemos fazer? - Perguntou o conde, indefeso. - Lutar com todas as nossas forças e confiar na ajuda divina. Acredito que já consegui estabelecer que tipo de veneno foi dado à condessa. Inúmeros casos de envenenamento em nossos dias fizeram com que eu me dedicasse ao estudo de venenos. Vou tomar as medidas necessárias que, previno desde já, podem não ser suficientes. Pode-se imaginar como o conde ficou desolado.

O nome de Brancassis vinculado ao assassinato de Túlia despertara nele uma sombria suspeita e ele implorava ao médico que salvasse a vida de sua nora. Benelli foi ver Rugena enquanto o conde mandou chamar Svetomir para lhe contar tudo o que soubera e de suas suspeitas. Este também ficou estarrecido, mas nem por um instante duvidou da triste verdade. Brancassis era perfeitamente capaz de envenenar a mulher que não conseguira ter. Svetomir já se preparava para ir comprar um lugar para o túmulo de Túlia e encomendar o caixão, quando Broda voltou, nitidamente cansado e irritado. Svetomir perguntou-lhe por que ele desaparecera e Broda contou que, reconhecendo Hilário num dos monges, ele correra atrás dele, mas a multidão atrapalhara e ele não conseguira agarrar o miserável. Mesmo assim, seguira-o até um beco sem saída onde o monge desaparecera sem deixar rastro.

Pelas informações que recolhera, soubera que na casa vazia, cujo jardim se estendia ao longo daquele beco, residira antes Brancassis e que o cardeal permanecia como inquilino da casa, pois pagara adiantado o aluguel de muitos meses. - Isso significa que encontrei o covil dos bandidos. Juro pelos céus que não descansarei enquanto esses dois miseráveis não receberem o merecido castigo. O conde Hinek quis imediatamente avisar Vok sobre o envenenamento da esposa. Entretanto, ao ver que no dia seguinte Rugena levantou-se bem e começou a participar ativamente da preparação do funeral, ele acalmou-se, esperando que o perigo j á tivesse passado graças às medidas tomadas a tempo pelo médico. O conde acabou nada escrevendo ao filho para não perturbá-lo. Naquele ínterim, na cidade desencadearam-se importantes acontecimentos que absorveram toda a atenção dos contemporâneos e atraíram os olhares de toda a cristandade para a pequena cidade alemã, onde se reunira o concilio.

Dois dias depois, no momento em que descia para o túmulo a inocente vítima de Brancassis, o concilio de Constança, em solene reunião, julgava João XXIII à revelia, retirando dele todos os atributos; 37 testemunhas, entre elas 12 bispos, apresentaram contra ele 63 acusa-

ções. Da longa lista de crimes atribuídos ao representante de Cristo, o concilio, por respeito ao trono apostólico e ao cargo de cardeal, excluiu 13, deixando-os em segredo. Contudo, é suficiente citar alguns dos outras 50 que permaneceram e que foram promulgados publicamente, para se ter uma certa idéia de que consistiam as acusações que o concilio ocultou. Assim, considerava-se provado que Cossa envenenara seu predecessor Alexandre V, comercializara desavergonhadamente imóveis e bens da Igreja, praticara o banditismo, assaltara e matara durante a sua estada em Bolonha, manti-vera ligação criminosa com sua nora, desonrara 300 freiras nomeando-as depois madres superioras de mosteiros e muitos outros desmandos. Concluindo, o concilio reconheceu que aquele monstro era inadequado para o cargo e retirou da cristandade o juramento de fidelidade a ele, recomendando quebrar o seu brasão e o selo papal apresentados. Essa decisão, assim como o próprio ato de renúncia, foi levada por cinco cardeais ao castelo de Rudolftsel, para ser assinada por Cossa - que fora preso lá pelo próprio duque da Áustria que agora se tornara seu carcereiro.

O papa João XXIII, transformado simplesmente em Baltazar Cossa, foi encarcerado no mesmo castelo Gottliben onde sofria a sua inocente vítima - Jan Huss. Enquanto corriam esses acontecimentos importantes, o destino de Jerônimo preocupava e entristecia a todos os tchecos. Depois do primeiro interrogatório, o prisioneiro fora deixado a cargo de lohann von-Vallenrod, o arcebispo de Riga de triste memória. O sacerdote católico e alemão, com o ódio e a raiva disfarçados, submetera Jerônimo diretamente ao regime de inquisição por sua origem eslava, amor à pátria e predisposição à Igreja ortodoxa. À noite, Jerônimo fora transferido para a torre no cemitério de São Paulo onde o tinham trancafiado numa escura e fedorenta cela, acorrentando-o de tal forma que ambas as mãos acima da cabeça pressionavam o pescoço e impediam-

114 ' Bonnehose, pp. 142-143 - Nota do autor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.