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Capítulo 38 de 51
Parte 38 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Chegara abril. Certo dia, ao entardecer, a condessa ficou sozinha em casa. O conde fora visitar o senhor Ganush Tulikovsky, a quem Svetomir lhe apresentara. Túlia tinha ido visitar uma amiga de Bolonha que conhecia desde criança e que encontrara por acaso agora em Constança, casada com um médico italiano. Ana rezava em seu quarto. Aproveitando a privacidade, Rugena começou a escrever uma carta a Vok, descrevendo detalhadamente todas as suas impressões e tudo o que vira e ouvira naquele formigueiro humano. Foi interrompida por laromir, que veio correndo com o pedido de Broda para que ela fosse até o quarto do conde. Ele estava lá com um visitante desconhecido que chegara com um caso extremamente importante e inadiável. Surpresa, a condessa levantou-se imediatamente e seguiu o pajem. Junto à porta do quarto do sogro, Broda recebeu-a e sussurrou: - O mestre Jerônimo chegou disfarçado para ver o barão Jan e, não o encontrando em casa, veio para cá. Mantenha-o aqui, senhora, até a chegada do conde, e, se possível, convença-o a fugir, senão ele será um homem morto.
Vou ficar vigiando para que nenhum estranho entre aqui. - E, sem esperar resposta, saiu. Rugena abriu apressadamente a porta do quarto do conde. O ousado visitante estava parado diante da janela aberta, olhando, pensativo e sombrio, a nova e fresca folhagem primaveril do jardim. Ele tinha deixado seu chapéu e a capa na cadeira e os raios do sol poente deslizavam carinhosamente pelo belo e corajoso rosto e pela branca e bonita mão que apertava nervosamente o cabo do punhal italiano em seu cinto. Jerônimo quase não mudara; a mesma alegre autoconfiança brilhava em seus olhos escuros quando, ao ouvir o barulho da porta se abrindo, ele reconheceu Rugena, que parou, embaraçada. O coração disparou no peito dela. Depois daquele inesquecível encontro, quando eles haviam confessado mutuamente seus sentimentos, era a primeira vez que se encontravam a sós. Ambos ficaram em silêncio, constrangidos pela lembrança daqueles doces, mas difíceis momentos... Jerônimo refez-se primeiro. - Perdoe-me por perturbá-la. Eu contava encontrar aqui o conde e o senhor Jan. - O senhor será sempre uma pessoa bem-vinda, mestre Jerônimo, e sabe muito bem disso.
Mesmo assim, devo criticá-lo por sua falta de cuidado. - Disse ela com um carinhoso sorriso, estendendo a mão que ele beijou. - Eu solicitei um salvo-conduto ao concilio e não obtive resposta. A clandestinidade e a falta de ação foram tão insuportáveis no ninho onde eu estava escondido que decidi vir buscar informações em Constança. - Mas o senhor está arriscando a vida. - Disse Rugena, assustada. Um triste sorriso moveu os seus lábios. - Minha vida? É preciso que um dia ela também tenha um fim... - Respondeu Jerônimo e uma profunda amargura soava em sua voz. - Sim, um fim estabelecido por Deus e não provocado pela leviandade. Jerônimo não respondeu às últimas palavras de Rugena; baixando a cabeça, ele ficou pensativo e em sua memória ressuscitou, como num panorama, toda a sua vida nômade, cheia de aventuras, perigos, lutas e sucessos, mas privada de felicidade e paz. A verdadeira felicidade, aquela visão atraente do lar onde descansaria de corpo e alma, estava ali, ao lado dele, mas separada por um obstáculo intransponível.
Como por ironia, o destino caprichoso mostrara-lhe aquele tesouro e até permitira que o tocasse. Depois, novamente tomara-o, dizendo: "Afaste-se! Siga sozinho o caminho para o seu objetivo desconhecido!". Naquele momento, Jerônimo sentiu que estava cansado de viver e foi tomado por uma terrível amargura. Temendo que o seu longo silêncio pudesse ofender a jovem condessa, ele, com sua natural amabilidade de cavalheiro, já pretendia contornar a situação, quando seus olhos se encontraram com os olhos de Rugena. Os assustados olhos dela brilhavam com amor e solidariedade. Jerônimo compreendeu na hora que não fora totalmente esquecido e que no fundo daquela alma pura existia - talvez inconscientemente - um recanto onde ele reinava e onde para ele estava guardada alguma afeição. Seu rosto pálido inflamou-se com um leve rubor. Agarrando a mão de Rugena, perguntou, baixinho: - A senhora não quer que eu morra? A mão de Rugena tremeu na sua. - Não, não quero!
Quero que o senhor viva para a Boêmia, para a sua causa e para... os amigos que o amam... - Disse ela, abafando a emoção de tal forma que se sentia um delicado carinho em seu rápido sussurrar. Os olhos de Jerônimo brilharam com uma pacífica e calma alegria. - Seu desejo para mim é uma ordem. Hoje mesmo irei embora de volta à pátria. - Oh! Fico-lhe muito grata! - Exclamou ela, alegremente. E nada mais conseguiu dizer, pois as lágrimas já a sufocavam. No quarto vizinho ouviram-se passos apressados, a porta se abriu ruidosamente e entrou o conde, acompanhado por Jan de Khlum. Ambos estavam preocupados e, abraçando Jerônimo, não deixaram de criticá-lo pelo seu descuido. Ele repetiu-lhes o que dissera a Rugena sobre sua impaciência na espera do salvo-conduto. - O salvo-conduto está "perfeito"! - Observou o barão Jan, com indignação. - Pedro de Mladovitz conseguiu uma cópia dele e trouxe-me esta manhã.
Eis o que lá está escrito, além de outras coisas - disse ele, tirando do bolso uma folha de pergaminho e lendo: "Nada virá mais em direção aos nossos anseios, do que a captura das raposas que esvaziam o rebanho de Deus, e nós o convocamos para comparecer e justificar-se", e assim por diante. Acho que você entendeu tudo! Mas o final é ainda melhor. Ouça: "Concedemos-lhe este salvo-conduto por ser isto de nossa competência, por estar de acordo com a justiça e não contrariar a fé. No entanto, informamos que iremos julgá-lo, em sua presença ou à revelia, no prazo indicado". Pode você imaginar o que lhe promete tal salvo-conduto se aquele que Huss recebeu do imperador não o protegeu... Com você eles não terão tanto pudor. - Pois é, mestre Jerônimo, fuja daqui o mais rapidamente possível. Nós só ficaremos tranqüilos quando soubermos que você está na nossa pátria. - Acrescentou o conde. - Vocês me convenceram! Vou imediatamente fugir daqui!
Assim que atravessar a fronteira da Boêmia, notificarei vocês disso. - Respondeu Jerônimo, lançando um rápido olhar para Rugena. Anoiteceu. Pela ruela escura que dava acesso à casa onde morava Brancassis, esgueiravam-se dois monges, com as cabeças cobertas com capuzes. Por um pequeno portão escondido no muro, eles penetraram no jardim e depois para dentro de casa. No quarto já descrito acima, um deles acendeu as velas nos castiçais e o outro, colocando na mesa a barba grisalha postiça, começou a tirar a batina. Era Brancassis e o seu secretário. O rosto gordo e escamoso de Hilário brilhava com maléfica satisfação e, trazendo ao cardeal um traje caseiro de seda, ele observou, maliciosamente: -Não nos enganamos, reverendíssimo! O desprezível Jerônimo realmente ousou aparecer aqui. - O que lhe falou a moça que aguardávamos na esquina? - O que já sabíamos: que Jerônimo chegara. Ela somente acrescentou que a condessa disse a Ana que aquele sacrílego está fugindo direto para Boêmia. Será lamentável se ele escapar do justo castigo. - Sem dúvida!
E só pelo fato de ter ousado jogar você pela janela, eleja merece a fogueira! - Zombou Brancassis, com o característico tom de desprezo que adotava com relação a Hilário. Este ocupara o lugar, mas não substituíra o seu ágil e esperto Bonaven-tura. - Mas não haverá um jeito de agarrá-lo ou traí-lo? Ou seja, de atrapalhar sua fuga? - Acrescentou ele. - Só o demônio sabe o caminho que ele vai seguir e, além disso, irá a toda velocidade! Mas, se eu tivesse dinheiro, poderia tentar enviar um mensageiro ao pároco de Guirschauss. Ele certamente deverá passar por lá, pois a paróquia fica na fronteira da Boêmia... - Disse Hilário, com segundas intenções. - Envie o mensageiro, que eu pago as despesas! Você merece essa satisfação por seus leais serviços... - Sorriu Brancassis, maldosamente, dispensando o secretário. Ficando sozinho, o cardeal mergulhou em sombrios pensamentos. Por instantes uma raiva diabólica desfigurou seu rosto - e ele tinha muitos motivos para isso. A situação de Baltazar Cossa piorava cada vez mais.
Seu protetor, Friedrich da Áustria, assustado com as conseqüências dos seus atos, submetera-se ao imperador, e o Papa fugitivo, abandonado por seus partidários, vagava agora de cidade em cidade. A queda do tio e benfeitor preocupava Brancassis quase tanto quanto o plano de vingança contra os Valdstein. Hilário cumpriu com precisão as ordens recebidas e entrou em contato com uma das criadas, que lhe informava sobre tudo o que acontecia na casa. O próprio Brancassis, disfarçado de monge, rondava a casa e já vira Rugena, Ana e Túlia. A beleza da condessa despertara no cardeal a velha e ardente paixão. Entretanto, em sua sombria alma, agora esse sentimento colorirase de ódio e ele ansiava não tanto por possuir Rugena quanto por matá-la. Já que ela não lhe pertencia, então deveria pertencer somente ao túmulo, decidira ele. Com esse objetivo, ele conseguiu obter um veneno - cujo segredo ensinara-lhe seu tio - que matava vagarosamente, debilitando aos poucos o organismo; restava somente encontrar uma oportunidade para aplicá-lo na vítima.
Brancassis também fervia de raiva de Túlia, cuja traição acabara com ele a um passo do sucesso. A traidora deveria pagar com sofrimento infernal, e queria capturá-la viva, para se deliciar depois com o seu sofrimento. Ana parecera-lhe por demais feia e boba em suas vestes negras, com rosto pálido e um olhar estranho e selvagem. Na alma degenerada de Brancassis nunca houvera um instante de piedade para com aquela jovem, cuja vida ele destruíra por nada. Ele somente lamentava o tempo que perdera com ela, e lamentava também não tê-la matado naquela hora. Deliciando-se antecipadamente com o prazer dos sofrimentos e das lágrimas que traria a todos os que haviam ousado ficar em seu caminho, ele esquecera seus insucessos políticos e até a aguda dor nas costas que, a cada movimento brusco, lembrava-lhe que era mortal. Rugena aguardava com impaciência a notícia sobre o sucesso da chegada de Jerônimo à Boêmia. De repente, correu pela cidade o boato de que Jerônimo fora detido em Guirshauss, no dia 24 de abril.
Após ter sido reconhecido pelo sacerdote local, que comunicara o fato às autoridades, ele fora preso por oficiais do príncipe palatino lohann da Bavária, e confinado em Zultsbakh, aguardando novas ordens do concilio. Os tchecos e morávios que estavam em Constança ficaram profundamente constrangidos com a notícia. Felizmente, Rugena soube disso por Ana, que lhe transmitiu a triste novidade quando estavam a sós, e a fiel amiga foi a única testemunha de suas lágrimas e de seu desespero. O perigo mortal que ameaçava Jerônimo despertou o amor que ainda cochilava no coração da condessa e que ela sinceramente considerava como amizade. Entretanto, o terrível destino que provavelmente aguardava aquele encantador e genial homem - orgulho de toda a Boêmia - foi motivo suficiente para despertar sua calorosa paixão por ele. Se Vok estivesse ali talvez adivinhasse os verdadeiros sentimentos da esposa, percebendo-lhe a palidez, o estado de nervos e o ostensivo sofrimento, mas o conde Hinek, naquele momento, prestava pouca atenção à nora. Como a maioria dos seus amigos reunidos em Constança, Valdstein estava completamente absorto, acompanhando a teimosa luta do Papa com o imperador.
A impiedosa severidade com que era julgado o Sumo Sacerdote de Roma agitava todo o mundo cristão. Derrotado e disposto a tudo para conseguir o perdão, Friedrich da Áustria chegou a Constança e, num dos banquetes, prostrou-se publicamente aos pés de Sigismundo pedindo-lhe perdão e oferecendo-lhe suas propriedades em Elzas e Tirol. O imperador devolveu-lhe essas terras em troca de juramento de fidelidade e, a partir daquele momento, Baltazar Cossa perdeu seu último protetor.
Capítulo V
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.