Voltar ao livro Os Luminares Tchecos

Capítulo 45 de 51

Parte 45 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Capítulo X

Depois de uma rápida viagem, dando aos homens e cavalos um mínimo de descanso, Vok chegou finalmente a Praga. Aquela louca e cansativa corrida distraíra seus pensamentos da infelicidade que o assolara e de algum modo devolvera-lhe um certo equilíbrio mental. Para calar de vez a dor da sangrenta ferida com o trabalho, o jovem conde mergulhou de cabeça no redemoinho da atividade política que, na época, havia tomado conta de seus compatriotas. Chegou à pátria bem a tempo. Nunca antes as mentes haviam estado tão exaltadas e já se ouvia o primeiro trovejar da tempestade popular que iria se desencadear quatro anos depois. Quando Vok chegou, o conde Hinek não estava em Praga. Evitando a casa vazia, onde cada objeto lembrava-lhe Rugena, naquela mesma noite o jovem conde foi à casa de Milota Nakhodsky. Marga e o marido receberam-no, como sempre, de braços abertos e a notícia da tragédia que o acometera provocou em ambos lágrimas de solidariedade.

Percebendo como era difícil para Vok falar sobre a esposa falecida, Milota mudou o assunto da conversa para outro tema e começou a perguntar sobre os detalhes do martírio de Huss e o destino de Jerônimo. - Muito provavelmente ele vai parar na fogueira como o mestre Jan. Os abutres do concilio e os traidores tchecos estão descontando neles o golpe que aplicamos nos alemães em 1409. - Respondeu Vok, tristemente, e começou a descrever em detalhes o revoltante julgamento e a morte heróica de Huss. - Vejo que estávamos certos ao considerá-lo um santo. Ainda bem que o povo por aqui vingou com justiça a sua execução. - Observou Milota, que ouvia atentamente o conde. - Ainda não sei o que aconteceu, mas, na minha opinião, qualquer violência contra os padres sem-vergonha, que somente denigrem a classe com sua indignidade, é uma causa justa e santa! -Nesse caso, você ficaria satisfeito se visse o que aconteceu por aqui quando chegou a notícia da morte de Huss. - Interferiu Marga. - Mas me contem! Contem o que aconteceu por aqui!

Cheguei hoje pela manhã e ainda não sei de nada. - Deus do céu, aqueles foram dias terríveis! - Começou Marga, estremecendo só de lembrar. - A cidade inteira agitou-se; o povo saía em massa para as ruas e, em altos brados, acusava o clero como o principal culpado da injusta condenação do adorado pregador e da desonra resultante disso que caiu como uma mancha sobre toda a Boêmia. Mas não ficaram somente nas palavras. A turba exaltada caiu sobre as casas dos sacerdotes, inimigos declarados do mestre Jan, e fez por lá muitos estragos... - Fui testemunha do terrível espetáculo. - Disse Milota, interrompendo a esposa. Depois, sorrindo, continuou: - Marga tinha medo de sair de casa para não cair no empurra-empurra. Muitas pessoas do clero fugiram da cidade, e os que não foram tão previdentes sofreram muito: suas casas foram saqueadas e até incendiadas e eles próprios foram xingados e surrados. Na minha frente, dois monges feridos e surrados quase até a morte foram jogados no rio Vltava... - Conte a Vok sobre o cerco ao arcebispado! - Interrompeu Marga. - Mas como?

Cercaram Konrad Vekht? - Perguntou, sorrindo, Vok. - Pois é! Um verdadeiro cerco. Ele, com grande dificuldade, conseguiu fugir, senão seu rebanho o massacrava. - Contem-me como receberam por aqui Jan Zhelezny e as medidas leoninas que o concilio incumbiu-o de promover. - Não podiam ter feito escolha pior! Acredito que em toda a Boêmia não existe homem mais odiado do que o bispo de Litomyshl. Ele é considerado o principal acusador de Huss no concilio por parte do clero tcheco e o maior culpado de sua morte! Só a cara dele despertava tal raiva que ele não ousava aparecer na rua e, quando ia visitar o rei, exigia um salvo-conduto especial. Devo confessar que também na corte ele não era bem recebido. A rainha, que está fora de si pela morte do seu respeitadíssimo confessor, glorifica abertamente o padre Jan como um santo mártir, e com ela estão a viúva de Henrich Rosenberg, Ana Zmirzlikov e Ana de Mokhov. - Isso não impediu o arcebispo Jan de tomar as medidas que ele considerava necessárias para segurar a Boêmia e, desde ontem, Praga está sob nova interdição.

Mas agora o nosso povo não está tão submisso e receio que tudo isso acabará muito mal. - Acrescentou Marga, levantando-se para mandar servir o jantar. Dois dias depois, Vok foi apresentar-se ao rei que, na época, residia na "Cidade Alta". Ele queria pedir uma prorrogação da licença ou simplesmente livrar-se o quanto possível do serviço de Ven-ceslau. O conde não tinha mais disposição para divertir o rei contando aventuras e anedotas picantes e ansiava por calar a dor do seu coração com uma agitada atividade política. Venceslau, como constatou, estava ocupado com Sêneca de Vartenberg, e Vok aguardava a sua vez, conversando com outros senhores que haviam chegado para a recepção real. De repente, apareceu um pajem da rainha e transmitiu ao conde que Sua Majestade soubera de sua chegada e desejava vê-lo.

Quando Vok entrou, a rainha Sofia não estava só; com ela havia três damas da alta-nobreza tcheca: Elizabeth, viúva de Henrich Rosenberg; Ana de Mokhov, senhora Usti; e a esposa do prefeito Pedro Zmirzlikov, Ana Zmirzlikov - todas as três dedicadas à causa da Reforma da Igreja e apaixonadas admiradoras de Huss. - O senhor veio diretamente de Constança e pode nos fornecer informações frescas sobre o que aconteceu por lá. - Disse a rainha, esticando a mão para o beijo do conde. - Como está a condessa Rugena? Seu pai disse que ela estava muito doente. Vok empalideceu. - Rugena caiu, vítima de insolente crime de um daqueles sacerdotes emporcalhados em vícios que também mataram o mestre Jan por ele ter ousado desvendar abertamente os seus pecados. — Respondeu ele, surdamente. - Ela morreu?! - Exclamaram a uma voz Sofia e suas damas. -Mas como?! - E a rainha começou a perguntar-lhe tudo, querendo saber todos os detalhes do triste acontecimento.

Embalado pelo ódio que sentia de Brancassis, Vok descreveu sem rodeios os principais malefícios do cardeal, a começar pelo atentado noturno em Praga e terminando com o envenenamento em Constança. - Meu Deus! E esse malfeitor ainda usa o título de cardeal! Uma mulher tão jovem, bela e bondosa - morta! Pobre e infeliz Rugena! - Disse a rainha, compadecidamente, persignando-se. - Pois é! Esse tipo de gente condena santos, mata inocentes e ainda ousa tocar com suas mãos manchadas de sangue os mistérios instituídos por Cristo; e, quando os verdadeiros cristãos protestam, eles os chamam de hereges! - Observou Vok, com amargura. - O senhor obviamente está se referindo à comunhão com pão e vinho?

Devo confessar-lhe, conde, que essa questão atormenta e perturba minha alma. - Intrometeu-se Elizabeth Rosenberg. - Será possível vacilar entre a palavra de Cristo e as idéias humanas? - Indignou-se Vok. - Sou a favor da Reforma, mas não consigo tratar com tanta coragem os mandamentos da Igreja que, além do mais, são sustentados e defendidos por pessoas de alta sabedoria e por benfeitores que respeito muito, apesar de nossa divergência de opiniões. - Respondeu Elizabeth. Em seguida, mexendo em sua bolsinha, retirou de lá um pergaminho, abriu-o e prosseguiu: - Tenho em mãos a carta que me mandou o mestre Maurício Rvatchek, que conhece a minha propensão à Reforma e teme que eu recaia no utraquismo.119 Com a permissão de Sua Majestade, vou ler o que ele me escreve.

119 Comunhão de ambas as formas (corpo e sangue), cujos seguidores receberam o nome de podoboy ou utraquistas - Nota do autor.

- Leia, leia! A opinião de Maurício merece ser ouvida. - Autorizou a rainha, que tratava com extremo cuidado aquela que era a mais importante questão da época. Leu a senhora Rosenberg: - "Antes de tudo rezo fervorosamente pela senhora. Receie, como ao inferno, beber do cálice! A maçã do Paraíso também era boa como maçã, mas como fruto proibido tornouse um veneno. Respeite as indicações da Igreja e os costumes dos ancestrais e tudo estará bem! Estudei essa questão e acrescento à presente a minha dissertação aprovada pelo Papa e pelo imperador, com os quais devemos concordar! Acredite: a comunhão com o cálice é equivalente à expulsão do Paraíso, como foi expulsa Eva. Esteja certa: essa novidade foi incutida aos homens por satanás. Até o que não é pecado transforma-se em pecado assim que é proibido. Portanto, permaneça obediente e não seja como Eva. Lembre-se do que escrevo: é melhor morrer do que comungar com o cálice." Depois de ler as palavras taxativas de Maurício Rvatchek, Elizabeth concluiu: - Eis as principais partes da carta.

Não lhes parece que isso pode atrapalhar completamente a consciência dos fiéis? - Tem razão! E como o falecido mestre Jan nunca me disse para desobedecer à Igreja, irei seguir seus ensinamentos, não participando da nova ordem das coisas. - Disse Sofia, perturbada com aquela conversa. Naquele instante, dois pajens levantaram as cortinas anunciando a chegada do rei. Venceslau, ao entrar, cumprimentou animadamente as damas. - Ah! Finalmente você está aqui! - Disse ele, estendendo amigavelmente a mão ao conde. - Mas como está pálido e magro! O que lhe fizeram lá em Constança para voltar assim, quase morto? - O conde acabou de nos contar coisas tão terríveis que explicam inteiramente a sua mudança. - Disse a rainha, consternada. A pedido de Venceslau, Vok repetiu a história da morte de sua esposa. Seu relato provocou uma explosão de indignação no rei, que começou, em seguida, a inquirir o conde sobre os detalhes da morte de Huss e do provável resultado do julgamento de Jerônimo.

A firmeza heróica do mártir e a ostensiva injustiça revelada pelo concilio com relação a ele deixaram Venceslau ainda mais indignado. - Pobre padre Jan... Estou muito triste com o seu destino. Se, por vezes, ficava irritado com ele por causa de problemas que aconteciam por sua culpa, agora lhe perdôo tudo de bom grado. Ele pagou caro por seu excessivo amor à pátria: os alemães não o perdoaram pelo caso dos votos e do meu decreto forçado pelas artimanhas dos tchecos. Agora, o Sigismundo exagerou! Trair a própria palavra dada e, sem ligar para o próprio salvo-conduto, permitir que mestre Jan fosse queimado na fogueira foi uma vil traição! - O rei Sigismundo se esquece freqüentemente de que ele é o próximo herdeiro da coroa tcheca. - Observou Vok, venenosamente. O rei levantou o dedo. - Contenha sua língua, Vok! Você está se referindo ao meu irmão! Saiba que se eu culpo Sigismundo e o conselho pelo destino de Huss, aprovo-os totalmente quanto a Jerônimo!

O clero é visivelmente formado de patifes, mas Jerônimo é um agitador perigoso, que sempre semeou a discórdia e gabou-se abertamente de ser renegado da fé, dizendo que preferia os malditos cismáticos aos verdadeiros cristãos. Deixe que o queimem, pois ele fez por merecer isso inteiramente. Vok enrubesceu. - Meu rei! Jerônimo não é um renegado da fé somente porque considera os cismáticos cristãos como nós. Aliás, nada tenho com teologia, mas nunca deixarei de defender Jerônimo como a um bom tcheco que sempre cumpriu sacramente sua obrigação, levantando-se onde podia contra a insolência dos alemães e contra aquela devassidão com que eles contaminaram a nossa terra. - Na parte da insolência, caro Vok, os tchecos nada ficam a dever aos alemães! Depois da morte de Huss, eles, como cães raivosos, estão arreganhando os dentes para tudo. E, por vezes, tornam-se um espinho na minha garganta, com suas eternas exigências, insolências e discussões! - Sentenciou o rei. - Nesses momentos, Sua Majestade provavelmente se esquece de que usa na cabeça a coroa de São Venceslau.

De outra forma, os interesses dos tchecos nunca seriam um espinho em sua garganta! - Como ousa falar assim comigo, seu inútil pândego? Não me diga que pretende me ensinar a governar? - Exclamou o rei, fora de si. - Uns me criticam pela condescendência para com os alemães e outros, pela preferência pelos tchecos! Estou cansado de tudo isso! Quero paz e logo vou mandar todos vocês para o inferno. Então a rainha e Ana Usti - que, conforme se dizia, tinham grande influência sobre o rei -interferiram e começaram a acalmar Ven- ceslau. Este, por fim, declarou que perdoava o jovem insensato levando em consideração a infelicidade que o atingira e que, provavelmente, afetara sua cabeça. Vok aproveitou aquele momento de calma da ira real para pedir uma licença: - Vá! Essa sua cara de enterro, em vez de me divertir, só me provocaria eólicas! - Respondeu o rei, zombeteiro. - Mas, veja lá, não pense em cometer bobagens para satisfazer a sua infelicidade! E quando o convocar, quero vê-lo alegre e com grande reserva de histórias divertidas.

Três meses são suficientes para chorar a morte de qualquer mulher. Mas por se tratar de uma pérola como a con-dessa Rugena, que podia tentar ao mais ascético eremita, dou-lhe o dobro do tempo. O rosto de Venceslau iluminara-se definitivamente. Vok fez uma reverência ao casal real e, feliz por conseguir fugir da corte, retornou a Praga. Assim como o pai, o jovem conde tornou-se membro da União dos Senhores Tchecos e Morávios, formada em setembro para a defesa do ensinamento religioso puro de Huss. O primeiro ato dessa entidade foi o envio a Constança de um corajoso protesto contra a execução de Huss, a prisão de Jerônimo e as injustas calúnias contra a pátria deles.

Além disso, a União dos Senhores Tchecos e Morávios - sob a direção de três nobres eleitos: Sêneca de Vartenberg, Latchek de Kravarja e Botchek de Podiebrad - declarava que dava liberdade de pregar a palavra divina em suas terras, concedia à faculdade de teologia de Praga o direito de decidir questões religiosas na base das Escrituras e, basicamente, decidia submeter-se dali em diante somente às ordens de bispos nacionais, considerando nulas todas as excomunhões e proibições pronunciadas pelo clero estrangeiro. Era uma declaração de guerra à Igreja romana e a pedra fundamental da Igreja nacional. Surgiu o movimento patriótico; os adeptos

de Huss e do cálice tornaram-se um partido ainda mais forte e perigoso porque, dessa vez, também os camponeses seguiam os senhores contra o rei e o catolicismo, cuja rígida impaciência e cuja crueldade perturbavam as cabeças. A interdição era aplicada com toda a rigidez. Em Praga, reinava uma excitação febril. Jan de lessenits, excomungado pelo Papa havia seis anos, fora expulso de lá e o partido católico preparava-se para uma luta decisiva. Entretanto, agora os tempos eram outros: a paciência popular esgotara-se e o número de partidários do cálice crescia. Os praguenses responderam com violência ao fechamento dos cemitérios, à proibição da comunhão e aos sermões ofensivos contra a Boêmia. Aos gritos de: "Quem não trabalha não é digno de alimentar-se!", o povo atacou os mosteiros e as casas do clero que tinham parado a execução de ritos religiosos, expulsou os sacerdotes que lá moravam e substituiu-os pelos utraquistas. Da capital, a agitação passou para as províncias e culminou com um ataque da multidão armada ao mosteiro de Opatovits, que foi tomado de assalto, teve seus monges expulsos e seu abade torturado até a morte. Com o ímpeto do seu caráter agitado, Vok tinha participação ativa nesse movimento político, estando à frente em todos os lugares onde se decidiam ações corajosas ou se tomavam medidas severas.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.