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Capítulo 27 de 51
Parte 27 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Ficando só, Rugena desabou na poltrona, e seu terrível estado nervoso derramou-se em lágrimas. A surpresa e a indignação do marido haviam soado tão sinceras que, dentro dela, a certeza de sua culpa ficara involuntariamente abalada. Mas o crime fora sem dúvida cometido por alguém... Quando se acalmou um pouco e as lágrimas secaram, ela -apesar de toda fraqueza - quis ver Ana. Mas não teve tempo de sair do quarto, pois a criada veio informar que Jan Huss chegara. - Oh, padre Jan! O próprio Deus enviou-o hoje aqui para me iluminar e ajudar na confusão que está em minha mente. - Falou Rugena, animadamente, estendendo ambas as mãos ao seu confessor, que também parecia preocupado. - Broda esteve em minha casa e contou o que houve aqui. -Disse ele, sentando-se ao lado de Rugena. Depois, passando a mão pelo próprio rosto, acrescentou, tristemente: - De que patifarias são capazes esses servidores de altar! Mas fale, minha filha! Vou tentar acalmar a sua alma.
Com a voz trêmula de emoção, Rugena narrou tudo o que Brancassis lhe contara sobre o assassinato do pai, e não escondeu que a indignação do marido e do sogro, ao serem acusados de envenenamento, parecera-lhe sincera. - Em quem e em que devo acreditar? Estou perdida nesse emaranhado de mentiras e crimes... - Concluiu Rugena, em lágrimas. Huss ouvia-a, preocupado. Então, veio-lhe a lembrança da suspeita de Jerônimo naquele dia ao saber da inesperada e estranha morte do barão Svetomir. - Neste momento, só posso lhe dizer que é bom duvidar de uma fonte tão imunda como Brancassis. - Disse ele, depois de pensar um pouco. - A paixão dele por você, confirmada por esse ato criminoso, explica sua intenção de provocar o rompimento entre Vok e você por meio de calúnias. Portanto, é pouco provável a culpa de ambos os condes; apesar de todas as suas fraquezas puramente humanas, eles são pessoas nobres e cristãs. Temo que você tenha agido precipitadamente acusando seu marido de tão terrível crime! É uma grave ofensa, principalmente se imerecida.
Mas não se preocupe. - Acrescentou ele, vendo a jovem condessa empalidecer. - Esse ato ignóbil irá certamente ser desvendado e Deus ajudará a encontrar os verdadeiros culpados. Mas, por enquanto, reze, minha filha! Creia-me: numa alma com fé não há lugar para escuridão e rancor; a verdadeira prece sai do coração, como um brilhante raio de luz, que ilumina o abismo das dúvidas e indica o caminho do dever. Eu agora vou visitar a pobre Ana e tentar acalmá-la. - Deixe-me ir contigo, padre Jan! Ainda não vi Ana hoje. Deus sabe que lhe devo gratidão eterna. - Vamos, minha filha. A pobre moça precisa mais do que nunca de caloroso afeto. No quarto de Ana, ao lado de uma grande cama com cortinas verdes de lã, estava sentada Marga. Toda em lágrimas, ela tentava acalmar a paciente. Ana, com o rosto em fogo febril e um olhar imóvel e inchado, tentava pular da cama, gritando selvagemente: - Deixe-me, Marga! Quero pôr um fim a esta existência sem honra, terrível e inútil. Não me fale de Deus!
Ele me abandonou e esqueceu de mim, senão eu não teria sido desonrada... Tomada por um acesso de fúria, ela de repente empurrou Marga com tanta força que esta quase caiu no chão. - Deixe-me, estou lhe dizendo! Não posso viver com tal humilhação, nem posso suportar nenhum olhar puro... Rugena, que seguia atrás de Huss, ficou petrificada ao ver tal desespero. O rosto desfigurado da amiga e as manchas escuras em seu pescoço perturbaram tanto Rugena, que ela quase perdeu a consciência. - Senhora Marga! Leve daqui a condessa. Ela poderá vir depois, quando melhorar. Enquanto isso, vou ficar aqui com a paciente. - Disse Huss. E Marga levou embora a definitivamente enfraquecida Rugena. Ao ouvir a voz do pregador adorado por todos, Ana soltou um selvagem grito e enterrou o rosto no travesseiro. Huss sentou-se junto à cama e pegou-a pelas mãos; todo o corpo de Ana estremecia em prantos. - Minha filha, você não tem nada para esconder de mim.
-Disse ele, amigavelmente. - Aos meus olhos, tanto quanto aos olhos de qualquer homem honesto e justo, você sempre será a inocente vítima de um crime. Todavia, por mais duro que seja o seu destino, como pode imaginar por um instante que Deus a tenha esquecido e abandonado? Ele lhe concedeu uma provação e você deve ter fé, pois tudo o que Ele lhe mandar é para o bem. Você deve submeter-se à vontade divina, não blasfemar nem procurar consolo no suicídio. Somente Deus Todo- Poderoso, que traça os destinos humanos, sabe o motivo de todos os motivos e já condenou o seu carrasco, convocando-o diante do Seu trono. Ana imediatamente endireitou-se. - Ele morreu? - Sim, conforme me disseram. - Oh, por que ele morreu? Quem ousou matá-lo antes que eu o estrangulasse com as próprias mãos e me satisfizesse com o sofrimento de sua agonia? Com as mãos firmemente apertadas, olhos injetados de sangue e um sorriso selvagem que arreganhava seus dentes brancos, ela estava realmente terrível..
Huss apertou a sua mão e olhou com severidade nos olhos febrilmente acesos da paciente. - "A minha vingança será terrível", disse o Senhor, e Seu julgamento é mais terrível que o julgamento humano. Cristo perdoou os inimigos e rezou por Seus algozes. Como você ousaria agora, com o coração cheio de ódio e sede de vingança, cair de joelhos diante da cruz do Senhor e pedir-lhe misericórdia? - Disse Huss, com severidade. Ana estremeceu e, como se quebrada pelo ataque de fúria, caiu sem forças nas almofadas. Huss ajoelhou-se à cabeceira da cama e colocou as mãos sobre a testa febril de Ana. Dirigindo seu olhar para o crucifixo pendurado na parede, começou a orar fervorosamente e de suas mãos parecia emanar uma força revigorante. A excitação da paciente acalmou-se aos poucos e somente lágrimas amargas caíam por suas faces pálidas. Finalmente, as lágrimas secaram e ela caiu em sono profundo. Certificando-se de que a pobrezinha adormecera, Huss levantouse, orou mentalmente mais uma vez e saiu silenciosamente.
No quarto contíguo, Marga aguardava-o. - E então? - Perguntou ela, preocupada. - Ela dorme e espero que acorde mais calma e dócil. Diga-lhe que amanhã, após o almoço, virei visitá-la. Ele dirigiu-se para a saída onde um pajem o alcançou e pediu para acompanhá-lo aos aposentos do jovem conde. Quando Huss entrou, Vok andava pelo quarto com ar sombrio, enquanto o conde Hinek, também com ar preocupado, estava sentado junto à janela. O velho conde lembrava-se, naquele instante, da suspeita que tivera ao saber da inesperada morte do primo. Ele tinha consciência de estar inocente de qualquer participação no crime, se é que realmente houvera algum. - Gostaria de pedir-lhe um conselho, mestre Huss, sobre um caso muito difícil. - Disse Vok, cumprimentando-o com a mão. - Posso adivinhar do que se trata! A senhora Rugena contou-me a diabólica história inventada por Brancassis que a confundiu completamente. - Mas é preciso desvendar esse caso! O que disse a ela aquele patife? - Interrompeu o conde Hinek.
Huss relatou-lhes detalhadamente tudo o que ouvira de Rugena. - Se querem ouvir meu conselho - acrescentou ele -, perguntem ao Matias. Penso que ele pode lhes dar algumas pistas. -Vou imediatamente mandar chamá-lo. O pior é que Eulália foi realmente minha amante. Todo o resto é uma insolente mentira! E precisava Brancassis morrer bem no momento mais necessário, sem desvencilhar a própria teia? Mas Vok estava enganado. Brancassis não morrera. É claro que a força descomunal de Broda tê-lo-ia matado na hora, se o previdente italiano não estivesse usando sob a roupa uma cota de malha fina. O golpe, entretanto, fora tão forte que, mesmo quebrando a lâmina, a malha de aço entrara profundamente no corpo. A dor fora intensa e Brancassis perdera os sentidos temporariamente, fazendo Broda acreditar que ele estivesse morto. No arcebispado ficaram com medo de mantê-lo e por isso o transferiram imediatamente para o mosteiro de Strakhov. Lá, ele finalmente voltou a si e o abade do mosteiro, condescendente com as aventuras amorosas do cardeal, cercou seu ilustre visitante de todos os cuidados. Bonaventura morrera mesmo e acabou sendo enterrado às escondidas.
Quando Matias chegou e o conde ordenou-lhe que contasse, sem omitir nada, tudo o que sabia sobre a morte de seu senhor, o velho assustou-se e ficou calado e confuso até os condes o convencerem do quanto precisavam saber da verdade. Somente então ele abriu a boca, expressando a suspeita de que o barão Svetomir fora envenenado durante o jantar que lhe havia servido uma desconhecida servente da estalagem. - A servente antiga adoeceu de repente e o estalajadeiro disse que a nova servente fora recomendada por um padre de Pilsen. Ela trabalhou lá por uma semana e depois foi embora, sumindo sem dar notícias... - Aparentemente, já descobrimos a mão criminosa; resta saber quem a dirigiu. - Observou Huss. - Tenho uma suposição quanto a isso. - Disse Matias e hesitou. - Fale, homem! Fale logo! - Exclamaram ao mesmo tempo ambos os condes. - Quando me mudei para o vosso castelo, num dia do primeiro mês, eu voltava de uma aldeia vizinha quando, perto do moinho do velho Khvala, ouvi vozes por entre arbustos. Uma delas me pareceu a voz de padre Hilário e eu, curioso, aproximei-me sorrateiramente e espiei.
Era ele na companhia da mesma moça que reconheci como servente da estalagem e que serviu o jantar ao senhor barão. Depois disso, nunca mais a vi. Vok olhou sombrio para o pai. - Se o Hilário está implicado nesse crime, então por trás dele esconde-se minha mãe. Mas eu espero, pai, que isso não vá impedi-lo de seguir em busca da verdade! - De modo algum! Eu próprio quero saber a verdade, e se Iana for culpada, vou obrigá-la a confessar. - É difícil obrigar mamãe a alguma coisa, principalmente agora que, como me disseram, ela está doente. Não poderíamos tentar ouvir em segredo as suas conversas com o monge? Talvez, depois do que houve, eles acabem falando alguma coisa que nos indique como agir. - É ruim espiar os outros. - Observou Huss. - Certo, padre Jan, é ruim. Mas é muito pior ser acusado injustamente de assassinato!
Qualquer meio é válido para provar a minha inocência. - Respondeu Vok, num tom de insatisfação. - Talvez eu possa arranjar o que você quer. - Disse o velho conde, depois de pensar um pouco. - Perto do oratório de sua mãe existe um esconderijo secreto de onde se pode ouvir e ver tudo o que se passa ali e até entrar no oratório, se necessário. Esse esconderijo foi construído por meu avô, e meu pai mostrou-o a mim no dia do meu casamento com Iana. Nunca o utilizei - não é do meu caráter - e nunca imaginei que esse esconderijo nos seria útil em circunstâncias tão tristes... - Concluiu ele, suspirando profundamente. - Mas tudo vem para melhor! Vá, Matias, verifique se Hilário está em casa ou com a condessa e volte aqui para nos contar. Passou-se um quarto de hora.
Os condes e Huss continuaram conversando sobre tudo o que acontecera e o que ainda poderia acontecer, quando Matias voltou e informou que Hilário havia saído de casa desde que retirara "sua carniça", mas que acabara de voltar e estava com a condessa Iana. - Então, não podemos perder tempo. Venha conosco, padre Jan. Quero que o senhor seja testemunha. E você, Vok, traga Rugena aqui. Rugena estava semideitada na poltrona, com a cabeça pesada; sentia-se física e moralmente destruída. Ela tinha ido visitar Ana e o encontro com a infeliz amiga abalara-a definitivamente. A chegada do marido quebrou sua tranqüilidade; ao vê-lo, ela levantou-se vagarosamente. - Siga-me! Talvez saibamos agora quem são os verdadeiros assassinos do seu pai! - Disse Vok, secamente. Mas, vendo que ela balançava a cabeça negativamente, ele agarrou-a pelo braço. - Você vai comigo agora mesmo! Se acreditou, sem refletir, nas histórias do pérfido patife a ponto de acusar a meu pai e a mim de assassinato, então agora, queira ou não, terá que ir até o fim! Entendeu?
Rugena levantou-se calada e, mesmo com tonturas, seguiu Vok até onde estava o velho conde. Ali, a presença de Huss teve o dom de acalmá-la. Os quatro entraram no gabinete de trabalho de Hinek e este apertou uma alavanca na parede; uma porta, disfarçada por um grande baú metálico, abriu-se imediatamente. Por um longo e estreito corredor, feito provavelmente dentro da parede, eles entraram num pequeno recinto, que tinha numa de suas paredes vários pontos brilhantes. O velho Valdstein distribuiu cuidadosamente Rugena, Huss e o filho entre aqueles pontos, que eram, nem mais nem menos, orifícios na parede encobertos do outro lado por entalhes da moldura de um quadro pendurado no próprio oratório. De lá, ouviam-se nitidamente as vozes da condessa e de seu confessor. Tremendo de emoção, Rugena colou o olho no orifício e percebeu que daria para ver e ouvir tudo. O oratório era um quarto amplo; nele havia um facistol, colocado em frente ao traiçoeiro quadro, duas cadeiras desmontáveis, uma poltrona e uma mesa com gavetas, de finíssimo acabamento. No fundo da sala via-se uma lareira.
Perto dela estava sentada a condessa, aquecendo-se enrolada numa manta já que se sentira mal por ter-se resfriado à noite ao correr descalça para os aposentos do filho. Seu rosto amarelado revelava preocupação. Hilário estava parado diante dela, com as mãos nas costas. Ele também parecia um pouco emagrecido e encurvado e seus pequenos olhos corriam de preocupação. - Mais tarde terei tempo de responder a todas as suas perguntas, minha filha. Agora, precisamos acertar uma situação extremamente importante, que é preciosíssima para nós. Eu soube disso ainda ontem, mas já era muito tarde para falar com a senhora, e os acontecimentos noturnos mantiveram-me fora de casa até agora. Para resumir, direi somente que o cardeal contou a Rugena o segredo da morte forçada do seu pai. - Isso é impossível! - Exclamou a condessa, empalidecendo. - Eu soube disso pelo Bonaventura e pela Maria, a criada da jovem condessa; ela gosta de mim e conta tudo o que pode me interessar! O fato por si só é incontestável; mas na história, o cardeal colocou como mandantes e executores do crime seu marido e seu filho. - Para que tantas mentiras?
Naquela hora Hinek estava em Praga, Vok estava no castelo Valdstein e ambos nada sabiam da nossa decisão final. Provavelmente Brancassis deve ter perdido a cabeça, ao jogar sobre o nosso pescoço essa velha história que há muito tinha sido esquecida e que, na época, foi realizada com tanta maestria que nunca ninguém teve a mínima suspeita. E isso foi muita maldade da parte dele, pois para o perdão desse pecado eu lhe paguei generosamente. - Que o caso foi muito bem executado, é certo! Mas o demônio jogou sobre o cardeal Tomasse uma malfadada paixão por vossa nora que o levou a revelar-lhe a verdade - uma verdade deturpada, com o claro intuito de separá-la do marido. E esse mesmo demônio também pode nos aprontar alguma coisa! - Eu, sinceramente, não sei o que os homens vêem naquela cara pálida de Rugena! Quanto ao caso Rabstein, penso que o senhor, padre Hilário, está preocupado por nada. Não há nenhuma prova.
O cardeal me confirmou que o veneno não deixa rastros e depois, ninguém viu... - Deus viu! - Trovejou nesse instante uma voz ameaçadora. A moldura com o quadro afastou-se do lugar e descobriu o esconderijo de onde Vok saiu, pulou em cima de Hilário e, jogando-o de bruços no chão, colocou um punhal em sua garganta. A condessa gritou. O aparecimento inesperado do filho surpreendera-a tanto que ela não percebera a porta que se abrira na parede. Pulando em cima do filho, ela tentava tirar a arma de suas mãos. - Você enlouqueceu? Como ousa atacar o meu confessor e quebrar a minha privacidade? - Gritava ela. Mas o conde Hinek arrancou-a de Vok e empurrou-a para a parede. -Nós ouvimos o que você discutia em sua. privacidade*. - Fale, seu cão imundo! Confesse o seu crime, senão lhe furo os olhos! - Dizia Vok e sua lâmina dançava diante do rosto mortificado do monge. Mas Huss correu até ele e segurou sua mão. - É melhor prometer-lhe a vida, para ele confessar tudo.
Não suje as suas mãos com seu desprezível sangue! - Observou ele. - Tem razão, padre Jan! Que ele vá para o inferno, desde que confesse tudo! - Interrompeu o velho conde. - Deixe-o, Vok, para que ele possa falar. Hilário ficou de joelhos, tremendo de medo e com os olhos esbugalhados. - Vocês prometem que não vão me tocar se eu contar tudo? - Murmurou o monge. — Tem a nossa palavra! - Responderam a uma voz os condes. Então Hilário contou, com voz entrecortada, todos os detalhes do envenenamento do barão Svetomir. Depois, contou também tudo o que sabia sobre o plano de Brancassis - que tentava Rugena com a esperança de divórcio a fim de atraí-la para a Itália. Bonaventura, entretanto, tomara uma decisão diferente; suspeitando de que Vok fora o culpado por seu açoitamento com varas de marmelo, ele repentinamente resolvera aproveitar o retorno inesperado do jovem conde para matá-lo. Ele tinha à mão não um veneno, mas um soporífero que havia preparado a mando de Brancassis.
Por ordem de Hilário, a criada Maria colocara-o na refeição servida no jantar do conde. "Em vez de divorciar-se, ela enviuvará", observara Bonaventura naquela hora. Mas a presença de Ana no quarto de Rugena arruinara o plano tão bem idealizado. - Muito bem! - Disse o conde, quando o monge acabou a sua história e enxugou o suor da testa. - Agora saia daqui, seu patife! Que seus pés nunca mais pisem a soleira de minha casa. E não ouse aproximarse de minhas propriedades, senão os meus homens irão enforcá-lo como a um cão! Hilário levantou-se com tal agilidade que faria os presentes rirem numa hora diferente, e desapareceu pela porta. Durante o longo depoimento do seu confessor, a condessa ficara petrificada, mas pelo jeito já havia recuperado seu sangue-frio: não tirava o olhar sombrio, cheio de ódio, de Rugena, que caíra em prantos durante a terrível história de Hilário. Quando o monge saiu, o conde Hinek aproximou-se da esposa e, medindo-a com um olhar de desprezo, disse: - Já livrei a minha casa de um monstro.
O que devo fazer com você, sua inútil, que ousava se aproximar de mim ou beijar o seu inocente filho sendo culpada de assassinato duplamente terrível, pois se tratava de um parente próximo? Você não tem nem vergonha nem dor de consciência? Você não teme ter de responder por isso após a sua morte? Não treme ao imaginar como aparecerá diante do Senhor com as mãos manchadas com o inocente sangue do pobre Barão Svetomir? A condessa levantou a cabeça, orgulhosa. - Não me arrependo de nada! - Disse ela, desafiadora. - O que fiz foi com amor de mãe, para garantir ao meu filho um futuro brilhante! Estou tranqüila, pois a minha consciência está calada e posso aparecer sem medo diante do trono do Altíssimo... - Ou você enlouqueceu ou, definitivamente, perdeu qualquer noção sobre Deus e Suas leis. - Interrompeu-a o conde. - Não, não estou louca, e a minha fé me salvará!
A indulgência do representante de Cristo, que tem o poder de juntar e perdoar na terra, perdoou o meu pecado e me abriu as portas do céu. Veja! -Ela correu até a mesa e, abrindo a gaveta com a chave que trazia pendurada no cinto, retirou de lá uma folha dobrada de pergaminho que entregou ao marido. - Leia, infiel! Esta é uma indulgência completa não só para mim mas também para você, seu ingrato, e até para os meus descendentes. Entende agora toda a injustiça de suas acusações? Os presentes olhavam com horror para a condessa e ela encaravaos, calma e desafiadoramente. -Ah! Você tem uma indulgência!? Mas como pude me esquecer desse escudo por trás do qual se esconde tanta maldade? - Sorriu, amargamente, o conde, abrindo o pergaminho e lendo seu teor, sublinhando, zombeteiro, cada palavra. Sufocando de raiva, ele arremessou o pergaminho na lareira acesa, dizendo: - Este é o valor que eu dou a esse acordo diabólico, firmado entre o Anticristo e o satanás para arruinar almas e obrigar idiotas a cometerem crimes! A condessa gritou selvagemente e segurou a cabeça com as mãos.
No primeiro instante ela ficou parada e boquiaberta, olhando com horror para as chamas onde o pergaminho enegrecia e enrugava; depois correu para a lareira e meteu a mão no fogo. Ela tentava salvar o precioso documento, sem ligar para o perigo e as queimaduras, pois para ela aquele papel garantia-lhe completa segurança. As mangas largas da roupa da condessa incendiaram-se imediatamente e Vok e Huss correram para afastá-la do fogo e apagar o traje que queimava. Ela parecia nada ver nem entender, olhando fixamente para o rolo em chamas. Quando o último pedaço transformou-se em cinzas, a condessa jogou-se no chão e, urrando, começou a rolar em terríveis convulsões. Sua força era tanta que os três homens não puderam com ela e tiveram de chamar Broda. Com a ajuda do mestre-de-armas, conseguiram retirar a condessa Iana de lá - os gritos estridentes da mulher podiam ser ouvidos por toda a casa. Rugena, horrorizada, procurou a proteção de Huss. Este, também profundamente chocado, tentava acalmá-la.
O velho conde e Vok, estupefatos, permaneciam em silêncio. - Meu Deus! - Suspirou Huss, persignando-se. - Que terrível exemplo da maléfica influência das indulgências tivemos aqui! Não é o dever de qualquer pessoa honesta lutar na medida de suas forças contra o abuso da fé simples do ser humano? A pobre condessa, cega pelo fanatismo, não suportou ver a destruição desse pedaço de pergaminho cheio de mentiras. Nenhum desses enganados se pergunta por que Cristo nunca disse nada sobre tão importantes documentos, se eles realmente têm algum significado no céu? - Tais ilusões são terríveis! - Confirmou, suspirando, o conde Hinek. E dirigindo-se a Rugena, disse, com amargor: - Você percebe que Vok e eu somos inocentes na morte de seu pai? Infelizmente, não podemos consertar todas as conseqüências do crime. - Desculpe, pai, a minha injusta ofensa, mas eu fiquei por demais chocada, e tudo estava contra vocês... - Respondeu ela, baixinho. - Mas é claro! Quem precisa de provas se um exemplo de bondade, como Brancassis, acusa dois malfeitores como meu pai e eu?
Não dá para não acreditar... - Observou Vok, venenosamente. E, sem olhar para a esposa, saiu do quarto. Rugena enrubesceu, mas não teve tempo de responder. Chegou Broda e, aproveitando o intervalo, lembrou aos presentes sobre a infeliz Túlia, que prestara aos Valdstein tão inestimáveis préstimos. - É verdade! Quase me esqueci dela. É claro que estamos muito agradecidos à pobre moça. - Disse o conde. - Converse com ela, Rugena, e diga-lhe que se ela deseja retornar à Itália, eu me incumbirei de enviá-la para lá sob forte proteção e ainda vou garantir o seu futuro. Mas, se ela preferir ficar conosco, minha casa será o seu lar até a morte. Túlia estava sentada, triste e pensativa, quando entrou Rugena querendo decidir o destino da jovem mulher, antes que alguém da casa a visse. Ao ver a condessa, Túlia sobressaltou-se e ajoelhou-se diante dela; mas esta abraçou-a afetuosamente e, com frases carinhosas, transmitiu-lhe os agradecimentos de toda a família e a oferta do conde. - Permita-me ficar com vocês, senhora! Não tenho ninguém na minha pátria.
Creia-me, vou servir-lhes fielmente. - Respondeu Túlia, com lágrimas nos olhos. - Minha querida, fique conosco não como criada mas como amiga. - Respondeu amavelmente Rugena. - Venha, vou arranjar-lhe um lugar para ficar e um vestido. Jogue fora estes trajes junto com o seu horrível passado. O Senhor, em Sua infinita bondade, talvez ainda lhe envie um destino feliz e pacífico.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.