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Capítulo 43 de 51

Parte 43 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

116 Derjava: uma esfera encimada com uma cruz, simbolizando a nação- Nota do tradutor. assim como os depoimentos de testemunhas, sem esquecer a acusação imbecil de que Huss dizia-se a quarta pessoa da Santíssima Trindade. Ao ouvir aquela mistura de mentiras, idéias deturpadas e calúnias que transpiravam ódio, o infeliz ficou desesperado, quis protestar, justificar-se. Mas o cardeal Zabarella interrompeu-o e ordenou-lhe severamente que se calasse. Huss, então, ajoelhou-se e começou a orar em voz alta pelos inimigos, entregando o seu destino ao Juiz Celestial, o que provocou nos presentes somente riso e zombaria. Quando finalmente chegou ao fim a longa lista de acusações, os bispos, designados para realizar a cerimônia de retirar a tonsura de Huss, propuseram-lhe renunciar aos seus ensinamentos. Ele respondeu humildemente, mas com firmeza, que estaria sempre pronto a renunciar a enganos desde que estes fossem provados pelas Escrituras e que, por se considerar inocente de heresias, comparecera ao concilio acreditando estar protegido pela promessa do imperador de defendêlo. Naquele instante, seu olhar dirigiu-se com repreensão a Sigismundo e a tradição conta que o imperador baixou os olhos e corou de vergonha.

Entretanto, alguns historiadores alemães acham que essa tradição é uma invenção e nós concordamos com essa opinião. Sigis-mundo não era homem de corar diante de traição, ainda mais em relação a um simples e pobre sacerdote que ousara dizer: "Se o rei cometeu um pecado mortal, então diante de Deus ele não é um verdadeiro governante". Do que Sigismundo era capaz mostra a opinião geral de seus contemporâneos sobre ele ter envenenado seu irmão Jan Herlitsky. Em todo caso, se ele teve dor de consciência, esta não foi suficiente para despertar nele o sentimento de justiça e humanitarismo. Permaneceu sentado em silêncio durante a leitura da sentença injusta e vergonhosa que condenava Huss à perda da tonsura e à fogueira. A triste cerimônia começou imediatamente. Os bispos vestiram os paramentos clericais em Huss e puseram em suas mãos um cálice como se ele fosse rezar uma missa; em seguida, pela última vez, mandaram-no renunciar. O infeliz, com lágrimas nos olhos, respondeu que a sua consciência não lhe permitia postar-se como mentiroso diante do altar de Deus.

Depois disso, o cálice foi arrancado de suas mãos e retiraram-lhe os paramentos clericais, pronunciando exorcismos. Finalmente, iniciaram a tonsura e discutiram entre si se deviam cortar seus cabelos com navalha ou tesoura. Huss, mais uma vez, dirigiu-se ao imperador: - Acalme-os, Alteza - disse ele, sorrindo -, pois não conseguem se decidir como concluir a minha vexação! Por fim, decidiram utilizar a tesoura. Depois disso, colocaram sobre a cabeça de Huss uma carapuça de papel que tinha demônios pintados e na qual estava escrito, em letras garrafais: Haeresiarcha (heresiarca). - O Senhor usou por mim uma coroa de espinhos e, por amor a Ele, ficarei feliz em usar este chapéu vexatório. - Respondeu Huss, humildemente, àquele escárnio. A cerimônia foi concluída com as palavras do arcebispo de Milão: - A partir de agora, a Igreja nada tem em comum com você: ela entrega seu corpo ao poder mundano e sua alma - ao diabo!

Conforme o zertsalo da Suábia, os hereges deveriam ser entregues às autoridades civis e por isso os bispos dirigiram-se ao imperador. - O santo concilio de Constança entrega ao poder civil Jan Huss "detonsurado" e expulso da Igreja. O imperador transmitiu-o a Ludovico, o "curfiursta" da Bavária. - Caro duque! Pegue este homem e, em meu nome, execute-o conforme deve ser feito com os hereges. Ludovico, por sua vez, entregou-o aos carrascos: - Peguem Jan Huss, que - por decisão do nosso todo-misericordioso governante rei de Roma e por minha ordem - deve ser queimado.

117 Zertsalo: nome arcaico de coletânea de obras morais, que ditava os costumes a serem seguidos em certas situações - Nota do tradutor.

Com as mãos amarradas, cercado por quatro guardas, sob uma escolta de 800 homens armados e acompanhado por enorme multidão, Huss dirigiu-se ao local da execução. Seu rosto magro estava pálido mas tranqüilo e os olhos cheios de fé estavam voltados para o céu. Ele continuou a orar em voz alta e o povo, comovido pela força de seu espírito e por sua beatitude, expressava-lhe abertamente a sua solidariedade: - Não conhecemos a sua culpa, mas ele reza como um verdadeiro justo. Quando Huss passava perto do palácio do bispo e viu no quintal uma fogueira acesa que queimava suas obras, somente sorriu: ele sabia que o fogo não iria eliminar as verdades anunciadas por ele. O local de execução foi escolhido no campo entre o arrabalde e os jardins do castelo de Gottliben. Ao ver a fogueira montada, Huss hesitou. Será que o corpo impotente tremeu antecipando o sofrimento e a destruição? Entretanto, a hesitação durou um único instante: o corajoso espírito do mártir venceu novamente.

Ajoelhando-se, ele elevou as mãos amarradas aos céus e disse, com fervor: - Senhor Jesus, meu Mestre Divino! Por Seu Evangelho, pela verdade que preguei, aceito com alegria e documente este sofrimento. Não me deixe nesta grande hora e me ajude até o fim. Entre os espectadores que presenciavam na igreja a condenação de Huss estavam Ana e Svetomir. Este, sabendo de antemão o que estava sendo preparado para aquele dia, informara tudo a Ana e ambos haviam decidido ir à igreja. Eles nada tinham dito a Rugena. A jovem condessa estava passando muito mal e os amigos resolveram ocultarlhe inclusive que o destino de seu confessor já estava inexoravelmente decidido. Svetomir observava com raiva e indignação todos os detalhes da ignóbil paródia de julgamento desempenhada diante deles e que fora coroada por uma condenação injusta. Absorto pelo que acontecia diante de seus olhos, ele momentaneamente se esqueceu de sua acompanhante. Quando, de repente, olhou para Ana, estremeceu diante da ameaçadora e até terrível aparência da moça.

Todo o sangue parecia ter abandonado o rosto de Ana, que estava branco como uma máscara de cera; somente os olhos pareciam vivos e neles refletiam-se alternadamente um indescritível desespero e uma explosão de ódio e desprezo quando seu olhar se dirigia ao clero, que discutia a questão datonsura do condenado. Naquele instante, Ana estava incrivelmente parecida com seu irmão Jan Zizka: a mesma severidade no olhar e a mesma fria crueldade na expressão da boca. Apesar de sua terrível emoção, ela não despejou uma única lágrima. Quando Huss, entregue aos carrascos, foi levado para fora do templo, ela disse surdamente a Svetomir: - Vamos atrás dele até o fim. - Não é melhor voltar para casa, Ana? A visão da execução será demasiadamente terrível para você. - Disse ele, compadecido, inclinando-se para ela. - Se ele deve suportá-la, então eu também posso pelo menos vê-la e rezar a Deus pelo inocente sofredor. - Respondeu ela, firmemente. Svetomir não discutiu mais e, pegando-a pela mão, misturou-se na multidão que acompanhava o condenado.

As ondas de massa humana rolavam lentamente e com freqüentes paradas pelas sinuosas ruas da cidade e, ao chegar ao local da execução, espalhavam-se num largo círculo em volta da fogueira. Svetomir e Ana tentavam energicamente passar para a frente e as fechadas fileiras da multidão abriam-se quase com medo supersticioso diante daquela mulher trajando pesado luto, com um olhar de brilho sombrio. Enquanto eles tentavam alcançar as primeiras fileiras, um monge entrou a cavalo no meio da multidão e começou a abrir caminho sem nenhuma cerimônia. Svetomir aproveitou e seguiu atrás do cavaleiro que abria uma brecha na multidão. Desse modo eles saíram bem na frente, perto de Huss, que, naquele instante, pensava na última confissão que o povo propunha ao condenado e à qual se opunha um sacerdote de capa verde e brilhante, que gritava: - Um herege não pode se confessar nem confessar ninguém. Um outro sacerdote gritava com o mesmo entusiasmo que se Huss desejava confessar-se então devia antes renunciar à heresia. A voz tranqüila e clara do condenado soou em resposta: - Sou inocente de qualquer pecado mortal!

E, no momento em que me preparo para aparecer diante do Senhor, não irei pagar meus pecados com um falso juramento. Não prestando mais atenção aos sacerdotes, Huss pediu permissão para se despedir de seus carcereiros; recebendo a autorização, abraçou-os e beijou-os, agradecendo tanta bondade para com ele. Depois, quis falar algumas palavras ao povo, mas Palatin opôs-se a isso e ordenou que apressassem a execução. - Senhor Jesus, receba o meu espírito em Suas mãos e perdoe a todos os meus inimigos! - Orava Huss, elevando os olhos para o céu. A carapuça de papel caiu no chão e um dos soldados vestiu-a nele novamente, exclamando: - Que ela queime junto com os demônios aos quais você serviu tão bem! O olhar de Huss, que passava tristemente pelas fileiras da multidão à sua volta, parou de repente em Svetomir e Ana e um sorriso de alegria apareceu em sua face; ele inclinou-lhes a cabeça em sinal de despedida e voltou-se, pois o carrasco e seus ajudantes começaram a arrancar suas roupas.

Prenderam suas mãos nas costas com corda molhada, amarraramno ao poste e passaram uma corrente untada com fuligem em volta de seu pescoço. Depois, começaram a colocar à sua volta, lenha untada com piche entremeada por tufos de feno. Durante essa preparação lúgubre ele permaneceu calmo; talvez nunca antes o seu espírito heróico esteve tão firme e ao mesmo tempo dócil e cheio de fé. Evitando olhar para a cruel multidão que exigia que ele fosse colocado de frente para o ocidente - pois, conforme diziam, um herege não pode olhar para o oriente -, Huss olhou para o céu e o seu olhar, de repente, acendeu-se de radiante felicidade. Por cima da fogueira ele viu a grandiosa imagem do primeiro mestre da Boêmia; seus profundos e severos olhos olhavam o mártir com amor e, com a cruz que segurava na mão, ele apontava para o céu. Absorto pela visão, Huss não percebia que havia sido rodeado pela lenha até o pescoço. De repente, a voz de alguém arrancou-o do esquecimento.

Era o grande marechal do Império, conde Pappenheim, que chegara, em nome de Sigismundo, tentando pela última vez convencê-lo a renunciar para salvar a vida. - Para que o senhor vem constranger a grande paz da minha alma? A nada tenho que renunciar, pois nunca professei nem ensinei as heresias de que me acusaram mentirosamente. Ficarei feliz em marcar com o próprio sangue as verdades evangélicas que ensinei oralmente e por escrito. - Respondeu Huss, com brandura mas firmemente. Ana acompanhava a execução com os olhos bem abertos e o corpo inteiro tremendo; quando o fogo começou a crepitar, ela balançou e fechou os olhos. Svetomir, imaginando que ela iria desmaiar, abraçoua para que não caísse. Ana, entretanto, já estava refeita e, com o olhar brilhando febrilmente, olhava para a fogueira quando, naquele instante, ouviu-se das chamas uma voz sonora cantando uma oração. Aquele canto, em meio ao horrível sofrimento, anunciando a vitória do espírito sobre a carne, agiu de forma deprimente sobre a multidão, que estancou, muda de surpresa. Os olhares de todos estavam fixos sobre a coluna de fumaça e fogo de onde não se ouviam nem gemidos, nem lamentos, nem gritos. Somente a melódica invocação ao Pai celesti-

al. De repente, a voz do mártir calou-se - a fumaça soprou sobre o seu rosto. Durante um certo tempo dava para ver que seus lábios se mexiam, em seguida a cabeça pendeu sem vida. Ana caiu de joelhos e tapou o rosto com as mãos. - Vamos embora, está tudo acabado. - Sussurrou Svetomir, tentando levantá-la.

118 Alguns historiadores afirmam que ele cantava um canto litúrgico, o Kyrie Eleison - Nota da editora.

Ana, imediatamente, levantou-se sozinha em silêncio e, de cabeça baixa, seguiu seu acompanhante; pelo rosto másculo de Svetomir caíam lágrimas. - Um sopro de vento salvador pôs um fim aos seus sofrimentos. - Disse ele, com voz surda e emocionada quando eles saíram da multidão. Ana parou e apertou firmemente a sua mão. - Sim, aquele sopro de vento nesta calmaria foi um verdadeiro milagre... - Sussurrou ela, com lábios trêmulos. - Um enviado celestial veio para resgatar a alma da vítima dessa revoltante mentira. No momento em que Huss cantava, eu vi acima da fogueira um solene ancião com uma cruz na mão e um anjo de luz; e foi esse anjo que, com o agitar de suas poderosas asas, jogou fumaça sobre o rosto do bemaventurado mártir e depois recebeu a sua alma. Svetomir estremeceu e persignou-se, não duvidando nem por um instante da veracidade da visão de sua companheira. Tendo ficado sozinha em casa, pois o conde Hinek estava ausente, Rugena repentinamente foi tomada por uma grande ansiedade e não conseguia se acalmar.

A fiel litka tentava sem sucesso distraí-la; dizia que logo chegaria o conde Vok, convidava-a para descer ao jardim ou ir dormir, mas nada funcionava. Nem no jardim, nem na cama, a condessa encontrava paz. Quanto à chegada do marido, ela respondia, com impaciência, que Vok demoraria a chegar e que, em sua última carta, ele queixara-se de não conseguir receber a dispensa. Por fim, Rugena sentou-se junto à janela aberta e cochilou; sentada a seus pés, litka olhava o rosto pálido e emagrecido de sua pupila e engolia as lágrimas. De repente, Rugena endireitou-se e olhou fixamente para o nada, como se visse diante de si algo terrível. Seus lábios entreabri-ram-se e os braços esticaram-se como se implorassem por algo. A velha aia olhou-a com horror. - Fogo! Fogo! E no meio das chamas arde o padre Jan! - Pronunciou a condessa, com a voz embargada, levando uma mão ao peito. - Você está delirando, minha querida! Não há nada no jardim! - Disse litka, com voz trêmula. - É ele! Vejo que ele está queimando, amarrado ao poste... - Sussurrou Rugena, caindo sobre o espaldar da poltrona e desmaiando.

Naquele instante, alguns cavaleiros com capas empoeiradas e cavalos fatigados e cobertos de espuma pararam diante da casa. Era Vok que chegava com o seu séquito. Apeando do cavalo, ele começou a bater com impaciência no portão da casa, mas teve de esperar muito para que abrissem, pois quase toda a criadagem da casa tinha ido assistir à execução. Irritado, o jovem conde continuou a bater incessantemente no portão até que este finalmente foi aberto por uma velha criada que balbuciava desculpas das quais ele somente entendeu que seu pai não se encontrava em casa. Ordenando que o seu séquito fosse alojado e alimentado, ele mandou que o conduzissem aos aposentos da esposa. Rugena estava desmaiada na poltrona e litka massageava suas mãos e seu rosto com ervas aromáticas. Naquele instante a porta se abriu, Vok entrou e parou como uma estátua. Olhou para a esposa com mudo horror, depois correu para ela, caiu de joelhos e apertou junto ao seu peito o frágil e imóvel corpo, cobrindo de beijos seu rosto e suas mãos. - Ela morreu! Morreu!

Cheguei tarde demais! - Murmurava ele, com lágrimas na voz. - Mas não, meu bom senhor, ela somente perdeu os sentidos! E agora que o senhor chegou, com a graça de Deus, tudo irá melhorar! - Exclamou litka, beijando a mão de Vok, com lágrimas de felicidade nos olhos. Ela contou-lhe que o desmaio fora provocado por uma horrível visão e Vok sentiu como se um enorme peso caísse de seus ombros. Todavia, a terrível mudança na aparência da esposa deixou-o muito preocupado. Quando Rugena abriu os olhos e reconheceu o marido inclinado sobre ela, sorriu e ficou ruborizada. Percebendo as lágrimas nos olhos e a tristeza no rosto do alegre e pândego Vok, ela abraçou seu pescoço e encostou a cabeça em seu peito. - Você está chorando a nossa próxima despedida? - Sussurrou ela. - Então você me ama e tem pena de mim? - Se eu a amo? - Retrucou Vok, abraçando a esposa apaixonadamente. - Não me fale de separação!

Você vai sarar, pois eu desejo isso! - E, dominando a própria emoção, começou a falar de outra coisa. Esse dia, entretanto, ainda guardava muitas notícias ruins para o jovem conde. Seu pai, Svetomir e Ana retornaram e contaram-lhe os detalhes do ignóbil julgamento de Huss e de sua terrível morte. Vok lamentou profundamente a própria chegada tardia que o privara da possibilidade de ver pela última vez o amigo que tanto respeitava. À noite, quando Rugena foi dormir, os condes e Svetomir reuniram-se no quarto de Hinek para discutir os acontecimentos do dia. Broda, ao retornar mais tarde, contou-lhes alguns episódios que os indignaram profundamente. Querendo guardar um pouco das cinzas do santo mártir, ele permanecera no local da execução e fora testemunha de um espetáculo repugnante. Quando a lenha queimara e aparecera o corpo carbonizado do executado, os carrascos haviam derrubado o poste junto com o cadáver e começado a cortá-lo em pedaços. Tinham quebrado o crânio e acendido uma nova fogueira para eliminar mais rapidamente os restos do infeliz.

O coração do mártir, que não fora atingido, os bárbaros inicialmente haviam chicoteado com varas, depois furado e assado. Até as roupas de Huss haviam sido queimadas por ordem de Palatino; as cinzas, os carvões e tudo o que restara haviam sido jogados no rio Reno. Vok, o velho conde, Svetomir e Broda decidiram ir, naquela mesma noite, até o local de execução e pegar de lá pelo menos um punhado da terra consagrada pelo sangue do mártir, para levá-lo a Boêmia. Eles conseguiram seu intento e puderam guardar aquela recordação tão cara para eles antes que os insaciáveis inimigos de Huss, zombando da sagrada memória do grande defensor da verdade, tivessem enterrado carniça naquele mesmo local.

Capítulo IX

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.