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Capítulo 6 de 51
Parte 6 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Sentindo a infelicidade da garota, Huss trouxe-a para perto de si e começou a consolá-la falando sobre a sabedoria e a bondade divinas e sobre os insondáveis caminhos de Deus, que o homem, em sua cegueira, muitas vezes não reconhece, mas que sempre conduzem ao bem, principalmente àquele que, com uma sólida fé, entrega sua vida e seu destino ao Criador. A voz profunda e branda e a espiritualidade que emanava do jovem pregador agiram de forma benfazeja sobre a criança. O rostinho desfigurado de Rugena clareou; ela juntou humildemente as mãos e repousou com confiança a cabecinha no ombro do seu consolador. Naquele momento ela também notou a presença de Jerônimo e cumprimentou-o amigavelmente. Satisfeito com a ação calmante das próprias palavras, Huss convenceu Rugena a ir dormir e a menina já se preparava para sair obediente quando, de repente, um ruído surdo veio do corredor vizinho. Ouviram-se passos, gritos e lamentos.
Por fim, a porta se abriu e apareceu o velho escudeiro todo empoeirado e pálido; atrás dele vinha o velho castelão, emocionado e com o rosto cheio de lágrimas. - Oh, reverendo mestre Jan! - Disse o castelão, com voz trêmula. - Que desgraça, que terrível desgraça! O nosso querido amo faleceu! Vendo o escudeiro do pai, Rugena quis correr para ele, mas seu ar sombrio e abatido assustou-a e fê-la estancar. Ao ouvir a notícia da morte do pai, Rugena fez um gesto indefeso com as mãos e emitiu um grito surdo, sua cabecinha caiu para trás e ela cairia no chão se a aia não a segurasse a tempo. Os presentes correram para ajudá-la, mas Rugena havia desmaiado e foi levada assim para seu quarto. Huss, profundamente comovido pelo trágico acontecimento, ordenou ao escudeiro Matias que lhe contasse todos os detalhes da inesperada morte do barão, que - pela idade e pela boa saúde - deveria ter ainda muitos anos de vida.
Matias descreveu detalhadamente as circunstâncias que haviam acompanhado o falecimento do seu senhor, contendo com dificuldade as lágrimas que o sufocavam. Ao ouvir o nome de Brancassis, Jerônimo sobressaltou-se. - Mas como? Então, Brancassis, o sobrinho de Baltazar Cossa, está metido nessa história? Isso quer dizer então que... - O olhar desaprovador de Huss fê-lo calar-se. - Conheço o bispo, mas sua presença aqui me surpreende. Imaginei que ele estivesse na Itália. - Conteve-se Jerônimo, mudando de tom. Um sorriso amargo passou momentaneamente pelos lábios do escudeiro. Ele continuou sua história e, ao terminá-la, pediu licença para sair. - O que você quis dizer com sua descuidada observação sobre Brancassis? - Perguntou Huss, quando eles ficaram a sós. - Não pude me conter! De repente, veio-me a idéia de que a repentina doença do barão seguida de morte não foi natural, e os intensivos cuidados dispensados pelo bispo ao paciente são muito suspeitos! Durante a viagem à Itália eu soube sobre o Cossa, que na época era arcebispo, coisas incríveis, de arrepiar os cabelos.
Como, por exemplo, que ele era um pirata e abandonou a carreira para se tornar condotieri. Não sei o que o obrigou a desertar e a tomar as vestes sacerdotais, mas se sabe que também nessas vestes ele continua na sua antiga atividade, ou seja, de roubo e devassidão. Dizem que o sobrinho desse bandido é a sua mão direita. Portanto, ele não visitaria nobres tchecos se não fosse para obter ali lucros vantajosos. É mais estranho ainda que o Valdstein seja nomeado tutor, pois todos sabem que ele e o finado barão eram inimigos políticos. Rabstein, como você sabe, era fervoroso partidário da "união dos senhores" e incitava Rosenberg a prender o rei em Beroun, enquanto seu irmão, Hinek Valdstein, é membro influente da corte de Venceslau. Isso tudo só confirma as minhas suspeitas! - Misericordioso Senhor, proteja a inocente órfã de todas essas infâmias... - Sussurrou Huss, persignando-se com devoção. Em seguida, ajoelhando-se, recitou a prece noturna e foi dormir, pois estava caindo de cansaço.
Ao chegar nas dependências da criadagem, Matias foi obrigado a repetir mais uma vez a história detalhada da morte do barão e, depois, conversou por longo tempo com o castelão. Livrando-se disso, ele finalmente dirigiu-se aos aposentos de Rugena e, apesar da alta hora, bateu levemente na porta do quarto contíguo ao da menina. A porta abriu-se imediatamente. - Logo imaginei que viria aqui, Matias, e já o esperava. - Disse a aia, sussurrando. - Queria falar-lhe sobre a desgraça que nos atingiu. Como está a nossa pobre senhorita? - Dorme como um anjo! O desespero e as lágrimas deixaram-na totalmente exausta. No princípio, quando a trouxeram aqui para cima, pensei que ela tivesse perdido a razão, mas depois ela silenciou e acabou adormecendo no meu colo. O escudeiro entrou e sentou-se junto à mesa, sobre a qual havia uma lamparina a óleo. Iitka e Matias eram primos e amigos desde a infância. Ambos haviam nascido e crescido no castelo, passando toda a vida a serviço da família Rabstein, à qual eram totalmente leais e devotados.
O finado barão Svetomir von-Rabstein percebera e valorizara aquela comprovada fidelidade; a confiança mútua que sentiam parecera sempre uma grande amizade. O quarto ficou em silêncio. Iitka chorava baixinho e Matias, encostando-se na mesa, ficou sentado, sombrio. - Vamos, conte-me afinal como morreu o nosso querido amo. Não consigo entender de onde apareceu essa doença, pois quando saiu daqui ele estava tão bem quanto um peixe dentro d'água. - É por isso que estou convencido de que o barão foi vítima de uma torpe maldade... - Sussurrou Matias, inclinando-se para Iitka, que ficou pasmada com aquelas palavras. - Maldade... que maldade?... - Sussurrou ela, com os lábios trêmulos. - Quem mataria nosso bondoso senhor? Quem lucraria com isso? - Ah! Quem lucraria está óbvio! Ouça, vou contar-lhe tudo, pois sei que guardará silêncio. Depois, julgue por si mesma se as minhas suspeitas têm fundamento ou não. Lembra-se quando não gostei nada da visita inesperada do bispo italiano? Não confio nesses falsos, espertos e hipócritas estrangeiros: parecem cães que rastejam até você para depois lhe darem uma mordida!
Então, às vésperas da viagem, ao ajudar o barão a despir-se, tentei sutilmente saber dele o que queria o italiano. Nosso amo era bem esperto e imediatamente percebeu isso e riu. Bateu-me no ombro e disse: "Fique sabendo, velha raposa, que o bispo veio como enviado de meu irmão Hinek, para me tomar dinheiro e com a proposta de casar Rugena com seu filho, Vok. Mas não pretendo me arruinar pelos Valdstein nem entregar minha filha ao seu filho pândego, o que acabei lhe dizendo. Ele assumiu essas negociações por ser parente da própria condessa. Agora vá, e durma tranqüilo". Durante a viagem, o barão estava absolutamente são até Pilsen. A doença acometeu-o depois do jantar na estalagem "Bezerro de Ouro". Já de manhã, quando nós nos pusemos a caminho, notei que o barão não estava bem e mal se segurava na sela. Chegando na próxima estalagem, ele perdeu os sentidos. Mandei imediatamente um de nossos homens de volta à cidade para buscar o médico; nesse ínterim, o barão já não reconhecia ninguém e ardia em febre.
No lugar do médico apareceram o próprio bispo e o seu tesoureiro. O amo foi colocado numa liteira e levado à cidade, para a casa do conde Valdstein. Tudo isso foi muito suspeito. Não confio naquele bispo desde o dia em que descobri que um de seus pajens é uma mulher travestida. - Que baixeza! - Pois é! Você pode imaginar o quanto essa descoberta não aumentou em nada o meu respeito por ele... Por isso, quando aquele safado mandou que todos nós saíssemos, dizendo que iria cuidar sozinho do paciente, senti uma tristeza tão grande que não consegui cerrar os olhos. Ao ouvir passos e vozes no quarto do barão, eu, por via das dúvidas, esgueirei-me para o depósito que havia ao lado do quarto, e fiquei ouvindo. Eles falavam baixo, mas consegui entender que o nosso amo ditava o testamento, que o bispo depois releu. Não ouvi tudo, mas me lembro claramente de que Rosenberg era nomeado o tutor de Rugena e de que ela deveria ser educada na casa dele até se casar.
Imagine como me senti quando ontem, após colocarem o finado no caixão e levarem-no para a igreja, o conde Valdstein reuniu-nos e leu o testamento que o nomeava tutor e administrador da herança de Rugena até o casamento dela com seu filho Vok e que dizia que, por vontade do falecido, o noivado deles deveria ser realizado o mais brevemente possível. - Mas isso é uma descarada trama! O testamento é falso e é preciso dar queixa e desmascará-los! - Exclamou Iitka, fora de si. - Queixar-se? - Ele sorriu, amargamente. - A quem? Quem acreditará nas acusações de um pobretão qualquer, como eu? Qualquer pessoa diria que é uma calúnia! O testamento foi assinado pelo barão à vista de todos; mas o texto lido pelo bispo não era o que ele escreveu. E como prová-lo? Não, Iitka, pode ser que, algum dia, nós revelemos toda a verdade à criança, mas por enquanto temos que nos calar. O que me entristece é que logo começarão a roubar os bens do nosso amo.
O barão guarda no baú muito dinheiro e só as jóias da falecida baronesa já valem uma fortuna. - Não poderíamos guardá-los em algum esconderijo na torre? Valdstein nunca esteve aqui e não vai achá-los. - Boa idéia! A chave do baú está comigo; eu a escondi quando vi chegando o bispo com a liteira. Amanhã à noite faremos isso! Depois de acertar os detalhes do plano, eles se separaram. No dia seguinte, antes de sair do castelo, Huss e Jerônimo quiseram ver Rugena, para expressar os pêsames e despedirem-se. A aparência pálida e emagrecida da menina, decorrente da noite agitada, consternou-os profundamente. Com lágrimas nos olhos, Huss trouxe Rugena para perto de si, beijou-a na testa, abençoou-a e conversou longamente com ela, tentando despertar em seu pobre coraçãozinho a submissão à vontade divina, convencê-la de que aquela separação do pai não seria para sempre e de que, na vida futura, ela voltaria a encontrá-lo se merecesse isso com sua devoção e suas boas ações.
Assim, seu pai, lá no céu, cuidaria dela e seria seu representante diante do altar de Deus. A fé fervorosa que inspirava Huss e que nunca o abandonou até a morte agiu beneficamente sobre a pura e sugestionável alma da menina. O desespero de Rugena alterou-se gradativamente para uma profunda e calma tristeza e lágrimas que a aliviaram. Ela olhou com confiança e amor nos olhos claros e tristes do seu consolador e, abraçando o pescoço dele com suas mãozinhas, sussurrou: - Você é bom, mestre Jan. Gosto muito de você! Fique aqui comigo. - Gostaria muito, minha criança, mas tenho coisas a resolver em Praga. Mas todo dia rezarei por você e pelo seu pai. E, se Deus quiser, nos veremos muito em breve! - Eu também, como você mandou, vou rezar a Deus de manhã e de noite, pensando no papai e olhando o céu para onde ele foi.
Assim, ele vai perceber que penso sempre nele! - Pobre e infeliz criança, vítima inocente da maldade e da avidez humana... - Observou Huss, balançando tristemente a cabeça, quando ele e seu companheiro já estavam na estrada. - Pois é! Ela precisará de muita proteção. Rugena vai se transformar numa linda mulher. Com sua grande herança, será uma caça cobiçada e à sua volta fervilharão todas as más paixões! - Confirmou Jerônimo, suspirando solidariamente. À noite, Iitka e Matias entraram no quarto do falecido e o escudeiro abriu o grande baú de ferro, chumbado na parede. De lá eles tiraram apressadamente duas grandes e pesadas caixas e alguns sacos de ouro; fecharam o baú e levaram os objetos retirados para a biblioteca, onde estavam guardados muitos pergaminhos antigos e documentos da família. Numa parte da parede, coberta por uma prateleira, o apertar de um botão abria uma passagem para um quarto bastante amplo, que tinha uma saída disfarçada para a floresta.
O barão mostrara aquela passagem e o quarto secreto ao fiel Matias para que ele, em caso de assalto ao castelo, pudesse usá-la e salvar as jóias, como também fugir com a criança se fosse necessário. Lá, os fiéis criados guardaram sacos com dinheiro, caixas com diversos objetos de ouro e a caríssima prataria. — Aqui tudo irá ficar guardado a salvo até a emancipação de Rugena. As jóias de sua mãe não irão parar nos bolsos de farsantes italianos! - Disse Matias, satisfeito. - Iitka, você deve contar à menina onde estão escondidos os seus bens para o caso de nossa morte. É preciso que ela mesma entregue ao conde a chave do baú. Valdstein não deve nem suspeitar de que ele passou por nossas mãos. No dia seguinte, Iitka teve uma conversa com Rugena sobre os seus futuros tutores e falou sobre a suspeita de sua avidez, convencendo habilmente a menina da necessidade de esconder parte dos bens se ela não quisesse que outros os roubassem. Rugena não estava apenas mais crescida para a idade.
Também possuía aquela mente observadora que cedo se desenvolve em crianças que crescem sozinhas entre adultos. Ela entendeu imediatamente que seus tutores eram inimigos em quem não devia confiar e, sem hesitar, disse: - Vamos guardar o que for mais valioso! Então, Iitka mostrou-lhe o quarto secreto e tudo o que ela e Matias haviam guardado lá. Depois, entregou-lhe a chave do baú. - Não se preocupe. - Disse-lhe a menina com firmeza na voz. - Não vou traí-los, nem entregar os objetos da mamãe; e vou entregar a chave do baú de forma que nenhuma suspeita recairá em Matias. O lindo rostinho da criança mostrou naquele momento tanta esperteza e decisão que deixou a aia desconcertada. Na grande sala da casa dos Valdstein, o corpo do falecido barão Rabstein estava exposto num alto cadafalso cercado de velas e o próprio Brancassis, acompanhado pelos padres Bonaventura e Hilário, executava a cerimônia fúnebre. Naquela ocasião o conde Hinek já tinha retornado de viagem e havia sido terrivelmente surpreendido pelo defunto na própria casa e pelas notícias inesperadas.
O conde já passava dos 40 anos: era um homem alto, bem eslavo, bonito e esbelto. Despreocupado por natureza e amante da boa vida, ele havia gastado grande parte da sua fortuna, apesar de as guerras e divergências daqueles tempos difíceis terem colaborado nisso. Ele, entretanto, nunca apelaria para o crime para se livrar de situações difíceis. A inesperada morte do primo em sua própria casa e de forma tão conveniente despertou nele sentimentos desagradáveis. Ao final da cerimônia ele ouviu, em silêncio e com o cenho franzido, a história da esposa, olhando-a fixamente. - Espero que você e seus "padrecos", eternamente sentados debaixo da sua saia, nada tenham a ver com a morte de Svetomir exatamente quando nós mais precisávamos! Não quero nada com assassinatos, você me entende? O rosto pálido e maldoso da condessa ficou verde. - Imagino que você perdeu o juízo ousando atirar tal acusação na própria esposa! Ordene as investigações sobre a morte do barão já que quer tanto a vergonha.
Pelo jeito, as suas terras e os seus castelos estão lhe pesando demais e você prefere ser um pequeno senhor! Por que rejeitar a felicidade enviada pela Providência, ao menos por amor ao seu filho que não tem culpa de viver na miséria e na vergonha que o aguardam? Ela virou as costas para ele e saiu irritada, enquanto o conde, sentando-se na poltrona, ficou pensativo. Aos poucos, sua despreocupação natural vingou: Svetomir provavelmente morrera de morte natural e seria irracional rejeitar o bemestar que caíra do céu. Tal pensamento acalmou-o. Após alguns dias, o conde chegou com o corpo do barão ao castelo do falecido para sepultá-lo no jazigo familiar. Rugena recebeu o féretro nos portões do castelo, acompanhada de Iitka e toda a criadagem. O vestido negro e o chapeuzinho com longo véu destacavam ainda mais seu rosto pálido e seus cabelos dourados. Ao ver o caixão, ela foi tomada por tal desespero que quiseram retirála de lá, mas isso pareceu lhe dar forças. Ela se recompôs e, mesmo chorando copiosamente, ficou até o fim do enterro.
Entretanto, quando a porta do jazigo fechou-se atrás do corpo do pai, ela não agüentou mais e sofreu um terrível ataque de nervos. A rara beleza da menina espantou o conde, e o seu desespero e as incontidas lágrimas causaram-lhe terrível impressão; algo como pena ou remorso mexia-se em seu fútil coração. Com esses sentimentos, ele pegou a criança no colo e, beijando-a carinhosamente, disse que seria para ela um segundo pai. Rugena recebeu friamente suas palavras e seus carinhos, olhou-o com hostilidade e desconfiança e recusou-se terminantemente a participar do banquete em memória do falecido, retirando-se para os seus aposentos, acompanhada por Iitka. No dia seguinte, por ordem do conde, toda a criadagem reuniu-se no grande salão e ele próprio leu diante deles o testamento do falecido barão, que o nomeava tutor de Rugena e entregava aos seus cuidados toda a herança da menina até o seu casamento com Vok von- Valdstein, declarado seu noivo.
Depois, o conde disse que, assim que concluísse o espólio dos bens e se inteirasse de todos os negócios, levaria a tutelada ao seu castelo onde prosseguiria a sua educação. Naquele mesmo dia, Valdstein começou a trabalhar energicamente e logo deu pela falta da chave do baú chumbado na parede. Debalde inquiriu toda a criadagem que, naturalmente, nada sabia sobre isso. Intrigado, o conde resolveu perguntar a Rugena se ela sabia onde estava a chave. - Sim, sei onde está, mas meu pai disse para não contar isso a ninguém. - Respondeu a menina, decisivamente. Valdstein precisou de muito tempo para convencê-la de que ele agora estava substituindo seu pai e de que, para defesa dos próprios interesses dela, precisava tomar conhecimento dos documentos que o baú continha. Rugena finalmente cedeu, exigindo que todos, inclusive Iitka, saíssem dos aposentos. Depois, levou o tutor para os aposentos do pai, onde retirou a chave de um lugar secreto.
Quando, dois dias depois, o conde perguntou a Rugena se ela sabia onde estavam as jóias de sua mãe, ela respondeu que não sabia de nada com tanta convicção, que ele finalmente acreditou. Isso inspirou a Iitka e Matias um respeito que chegava quase à veneração pela inteligência da criança. A viagem deles ao castelo dos Valdstein foi marcada para dali a uma semana. O conde, querendo manter boas relações com a futura nora, perguntou o que ela gostaria de levar consigo. - Vai permitir levar tudo o que eu quiser? - Perguntou Rugena. - É claro, minha criança, a não ser que queira levar consigo todo o castelo, ou uma de suas torres, o que seria bem difícil... - Riu ele. - Nesse caso, quero levar a minha aia e o Matias para me servirem e também Perun, o cão de caça predileto do meu pai. - Autorizo e com muito prazer, porque já havia pensado nisso também.
No dia marcado, sentada na liteira junto com Iitka e tendo Perun a seus pés, Rugena deixou o castelo de seus ancestrais, viajando sob a guarda de Matias, que cavalgava a seu lado. Com olhos marejados de lágrimas e uma expressão séria no rosto, nada condizente com a idade, ela se despedia do seu ninho. Quando o castelo desapareceu definitivamente de vista na curva da estrada, ela desandou a chorar, escondendo o rosto no ombro da fiel aia.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.