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Capítulo 31 de 51

Parte 31 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

cavalos chamou sua atenção. Olhando pela janela, ela viu chegar um senhor em rico traje polonês, acompanhado de cava-lariços que conduziam pelas rédeas dois maravilhosos cavalos de guerra e alguns cavalos de carga. - Chegaram visitas e Vok ainda não voltou. - Observou Rugena, com insatisfação. Ana também olhou distraidamente para a rua. - É Svetomir! - Murmurou ela, empalidecendo e voltando-se, pronta para sair; Rugena, porém, segurou-a. - Não me diga que vai fugir de Svetomir? - Acabarei tendo que vê-lo de algum modo, mas agora não tenho forças para recebê-lo... - Sussurrou Ana, puxando seu vestido das mãos da amiga e fugindo. Rugena acompanhou-a com ar de desaprovação e, deixando o bordado de lado, foi verificar se aquele era realmente o seu amigo de infância. Era mesmo. Svetomir chegara, mas estava tão mudado desde a última vez, que Rugena teve que olhá-lo por um certo tempo para o reconhecer.

O magro e pálido jovem amadurecera e tornara-se um homem bonito e forte, de porte militar e um olhar calmo e seguro de si. - Seus presentes trouxeram-me sorte e o meu futuro está garantido. - Disse ele, baixinho, cumprimentando Rugena. - Vim para lhe dizer isso pessoalmente. Logo chegou Vok e recebeu o velho amigo de braços abertos. - Mas você está simplesmente magnífico, Svetomir! - Disse ele, beijando-o. - Quem reconheceria em você aquele pobre menino que o patife do Hilário torturava? Mas, antes, vamos jantar e depois você me conta todas as suas aventuras. Voltou para ficar? - Não! Agora estou servindo em Cracóvia. Mas se vocês me aceitarem aqui por algumas semanas... - Mas que bobagem! Nem pense que vamos soltá-lo antes de alguns meses. E Cracóvia conseguirá sobreviver sem você! - Interrompeu Vok, afavelmente, levando-o ao refeitório. À mesa, Svetomir perguntou sobre Ana e se ela se casara. - Ainda não. Ela não está se sentindo bem hoje, mas você irá vê-la depois. - Disse Rugena, de passagem.

Quando ficaram a sós, o casal contou ao amigo a terrível tragédia que acontecera na casa. A história do crime impressionou Svetomir e entristeceu-o demais. - Que Deus tenha piedade da infeliz alma da tia Iana! Que terrível pecado provocou a sua extrema confiança nesses sórdidos "padrecos"! - Disse ele, persignando-se. - Percebo agora que Ana me evita de vergonha, mas a minha amiga de infância, em sua desgraça, é para mim duas vezes mais cara. - Concluiu ele, com voz trêmula de emoção. A conversa sobre aquele triste acontecimento alongou-se tanto que Svetomir conseguiu falar pouco sobre a sua vida no exterior. Percebendo seu cansaço, Vok apressou-o a ir dormir.

Na manhã seguinte, Svetomir distribuiu os presentes que trouxera: para Rugena, um tecido de seda, bordado com prata; para Vok, algumas peles de marta; para o conde Hinek, um magnífico punhal com cabo incrustado de ametistas. - Para Ana, eu trouxe um brocado e mais algumas coisas, mas, no seu estado atual, esses enfeites não lhe darão prazer... - Observou ele, suspirando. - É melhor presenteá-la com a caixinha com relíquias religiosas que trouxe para a tia e o brocado ficará para você, Rugena. - Mas que diabo! Você deve estar rico para dar tais presentes! Achou algum tesouro? - Riu Vok. - Infelizmente, ainda não! Mas Deus não me abandonou e concedeu-me uma situação respeitável e independente. Sobre os presentes, nem vale a pena falar: são parte do saque da batalha de Tannenberg e da tomada de Grunwald.97 - Você esteve em Tannenberg? - exclamou Vok, surpreso. - Seu sortudo! Como o invejo! Eis onde eu gostaria de ter estado para dar uma boa surra nos alemães.

Em 1410, os exércitos conjuntos da Lituânia e da Polônia, reforçados por russos e tártaros, liderados pelo rei Jagellon, derrotaram os cavaleiros teutônicos alemães na batalha de Tannemberg - Nota da editora.

- Pois é. Você perdeu uma boa oportunidade para isso! Lá eles receberam uma lição que não irão esquecer tão cedo. Algum dia vou contar-lhe tudo em detalhes. A chegada do conde Hinek, ausente em virtude dos negócios, interrompeu a conversa e o assunto mudou. Ele também recebeu afavelmente o visitante e obteve dele a promessa de ficar mais tempo com eles. Svetomir contou que, ao chegar à Cracóvia, uma feliz coincidência aproximara-o do senhor Zgibnev Olesnitsky, secretário do rei Jagellon, que o indicara a Jan Tarnovsky, chefe militar de Cracóvia. Este admitira-o ao seu serviço e enviara-o como emissário à Lituânia, ao grande príncipe Vitovt e depois a lanush Mazovets. A presteza, a rapidez e a agilidade com que Svetomir cumprira essas ordens haviam-lhe aberto um lugar na corte e, após a batalha de Grunwald (Tannenberg), o rei condecorara-o por serviços prestados elevando-o ao posto de cavaleiro e presenteando-o com uma bonita propriedade que, somada à sua parte do saque, com certeza garantiria inteiramente o seu futuro. Na tarde do mesmo dia, Svetomir finalmente viu Ana e ficou espantado com sua mudança.

Mortalmente pálida, e olhando o tempo todo para o chão, ela limitou-se a murmurar uma saudação; somente depois de Svetomir ter beijado fervorosamente sua mão e dito algumas calorosas palavras, ela levantou os olhos, respondeu impulsivamente ao cumprimento e derramou-se em lágrimas. Chegou o dia do aniversário de Vok e na casa dos Valdstein reuniram-se muitos convidados. Mesmo que o luto não permitisse um banquete, os amigos de ambos os condes chegaram para cumprimentar Vok pelo aniversário e ficaram para jantar. A reunião era exclusivamente masculina e Rugena deixou-os logo após o jantar. Sentados à mesa os convidados bebiam vinho conversando sobre a guerra, política e questões religiosas. Todos eram fanáticos partidários da Reforma e influentes membros do partido popular. Lá estavam Tchenek de Vertenberg - prefeito de Praga -, Bozhek de Kunshtadt, laroslav de Shternberg, Milota Kravar, Vladislau de Dub, Jan de Khlum, Zdislav de Zvitetich e muitos outros. A presença de Svetomir levantou o assunto sobre o rei polonês Jagellon e a guerra com a Ordem Teutônica.

Quando souberam que Svetomir Kryjanov participara da grande batalha - um golpe quase mortal sobre o poderio dos cavaleiros teutônicos -, todos começaram a pedirlhe que contasse os detalhes daquele dia histórico. Inicialmente, Svetomir tentou negar. - Como vocês querem que um simples soldado, como eu, consiga descrever algo tão complicado e grandioso como foi aquela famosa batalha, cujos principais detalhes vocês devem conhecer de sobra. - Não seja humilde, senhor Svetomir! - Gritou para ele Jan de Khlum, rindo. - Ficamos sabendo, de modo geral, que os cavaleiros foram arrasados, que o grão-mestre e os nobres da Ordem foram mortos, que foram tomadas muitas bandeiras etc. Mas o que lhe pedimos é que nos conte o que aconteceu antes, durante e depois do combate, a descrição do lugar. Em suma, aquilo que somente alguém que participou pessoalmente pode transmitir. - Nesse caso, tentarei satisfazer o vosso desejo, mas peço um pouco de paciência... -Respondeu Svetomir, levantando-se.

Ele parou por um instante para pensar e, à medida que juntava as recordações, as sensações passadas iam revivendo novamente; seu rosto iluminou-se, os olhos brilharam e ele começou o seu relato. - Antes de descrever a batalha, não posso deixar de falar um pouco sobre o plano de manobras militares, genialmente preparado pelo rei e pelo grande príncipe Vitovt, que foi cumprido com precisão jamais vista. Ambos os exércitos, o nosso e o do príncipe, deveriam reunir-se na parte baixa do rio Visla e, numa força conjunta, dar um golpe decisivo no inimigo. lakush Mazovetsky ordenou que se abrissem clareiras na floresta. Tudo corria bem e estávamos nos movendo ao encontro um do outro, não como dois exércitos com armas e carroças mas como simples viajantes. As tropas do senhor Tarnovsky, das quais eu fazia parte, e as nossas principais forças juntaram-se perto de Volborzh.

No dia 24 de junho chegou o rei e, logo após, a delegação da Hungria com Palatino, Nikolai de Gar e o conde Stibor de Stiborisz, que o grãomestre da Ordem enviou para manter conversações de paz até 8 de julho. No dia seguinte, os nossos começaram a construir uma ponte sobre barcos através do Visla e o fizeram tão bem que, em 30 de junho, já tinha sido realizada com êxito a travessia das tropas com pesa-

dos morteiros e Vitovt seguiu-os. A nossa travessia do Visla e a junção com o grande príncipe lituano pareceram absolutamente impossíveis ao grão-mestre e ele nem queria acreditar nisso. Um dos prisioneiros me contou que o grão-mestre inquiria sobre isso o Dobeslav Skoratchevsky, que estivera no acampamento polonês junto com a delegação húngara e vira, com seus próprios olhos, a ponte e a travessia das forças lituanas. O grão-mestre ficou terrivelmente irado e achou o relato de Skoratchevsky uma mentira idiota. Dizia ele que soubera por pessoas idôneas que o rei Jagellon tentara mas não conseguira atravessar Visla, que muitos poloneses haviam-se afogado no rio e que Vitovt também fora retido por Narev. - Obviamente, essa travessia foi algo inédito, mas o egocentrismo alemão jamais consegue admitir que alguém, além deles, possa inventar algo novo, inteligente e prático. - acrescentou, sorrindo, Vladislau de Dub. - Pois é. Eles se consideram um povo especial, criado por Deus exclusivamente para sugar e tiranizar os outros, ou rir-se deles.

Mas, em Grunwald, a raça teutônica recebeu uma grande lição. - Observou o conde Hinek. - E espero que essa lição não seja a última e que o destino lhes prepare no futuro mais alguns dias do tipo de Tannenberg. -Acrescentou Vok. - Mas, prossiga, Svetomir. - Então, no dia 9 de julho, atravessamos a fronteira prussiana. O momento foi solene: desfraldamos as bandeiras e cantamos a prece militar Santa Mãe de Deus99 No mesmo dia, o rei passou o comando principal ao senhor Zhindram de Myshkow, um homem respeitado por todos, inteligente, experiente e corajoso; essa indicação deu ainda

G. Kõbler, "Die Entwikelung dês Kriegswesens und der Kriegfiihrung in der Ritterzelt", B. II, p. 704 (Evolução da guerra na época dos cavaleiros Teutônicos) - Nota do autor.

Antiga canção muito popular, composta - conforme a tradição -por São Voitekh, que era cantada pelos soldados antes das batalhas - Nota do autor.

maior confiança na vitória e inspirou as tropas. O nosso primeiro acampamento nas terras do inimigo foi entre dois lagos perto de Lautenburgo. Na segunda parada, montamos acampamento em frente à aldeia Kauernik, localizada em Dreventse. Na margem oposta já se concentravam as tropas da Ordem e eu consegui ali a minha primeira presa, pois não participei da tomada de Lautenburgo. Como voluntário no primeiro batalhão, fui enviado para verificar o local ao longo do rio. De repente, nós deparamos com soldados da Ordem dando banho nos cavalos. Eram cerca de 50 cabeças de ótimos cavalos. Nós os atacamos imediatamente; uma parte dos soldados foi morta, outra parte afogou-se e os cavalos foram capturados. A minha parte foi um maravilhoso corcel que acabei usando na batalha. - Esse foi um grande sinal de bom agouro! E ainda deixaram os alemães a pé! - Observou alguém. - Também pensamos assim. - Respondeu Svetomir, alegremente. - Mas o resto da verificação não foi tão bom. Descobrimos que o rio estava protegido por morteiros e bombardas e seu leito, cercado e intransponível.

O conselho militar real, aparentemente, julgou a travessia impossível e nós recuamos até Lauteburg e depois até Vinok. A travessia foi extremamente difícil, as ordens foram para não parar sob nenhum pretexto e tivemos de deixar pelo caminho cavalos fracos, parte das carroças etc. Entre os alemães correu o boato de que estávamos fugindo... Ouviu-se a explosão de uma homérica gargalhada. - Vocês, eslavos, fugindo? Ah! Ah! Ah! E eles acreditaram nisso? - Sei lá! - Mas por que recuaram com tanta pressa? - Perguntou Jan de Khlum. - Era necessário atravessar o mais rapidamente possível o terreno acidentado onde poderíamos ser emboscados. Finalmente, no dia 13 de julho, montamos acampamento a uma distância de meia hora a pé de Grunwald, uma pequena mas bem fortificada cidade com cercas, aterros e fossos. Ninguém nem pensava em tomá-la ou bloqueá-la devido ao iminente confronto com o inimigo, mas os próprios "cães alemães" nos obrigaram a isso. Nossos soldados foram dar uma olhada nas defesas da cidade por simples curiosidade e saíram em grupos do acampamento.

Nesse momento, saiu da cidade uma guarnição e os atacou. Alguns deles, entretanto, conseguiram se salvar. Quando a notícia chegou até nós, todos as tropas se levantaram para tomar a cidade. Dessa vez, acabei participando. A velocidade do ataque foi tão grande que tomamos a cidadezinha de um só golpe e a arrasamos. O resgate foi ótimo, pois toda a população dos arredores estava se escondendo lá com todos os seus pertences e havia grande estoque de gêneros alimentícios. No dia seguinte inteiro, o rei ficou ocupado somente com a divisão do saque e dos prisioneiros. De noite caiu uma tempestade que nunca tinha visto antes. Ninguém conseguia dormir, pois o vento virava as barracas, arrancava árvores com as raízes e arrasava tudo em seu caminho.

O vento rugia, uivava e assobiava como se milhares de vozes chorassem e gemessem entremeadas por um ribombar de gargalhadas selvagens... - Talvez fossem os gemidos dos mortos e os gritos dos demônios arrastando os alemães para o inferno ou para o purgatório. - Observou alguém. - Quem sabe? - Respondeu Svetomir, sério. - Mas a noite foi terrível e muitos velhos e experientes soldados diziam que aquelas eram as vozes dos habitantes de Grunwald gritando do além. Diziam também que eles já tinham ouvido os mesmos lamentos em outras ocasiões após arrasarem uma cidade. Pela manhã, a tempestade acalmou, mas o vento continuou a soprar com tal força que agitava para todos os lados o oratório de campanha do rei. Ouvindo os conselhos do grande príncipe Vitovt, o rei concordou em adiar a missa que estava acostumado a ouvir antes de sair em marcha. Recebemos ordem de seguir adiante,

mas não havíamos andado nem duas verstás quando Jagellon mandou que as tropas parassem e, enquanto o acampamento era montado, ordenou a instalação do oratório numa colina e a realização de uma missa. Naquela hora ainda não sabíamos que já estávamos no campo

100 1 Verstsá. medida igual a l, 06 km - Nota do tradutor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.