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Capítulo 35 de 51

Parte 35 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Na tarde de 3 de novembro de 1414 o povo lotou as margens da estrada que levava a Constança para ver o viajante que todos queriam conhecer, tão grande era o interesse que despertavam sua personalidade, sua sabedoria e a coragem com que desmascarava os abusos do clero. Já escurecia quando, finalmente, ouviu-se o tropel de muitos cavalos. Os olhares de todos dirigiram-se para o grande grupo de cavaleiros que aparecera na curva da estrada vindo em sua direção. Na frente, entre dois cavaleiros em ricas armaduras, ia um clérigo Vestido de preto. Atrás deles seguia em fileira a guarda armada, cavalariços, pajens e alguns cavalos de carga. - Veja, veja! - Dizia um cidadão, cutucando o seu vizinho com o cotovelo. - Aquele, entre os dois cavaleiros, deve ser Huss. - Mas quem são os cavaleiros? - Perguntou o outro. - Vamos agora perguntar ao velho Sogradk; ele é de Praga e deve saber. Correndo atrás dos cavaleiros, eles alcançaram um velho alto que conversava com seus conterrâneos do séquito.

Ele respondeu às suas perguntas, dizendo que os cavaleiros eram o barão Jan de Khlum e o senhor Henrich de Latsenbok. Os que iam atrás eram: o secretário do barão, Pedro de Mladenovits, e Jan Kardinalis de Reinstein, pároco da igreja de Lanovitch, de propriedade do senhor barão. À medida que os recém-chegados seguiam pelas ruas, a multidão crescia. Finalmente, os cavaleiros pararam na rua de São Paulo, diante da casa onde deveria morar Huss. Na porta já os esperava a dona, a viúva Fides, que recebeu amavelmente o querido visitante. - Pronto, mestre Huss, chegamos ao nosso destino! Deus queira que tenhamos a mesma sorte ao voltar para Praga, onde nos espera uma recepção ainda mais pomposa. - Disse Jan de Khlum, sorrindo alegremente. Em seguida, despedindo-se de Huss, dirigiu-se para sua própria residência. No dia seguinte, recuperado por uma boa noite de sono e após recitar a missa num dos quartos, Huss começou a se instalar. Terminando a distribuição das coisas que trouxera consigo, ele sentou-se à janela e começou a observar o vaivém da animada multidão na rua.

Naquele momento, chegaram seus dois protetores e Huss, preocupado, saiu ao seu encontro. Seus rostos felizes tranqüilizaram-no imediatamente e no coração de Huss nasceu um fio de esperança. - Temos boas novas, querido mestre! - Disse o barão Jan, apertando-lhe a mão. -Viemos contar os detalhes do nosso encontro com o Papa. Nós o informamos de sua chegada e pedimos a sua proteção. Sua Santidade recebeu-nos amavelmente e ao nosso pedido respondeu: "Mesmo que Huss tivesse matado o meu próprio irmão, eu usaria de todos os meios à minha disposição para protegê-lo de qualquer violência em Constança". Quando soube que o imperador concedera ao senhor um salvo-conduto e o tomara sob sua proteção, ele prometeu retirar a interdição que pesa sobre a sua pessoa.

Isso permitirá ao senhor andar livremente pela cidade e freqüentar igrejas. - Contudo, mestre Jan, sugiro ao senhor que tenha maior cautela, evite conflitos, não dê quaisquer motivo para críticas e, principalmente, não apareça nas grandes comemorações religiosas. - Acrescentou Henrich de Latsenbok. - Seguirei seu conselho, nobre senhor, e evitarei aparecer em público. - Respondeu Huss. Ele realmente trancou-se dentro de casa e lá ficou. Manteve esse comportamento mesmo quando Venceslau de Dub trouxe-lhe o salvoconduto e o Papa e os cardeais informaram-no oficialmente de que a interdição estava temporariamente suspensa. Huss passou a levar uma vida de ermitão. Passava os dias trabalhando nos sermões e nos discursos que tinha esperanças que lhe permitissem proferir, ou discutindo diversas questões teológicas com seus inúmeros visitantes. Mas, enquanto ele estava absorto no trabalho e não abandonava a sua clausura voluntária, seus inimigos não cochilavam e faziam extraordinários esforços, sem esquecer nenhum detalhe, para colocar contra ele os membros do concilio e a opinião pública.

Os mais renhidos eram Ventsel Tim, que vendia indulgências em Praga, Paletch e Miguel da vau Alemã, ou de Causis. O primeiro não esquecera como Huss estragara seu negócio; o segundo não o perdoava pela expulsão de Praga; o terceiro odiava-o pelo rigor com que Huss desmascarava a corrupção do clero, cujo maior exemplo era ele próprio. Todos eles sentiam que havia chegado o momento da vingança e corriam incansavelmente por toda a cidade mostrando aos cardeais trechos alterados de obras de Huss, colando cartazes que o expunham como herege excomungado pela Igreja e espalhando, sem a menor vergonha, a calúnia de que Huss tentara fugir escondido numa carroça de feno. A conseqüência desses seus esforços foi a decisão de prender o perigoso pregador. No dia 28 de novembro, a bondosa Fides - apelidada por Huss como "viúva de Sarepts" - estava na porta de casa tagarelando com a vizinha que acabara de voltar do mercado sobre o alto preço dos mantimentos.

De repente, sua atenção foi chamada por destacamentos da guarda municipal que apareceram nas duas extremidades da rua e ocuparam silenciosamente as casas vizinhas. - O que será isso? - Perguntou Fides, preocupada. - Será que estão tramando algo contra o bom mestre? - É melhor avisá-lo. - Aconselhou a vizinha. - Não queria incomodá-lo. Ele está com o nobre cavaleiro Khlum. - Respondeu Fides, indecisa. Naquele instante, quatro cavaleiros e um cavalariço pararam diante da casa. Um deles, em tom imperativo, perguntou se o mestre Huss estava em casa. - Sim, senhor burgomestre. - Respondeu Fides, fazendo uma profunda reverência. Os recém-chegados apearam dos cavalos e entraram na casa. As mulheres ficaram sabendo pelo cavalariço - que ficara segurando os cavalos - quem eram os companheiros do burgomestre. - São os bispos de Augsburg e de Trento, e o cavaleiro lohann Baden. - Respondeu aquele. Huss e Khlum conversavam tranqüilamente quando a porta se abriu e os visitantes entraram no quarto.

Depois da troca de cumprimentos, um dos bispos declarou que eles tinham sido enviados pelo Papa e seus cardeais para convidar o mestre Jan a acompanhá-los para que expusesse seus ensinamentos, o que ele tantas vezes tentara conseguir. O rosto corajoso de Khlum inflamou-se ao ouvir aquelas palavras. Perspicaz e experiente, ele suspeitou imediatamente do objetivo da visita e mal conteve sua ira. - O que significa isso? Os senhores se esquecem de que o mestre Jan encontra-se sob proteção especial do imperador, que proibiu o início do processo até a chegada de Sua Majestade? Estou encarregado da proteção de Huss e, em nome do imperador, protesto contra qualquer medida precipitada. Advirto-os, senhores, de que estão arriscando a honra do império! -Acalme-se, senhor barão! - Falou o bispo de Trento, pacificamente. - O senhor está enganado e nós viemos com boas intenções.

Nesse instante, Huss intrometeu-se e disse, calmamente, que viera a Constança para defender suas idéias publicamente diante de todo o concilio, mas que não se opunha a comparecer diante do Papa se ele e os cardeais estivessem exigindo que ele expusesse essas idéias exclusivamente a eles. - Essa sábia decisão será útil à sua causa, mestre Huss. -Observou o burgomestre. - Apanhe então a sua capa e nos acompanhe sem receio! - Por força do meu dever, vou acompanhar Huss. - Disse Jan de Khlum. - O senhor está livre para fazer o que quiser, senhor barão. - Responderam os emissários do Papa. Quando Huss vestiu-se e saiu com os cavaleiros, a bondosa Fides, que o aguardava no saguão, aproximou-se para tomar a bênção. - Está havendo uma conspiração contra o senhor! Todas as casas vizinhas estão ocupadas por soldados. - Conseguiu sussurrar ela, em lágrimas. Huss empalideceu, mas se conteve. Abençoou-a, depois saiu, montou no cavalo e o séquito seguiu em direção à residência do Papa. Numa das salas do palácio estavam reunidos os cardeais.

Quando entraram Huss e Khlum, o chefe da reunião convidou Huss a se explicar, pois ele estava sendo acusado de pregar perigosas mentiras e semear torpes heresias na Boêmia. - Saibam, respeitáveis padres, que estou pronto a morrer antes de optar por quaisquer mentiras contrárias às verdades evangélicas. Cheguei voluntariamente a Constança e estou disposto a submeter-me ao castigo pela falsa pregação de que estão me acusando. -Respondeu ele, com voz emocionada. - Sábia resposta! Nesse caso, nós sairemos para discutir as perguntas que lhe faremos. - Responderam os cardeais, saindo da sala. Quando eles se retiraram, a guarda armada imediatamente ocupou todas as saídas, o que fez Khlum ficar mais preocupado e só confirmou suas suspeitas.

Sua preocupação aumentou ainda mais quando, em seguida, apareceu um monge e, com uma série de perguntas maliciosas, tentou pegar Huss em alguma palavra mal pensada, mas não conseguiu. - Essas víboras querem pegar o senhor desprevenido, para depois acusá-lo livremente de heresia. - Observou o cavaleiro, com desprezo. - A verdade da sagrada escritura é a minha força e por isso não temo ninguém. - Respondeu Huss, com convicção. Passaram-se horas e já eram cerca das três da tarde quando entrou de repente Paletch. Seu rosto emagrecido respirava orgulhosa j actância. - Finalmente você caiu em nossas mãos, seu herege imprestável! - Disse ele ao ex-amigo, com desprezo. - Agora, você não escapará enquanto não pagar até o último tostão. Huss nada respondeu e deu-lhe as costas. Khlum, entretanto, tomou-lhe as dores. Todo vermelho de raiva, começou a passar uma descompostura em Paletch por sua traição à pátria.

A discussão aumentou quando apareceu Miguel de Causis - não menos satisfeito que Paletch - e, com expressões venenosas, começou a criticar Huss, dizendo que ele arruinara a universidade de Praga e provocara o afastamento de professores e estudantes alemães, mas que a hora da vingança havia chegado. Vendo que Huss nada respondia e que o cavaleiro não disfarçava o desprezo pelos inimigos do reformador, a respeitável dupla achou por bem retirar-se. Anoiteceu. Finalmente chegou o camareiro do Papa e declarou ao barão que ele estava livre e que o mestre Huss, por decisão dos cardeais, ficaria detido. Apesar de todos os acontecimentos do dia apontarem para tal desfecho, uma explosão de fúria tomou conta do nobre Khlum. - Isso foi uma vil armadilha! - Gritou ele. - Vou queixar-me ao imperador da violência sobre o homem que ele tem sob proteção! É desonesto esconder-se por trás da mentira e agir traiçoeiramente contra um santo e justo! O Papa não tem o direito de agir assim.

Exijo imediatamente o cumprimento de sua promessa de não atacar Huss! - Gritou ele, fora de si, e saiu rapidamente da sala. Enquanto isso, um destacamento de soldados levou Huss para a casa do cônego da catedral de Constança, onde ele passou uma semana sob severa vigilância. Depois, lohann von-Vallenrod, o arcebispo de Riga, ordenou sua transferência para o mosteiro dominicano, situado às margens do rio Reno. Era dia 6 de dezembro. O tempo estava gelado e o prisioneiro tremia de frio na cela em que o haviam deixado - um úmido e escuro subterrâneo. Somente o ruído das ondas que se quebravam nas paredes do mosteiro rompia o silêncio reinante, e o mau cheiro do esgoto que passava ao lado envenenava o ar. A alma de Huss, branda e até fraca diante da desgraça do próximo, revelava-se como se feita de aço ante os próprios sofrimentos. Inabalável em sua fé e em sua humildade, ele submetia-se sem rancor às horríveis condições de sua prisão. Todavia, se o espírito era forte, a carne revelou-se fraca e Huss adoeceu gravemente.

Nesse ínterim, houve em Praga um acontecimento de extrema importância. lakubek e, depois dele, mais alguns sacerdotes começaram a pregar abertamente a necessidade do retorno aos postulados do início da Igreja apostólica e à comunhão com pão e vinho. Depois dos sermões vieram as aplicações práticas desses ensinamentos e lakubek foi o primeiro a oferecer o cálice aos fiéis. Isso provocou uma cisão entre a população: a maioria dos tche-cos

aderiu aos utraquistas, mas o alto clero e, principalmente, a burguesia alemã permaneceram fiéis ao rito romano. Em meio à agitação e à discórdia provocadas pela modificação do maior dos mistérios cristãos, todos ficaram aturdidos com a notícia da prisão de Huss. A Boêmia tremeu de ira. Realizaram-se reuniões de senhores para protestar contra tal arbitrariedade e o conde Hinek resolveu ir pessoalmente a Constança para discutir no local com os barões tchecos os meios necessários para libertar o querido pregador. Ao saber de suas intenções, Rugena pediu ao conde que a levasse consigo. Além da grande e profunda solidariedade que sentia pelo destino de seu confessor e amigo, a jovem condessa queria ver o brilho da corte imperial e do Papa, a aristocracia clerical e mundana e os sábios famosos, provenientes de todos os cantos do mundo. Entretanto, foi difícil conseguir a anuência de ambos os condes; o conde Hinek expôs, como último obstáculo, a dificuldade de encontrar uma residência em Constança, dizendo que somente aceitaria levá-la consigo se uma das parentas da condessa, residentes por lá, concordasse em recebê-los. Mas, pelo jeito, cê quefemme veut Dieu lê vout (o que a mulher impõe Deus dispõe). O mensageiro enviado a Constança trouxe a notícia de que a casa estaria à disposição e que os Valdstein eram aguar-

111 Utraquistas - Calistinos — Aqueles que comungavam sob as duas espécies fsub utraque speciej, isto é, pela hóstia e pelo cálice, simbolizando o pão e o vinho, o corpo e o sangue de Cristo - Nota da editora.

dados ansiosamente. Assim foi removido o último obstáculo e Rugena começou a preparar-se para a viagem. Junto com ela iriam Ana, Túlia e Litka. Vok, para própria insatisfação, não recebeu licença imediata do rei e foi obrigado a ficar provisoriamente em Praga. Decidiram então que ele juntar-se-ia à família assim que a situação o permitisse. Quem visita hoje a pacífica cidade de Constança não pode imaginar o que acontecia dentro de seus muros durante o famoso concilio de 1414. Parecia que ali se havia reunido toda a cristandade: 30 cardeais, 20 arcebispos, 150 bispos, prelados e doutores, mais de 1.800 simples sacerdotes; cufiurstas, duques da Bavária e da Áustria e um incontável número de príncipes, condes, barões e nobres de todas as nacionalidades. As grandes personalidades traziam consigo enormes séquitos (conforme as crônicas da época, até 30 mil cavalos). Todos esses, somados a estrangeiros curiosos, mercadores, artistas mambembes etc., atingiam a respeitável cifra de 100 mil pessoas. A pequena cidade ficou superlotada e os atrasados foram obrigados a acampar nas proximidades.

Constança parecia uma enorme feira, onde corria ruidosa diversão; a importância das questões discutidas não atrapalhava os dignos padres do concilio de freqüentarem comemorações, banquetes e torneios. Tagarelando muito sobre a Reforma da Igreja, os fogosos cardeais, bispos e prelados nem pensavam em mudar seus costumes devassos. Sem se envergonharem, haviam trazido consigo suas amantes e revelavam maior ousadia do que a juventude mundana, divertindo-se abertamente com as 1.500 prostitutas que se haviam juntado em Constança. A indecência era tanta, que Huss escrevia aos amigos: "Se vocês viessem para ver este concilio que se autodenomina santo e sem peca-

do, só veriam uma grande tentação. Os suevos dizem que serão ne-

112 Originários da Suábia, sul da atual Alemanha, região da Bavária onde fica Constança - Nota da editora.

cessários 30 anos para limpar a cidade das indecências que a emporcalharam".

Capítulo II

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