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Capítulo 26 de 51
Parte 26 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
de botas no corredor vizinho, que levava ao depósito de trajes, cheio de armários e baús. Ela começara a imaginar o que seria aquele barulho, quando a porta que dava para o corredor se abrira e um homem alto, envolto numa capa escura, entrara sorrateiramente no quarto. Ana ficara espantada ao ver o desconhecido que retirava a capa com agilidade e encaminhava-se diretamente para a cama. Então, ela o reconhecera: era Brancassis! Ele estava em trajes leigos e trazia um punhal na cintura; em seu rosto estava estampada tal paixão animal que a moça começara a tremer. Mas Ana era corajosa por natureza e a emoção dera-lhe uma coragem ainda maior. Com ar decidido, ela postara-se à frente do cardeal. - O que o senhor faz aqui, num quarto onde não deveria entrar e ainda mais a esta hora? Saia daqui ou vou chamar ajuda! - E ela começara a sacudir Rugena, gritando: - Acorde Rugena! Acorde! Inicialmente, Brancassis recuara, soltando um forte palavrão. A presença de uma testemunha no momento em que estava tão próximo do seu objetivo enfurecera-o. - Fora daqui, sua cobra!
Não ouse ficar no meu caminho, senão a esmagarei! - Sibilara ele, com voz surda de raiva. Vendo as frustradas tentativas de Ana para acordar Rugena, ele rira, zombeteiro. - Não se esforce à toa, cara Ana, pois não vai conseguir acordá-la! Mas, como o próprio diabo a trouxe aqui, então você pagará o seu tributo. Em sua cabeça acendera-se de repente a monstruosa idéia de desonrar Ana e, depois, matá-la ali mesmo para se certificar do seu silêncio, pois, além dela, ninguém poderia revelar sua maldade, tão habilmente tramada. Segurando Ana, ele arrancara-a da cama onde ela se agarrara e tentara derrubá-la no chão, mas a moça defendera-se desesperadamente e só não conseguira gritar porque o horror fechara sua garganta. Seus gritos não saíam, mas suas forças pareciam dobrar, e Brancassis fora obrigado a usar de toda a sua agilidade. Fora de si, com raiva, o cardeal tentara puxar o punhal, sem soltar a jovem; sua respiração quente batia no rosto dela e ela mordera-o na face. A terrível dor fizera-o perder o controle.
Brancassis rugira surdamente e, enlouquecido pela fúria, agarrara Ana pelo pescoço. Semi-sufocada, ela começara a desfalecer. Parecia-lhe que o cérebro rasgava-se em pedaços; a consciência do horror do crime que sofria fora engolida por uma dor insuportável e ela desfalecera... Nesse instante a porta abriu-se e Broda irrompeu no quarto. Um olhar foi o suficiente para que ele entendesse o que acontecera. Com um rugido selvagem, ele caiu sobre Brancassis e cravou o punhal em suas costas. Indefeso, o cardeal abriu os braços e caiu, inerte. Então Broda afastou-o com o pé e inclinou-se sobre Ana, caída como morta. - Meu Deus! O que aconteceu? - Ouviu-se a voz de Litka, que entrou correndo no quarto com a vela na mão, semivestida e com o cabelo desarrumado. Ao ver e perceber tudo o que acontecera, ela deixou cair o candelabro e tapou o rosto com as mãos. - Mais tarde você terá tempo para gritar, Litka. - Disse Broda, levantando a vela e colocando-a na mesa. - Corra e acorde Matias. Chame-o aqui rapidamente para levarmos a pobrezinha e jogar fora este animal.
Depois, é preciso ajudar a jovem senhora, que dorme um sono suspeito. - Acrescentou ele, aproximando-se da cama e examinando atentamente o rosto pálido de Rugena, que continuava a dormir sem perceber o que se passava à sua volta. - Pobrezinha! Acho que o espírito de seu pai protegeu-a. - Murmurou ele. Após alguns minutos, apareceu Matias, também semivestido. Ana foi, então, levada para seu quarto, ficando sob os cuidados de Litka. - Agora - disse Broda -, vou acordar o velho conde. É mais seguro receber ordens dele. Vamos deixar que ele veja onde estão caídos os dois patifes, para que não caia sobre nós nenhuma suspeita. Antes de ir acordar o conde, Broda passou pelo próprio quarto para informar Túlia sobre tudo o que acontecera. - Ah! Ele está morto! Finalmente sua alma voltou ao inferno de onde saiu! - Exclamou ela, alegremente. - Meus senhores irão recompensá-la por esta ajuda! - Respondeu Broda, apertando a sua mão amigavelmente. O conde Hinek e a esposa ocupavam a parte oposta da casa; Broda irrompeu como um furacão e começou a contar os detalhes do que acontecera.
Inicialmente, o conde não acreditou nos próprios ouvidos e a condessa entendeu somente que Brancassis e Bonaventura estavam mortos. Essa situação parecia-lhe tão monstruosa que ela desandou a gritar, prantear, xingar e quase pulou no pescoço de Broda para matálo. Somente depois que o conde conseguiu explicar-lhe que Broda salvara a vida de Vok - que o monge tentara sufocar -, ela pulou da cama e, descalça, correu para os aposentos do filho. Ao ver Bonaventura deitado numa poça de sangue e ainda segurando a acusadora almofada na mão enregelada, e após se certificar de que Vok estava deitado como morto, a condessa desmaiou e foi levada embora. Mal Matias e Broda saíram do quarto de Rugena, lá entrou sorrateiramente, pálido e emocionado, padre Hilário. Ajoelhando-se ao lado de Brancassis, ele apalpou-o com as mãos trêmulas; ao colocar o ouvido no peito do cardeal, estremeceu e endireitou-se - pareceu-lhe que o coração batia, mesmo fracamente. Sem vacilar, embrulhou Tomasso em sua capa e, agarrando-o pelos ombros, arrastou-o para fora do quarto.
Já estava perto da porta quando entrou Iitka, que havia deixado Ana aos cuidados de outras criadas. Ela, entretanto, somente o deixou passar, com desprezo. Hilário arrastou o corpo para o seu quarto, trancou a porta por fora, e saiu rapidamente de casa. Voltou logo, acompanhado de alguns monges do mosteiro vizinho. Os corpos de Brancassis e Bonaventura foram colocados numa liteira e levados imediatamente ao arcebispado. Ao saber de Iitka que o corpo do cardeal e o do padre haviam sido levados por Hilário, o velho Valdstein somente sorriu, zombeteiro; talvez assim fosse melhor, senão aquele triste acontecimento faria muito barulho na cidade. Ao ver Ana deitada e sem sentidos, o coração do conde encheu-se de raiva e pena. Rugena acordou tarde e sentindo-se mal. A cabeça parecia estar cheia de chumbo e os pés e mãos pareciam congelados; sentia-se tão fraca que tinha dificuldade para pensar e entender. Apesar disso, quando Iitka trouxe-lhe leite, ela percebeu imediatamente o ar desolado de sua aia e perguntou, preocupada, se acontecera algo na casa. - Conte-me toda a verdade.
Quero saber de tudo! - Gritou ela, imperiosamente, vendo que Iitka não se decidia a responder às suas perguntas. A simples Iitka não ousou desobedecer e começou a contar tudo, evitando inicialmente alguns detalhes. Aos poucos, entusiasmando-se, contou a incrível aventura noturna. Rugena ficava vermelha e pálida ao saber do perigo que correra e que fora evitado por puro acaso e, mesmo assim, mediante o alto preço da desonra da amiga. - Oh! Mas que patife! Só um patife pode decidir-se por tal crime! Fui salva por Deus, mas Ana, minha querida Ana, quase morreu em meu lugar e foi desonrada para sempre! Por que Broda não chegou a tempo de evitar essa desgraça? O que Ana está fazendo? Como ela está? Quero vê-la! - Dizia Rugena, por entre as lágrimas. - Acalme-se, senhora! A pobrezinha agora está dormindo.
O médico já esteve aqui e deu-lhe um remédio para dormir, temendo por sua saúde mental, pois quando Ana voltou a si, começou a se portar como louca. - Quero vê-la! - Espere, a senhora também está ainda muito fraca, e junto dela está agora Marga Nakhodsky, que eu mandei chamar. Quando Iitka começou a contar o perigo que Vok também correra, Rugena cortou-a de repente; dentro dela explodiu toda a ira contra Vok e o velho conde. Se os desprezíveis assassinos de seu pai tivessem morrido, isso somente seria justo. Em sua excitação nervosa, Rugena não percebia que um patife como Brancassis poderia perfeitamente ter mentido; sua convicção até reforçou-se quando ela viu que litka ficou confusa e empalideceu ao ouvir suas palavras: - Nunca mais me lembre o nome desse malfeitor, contra o qual clama o sangue de meu pai! Iitka! - Acrescentou ela, fora de si. - Se você sabe algo sobre esse crime, conte-me. Como ousou esconder de mim por tanto tempo essa verdade?
Como permitiu a realização desse casamento criminoso? - Não sei de nada... - Murmurava a velhinha, confusa. - Mas Matias acha que o testamento foi falso. Naquele instante, abriu-se a porta e no quarto entraram ambos os condes. O pálido Vok estava com um ar perdido e apoiava-se no braço do pai. As frias compressas e as massagens mal haviam conseguido tirá-lo do pesado torpor. A história do acontecimento noturno chocara-o e, em seguida, provocara tal explosão de fúria que o pai tivera dificuldade para acalmá-lo, convencendo-o de que os culpados estavam mortos e, conseqüentemente, já teriam recebido o castigo merecido. Reforçando-se com uma taça de vinho, Vok desejou ver a esposa. Nunca antes ele a amara tão profunda e sinceramente como naquele momento em que um milagre devolvera-a incólume, a salvo da terrível profanação. Ao ver Rugena pálida, abalada e com os olhos inchados de lágrimas que ainda corriam por suas faces, ele correu para ela de braços abertos. - Acalme-se, querida! - Exclamou ele e quis puxá-la para si. Então Rugena não conseguiu mais se segurar.
As palavras de Litka sobre o falso testamento ainda soavam em seus ouvidos e confirmavam a acusação de Brancassis. Todos os seus nervos tremiam e, em sua imaginação inflamada, a sombra de seu pai pairava entre ela e o marido. - Não me toque! - Gritou ela, recuando com tanto horror ostensivo que Vok, confuso, parou e baixou os braços. - Rugena, volte a si. Você está delirando! - Não! Acabou somente a minha cegueira. Deixe-me ir a Rabstein. Não posso ficar mais um instante sob o seu teto. Os condes entreolhavam-se, surpresos. Ficou claro que eles estavam imaginando que ela enlouquecera; Rugena percebeu isso, o que provocou uma nova explosão em sua alma dolorida. - Ah, não! Ainda não estou louca! Só que, agora, sei de toda a verdade sobre a morte de meu pai e não quero mais permanecer esposa do homem que incitou o próprio pai a matar o meu! - Gritou ela, tempestuosamente. No primeiro momento o conde e o filho ficaram pasmados.
Em seguida, Vok explodiu e, agarrando o braço de Rugena, apertou-o até doer. - Como você ousa acusar-nos disso? - Disse ele, com voz surda. - Prove! Tais acusações devem ser confirmadas. - A prova incontestável - a confissão de sua ex-amante Eulália - ainda não está em minhas mãos. Mas para você é suficiente saber que ela confessou todos os detalhes do envenenamento que executou por sua ordem. Vok ficou mortalmente pálido e largou seu braço. - Providenciarei para que se faça uma minuciosa busca para explicar todas as circunstâncias da morte do barão Rabstein! - Disse ele, com voz trêmula de fúria e medindo a esposa com olhar irado. - Deus é testemunha de que não a reterei na casa de assassinos. Pode ir embora livremente e viver em qualquer de seus castelos. Mas o fato de me considerar capaz de tal maldade é uma profunda ofensa para mim e exigirei a sua retratação assim que a verdade for restabelecida. Ele pegou pela mão o velho conde - que também ouvira, indignado, a acusação - e levou-o consigo do quarto, dizendo: - Vamos, pai! Não temos mais nada a fazer aqui.
Capítulo VII
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.