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Capítulo 50 de 51
Parte 50 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
As últimas palavras do rei fizeram Vok melindrar-se e a ira de Venceslau de repente desabou inteira sobre ele. - Você também pertence a esse bando, junto com seu pai! Ambos estavam de corpo e alma ao lado do imprestável e blasfemo Huss, que provocou tantas desgraças na Boêmia! Por ele e pelo tagarela Jerônimo vocês sempre sacrificaram meus interesses e minha paz! Vok endireitou-se e olhou sombriamente para o rei. - Meu rei! Sou tcheco e estou pronto a defender com sangue a sagrada memória dos mais notáveis filhos de minha pátria! A vergonha e a desgraça da Boêmia não foram provocadas nem pelos puros e elevados ensinamentos de Huss, nem pelo apego de seus seguidores às verdades evangélicas! Os estrangeiros e o clero devasso - que se sente impedido de cair no vício e que agora se vinga introduzindo a discórdia no país e incitando irmão contra irmão -, esses, sim, são os verdadeiros culpados! Aliás, tudo o que aconteceu poderia ter sido previsto antes.
Sua Majestade acendeu com as próprias mãos a tocha do levante ao impor, ao povo, dirigentes inimigos de sua fé, que inevitavelmente provocaram a explosão de indignação geral... Ele não conseguiu terminar a frase, pois Venceslau, que inicialmente o ouvia parado como uma estátua, caiu sobre ele aos gritos: - Traidor! Rebelde! Você ainda ousa ofender-me! - Sibilou o rei, sufocando de raiva. Vok, que não esperava o ataque, foi agarrado pelo pescoço e derrubado no chão pelo rei. Os presentes ficaram atônitos e a pálida rainha saiu do seu esconderijo gritando, assustada: - Separem-nos! Os cortesãos correram para segurar Venceslau que, naquele instante, havia sacado do estilete e se preparava para matar Vok, semiasfixiado e desmaiado no chão. O rei debatia-se para se livrar das mãos que o seguravam e nigia selvagemente. Então, de repente, seu rosto ficou ainda mais vermelho, deformou-se numa convulsão e, abatido por um choque apoplético, ele desabou como morto. Venceslau foi cuidadosamente levantado e levado embora. Enquanto os médicos - chamados imediatamente - atendiam-no, a rainha entrou no quarto para onde fora levado o jovem conde.
Parado junto à janela, Vok estava mortalmente pálido e pronto para ir embora; já tinha vestido a capa, o chapéu e calçava as luvas, afastando de si uma taça de vinho que lhe fora oferecida por um dos favoritos do rei. Ao ver a rainha, ele tirou o chapéu e fez-lhe uma respeitosa reverência. - Deixe-nos a sós. - Ordenou Sofia ao cortesão. Assim que aquele saiu pela porta, ela aproximou-se do conde e estendeu-lhe a mão, dizendo: - O senhor está indo embora, conde? Já se recuperou o suficiente para andar a cavalo? Vok dobrou um joelho diante dela e beijou-lhe a mão: - Agradeço Vossa Majestade pela bondosa atenção para com minha pessoa, mas me sinto bem e gostaria, com a sua permissão, de voltar para Praga. - Mesmo lamentando a sua saída, não vou retê-lo. Somente gostaria de lhe dizer que lamento profundamente o acontecido, mas o rei está fora de si. Ultimamente ele está sempre doente e muito irritadiço; a emoção de hoje pode ter-lhe custado a vida... - Ela parou para enxugar uma lágrima.
Sofia da Bavária era amada pelos tchecos. Por intervir sempre em defesa deles e por sua predisposição a Huss e à causa nacional, ela era muito popular. Ao vê-la chorar, Vok perdeu a metade da raiva. - Queira Deus que os seus pressentimentos não se realizem. - Apressou-se ele em acalmá-la. - Espero que o rei se recupere. Nunca me esqueço de que foi ele que assinou o famoso decreto de 18 de janeiro de 1409. Por isso, não quero guardar nenhuma raiva contra a sua pessoa pela ofensa de que fui vítima hoje. Como fiel súdito de Vossa Majestade, considero meu dever avisá-la de que os episódios de Praga exigem do rei grande cuidado - isso se ele não quiser que esses acontecimentos se transformem em terrível tempestade! - Infelizmente, tenho muito medo de medidas impensadas da parte de Venceslau e eu própria agora nada posso fazer, pois com a sua desconfiança doentia ele não confia nem em mim. - Converse com os conselheiros de Sua Majestade; talvez o rei os ouça. -Tentarei agir nessa direção.
Mas, diga-me, conde: como acabou a confusão na cidade? A explosão insana de Venceslau não lhe permitiu terminar o relato. - Aquilo não foi uma simples confusão, Majestade, foi quase uma insurreição! O poder entregue aos católicos e as suas atitudes provocativas que chegaram até a profanação do sangue de Cristo indignaram o povo. De agora em diante, a população decidiu defender firmemente sua fé e sua liberdade com as armas. Quando eu saía da cidade, a prefeitura estava ocupada pela guarda da população. Foram eleitos quatro comandantes, que formaram um governo temporário, e todos os habitantes, sob pena de morte ou expulsão, foram convocados para pegar em armas. A senhora entende que os chefes do movimento não se arriscariam a tomar tais atitudes se não tivessem apoio de outras cidades, como também dos camponeses de todo o reino? A rainha empalideceu. - Estou percebendo o perigo da situação e aproveitarei o seu conselho! Adeus, conde, e não se esqueça: não importa o que acontecer, o senhor terá sempre o meu apoio amigável.
A rainha, confusa e cabisbaixa, foi aos aposentos do marido, enquanto Vok, montando o cavalo, seguiu o caminho de Praga. Vok não levantou a cabeça e por isso não viu, à janela do quarto de Sofia, o rostinho pálido e preocupado da jovem dama da corte que o acompanhava com olhar triste, enevoado de lágrimas. Graças à assistência que recebeu a tempo, Venceslau recobrou os sentidos e, além de uma leve paralisia do lado esquerdo do corpo, aparentemente, recuperou-se. Mas seu estado espiritual estava terrível. Não confiava mais em ninguém que o cercava e via em cada pessoa um traidor ou rebelde. Os acessos de sombria tristeza e desespero alteravam-se com explosões de fúria e medo febril. Acreditando, assim, que só tinha o irmão com quem contar, o rei enviou um mensageiro para lhe pedir ajuda, esquecendo-se de que não tinha inimigo pior que Sigismundo. Naquele meio tempo o conselho real, por sugestão da rainha, mantinha conversações com os praguenses. Estes haviam concordado em submeter-se e pedir perdão, com a condição de que os conselheiros municipais fossem escolhidos pelo povo.
O pedido foi aceito, Venceslau confirmou novas eleições e Peter Kuss foi eleito como burgomestre, o que foi uma ofensa ao rei, que o detestava. Na manhã de 17 de agosto, uma quinta-feira, Ana de Trotsnov estava sentada sozinha no seu quarto, costurando um vestidinho infantil e murmurando um salmo de arrependimento. Um forte barulho de porta se abrindo interrompeu seu trabalho e ela voltou-se, irritada. Ao ver a amiga que chegava apressada, pálida e emocionada, Ana perguntou, preocupada: - Aconteceu algo? - Sim, e muito importante: o rei morreu. - Respondeu Marga, caindo na poltrona. Ana persignou-se, devotadamente. - Deus misericordioso acalmará a sua alma e lhe perdoará muitos pecados. Quando ele morreu e quem lhe contou isso? - Vok. Ele está lá embaixo contando isso a Milota, com todos os detalhes. Há alguns dias a rainha convocou Vok para comparecer em Kunratitska, pois o rei, de repente, tornara-o novamente um dos favoritos e exigia a presença dele. No castelo, o conde soube que o rei, após ter sido obrigado a confirmar Peter Kuss no cargo, ficara possesso. Passara a sofrer de freqüentes ânsias de vômito e dor no braço esquerdo.
Apesar disso, na manhã do dia 15, ele sentia-se melhor e a rainha aproveitou para fazê-lo comungar. Vok chegou bem no momento que antecedia a cerimônia. O rei, doente, ainda lhe disse algumas palavras amáveis. Depois, confessou devotadamente, mas não conseguiu comungar, pois a repentina ânsia de vômito aumentou. Ontem à noite, ele teve outro ataque. O conde esteve presente até o seu final e está chocado de horror com os últimos momentos do rei. Venceslau gritava selvagemente e seus berros eram ouvidos por todo o castelo. Foi assim, rugindo, que ele soltou o último suspiro. Vok correu imediatamente para avisar seu pai e agora veio trazer-nos a notícia. Mas parece que a triste nova já se espa- lhou pela cidade e está provocando uma terrível agitação, pois o conde, ao vir para cá, encontrou muita gente nas ruas. Parece que na praça já está reunida uma multidão. Vamos lá ver?
Quando Ana e Marga entraram no quarto - de onde duas semanas antes haviam estado observando os membros do conselho municipal serem jogados pelas janelas da prefeitura-, encontraram Vok e Milota à janela. - Hoje não passará sem conflitos. - Dizia o conde naquele instante. E, realmente, a visão da grande praça não sugeria nada de bom. Cidadãos armados corriam em todas as direções, enquanto o resto do povo, inclusive muitas mulheres e crianças, reunia-se em grupos, gritando desesperadamente e agitando os braços. A multidão movia-se, agitando ameaçadoramente os punhos no ar, e o som de milhares de vozes transformava-se em terrível e surdo rugido. Diversos vagabundos, que em tempos normais nunca eram vistos, emergiam da massa popular como prenunciadores de tempestade e proferiam discursos. O nome de Venceslau e impiedosas ameaças ao clero católico chegaram aos ouvidos dos espectadores da casa de Milota. - Precisamos ir ver o que está acontecendo e conversar com Jan e o burgomestre. - Disse Valdstein, pegando o chapéu. - Vem comigo, Milota? - É claro! Vou só pegar a espada e a capa.
Veja, conde, a multidão está correndo para todos os lados! - Se vocês vão até o Zizka, então me levem junto! Preciso ver minha tia que está doente. - Mas que idéia, Ana! Para que ficar correndo pela cidade nesta hora tão agitada? A velha não vai morrer se você for visitá-la outro dia. - Mas quem vai me garantir que amanhã tudo estará mais calmo? Não posso deixar a tia sozinha, pois ela tem horror às desordens na cidade. E nada tenho a temer, principalmente sob a vossa guarda! Vocês estão vendo as ruas cheias de mulheres e entre os nossos sou bastante conhecida. Não vão mexer comigo! Quanto aos católicos - e em sua voz percebia-se o desprezo -, eles provavelmente estarão ocupados demais hoje para prestar atenção em mim! Sem ligar para os pedidos e apelos de Marga, Ana foi buscar sua capa e seguiu atrás de Vok e Milota. Este somente sorriu e deu de ombros ao seu pedido; ele sabia que Ana era tão teimosa quanto seu irmão Jan Zizka.
Enquanto isso, uma multidão reunia-se novamente diante da prefeitura. Passando por entre o povo, Ana e seus companheiros ouviam relatos nada lisonjeiros sobre a morte do rei e discursos cheios de ódio aos papistas. Numa das ruas próximas, bem diante da igreja pertencente ao clero católico, um ajuntamento popular impediu a sua passagem. Fora e dentro do templo ocorria um ensurdecedor barulho: ouviam-se gritos estridentes, palavrões e gargalhadas, golpes de machado e estalos de portas sendo derrubadas. - O que está acontecendo aqui? - Perguntou Vok a um dos cidadãos. - Isso é uma vingança aos "maometanos" pela ofensa. Eles jogaram fora os objetos religiosos do templo que foram usados pelos nossos como se estes fossem contaminados. Agora, nós destruímos e quebramos tudo o que é deles. Felizmente, o rei - o maior protetor dos malditos "padrecos" e dos alemães - entregou a alma ao diabo e não precisamos temer mais ninguém. - Respondeu este, taciturno. Naquele instante, no púlpito estavam quebrando a estátua de um santo e pela janela quebrada voavam pedaços de um órgão. Vok e seus companheiros, cabisbaixos, seguiram o seu caminho.
Mas em todos os lugares por onde passavam que houvesse uma igreja ou mosteiro, idênticos quadros os esperavam. A massa popular, em sua fúria, atacava as odiadas construções católicas, destruindo altares e objetos de culto com uma barbárie nunca antes vista nos cidadãos de Praga. A terrível ira popular e a sede de vingança haviam explodido finalmente e, como um furacão, arrasavam tudo em seu caminho. Num dos lugares, o ajuntamento era tanto que Ana foi separada dos companheiros, o que não a assustou nem um pouco. Desde os tempos das reuniões no monte Tabor, a irmã de Zizka era por demais conhecida e amada pelos hussitas. E, apesar da confusão, o povo sempre abria caminho diante daquela alta figura em trajes de luto. Já os católicos estavam escondidos e assustados naquele dia e não ousavam atacar ninguém abertamente. Tentando atravessar a multidão até a casa do irmão, Ana viu-se perto da igreja de São Estéfano, cujo pároco era particularmente detestado pelos praguenses por sua revoltante intolerância.
A devastação da igreja já parecia ter terminado, pois o povo saía de dentro do templo dando gritos de alegria, assobios e vaias e aplaudindo os que carregavam paramentos sacerdotais e rasgavam em pedaços o valioso brocado bordado. Um dos cidadãos reconheceu Ana, que parará perto do pátio. - Veja o que nós fazemos com os "maometanos" por caluniar as verdades evangélicas e pelo santo mártir de Constança! - Gritou ele. - Você acha que ele, lá no céu, está vendo tudo e aprovando as nossas ações? Ana balançou negativamente a cabeça. - Penso que a alma angelical de Huss é incapaz de vinganças. Ele próprio nunca pregou nada além de amor e perdão e, obviamente, não elogiaria desmandos em lugar sacro. Se vocês pretendem restabelecer a justiça e o reinado de bondade, temos por aí muitos ninhos de perdição que somente envergonham a cidade e que devem ser destruídos. A multidão que a cercava calou-se por um instante. Depois, o mesmo cidadão gritou: - Que nada!
Essa história de que Jan Huss nos critica é pura bobagem e mexerico de mulher que nada entende de causas nobres. A Bíblia diz: "olho por olho, dente por dente", e nós seguimos a Escritura. Agora, quanto ao que você disse sobre "locais de perdição", onde os imprestáveis "padrecos" bebem e se depravam para a vergonha dos verdadeiros cristãos, é uma causa ótima e trataremos dela agora mesmo. Vamos lá, irmãos! Vamos arrasar os covis de satã! Vamos lá, depenar as avezinhas do paraíso! A multidão rugiu concordando e moveu-se para o novo objetivo. Ana encostou-se no portão da casa vizinha para não ser esmagada. Depois, aproveitando o momento em que a rua esvaziou, dirigiu-se sem obstáculos para a casa do irmão. Pelas ruas reinava a desordem. Depois do saque às igrejas, teve início a depredação das casas alegres que o povo atacou com furor, depredando todas elas até a base, tanto na "Cidade Velha" quanto na "Nova". Quando desceu a noite, a confusão maior aquietou-se, mas as paixões desencadeadas não conseguiam acalmar-se de vez.
Alguém apontou para o mosteiro cartesiano de Smikhov, como um ninho de alemães que era necessário destruir - e essas palavras caíram bem ao gosto da multidão. Eram cerca de dez da noite quando a incontável massa cercou a abadia. Os portões foram instantaneamente quebrados e os atacantes jorraram para dentro. A irmandade escondeu-se no refeitório, onde o povo ficou zombando de sua covardia, assustando-os ao brandir armas sobre suas cabeças, vaiando-os e cobrindo-os de escárnio. Entretanto, apesar da excitação da turba, não houve mortos nem feridos. Os hussitas limitaram-se à destruição de livros, gêneros alimentícios, utensílios domésticos, objetos monásticos e da adega, que-
brando barricas e toneis e derramando por terra o precioso líquido.
127 Palacky, "Urkundliche Beitrige zur Geschichie dês Hussitenkrieges, I (Carta ao abade do mosteiro cartesiano em Nuremberg) - Antiga análise das guerras hussitas - Nota do autor. O mérito dessa condescendência pode ser atribuído a Broda, que - mesmo tendo tomado parte nos acontecimentos daquele dia e até dirigido o ataque aos cartesianos - não deixava matar os indefesos. Todo o ódio e a raiva do velho guerreiro haviam sido jogados contra o próprio mosteiro. Os prédios foram incendiados somente quando os monges foram retirados do refeitório e conduzidos, sob guarda de confiança, para a cidade. A construção maciça e encantadora ardeu de vez por todos os lados como uma enorme fogueira, jogando fagulhas ao vento e cobrindo o céu com uma auréola sangrenta. Enquanto esse prólogo das guerras hussitas terminava com fogo e destruição - uma terrível vingança dos tchecos pela opressão secular -, o corpo de Venceslau era embalsamado às pressas e transportado em segredo de Ventselstein para a "Cidade Alta". Com a desordem que agitava a cidade, não fora possível realizar um pomposo funeral real.
Então, no mosteiro de Zbraslavsk, foi discretamente sepultado aquele mesmo rei, cujo berço tinha sido cercado de tantas esperanças, fama e grandeza e que, após 56 anos de reinado, morrera infeliz e abandonado. A indignada Boêmia preparava-se para a revolta, sob o comando do seu genial e invencível líder Zizka. Pela primeira vez, a Boêmia iria surpreender o mundo com a visão grandiosa de um povo que se uniu e pegou em armas para lutar pela fé e pela liberdade... Essa guerra, uma das mais terríveis que algum dia cobriu de sangue a Terra, receberia o nome de um pacífico e humilde mártir de Constança. De uma ponta a outra de sua pátria, as igrejas e os mosteiros arderam para vingar a sua fogueira...
A Primeira Defenestração de Praga
Sob a bandeira do Cálice, símbolo da igualdade entre o clero e os crentes, Zizka conduz os taboritas à vitória (Códice hussita da época)
Jan Huss
Jan Huss é levado à fogueira. Na cabeça puseram-lhe um chapéu com demônios, símbolo de heresia.
Epílogo
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.