[user_registration_my_account]
Capítulo 34 de 51
Parte 34 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
105 Deusa da vingança na Grécia antiga - Nota do tradutor. de viva crítica ao criminoso e devasso clero. Esse homem era Jan Huss - a imagem viva do protesto no cristianismo. Sobre ele concentrava-se toda a raiva; ele deveria pagar por todos os inovadores que haviam exigido dos sacerdotes castidade e moralidade. Já condenado por seus inimigos, Huss fora convocado ao concilio para se defender das acusações de heresia. Com sua natural obediência e sua característica firmeza de caráter, ele atendeu imediatamente à convocação, sem se iludir sobre o perigo que corria por pregar sua verdade evangélica. Numa linda noite de setembro, alguns homens reuniram-se num pequeno e toscamente mobiliado quarto numa casa da "Cidade Antiga". As janelas saíam para o quintal e um longo e escuro corredor separava o quarto da outra parte da casa, escondendo seu ocupante de qualquer vizinhança indiscreta. Era Jan Huss, que havia chegado a Praga para se preparar para a longa viagem e despedir-se dos amigos antes de sua partida para Constança. O clero de Praga fingia ignorar sua chegada e, dessa vez, não o oprimia.
Neste momento, encontramo-lo no discreto abrigo, cercado de amigos que discutem com ele a viagem marcada. Lá estão Jan de lesenits, Prokop de Pilsen, Pedro de Mladenovits, lakubek de Stribr, o substituto de Huss na capela de Belém, mestre Gavlik e Jerônimo de Praga, que acabara de retornar de sua viagem à Lituânia. - Meus amigos, não se torturem com exageradas preocupações. O imperador me concede um salvo-conduto que me garante toda a liberdade para defender e demonstrar que estou certo. - Dizia Huss, naquele instante. - Não duvido da boa vontade de Sigismundo de protegê-lo. Mas lá em Constança você irá se confrontar com Paletch e outros inimigos que o odeiam. - Objetou Jan de lesenits. - Eu também não fico divagando e sei que me aguardam grandes provações. Mas creio na proteção de Cristo e, qualquer que seja o destino que me espera, eu abençôo a vontade divina! Creio firmemente no sucesso do nosso empreendimento e estou convencido de que, se eu
morrer, no lugar do fraco e indefeso ganso a verdade enviará a Pra-
106 Huss, em tcheco, significa "ganso " - Nota do tradutor. ga outras águias e falcões, cujo olhar veloz supera o dos outros bípedes. Eles, com a graça de Deus, voarão alto, capturando outras aves para Jesus Cristo, que reforçará e confirmará todos os Seus fiéis... Nesse instante alguém bateu à porta e entrou Vok Valdstein. Ele parecia estar contente com algo e cumprimentou a todos, alegremente. - Tenho boas notícias, mestre Jan! - Disse, feliz. - O rei indicou três senhores para acompanhá-lo a Constança, cujos nomes por si sós já garantem a sua segurança. Eles são: Jan de Khlum, Vladislau de Dub e Henrique Khlum de Latsenbok. - O rei é bondoso demais para comigo e não sei como agradecer a Sua Alteza. - Disse Huss, comovido. - Nem imaginava ter protetores tão poderosos, e, principalmente, favoráveis a mim. - Será que alguém pode não gostar de você depois de conhecê-lo? E, estando sob essa forte guarda, espero que os abutres do concilio retirem todas as confabulações de Paletch e outros traidores tchecos.
Além disso, graças ao Zmirzlik, o bispo de Nazaré expediu um documento atestando que você não é culpado de nenhuma heresia e até o arcebispo Konrad deverá declarar, por insistência dos barões, que o considera um bom católico. Tudo isso e mais o salvoconduto do imperador fazem você praticamente invulnerável. Os amigos, um atrás do outro, tentavam tranqüilizar Huss e a conversa tornou-se mais alegre. De repente, Vok, dirigindo-se a Jerônimo, perguntou se este ficara satisfeito com a viagem à Lituânia. - Não pude perguntar-lhe isso antes, pois não me encontrava em Praga. - Oh! A viagem foi extremamente interessante! Algum dia vou contar-lhe muita coisa curiosa. Mas não hoje, pois a maioria presente já ouviu sobre isso. - Nada disso! Eu não ouvi nada! - Replicou Prokop. - Eu também não! - Acrescentou lakubek. -Notícias úteis e agradáveis podem ser ouvidas duas vezes... - Observou Jan de lesenits, dando risada. - Bem, como vê, o auditório está formado!
E um grande orador como você saberá dar um novo colorido até a algo já conhecido... - Disse Vok, maliciosamente. - Tentarei justificar as suas palavras. Antes, quero dizer que a idéia da viagem foi-me incutida parcialmente pelo desejo do nosso amigo Jan, de saber detalhes sobre a Igreja greco-oriental, à qual, como vocês sabem, pertenciam os missionários eslavos Cirillo e Metódio... - Eis o que Broda me ensinou na infância: "Ele pediu uma cruz ao príncipe da Morávia. E ao Metódio, arcebispo de Velegrad. E aquele
Metódio era russo. E rezava a missa em eslavo". - Acrescentou Vok, citando versos da crônica de Dalimil. - Por outro lado - continuou Jerônimo -, o principado lituano-russo sempre me atraiu como terra-irmã, e eu viajei, como devem lembrarse, junto com o vosso amigo Svetomir. Não vou contar sobre a nossa curta estada em Cracóvia que nada teve de especial. - Essa não! Mas que humildade! - Interrompeu-o Vok, novamente. - Meus amigos, saibam vocês que recebi uma carta de Svetomir na qual ele descreve que esse humilde senhor apresentou-se à corte do rei Jagellon, vestido como um príncipe encantado de conto de fadas, num
maravilhoso traje púrpura e com uma epantcha revestida de pele cinzenta. Com sua aparência e seus discursos, ele causou um rebuliço: todas as mulheres perderam o coração e os "padrecos", a tranqüilidade! - Pare com isso! Lá houve mais fumaça do que fogo... - Sorriu Jerônimo. - Svetomir exagera um pouco as minhas conquistas. Quanto ao clero, é verdade que os deixei fora de si, mas já estou acostumado a esse sucesso. Então, voltemos ao relato. Junto com a corte de Vitovt que retornava à Lituânia, consegui chegar a Vilnus com o máximo conforto. Uma enorme multidão e todo o clero saíram ao encontro do grande príncipe e eu vi, pela primeira vez, uma procissão dos cismáticos. Estou chamando-os assim para os distinguir dos católicos na seqüência do relato. Essa fonte histórica -indicando que o ilustrador da Boêmia era de origem russa - encerra, entretanto, dados históricos
107 "Prosi Krsta od Svatopluka Moravskébo. A od Methodye arcibiskupa Velehradskébo Tem arcibiskup Russin bese Msu svou slovansky sluzese" - Nota do autor. 108 Capa curta e redonda, sem mangas - Nota do tradutor. muito importantes: a indicação escrita na crônica de Dalimil é uma prova incontestável de que, no fim do século XIII e no início do século XIV, os tchecos acreditavam que a sua religião original era a mesma professada pelos russos - na qual a missa é rezada na língua eslava. Vocês perceberão que os considero tão bons cristãos quanto nós. A primeira impressão foi muito agradável. A procissão do arcebispo - com seus canônicos e monges franciscanos, minoritas e outros - era talvez mais pomposa. Mas os russos, em seus longos trajes orientais, entusiasmaram-me com a grandeza e a solenidade da procissão e eu, involuntariamente, ajoelhei-me juntando-me aos outros. Depois, essa primeira impressão reforçou-se quando vi do outro lado do rio a própria cidade coberta de jardins. Sobre aquele mar verde destacavam-se cúpulas multicoloridas coroadas por cruzes de ouro que brilhavam ao sol.
Parecia que, naquele frio país nórdico, abria-se diante de mim um recanto oriental. Tudo o que observei em seguida me deixou cada vez mais surpreso e extasiado. Vilnus é uma cidade absolutamente russa, tanto pela população como pelo comércio. No resto do principado, três quartos da terra são habitados pelo povo russo - que já possuía uma brilhante história dos tempos de Kiev - e somente um quarto dessa terra é ocupado pelos lituanos com o seu moribundo paganismo. A língua russa é a língua do governo e da sociedade. "A Lituânia floresce com o russismo", diziam-me. Quase todas as famílias de príncipes e de nobres da Lituânia e da Rússia são ortodoxas; por exemplo: de Ostrog, de Glinsk, de Sluts, de Sapega, de Khodkevitch e outros. Depois que estive em Vitebek, Polotsk e Pskov, consegui perceber a influência produtiva de uma Igreja verdadeiramente nacional sobre o povo. Uma Igreja que nasceu na terra pátria, uniu-se à população e vive com seus interesses.
Agora ficou totalmente claro para mim que, para a independência de um reino eslavo, é necessário, antes de tudo, ter uma Igreja eslava; que com um clero estrangeiro não dá nem para pensar na liberdade popular, e que a missa em latim não traz benefícios ao povo que não a entende. Na Rússia, o governo, a Igreja e o povo estão unidos e essa participação do rebanho nos empreendimentos da Igreja cria não somente uma vigilância sobre a sua propriedade, mas também sobre a atividade do próprio clero. Sob a influência da força unida da Igreja popular, a Rússia adquiriu um espírito forte e agora consegue resistir aos alemães, que são obrigados a respeitar o seu poder como país... - E os costumes e a moral deles são muito diferentes dos nossos? - Perguntou Vok. - Os costumes do povo são diferentes. As cidades não estão separadas do campo como aqui e não cortaram o contato com a terra e a agricultura.
A situação dos camponeses também é diferente; eles conservaram as bases tradicionais: liberdade pessoal, sistema comunal, autogestão, juízo eqüino etc. - e tudo isso a Lituânia recebeu de herança da Rússia. Mas a partir do casamento de Jagellon com a rainha polonesa Hedwiges, sopraram outros ares e começou a influência polonesa. Na Polônia, os camponeses perderam seus direitos e são súditos da terra do proprietário e não do rei. Em geral, o sistema de governo polonês - favorecendo as altas classes - e particularmente a sua criação
preferida - os schliakhty - oprimem a população rural. Ao contrário da grande Rússia, que recebe as forças do povo, a Polônia, sob a influência do seu inspirador e dirigente de Roma, ignora as bases mais importantes do modo de vida eslavo. Eles emprestam os conhecimentos científicos e materiais dos nossos próprios inimigos: os alemães. Esse sistema, que surgiu por circunstâncias especiais e é estranho ao país, deforma o seu organismo e o distancia dos outros países de mesma raça. A fatal dependência de Roma dos governantes lituanos e poloneses fornece um excepcional poder ao clero fanático que se apoderou completamente do rei Jagellon e adquiriu uma influência maléfica sobre a Lituânia e a Rússia. Lá, já começaram as divergências: a luta dos princípios opostos entre russos ortodoxos e poloneses católicos e a população demonstra insatisfação com o governo, temor pela fé e pelos direitos do povo. Mas a Roma isso não importa! O catolicismo não reconhece o bem-estar do povo e trabalha somente ad majorem pape gloriaml Os missionários católicos começaram a impor a sua fé com tanta insistência que em Zhmud, por exemplo, eles foram expulsos por
109 Nobres, pequenos proprietários na Polônia - Nota do tradutor. ordem de Vitovt, assustado pela fuga em massa da população que esses missionários provocaram. Na Lituânia, a Igreja oriental já teve seus mártires. - E você não vai nos contar nada sobre os nossos amigos alemães? - Perguntou Vok, rindo. - Sobre eles não há muito o que falar e vocês os conhecem bem! O quadro da barbárie teutônica estará muito claro para vocês, quando
lhes contar o que ainda lembro do teor da carta enviada aos jmudins queixando-se da Ordem: "Ouçam-nos, príncipes espirituais e mundanos! A Ordem não está procurando as nossas almas para Deus mas as nossas terras para si e nos levou ao ponto de sermos obrigados a pedir esmolas ou assaltar para viver. Prelados, padres e outros semelhantes tiram de nós lã e leite e não nos ensinam o cristianismo. Depois disso, como eles ousam dizer-se irmãos, como ousam persignar-se? Quem quer banhar os outros deve antes estar limpo!". Como vêem, o papismo está de mãos dadas com os alemães e se faz sentir aqui! - E que impressão teve da missa oriental? Você deve ter visitado seus templos... - Perguntou Gavlik. - Visitei igrejas de diversas cidades, mas a missa que me deixou mais impressionado foi a que presenciei em Pleskov. O seu canto, eu juro, tocou-me no mais profundo da alma. Uma grade dourada, enfeitada com imagens de santos, oculta o altar dos olhos dos fiéis e abrese somente em determinados momentos da nvssa.
Toda a missa é tão solene que parece envolver a alma e elevá-la ao céu. Tive a impressão de estar numa reunião dos primeiros cristãos e orei de todo o coração naquela igreja onde a missa é rezada numa língua que todos entendem. - E os padres católicos? Como reagiram à sua visita às igrejas russas? Não acredito que aceitaram isso pacificamente! - Perguntou Vok, rindo. - É claro que a preferência que demonstrei pelo rito oriental não passou despercebida pelo clero católico, que me culpou disso. Fui convocado à presença do arcebispo de Vilnus que me deu uma severa
110 O povo lituano se dividia em lituanos e jmudins - Nota do tradutor.
reprimenda. Entretanto, a grossa intolerância do bispo declarando que os russos não são cristãos, que as imagens que enfeitam seus templos são falsas e que a comunhão de dois tipos (pão e vinho) é uma ignóbil heresia não só não me comoveu como me revoltou! Mais tarde, eu expressei a minha opinião sincera ao próprio Vitovt. - Mas é claro! - Interrompeu-o Lakubek. - Pode-se, pelo contrário, afirmar com certeza que o próprio Jesus Cristo instituiu a comunhão com pão e vinho e a Igreja sempre esteve de acordo com esse costume até que os papas introduziram essa novidade, privando os leigos do cálice. - Vivendo entre nossos longínquos irmãos - continuou Jerônimo - e mergulhando novamente na fé dos nossos antepassados, deixada por Metódio e Cirillo na nossa querida Boêmia, eu me senti outra pessoa... Por vezes, grandiosos pensamentos se apoderavam de mim e me perguntava: será que não existe algum remédio contra o mal?
Seria possível ressuscitar as tradições da nossa antiga fé popular que, pelo testemunho de muitos, ainda deixou em nós profundas lembranças e raízes vivas? Há muito tempo que nós, tchecos, lutamos contra a opressão da latinidade protegida pelos alemães! Então eu imaginava como seria grande o nosso poderio se enfrentássemos a Igreja alemã com a Igreja eslava que reuniria sob a sua égide tchecos, russos, poloneses e todos os povos ligados pela mesma origem e que estariam unidos pela fé. A batalha de Tannenberg já mostrou o que podemos quando nos unimos contra o inimigo secular que anseia pela nossa derrota! Jerônimo calou-se. Sua voz tremia de emoção; o poderoso tórax aprumou-se e seu olhar aquilino dirigia-se para o vazio, esquecendo tudo ao seu redor, absorto pela grandiosa visão que se descortinava à sua frente!
Com o olhar profético de sua mente genial, antecipando os acontecimentos futuros, ele parecia prever que, para os alemães, a religião serviria sempre como arma política e que, conforme a exigência do momento, seu grito de guerra seria: Hin nach Rom! - para a separação dos eslavos - e Los von Rom! - para a integração do mundo alemão... No quarto reinava o silêncio. Todos estavam impressionados com o relato de Jerônimo. Finalmente, ouviu-se a voz de Huss. - O quadro que você pinta do futuro é belo e atraente; mas para a realização dos seus desejos somente forças humanas não serão suficientes. Seria bom se cada um cumprisse o seu dever até a morte, deixando o resto Àquele que dirige os destinos dos homens e dos povos. A conversa aos poucos se animou com um outro tema que, naquele momento, ocupava todo o mundo cristão, ou seja, o concilio. Depois, os amigos se despediram. O tempo que se seguiu foi passado em reuniões para a preparação da viagem.
Como Huss viajaria a Constança por seus próprios meios, todos os seus amigos tentavam aliviar suas necessidades materiais. Inúmeros presentes em dinheiro e objetos chegavam de todas as partes. O barão Bozhek Rabstein, parente de Rugena, presenteou-o com um lindo cavalo; Vok e o pai, com um traje completo de tecido de flandres preto; Rugena deu-lhe uma grande soma em dinheiro. Finalmente, no dia 11 de outubro, após uma comovida despedida dos amigos e principalmente de Jerônimo - que o acompanhou por algumas milhas fora da cidade -, Huss deixou Praga. - Querido mestre - disse Jerônimo, ao despedir-se e dando um forte abraço em Huss -, seja firme na luta que se aproxima; se correr qualquer perigo, irei voando para ajudá-lo. Nada, entretanto, parecia confirmar as suspeitas dos amigos e os sombrios pressentimentos do próprio Huss. A viagem transcorria tranqüila e pelo caminho o sacerdote era sempre recebido com honras e grande amabilidade. Na casa dos Valdstein houve uma verdadeira festa quando chegou carta de Huss com selo de Nuremberg, cheia de curiosos detalhes.
O padre descrevia - com alegre surpresa - que, em vez do ódio que esperava encontrar da parte dos alemães, o povo saíra em multidões ao seu encontro e pessoas importantes e até sacerdotes haviam ido conversar com ele e tinham mesmo elogiado seus ensinamentos. Na realidade, a viagem de Huss foi uma procissão triunfal para o... martírio. Mas a carta mostrava também outra coisa: o quanto aquela inesperada popularidade surpreendia Huss, demonstrando que ele, em seu humilde e infantilmente puro espírito, dava pouca importância à grandeza de seu papel.
Terceira Parte
Vallenstein "... E aquela nação, Boêmia, pela qual lutamos, é completamente estranha de alma ao governante que foi dado a ela pela sorte das armas e não por livre escolha. - E ela suporta com rancor a tirania da religião! O poder do mais forte conseguiu quebrá-la mas não lhe trouxe paz! A memória dos horrores realizados em suas terras, e a flamejante sede de vingança ainda estão vivas por aqui... Pode um filho esquecer que usavam cães para obrigar seu pai a entrar na igreja? Um povo, colocado em tal situação, é terrível - quando se vinga ou quando é obrigado a suportar isso." Shiller
Capítulo I
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.