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Capítulo 18 de 51

Parte 18 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

- O que vou mostrar-lhe agora foi comprado a peso de ouro, mas eu queria que o teu presente estivesse à sua altura, - Disse ela, suspirando. - Para uma noiva como a minha Rugena, não existe nada caro! Deus, como ela é bela! E lhe digo mais, mãe: toda a corte terá inveja de mim. - Disse Vok, com orgulho. - Sim, ela é linda! E temo que seja demasiado linda para fazer você feliz. - Observou a condessa, balançando a cabeça. - Veja bem, minha querida criança, mulheres tão lindas provocam muitas paixões e criam ao marido muitas preocupações e muitos problemas. Queira Deus que Rugena seja suficientemente inteligente para amá-lo como você merece! Ela é sensata e contida, e até fechada demais. Mas pode ser que mude depois de casada. Veja, aqui está o tecido para o vestido de noiva. Ele faria qualquer moça querer vesti-lo, não é verdade? E desembrulhou um corte de brocado branco, fantasticamente bordado com arabescos e flores prateadas. O tecido era tão pesado e consistente que ficava em pé e farfalhava ao menor movimento. - É maravilhoso e deverá agradar a Rugena.

Obrigado! - E agora, o adorno para a cabeça... - Continuou mostrando a condessa, e retirou cuidadosamente da caixa uma tiara de prata de finíssimo acabamento, coberta de pérolas e diamantes, à qual vinha preso um véu de gaze prateada. - Mas isto é digno até de uma rainha! Onde você conseguiu tal maravilha? Acho que os mercadores venezianos devem ter cobrado uma fortuna. - Realmente, este tesouro custa caro! Mas o comprei por um preço relativamente barato. O primo Tomasso adquiriu estes objetos de uma parenta que ia se casar, mas o noivo foi morto num duelo; a noiva entrou para um convento, eles ficaram com o bispo e agora Tomasso cedeu-os a mim. - Então, o primo Brancassis é fabulosamente generoso... -Disse Vok, ironicamente. E continuou: - Se, é claro, estas coisas não vieram parar em suas mãos da mesma forma como geralmente os adquire o reverendíssimo cardeal-legado Baltazar Cossa. Contaram-me que ele, auxiliado por homens de confiança e muito bem armados, assalta em surdina os mercadores que passam por terras de Bolonha. - Vok! Não se envergonha de repetir uma calúnia tão baixa?

Como pessoas de tão alto cargo se misturariam com banditismo? - Disse a condessa, com tom reprovador. - Você não está merecendo ganhar os presentes que os nossos nobres parentes enviaram! Veja, meu filho: para você, um corte de veludo carmesim e uma taça maravilhosamente trabalhada, e para Rugena, uma corrente de ouro com uma estrela de safiras e uma coroa de condessa, enfeitada de rubis. - Bem, por estes presentes estou pronto a reconhecê-los como santos... - Declarou Vok, rindo e beijando a mãe, cujo rosto desanuviouse imediatamente. Chamando uma das criadas, ele ordenou que levassem as coisas. Depois do almoço, desejando ficar a sós com a noiva, Vok pediu a Rugena que fosse com ele ao quarto contíguo para ver os presentes que ele lhe daria por ocasião do casamento. Ao entrar no quarto, Rugena, curiosa, começou a procurar com os olhos os presentes prometidos. E por mais que estivesse acostumada ao luxo, soltou um involuntário grito de admiração ao ver o véu, aberto sobre a mesa como uma toalha brilhante, e a maravilhosa tiara.

Com alegria infantil, ela revirava e examinava o valioso tecido. - Este traje você vestirá no dia em que será minha para sempré - Sussurrou Vok ao seu ouvido e, pegando a tiara, colocou-a sobre a cabeça da noiva. Em seguida, levou Rugena diante do espelho veneziano pendurado na parede. A tiara, ardendo em luzes multicoloridas, e o longo véu, envolvendo Rugena numa nuvem de prata, combinava tanto com a sua pessoa que ela ficou admirando a própria imagem. O conde, definitivamente cego pela sua beleza, abraçou-a e trouxe-a para perto de si. - Rugena, você é tão bela que seria uma tentação até para um santo! Vou contar não os dias, mas as horas restantes até o nosso casamento... - Sussurrou ele, beijando-a. Rugena virou-se para ele e, encontrando seu ardente e apaixonado olhar, estremeceu e recuou, cobrindo os olhos com as mãos. - Não olhe assim para mim! Fico assustada! Você nunca me olhou assim... -Murmurou ela, empalidecendo. - Sua bobinha! - Disse Vok, sem saber se ria ou ficava ofendido. - Antes você era uma pequena garota, que eu respeitava como noiva, mas pela qual não estava apaixonado.

Não quero assustá-la e desejo com toda a alma conquistar seu coração; mas você não pode exigir que eu sempre esconda meus sentimentos. Ele a fez sentar-se num banco coberto de veludo vermelho e inclinou-se para ela. - Diga-me, Rugena: gosta de mim pelo menos um pouco? Desde ontem você, nenhuma vez, retribuiu o meu beijo. Rugena levantou a cabeça e com o seu olhar puro olhou diretamente nos olhos do noivo como se quisesse ver dentro de sua alma. - Gostaria muito de apaixonar-me por você, Vok, pois não tenho ninguém no mundo que me ama e que eu ame. Mas... você me amará? Ou, simplesmente, ficará me admirando? Dizem que sou bonita, mas beleza é um dom instável! Veja bem: ainda não o amo, porque o conheço muito pouco. Você é bonito, atraente, e se a sua alma corresponder à sua aparência, se eu conseguir respeitar a sua moral tanto quanto reconheço a sua beleza, então lhe entregarei toda a minha alma!

E então, seja você bonito ou feio, saudável ou doente, ou até fisicamente deficiente, eu o amarei até a morte, enquanto o seu coração bater para mim. O conde ouviu espantado e constrangido as palavras enlevadas que saíam dos róseos lábios da criatura adorada e, de repente, seu coração apertou-se tristemente. Leviano, mimado por mulheres e conquistas fáceis, ele compreendia que Rugena esperava dele uma dedicação total, profunda e permanente, ou seja, um amor cujo conceito ele não tinha. E só a consciência daquela exigência já lhe parecia opressão. - Vou me esforçar, Rugena, para merecer o seu amor e conquistar seu coração. - Murmurou ele, indeciso. - Aceito a sua promessa e que Deus nos agracie com a felicidade! Ela pegou a cabeça dele em suas mãos, beijou-lhe a testa e voou para fora do quarto como um passarinho assustado. Na casa, à noite, desencadeou-se uma tempestade. Padre Hilário soubera do desaparecimento de Svetomir e todas as investigações que empreendera não haviam dado nenhum resultado.

A condessa estava fora de si e, durante o jantar, ao informar o marido sobre o acontecimento, criticava o fugitivo pela vil ingratidão. O conde, porém, recebeu a novidade com bastante indiferença. - Por que você se preocupa? - Retrucou ele, calmamente. -Se o garoto achou para si um pedaço de pão que ele gosta, o que temos com isso? - E acho até que ele está certo. - Disse Vok, dirigindo um olhar de desprezo para o padre Hilário. - Já temos um excesso de padres ruins, e não há motivos para lamentar um monge imprestável de menos! Nunca aprovei o fato de quererem vestir à força uma batina em Svetomir. Seu gesto corajoso somente eleva meu conceito sobre ele. Por essas palavras Vok foi agraciado com um forte aperto de mão da noiva que, depois do jantar, contou-lhe sobre a ida de Svetomir à casa dos Rabstein e da ajuda que ela lhe prestara. Vok não somente aprovou sua atitude, como acrescentou que, se não estivesse naquela hora no monte Kutná, ele próprio teria ajudado o amigo de infância.

De dia, Ana saiu para visitar sua tia e sua sobrinha, filha de Jan Zizka, e, ao voltar, esperou ficar a sós com Rugena para contar os detalhes de sua visita. - Mas que tempos terríveis vivemos! - Acrescentou ela. - Por vezes nem consigo imaginar como podem cristãos se odiar daquele jeito e perseguir uns aos outros, somente porque são tchecos ou alemães. - Realmente, isso tudo é muito triste! Entretanto, a iniciativa das diversas brigas parte geralmente dos alemães, enquanto os tchecos somente defendem seus direitos. - Observou Rugena. - Mas o que exatamente provocou esse seu espanto? - Um caso com que deparei hoje na casa da tia. Enquanto eu estava lá, ela recebeu a visita de uma velha amiga e antiga vizinha, Luiza Gubner, viúva do irmão do professor. Ela veio com a filha Marga, com quem travei amizade quando ainda morava aqui em Praga, antes de ir viver com você. Fiquei muito feliz em vê-la. Mas você não imagina como ambas estão infelizes.

O mestre Jan Gubner decidiu casar a pobre Marga com o rico açougueiro Guints Leinhardt; ela, entretanto, ama um jovem cavaleiro tcheco. Depois da história com os votos na universidade, Gubner fica possesso só de pensar que Marga ousa gostar de um tcheco, e a odeia por isso, tratando-a com extrema grosseria. Quando ela chora e implora que o tio lhe dê a liberdade - pois tem nojo de Guints -, o professor responde com bofetadas. O casamento já teria acontecido se não fosse a publicação do decreto que embaraçou os alemães e absorveu toda a sua atenção. Agora, a mãe e filha são vigiadas pelos serviçais do professor. Mas, hoje de manhã, esse patife foi ferido num confronto com estudantes tchecos e elas aproveitaram a ocasião para visitar minha tia; por meio dela, Marga enviou uma carta a Milota, seu amor, que está viajando. - Coitadinha, sinto muita pena dela! - Disse Rugena. - Eu também. Suas lágrimas de desespero poderiam sensibilizar até uma pedra. Espero que não me repreenda por eu ter dito a Marga que, se ela precisar, pode vir aqui.

Você e, principalmente, Vok, que é benquisto na corte, talvez pudessem ajudar e defendê-la. - Fez muito bem! Fico indignada com a crueldade desse velho e estúpido tio. Pedirei a Vok para ajudar. No dia seguinte, Rugena levou o noivo aos seus aposentos e contou-lhe em segredo a história de Marga, pedindo que ajudasse, na medida do possível, a pobre moça. O bom humor provocado pela conversa íntima e o carinho de sua encantadora noiva fizeram Vok prometer até cortar a garganta do velho Gubner, se fosse necessário. - Milota é meu amigo! O safado nunca me falou desse seu amor; mesmo assim farei o possível para ajudá-lo! O rei enviou-o à Morávia a serviço e ele deve retornar a qualquer momento. Alguns dias após essa conversa, perto das três horas da tarde, uma mulher envolta numa capa escura apareceu na casa dos Valds-tein e quis falar com Ana. Era Marga. Pálida e trêmula, como em febre, ela abraçou a amiga quando ficaram a sós. - Esconda-me! - Murmurou ela.

Ana acalmou-a e Marga contou que, em virtude dos tempos agitados e da possível necessidade de deixar Praga a qualquer minuto, seu tio resolvera apressar o destino dela. - "Uma grande desgraça caiu sobre os alemães", disse meu tio, "e devemos dispensar qualquer festividade. Leinhardt e eu decidimos que, depois de amanhã, faremos o vosso casamento em sigilo. Isso também é muito conveniente para mim, pois, caso eu saia de Praga, Guints comprará a minha casa e também a sua mãe terá mais tempo para o cansativo trabalho de preparar a bagagem". Meu tio estava com uma expressão tão terrível que não ousei retrucar e decidi acabar com a própria vida. - Dizia Marga, com voz trêmula. - Mas hoje eu vi Milota quando ele saía da casa de Zmirzlik e isso deu-me coragem. Então, fugi de casa e vim pedir à senhora Rugena para que me esconda aqui. Talvez Milota me leve embora consigo. Com profunda pena da infeliz, mas também preocupada com o que diria a condessa, Ana correu para Rugena.

A amiga consolou-a. - Vok prometeu ajudar-me e, se ele resolver defender Marga, sua mãe não ousará contrariá-lo. Vou imediatamente falar com ele. Naquele momento, o jovem conde recebia dois amigos. Ao ser informado pelo pajem de que sua noiva desejava vê-lo, ele desculpou-se e saiu. Rugena, preocupada, transmitiu-lhe o que acontecera na casa de Gubner, pedindo ao noivo que escondesse Marga e a defendesse da provável insatisfação da condessa. Vok pensou por um instante, mas logo um sorriso esperto e ousado passou por seu semblante. - Tive uma idéia e, se conseguirmos colocá-la em prática, faremos uma brincadeira que Gubner não esquecerá por muito tempo. - Disse ele, abraçando Rugena. - Vamos aos aposentos de Ana, pois gostaria de conhecer a heroína da história. Quando entraram, Marga sobressaltou-se, aguardando o pior, mas Rugena beijou-a e Vok convenceu-a de que iria ajudá-la.

Isso a acalmou um pouco e ela pôde responder racionalmente às perguntas que lhe foram feitas. - Quando vão começar a procurá-la? - Essa foi a primeira coisa que Vok perguntou. - Acho que meu tio irá voltar somente tarde da noite. Isso porque foi marcada uma grande reunião na casa do professor Varen-tralp para a discussão de um novo pedido ao rei para que permita aos tchecos que se separem de outras nacionalidades e fundem a sua universidade particular. - Bem imaginado! De qualquer modo, essa reunião irá ajudar nossos planos. Até logo, e não se preocupem se me atrasar um pouco. Espero trazer-lhe boas novidades, senhorita Gubner! Passaram-se duas horas de cansativa espera. Marga estava febril e, apesar das palavras de consolo de Rugena e Ana, chorava copiosamente. Finalmente, ouviram-se passos apressados na sala vizinha e entrou Vok acompanhado por um outro jovem alto e com um rosto bondoso e agradável. - Milota! - Exclamou Marga, feliz, correndo para os braços do recém-chegado.

Ele a apertou contra o peito, dizendo: -Calma, querida, estamos salvos! - Você não me despreza por eu ser alemã? - Perguntou Marga, sorrindo por entre as lágrimas. - Meu Deus! A política nada tem a ver com o nosso amor! Espero que uma boa esposa de tcheco esqueça de sua origem alemã! Quero lhe perguntar se você quer se tornar minha esposa dentro de duas horas! Está tudo arranjado, graças a Vok e outros amigos; Cristian Prakhatitski, da igreja de São Miguel, irá nos casar. - Se eu quero? E você ainda me pergunta? - Disse ela, radiante de felicidade. - Como posso agradecer, senhor conde, pela felicidade que está me dando? - Disse ela, voltando-se para Vok e estendendo-lhe ambas as mãos. - Eu fico felicíssimo em fazer um favor a um amigo.

Mas, cara senhorita, não devemos perder tempo com agradecimentos. - Respondeu ele, alegremente. - Ouçam o que faremos: para não levantar suspeitas, eu e Milota iremos a pé, enquanto você e Ana chegarão depois de nós, em liteira fechada, e irão direto para a sacristia, onde as testemunhas já estarão aguardando. - Vok! - Sussurrou Rugena, ruborizada. - Deixe-me também ir à igreja, assim que vestirmos a noiva. - Como posso negar algo a você, ainda mais quando quer assistir a essa maravilhosa cerimônia, que logo nos unirá para sempre? - Respondeu, carinhosamente, Vok, olhando apaixonadamente para Rugena e fazendo-a corar. - Vistam-se depressa que estou indo ordenar a Broda para acompanhá-las! - Acrescentou ele, saindo. - Depressa, Ana, traga o vestido que lhe presenteei para o meu casamento. Eu mando fazer um outro para você.

Marga é do seu tamanho e o vestido irá servir-lhe, pois os meus ficarão apertados demais. - Ordenou Rugena e chamou Iitka para ajudar. - Ficarei feliz em dá-lo a Marga. - Respondeu Ana e, após alguns minutos, apareceu trazendo um vestido de seda azul, bordado com prata, que serviu em Marga como se fosse feito para ela. Rugena escolheu entre suas jóias uma tiara de ouro coberta de brilhantes com turquesas e colocou-a na loura cabecinha da noiva. - É o meu presente de casamento! - Disse ela, beijando Marga. - Que ele seja para sempre o símbolo de vossa desanuviada felicidade. - Como vocês são bons para mim! - Agradecia Marga, calorosamente. - Depois disso, como não gostar de tchecos, quando os alemães só sabem odiar e até meu próprio tio está pronto a me sacrificar por causa de racismo? - Em todos os lugares existem pessoas boas! Neste instante, os alemães foram vencidos e essa é a única desculpa de sua raiva impotente. - Respondeu Rugena. As três vestiram capas, desceram as escadas e saíram para a rua lateral, onde as aguardava a liteira vigiada por Broda.

Na igreja elas foram recebidas por Vok e Milota; na sacristia, aguardavam três jovens amigos de Valdstein e do noivo. Só faltava o padre, que havia sido chamado com urgência para atender um paciente. Não tiveram de esperar muito. Logo, na soleira da porta, apareceu o pároco Cristian Prakhatitski, com seu amigo Huss, que tinha ido visitá-lo e, ao saber do caso, resolvera acompanhá-lo até a igreja. O padre aproximou-se dos noivos e Huss parou na porta, olhando surpreso para Rugena ao fundo da sala. Ela ainda estava coberta com a capa preta e a luz da vela na parede às suas costas iluminava-a como uma aura. Não se enxergava a parte inferior de sua figura e a loura cabecinha parecia flutuar no ar. Huss, profundamente religioso e místico, teve a impressão de que diante dele estava algum ser celestial e a delicada beleza de Rugena somente confirmava aquela impressão. Mas a ilusão durou pouco e a própria Rugena correu ao seu encontro, dizendo: - Como estou feliz em vê-lo, padre Jan!

Vok percebeu a cena e adivinhou a impressão de Huss. - Não é verdade, mestre Huss, que ela é linda como um anjo? - Observou ele, com um sorriso de orgulho, aproximando-se de Huss. O rosto pálido e expressivo do padre avermelhou-se. - Sim! - Respondeu, sorrindo. - Por vezes Deus permite que um mortal tenha a aparência que lembre um de seus mensageiros; mas é preciso que a alma também seja digna desse invólucro! Todavia, não tenho dúvidas de que a senhorita Rugena sempre será portadora de luz, paz e bondade. - Prometo, padre Jan, fazer de tudo para semear ao meu redor somente o bem e conservar a pureza de minha alma. Mas o senhor deve me prometer que será o meu condutor nesse caminho. - Aceito, minha filha! Naquele instante, o sacerdote chamou Vok para assinar o atestado de casamento e todos passaram para o templo. - Onde está Jerônimo?

Pensei em encontrá-lo aqui. - Perguntou Huss. - Ele foi à casa de Zmirzlik providenciar comida e bebida e tomar algumas medidas preventivas no caso de os alemães começarem a se sentir ofendidos mais ruidosamente... - Sussurrou baixinho Valdstein, segurando o cabo da espada. O fogo que brilhou em seus olhos indicava que um protesto agitado dos inimigos só lhe daria prazer. Quando acabou a cerimônia e os noivos começaram a receber os cumprimentos, Vok aproximou-se de Rugena. - Agora, você e Ana deverão voltar para casa, enquanto nós festejamos com os noivos. É muito perigoso vir conosco, pois poderá haver confusão quando Gubner souber que lhe raptaram a sobrinha. Na casa de Zmirzlik corriam preparativos urgentes para a inesperada festa. O próprio anfitrião e sua esposa haviam ficado espantados com a notícia do casamento do sobrinho com a garota Gubner, oficialmente noiva de outro. Contudo, ambos conheciam e gostavam da dócil e bonita menina desde a sua infância; além do mais, a ousadia de tal aventura estava condizente demais com a agitação daquele tempo para não agradar ao velho guerreiro.

Com ajuda de Jerônimo, grande especialista em casos semelhantes, tudo foi organizado bem rapidamente; a casa permanecia às escuras para não levantar suspeitas. Finalmente chegaram os músicos e, em seguida, soldados armados se esgueiraram um a um para dentro de casa. Assim que a liteira e os convidados chegaram ao pátio, os portões foram bem trancados e os quartos iluminados. Na casa de Zmirzlik já se encontravam parentes e amigos, que haviam sido avisados a tempo. Os tios receberam afetuosamente Milota e a jovem esposa e, após os cumprimentos, todos passaram para o salão de jantar, cujas janelas davam para a rua. Não houve tempo para a preparação de pratos rebuscados e para os enfeites da mesa, mas no porão havia bastante vinho envelhecido e, ao som da música, a cada instante levantavam-se brindes em honra dos noivos. A repentina iluminação de toda a fachada da casa, a música, e os altos brados dos convidados espantaram os vizinhos, ainda mais que ninguém havia notado antes qualquer preparação para festa.

Uma multidão de curiosos cresceu rapidamente e logo encheu a rua; os espectadores subiam nas costas um do outro para dar uma olhada dentro da casa e um garoto conseguiu chegar na cornija da janela. Vok e Jerônimo prestavam atenção ao som abafado que provinha da rua, perceberam o curioso garoto e entreolharam-se; na verdade, o transcorrer demasiadamente tranqüilo da festa não os estava agradando. Já haviam bebido bastante e ninguém - nem o senhor Zmirzlik - pensou em parar o jovem conde quando ele correu para a janela, escancarou-a e gritou alto: - Ei, vocês! Por que estão parados, boquiabertos? Gritem à saúde do senhor Milota e de sua jovem esposa Margarita Gubner, cujo casamento estamos festejando! E, para limpar a sua garganta, tomem isto! - Dizendo isso, jogou sua bolsa de dinheiro para a multidão e fechou a janela. Na turba, composta de tchecos e alemães, ouviram-se exclamações. Depois, de início ouviram-se trovejantes vivas; depois apareceram gritos de protesto, pois o noivado de Marga com o jovem Leinhardt não era segredo para ninguém.

Naquele momento, um grande grupo de estudantes e professores apareceu da rua vizinha. Era Gubner com seus amigos voltando da reunião noturna na casa do mestre Varentralpe. Vendo o ajuntamento popular, ele parou, espantado. - O que significa isso? Será que aconteceu algo em minha casa? Mas, não, todos estão olhando para a casa do burgomestre. Enquanto decidiam se deviam ou não passar pela multidão excitada, um dos estudantes aproximou-se do povo e perguntou o que estava acontecendo. Ao saber da verdade, ele imediatamente correu para informar a Gubner que na casa do burgomestre estavam comemorando o casamento de sua sobrinha Marga. O sangue subiu à cabeça do impetuoso professor e seu rosto ficou tão vermelho que seus amigos ficaram com receio de ele ter um derrame; nada disso aconteceu, mas ele foi tomado por um furor insano. -Vinguem-me, meus amigos! Vamos derrubar os portões deste covil de patifes que roubam as nossas meninas! - Berrou ele, arremetendo para a frente. Os estudantes seguiram-no com gritos e urros.

Os que estavam armados desembainharam as espadas; os outros agarraram paus e pedras e, apoiados pelos alemães da multidão, anunciaram aos festeiros da casa de Zmirzlik que o desafio de Valdstein trouxera seus frutos. Os homens saltaram de seus lugares e sacaram das espadas. Marga desmaiou, ouvindo a voz estridente de Gubner no meio da multidão, despejando sobre ela, seu marido e todos os tchecos, ofensas e ameaças; mas não havia tempo de fazê-la voltar a si. Milota e Zmirzlik levaram a noiva para o quarto que saía para o pátio e trancaram-na lá junto com todas as mulheres presentes; em seguida, junto com o restante dos convidados homens armados, arremeteram ao encontro dos atacantes que já tinham derrubado os portões e ameaçavam invadir o pátio. E difícil dizer como acabaria aquele combate - pois ambas as partes eram reforçadas por cada vez mais combatentes - se alguns dos professores alemães menos exaltados não convencessem seus adeptos de que um ataque à casa de um serviçal do rei atrairia somente a ira deste e um rígido castigo.

Suas palavras surtiram efeito, mesmo porque os mais corajosos atacantes já tinham sido rechaçados ou feridos e os tchecos, além de tudo, eram superiores em número. Os estudantes começaram a recuar e a multidão passou a dispersar-se. Felizmente, não houvera mortes, mas muitos se encontravam feridos com certa gravidade. Entre eles estava Jerônimo, que recebera um golpe no ombro e outro na perna. Vok, com a sua costumeira sorte, ficara inteiro e são. Gubner voltou para casa fora de si de raiva, com um galo na cabeça e um olho roxo, jurando descontar a ofensa na cunhada, que ajudara Marga. Mas a pobre Luiza não chegou a ouvir essas ameaças e maldições. Ao saber do acontecido por uma das criadas, ela desmaiara e estava desacordada quando o professor voltou. Sua aparência indefesa quase convenceu Gubner de sua inocência e, de qualquer modo, obrigou-o a deixar quaisquer explicações para o dia seguinte. Por alguns dias o assunto principal em Praga foi o casamento romântico da sobrinha de Gubner e o ataque à casa do senhor Zmirzlik. O rei ficou bravo com isso e passou uma reprimenda em Vok por provocar o conflito. Mas sua predileção por ele acabou vencendo Q a engraçada história sobre a aventura noturna deixou Venceslau até de

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