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Capítulo 3 de 51
Parte 3 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Atualmente, a Boêmia corresponde, junto com a Morávia, ao que é, geograficamente, a República Tcheca, embora os limites fronteiriços tenham variado muito com o correr da história. Os tchecos têm sua origem nos povos eslavos que migraram para essa região entre o século V e o século VII da Era Cristã, tendo sido cristianizados no século X. No século XIV, a Boêmia era um dos mais importantes centros comerciais e culturais da Europa. Por muito tempo, a prata tcheca forneceu a base da moeda corrente do continente. A Boêmia sempre girou na órbita política e econômica do Sacro Império Romano-Germano. O Império, naquela época medieval, não era um Estado material, mas correspondia sim à idéia de um Império formado por uma confederação de Estados. O imperador era o senhor de um dos Estados que o compunham, sendo eleito pelos seus pares. O Reino da Boêmia era um dos eleitores do imperador. Além de ser eletivo, o cargo de imperador não implicava necessariamente muito poder, sendo relativo à força do próprio imperador eleito.
Os Estados do Império agiam, de fato, como reinos independentes. Na maior parte do tempo, os príncipes alemães criavam intrigas e disputas em torno do título de imperador e de seu reconhecimento pelo Papa. Eleições eram impugnadas, compradas, anuladas. Do século X ao XIII houve um longo processo de expansão alemã para o leste europeu. Incentivados por questões econômicas e ambições políticas, os esforços do Império para anexar ou submeter as regiões eslavas vizinhas foram constantes. Na Boêmia, durante o século XIII, o rei Otakar II estimulara a imigração de colonos alemães, na esperança de que estes o ajudassem a fortalecer seu próprio poder em relação à nobreza da Boêmia. Os alemães receberam vantagens especiais para se desenvolverem como mercadores e artesãos, mas os seus privilégios acabaram por indispor os tchecos contra eles. Os conflitos e as disputas entre esses dois grupos étnicos foram uma constante em toda a história, tendo-se concentrado principalmente em Praga.
Praga, capital da Boêmia, às margens do rio Vltava, pouco acima de sua confluência com o Elba, nascera do interesse dos mercadores pela sua localização. Em 1232, Venceslau I outorgou uma carta regia a essa "Velha Cidade" (Staré Mesto). Otakar II fundou nova aglomeração, a "Pequena Cidade" (Mala Strana), para os colonos alemães, e Carlos IV, no século XIV, fundou um terceiro agrupamento, a "Cidade Nova" (Nove Mesto), que viria a ser habitado principalmente por tchecos, ao contrário da "Cidade Velha", que era povoada mais por alemães. Praga ainda possuía as regiões - os bairros - denominadas "Cidade Alta", "Cidade Baixa" e "Margem Pequena". Carlos IV, rei da Boêmia e imperador do Sacro Império Roma-no- Germano no século XIII, tem sua memória particularmente reverenciada em Praga. Quando eleito, fez de Praga sua capital, atraindo para a cidade artistas e humanistas italianos. Daquela época, datam a nova ponte, a universidade, o castelo real e sobretudo as igrejas.
Dentro da política alemã de expansão em direção ao Leste, Carlos IV conseguiu fazer seu filho Sigismundo rei da Hungria, e fazer seu outro filho, Venceslau, rei da Boêmia. A Universidade de Praga, fundada por Carlos IV, foi a primeira universidade de língua alemã. Fundada em um ambiente conturbado, internacional como todas as universidades, logo se tornou controlada pelos mestres e estudantes alemães, cada vez mais numerosos à medida que refluíam de Paris no momento do Grande Cisma. Os alemães chocavam-se com os tchecos, gradativamente conscientes de sua originalidade e de suas aspirações. Essa oposição étnica duplicava-se em uma oposição corporativa: tratava-se de definir se as nações - grupos em que se dividia a faculdade - dominadas pelos alemães prevaleceriam sobre a nação tcheca. Como se verá no decorrer do livro esses conflitos étnicos entre os tchecos e os alemães foram muito importantes no desenrolar da vida de Jan Huss.
Jan Huss
O pensamento de Wyclif fora bloqueado na Inglaterra pelo próprio sucesso do Estado. A reforma da Igreja não consegue impor-se nos locais em que a construção do Estado está avançada. O sucesso de Jan Huss na Boêmia explica-se por uma diferença de evolução. O Império não é a Inglaterra. O protesto hussita confunde-se com a revolta de quase toda uma sociedade no âmbito territorial de um conjunto de Estados. Além do mais, Huss é nacionalista - o "Pai-Nosso em tcheco" é uma demonstração inequívoca, tanto quanto seu trabalho de fixar a ortografia e reformar a língua literária tcheca. Mais tardio, o protesto hussita situa-se num momento propício. Nascido em 1369, na pequena cidade de Husinec, Jan Huss viveu, durante 37 anos de sua vida, o drama do cisma. Huss é fruto desse mesmo cisma. Mas é também fruto de uma Boêmia muito específica. Nesse país marginal, cristianizado meio milênio mais tarde que a Itália, a Espanha ou Gália, o clero é demasiado numeroso, excepcionalmente deficiente, sem formação e com maus costumes, vivendo de prevaricações simoníacas.
Quando Praga se tornou a capital do Império isso se tornou intolerável. Foi nessa situação que Jan Huss se destacou. De um temperamento mais de sábio e moralista do que de profeta, sua firmeza de caráter e posição elevou-o a uma posição de destaque tanto em termos religiosos como nacionais. Uma corrente reformista moderada formara-se em Praga, e um grupo - ligado aos universitários tchecos e aos nacionalistas - aparece: "Capela de Belém". Nessa igreja, reúnem-se milhares de pessoas ávidas por receber, em tcheco, a pregação da palavra de Deus. Fixam-se então alguns objetivos, que caracterizam a tradição boêmia: a preocupação de uma linguagem inteligível; um moralismo atento aos casos de consciência que o clero encontrava nas suas confissões; uma devoção à eucaristia - que está nas origens do desejo de beber pelo cálice -; uma crítica virulenta às insuficiências morais do clero. Huss torna-se, além de membro do grupo de Belém, seu expoente máximo.
Pregador apaixonado, rapidamente tornou-se muito popular, exortando o povo às virtudes dos apóstolos e a procurar Cristo nas palavras do Evangelho. Denuncia os abusos da Igreja. Desejava uma piedade um pouco menos exterior, mais de relação pessoal, de tempos de oração. Sua pregação é basicamente neotestamental, voltada principalmente ao moralismo dos sinópticos e à espiritualidade do Sermão da Montanha. A influência de Wyclif em seus pensamentos é considerável. Toda a obra de Wyclif é conhecida em Praga no começo do século XV. Jerônimo de Praga tinha estudado em Oxford, de onde trouxera numerosas cópias das obras do teólogo inglês. Quando Huss tomou conhecimento das obras do inglês, a situação na Boêmia era muito delicada. O conflito entre os tchecos e os alemães crescia. O povo escandalizava-se cada vez mais tanto com a vida luxuosa dos bispos quanto com o nível que atingira a contrapropaganda dos papas rivais. É nessa situação que o papel de líder religioso - e, de certa forma, até nacionalista - de Huss é realçado. É nesse tempo que Rochester nos brindará com a descrição da saga desse grande homem, de uma moral exemplar.
As heranças de J. Huss
Num momento mais imediato, a repressão a Huss e Jerônimo de Praga provocou uma explosão ao mesmo tempo religiosa e nacionalista, de ambas as formas radical. Uma enorme agitação político-religiosa dos Estados da Boêmia desafiou a autoridade do Império. Calistinos nacionalistas e taboritas radicais lutaram pela sua terra e por sua liberdade religiosa durante mais de 20 anos. Ainda decorreriam vários anos até que, numa manhã de vento de 1517, um padre alemão atravessou a praça e afixou duas folhas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg. Era um violento ataque à venda das indulgências, à simonia. Poucos anos mais tarde, esse mesmo padre - Martinho Lutero - diria: "Éramos todos hussitas, mas não sabíamos disso". Quando os protestantes, no século XVI, minimizam o papel institucional da Igreja como dispensadora da graça divina e afirmam que o indivíduo está em relação direta com Deus e depende exclusivamente de sua onipotência, eram as idéias destes homens, Wyclif e Huss, que estavam renascendo. Os livros de Huss seriam republicados.
Cem anos mais tarde, a cavalaria de Cromwell leria Wyclif e Huss às vésperas das batalhas, e os puritanos que partiam para a América levariam seus escritos através do Atlântico... * * * Em decorrência do caráter introdutório do texto, renunciamos ao dever de colocar notas de rodapé indicando a origem de cada citação feita, bem como o autor das idéias e frases mencionadas. As informações históricas foram retiradas da bibliografia que segue abaixo, a qual indicamos aos interessados.
Maurício A. Brandão
Bibliografia
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Retrato de São Jerônimo de Praga (1521) Óleo sobre madeira do pintor Albrecht Dürer.
No fim do século XV na Alemanha e na Europa Central a arte Gótica marcou a pintura, exprimindo uma concepção voltada acima de tudo para a religião.
Quando o relógio da prefeitura na Cidade Velha em Praga toca as horas, as estátuas dos apóstolos aparecem em duas janelinhas. Construído em 1410, o relógio mostra os signos zodiacais, os movimentos do sol e da lua, a data e a hora.
Primeira parte
Capítulo I
Na confluência dos rios Miesy e Radbuzy localiza-se a velha cidade de Pilsen, atualmente um grande centro industrial, com muitas usinas produzindo a mundialmente famosa cerveja de mesmo nome. No fim do século XIV, a população dessa cidade, assim como a da maioria das cidades tchecas, era composta predominantemente de cidadãos alemães, fartos e enriquecidos, em prejuízo direto dos filhos do povo, graças às inúmeras concessões com que os reis da Boêmia os atraíam para o país. Entretanto, nos últimos anos daquele século aconteceram mudanças que não favoreceram os alemães; a população urbana tcheca cresceu significativamente e muitos senhores feudais compravam ou construíam para si casas na cidade, aumentando assim a rivalidade entre as duas nacionalidades. Num lindo dia de verão do ano de 1401, um numeroso séquito de cavaleiros passava pelas estreitas e sinuosas ruas de Pilsen. Era encabeçado por um homem de uns 35 anos, um tipo claramente italiano: moreno, esbelto, mas bem-formado e forte.
O rosto indubitavelmente bonito era estragado por um permanente, beatifico e afetado sorriso; os olhos negros e espertos também deixavam má impressão, ocultando uma certa crueldade. Vestia um belo traje de veludo negro; uma leve couraça de aço cobria seu peito e sobre os negros cabelos havia um chapéu enfeitado de penas, colocado de modo faceiro. Trazia no cinto um punhal de cabo incrustado e uma espada de respeitáveis dimensões. Esse traje mundano-militar contrastava sobremaneira com a grande cruz pendurada numa corrente de ouro que trazia no peito e um anel episcopal colocado sobre a luva de couro de cervo. O bispo montava garbosamente um cavalo murzelo22 e distribuía bênçãos aos passantes. Atrás dele, quatro pajens carregavam seu elmo, seu escudo, sua lança e outros armamentos; mais atrás seguia um considerável cortejo e, fechando a procissão, viam-se algumas mulas carregadas de bagagem. O bispo parou diante de uma casa ao lado dos muros da cidade. A casa era grande, toda de madeira trabalhada, com um alto e pon-
tiagudo telhado. Outrora ela fora construída por algum rico botchar, em nada diferindo das outras casas da cidade; mas o conde Hinek Valdstein, que a comprara recentemente, acrescentara-lhe algumas torres dentadas e cercara-a com um grande muro, dando àquela casa modesta e pacífica um aspecto de castelo fortificado. Via-se que o prelado já era esperado, pois o cavalariço nem teve tempo de bater e já os portões se abriram. Um velho criado correu ao encontro do clérigo, ajudou-o a desmontar do cavalo e informou: "O conde está ausente, mas a condessa aguarda o bispo Brancassis e ordenou que conduzíssemos o reverendíssimo até ela". No alto da escada, a própria condessa recebeu o grande convidado com amabilidade e respeito e perguntou sobre sua saúde. - Sinto-me bem, graças a Deus; mas, mesmo assim, minha cara prima, vou pedir-lhe pousada por alguns dias. Depois da longa viagem a cavalo, uma velha ferida da época da juventude passou a me incomodar e gostaria de descansar. - A minha casa inteira está à disposição de Vossa Reverência.
Perdoe se não encontrar aqui o conforto desejado. - Um pobre monge como eu não precisa de muito! Vou pedir-lhe somente que o meu pajem Riciotto seja instalado perto de mim: preciso dele com freqüência e, por isso, ele deve estar sempre à mão. Uma hora depois, reforçado por um bom jantar, o bispo estava sentado a sós com a dona da casa, em seu quarto, longe de ouvidos indiscretos.
Que, ou o que tem cor de amora (falando de cavalo) - Nota da editora.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.