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Capítulo 29 de 51

Parte 29 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

mesmo que me ameacem com a fogueira. - Caro mestre, o senhor está se arriscando demais. - Observou Rugena, apertando-lhe a mão, solidária. - Tudo acontecerá pela vontade do Senhor, minha filha, mas penso que ainda não chegou a minha hora! Cristo ainda não concluiu a ação que pôs sobre os meus ombros e de meus irmãos, e não arrancou ainda da boca do hipopótamo todos os predestinados à salvação pelo Senhor. Ele dará forças aos portadores de boas novas, até que estes esmaguem a cabeça do hipopótamo! Quero isso de todo o coração e, por essa causa, aceitarei até a morte... - Uma vida assim faz o senhor merecedor de uma coroa de justo. - Disse Ana, e o seu olhar, apagado e indiferente desde o infeliz acidente, acendeu-se repentinamente com fanática excitação. - Minha filha, abstenha-se no uso de tão fortes palavras e, principalmente, não transfira levianamente para um humilde servo de Deus os agradecimentos que devemos a Ele, que nos dirige e ajuda. - Observou Huss, severamente.

Apesar da grande vontade, os alemães tiveram de desistir da destruição da capela de Belém. O povo passou a guardar dia e noite o seu precioso local de oração, e o ânimo da turba era tão ameaçador e ostensivo que eles já não ousavam atacar abertamente. Então, para compensar, apressaram-se a promulgar a excomunhão e aplicá-la com todo o rigor. Em todas as igrejas de Praga foi solenemente anunciado que as missas estariam canceladas enquanto Huss permanecesse na cidade. Também estava proibido a qualquer cristão, sob pena de uma excomunhão idêntica, conversar com Huss, supri-lo de alimento e bebida, abrigá-lo, sepultá-lo etc.

Palaky, "G. v. B. ", III, p. 287. Obs.: 387 - Nota do autor. Uma nuvem de tempestade parecia pairar sobre a velha capital da Boêmia; o ambiente era lúgubre, triste, como se a cidade estivesse passando por uma terrível desgraça. Os sinos não mais repicavam, as igrejas fecharam e não realizavam missas; negava-se a extrema-unção aos moribundos, o batismo aos recém-nascidos, a bênção divina aos noivos e um enterro cristão aos mortos. Apesar disso, a maioria da população não tremeu diante do terrível castigo, nem seu amor por Huss ficou abalado. A insatisfação geral desabou sobre o clero que, no entendimento do povo, era invejoso e mau e estava se vingando do pregador querido por todos, por ele desmascarar corajosamente suas façanhas, sua ganância e sua corrupção. Durante essa provação, Huss deu uma demonstração de uma dócil e resignada determinação, que era um dos principais traços de seu caráter. Sobre o castigo injusto que o atingira, ele apelou somente a

Jesus Cristo, como o único verdadeiro chefe da Igreja. No restante, continuou sua vida rotineira, visitando doentes e necessitados, pregando as verdades evangélicas e demonstrando, em todos os casos, aquela ardorosa fé e aquela comovedora abnegação que haviam conquistado os corações de todos os seus contemporâneos e criado um dos mais fascinantes personagens históricos para os descendentes. Percebendo a desgraça pela qual a família dos Valdstein passava, Huss passou a visitar mais a sua casa, pois o terrível estado da condessa Iana deixava a todos assustados. Na época não existia a ciência de tratamento de doenças mentais e a loucura era freqüentemente atribuída à possessão diabólica. No caso da condessa Iana, tal suposição já era esperada. Estava claro para todos que o crime realizado invocara o espírito do mal e que este jogara sobre a culpada o início dos sofrimentos que com certeza a aguardariam mais tarde no inferno. Tal convicção aumentava ainda mais o horror que a infeliz mulher provocava; até o velho conde e Vok estremeciam, supersticiosos, quando ela começava a correr pelos quartos perseguida pelo fantasma de sua vítima.

95 Ideo ad caput ecclesise Dominium Jesus Cristum ultimo appelavi - Nota do autor. Huss visitava-a com assiduidade e sua voz tinha um efeito calmante sobre ela; por isso, cada vez que ele ia à casa dos Valdstein, o conde pedia-lhe que ficasse um pouco com sua esposa. Numa tarde, ao chegar, Huss soube que a condessa passara o dia inteiro correndo e que sua raiva era tanta que até haviam tentado amarrá-la, mas sem resultado - ela revelava tamanha força que ninguém conseguira dominá-la, nem Broda. Ao aproximar-se dos aposentos da paciente, Huss ouviu urros e gritos estridentes. O quarto estava mal-iluminado, pois não acendiam a luz temendo incêndios, mas o frio os obrigara a acender a lareira junto à qual estava sentada uma criada. Nos primeiros instantes, Huss não conseguiu ver a condessa. Por fim, percebeu-a sentada de cócoras junto à poltrona, com o pescoço esticado e parecendo vigiar alguém. Com a doença, ela mudara demais: ficara terrivelmente magra, com os cabelos completamente brancos e caindo desordenadamente em longas mechas. Seus olhos, bem abertos, selvagens e sempre fixos num único ponto, causavam uma terrível impressão.

Ela estava de camisola e com uma saia rasgada em diversos lugares; um véu em pedaços, com restos de bordados de ouro, caía em trapos de seus ombros. Huss aproximou-se e chamou a condessa pelo nome. Depois, começou a conversar com ela, dizendo-lhe que Deus a perdoara e que Cristo, em Sua infinita misericórdia, estava próximo de qualquer necessitado, recebendo o pecador arrependido como ao filho pródigo. A voz sonora de Huss teve o efeito habitual: os gritos e urros cessaram e o olhar apagado e malicioso da paciente voltou-se para ele. É difícil dizer se a louca entendia o sentido das palavras de Huss ou se simplesmente a vibração harmônica do seu discurso acalmava agradavelmente os seus nervos abalados. Após um quarto de hora, ela levantou-se em silêncio e foi vagarosamente em sua direção. De repente, soltou um grito agudo e deu um pulo para trás, percebendo no chão a sombra de Huss. - É ele! É ele! Ele me aponta o dedo e zomba de mim por que estou em seu poder, depois de tantos anos de tranqüilidade! - Gritou ela, selvagemente.

Huss percebeu a causa do susto e virou o corpo de modo que sua sombra deixasse de ser visível. - Calma, ele desapareceu! Ordenei-lhe que voltasse ao túmulo. Venha, senhora, sente aqui na poltrona e não tenha medo. Uma luz de alegria e calma passou pelo rosto da doente. Aproximando-se dele, ela segredou: - Você é poderoso e conseguiu espantá-lo. Então, por favor, me ajude! Já que ele obedece a você, então pegue do Barão Svetomir a indulgência que ele roubou e me devolva. Não consigo obter outra para mim, pois Tomasso morreu. Pagarei generosamente os seus serviços: dar-lhe-ei todas as minhas jóias, os dois porta-jóias, as pérolas e todo o dinheiro que juntei, mas... consiga-me a indulgência! Ela se inclinava cada vez mais e Huss involuntariamente recuou, ao ver de perto o rosto deformado pela careta e o olhar brilhante e esperto. De repente, notando a ponta de um pergaminho que aparecia do bolso de Huss, ela rapidamente pulou em cima dele e agilmente agarrou o rolo. - Ah! Seu esperto e corrupto "padreco", como todos da sua raça!

Você já a tinha e ficou calado! Mas agora, está tudo bem, ela é minha! É minha! Já tenho a minha indulgência e o caminho do céu está aberto para mim! Correndo até a mesa, ela abriu ruidosamente o tampo e, pegando punhados de pedras preciosas, objetos de ouro, pedaços de gaze e tecidos, jogou-os para Huss. - Tome! É seu! - Gritou ela. Depois, com gritos de alegria, começou a girar e dançar pelo quarto, agitando o pergaminho sobre a cabeça. Naquele instante a porta se abriu e entrou o conde Hinek. Ao vêlo, a louca estancou, mas aparentemente não reconheceu o marido. - Não se aproxime, Barão Svetomir, volte ao seu túmulo! O seu poder acabou! Veja, tenho uma indulgência! - E, acenando com o pergaminho à sua frente, ela começou a recuar em direção à lareira. - Pare, pare! Não se aproxime do fogo! - Gritou o conde, e correu para segurar a mulher. Esse movimento foi a causa de sua destruição.

Ela deu o seu costumeiro rápido pulo para trás, tropeçou e caiu dentro do enorme buraco da lareira, batendo com a cabeça em seu beirai de pedra. Os trapos de gaze e a saia de lã incendiaram-se instantaneamente. A infeliz, coberta de chamas, rolava no chão, gritando horrivelmente. A criada fugiu, horrorizada. O conde e Huss arrancaram os cobertores da cama e, embrulhando neles a condessa, apagaram com dificuldade o fogo de suas roupas. Os gritos da criada atraíram outras pessoas, inclusive Vok, que tinha acabado de voltar da visita ao rei no castelo de Gebrak. Eles conseguiram debelar o princípio de incêndio, pois o fogo já se espalhava pelas cortinas. Coberta por terríveis queimaduras, a condessa foi levada desacordada para outro quarto, onde lhe prestaram os primeiros socorros; mas seu organismo debilitado não suportou aquele novo choque. O resfriado - ocasionado pela água fria - e o sofrimento - causado pelos ferimentos que cobriam todo o seu corpo - resultaram em febre. Após uma grave agonia de uma semana, torturada por terríveis visões, a condessa morreu.

Em Praga, naquele período de interdição, era difícil para um cristão morrer. O conde e seu filho sentiram duplamente a desgraça que os afligia, não podendo sacramentar com uma missa o funeral da condessa, que no entendimento de ambos precisava mais do que ninguém de orações. E foram obrigados a enterrá-la sem sacerdote nem rezas, do mesmo modo que morrera sem confissão nem comunhão. "Talvez Deus, irado com a maldade de Giovanna, tenha-lhe negado a Sua misericórdia", concluíram. Se não bastasse tudo isso, o corpo da falecida começou a decompor-se rapidamente e o conde teve de seguir o costume estabelecido durante a época de promulgação da interdição, ou seja, enterrar a mulher à noite.

Quando o corpo foi colocado no caixão, o conde jogou por cima dele um punhado de terra santa trazida de Jerusalém por um de seus antepassados e que era guardado na família como objeto sagrado, borrifou-a com água benta e colocou um crucifixo em suas mãos. - Cristo, em Sua infinita bondade, ajudará e dirigirá sua alma, será seu defensor e dar-lhe-á tudo o que lhe faltou neste funeral nãocristão. - Disse ele, com lágrimas nos olhos. Perto da meia-noite, a triste procissão, iluminada somente por algumas tochas que os criados levavam, dirigiu-se para o cemitério. Os Valdstein possuíam um jazigo da família num dos mosteiros. Mas lá não estavam fazendo sepultamentos e a nenhum membro da família claramente partidária de Huss era permitido entrar sob o teto sagrado. Geralmente, àquela hora tardia, toda a Praga dormia e as ruas ficavam completamente vazias. Entretanto, naqueles tempos agitados havia movimento em alguns lugares. Outros defuntos, também privados de funerais cristãos, eram levados secretamente ao cemitério.

Enterros de pessoas das mais diversas classes sociais aos poucos se juntaram à procissão e a multidão que os acompanhava expressava alto a sua insatisfação. Entre os defuntos havia também dois alemães católicos. Seus parentes começaram a xingar os outros presentes, principalmente os tchecos, atribuindo à sua ostensiva "heresia" e à sua adoração ao "criminoso inimigo da Igreja" a desonra que afligia os seus entes falecidos. Iniciou-se a discussão e os tchecos não ficaram atrás, acusando por sua vez o clero e seu Papa - o "Anticristo" - de terem feito tudo aquilo para se vingar pelo desmascaramento de seus crimes e de sua devassidão. O trajeto passava por uma igreja. Alguém propôs obrigar o clero daquela igreja a abençoar os falecidos e essa sugestão foi imediatamente aceita pela multidão excitada. O povo atacou a casa paroquial e arrombou a porta; fez o pároco e seu ajudante levantarem-se da cama, vestindo-os à força com os paramentos e, com ameaças e pescoções, arrastaram-nos para a rua e obrigaram-nos a ir à frente de uma grande fileira de caixões.

A turba enfurecida já não ligava para a interdição papal, e os assustados sacerdotes, temendo serem mortos a qualquer instante, foram obrigados a ler as orações sobre os túmulos, depois do que a multidão dispersou-se rapidamente. No dia seguinte, profundamente chocado com isso, Huss deixou a cidade querendo com isso prevenir o surgimento de novas explosões de insatisfação popular e retirar dos cidadãos de Praga a severa interdição.

Capítulo X

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.