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Capítulo 40 de 51
Parte 40 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
no até de sentar. Somente dois dias depois é que seus amigos ficaram sabendo do que lhe acontecera e tomaram medidas para aliviar o seu destino. Mas, em decorrência da tortura, Jerônimo adoeceu. Durante o tempo em que ele lutava contra a morte, Huss foi transferido para um mosteiro francês. O conde Valdstein, após uma calma temporária, era vítima de uma nova preocupação: a melhoria na saúde de Rugena alterara-se para uma enorme fraqueza e freqüentes desmaios. O conde, inicialmente, atribuíra aqueles sintomas preocupantes à emoção e às lágrimas pela trágica morte de Túlia - pois até então não haviam contado a Rugena que ela fora envenenada. Benelli, no entanto, confessou ao conde que o veneno continuava destruindo-a aos poucos e que a situação da condessa era extremamente grave. O conde ficou desesperado e não tardou em comunicar a Vok a triste verdade, convocando-o sem demora a Constança. O ambiente na casa ficou sombrio e intranqüilo.
Ana e Svetomir disfarçavam com dificuldade o seu desespero e cercavam a paciente com o maior cuidado e carinho, às vezes recuperando o ânimo e as esperanças quando Rugena melhorava e às vezes caindo em desânimo a cada novo desmaio, que era acompanhado geralmente por uma longa fraqueza. Em Svetomir e Broda, o temor pela vida da jovem condessa mesclava-se com o desejo de castigar o traiçoeiro assassino. Com esse objetivo, Broda, disfarçado, rondava assiduamente pela cidade e pelas cercanias, procurando o rastro de Brancassis e seu cúmplice, mas sem resultado. Certa vez, Svetomir, voltando da casa dos Valdstein, estava triste e preocupado quando, de repente, entrou Broda, disfarçado de cocheiro. Sua aparência era severa mas satisfeita e ele, sem perder tempo, informou que conseguira achar Hilário de modo absolutamente inesperado. - Eu tinha certeza de que a casa onde morou Brancassis e que ainda lhe pertence servia de refúgio para eles, e por isso rondava em volta daquele local. Hoje, depois de muito andar, fiquei exausto e entrei para descansar na taberna em frente à casa onde mora o cardeal Ursino.
Fiquei por lá sentado quando vi sair do portão um monge mendicante. Como por aqui existem muitos deles, eu nem teria prestado atenção naquele. Mas, quando ele jogou às costas a sua sacola, a manga larga da batina desnudou o seu braço e percebi em seu cotovelo uma grande cicatriz, que foi para mim uma verdadeira declaração. Era a mesma cicatriz que Hilário ganhou em uma caçada na qual um javali rasgou o seu braço. Reconhecendo-o no disfarce, saí da taberna e comecei a segui-lo. Ele, aparentemente, não me notou e ninguém prestaria atenção a um cocheiro qualquer. O miserável foi direto à casa de Brancassis. Entrando no beco sem saída e retirando uma chave do bolso, ele abriu um portão no muro, mas não deixei que ele o fechasse e empurrei a porta com tal força que ele caiu de costas da pancada. Então, amarrei-o, tapei-lhe a boca e arrastei-o para dentro de casa, certificando-me antes de que estava vazia. Esse covarde, que Deus me perdoe, perdeu os sentidos de susto e, por mais que eu o chacoalhasse, não dava sinais de vida.
Agora em dois, nós o faremos falar. Svetomir vestiu imediatamente a capa e as armas e ambos, quase correndo, foram ver o prisioneiro. Encontraram Hilário do jeito que Broda o deixara, mas o monge tinha voltado a si e estava deitado com os olhos esbugalhados. Destapando sua boca, Svetomir mandou-o dizer onde estava Brancassis e o que ele sabia sobre o envenenamento de Rugena. Por sua torpeza natural, Hilário acreditou que também daquela vez compraria a sua liberdade com uma confissão completa. Pálido de terror, ele murmurou que o cardeal estava agora a caminho da Itália, para onde ele também deveria ir, assim que entregasse a mensagem secreta ao secretário do cardeal Ursino. Com absoluta sinceridade, revelou como Brancassis, ansiando por vingança, decidira envenenar Rugena e castigar a traidora Túlia, raptando-a e torturando-a até a morte. Na casa dos Valdstein, com a ajuda de um monge amigo, fora subornada uma criada que dera o veneno à condessa.
Rugena, porém, tomara somente uma parte daquele veneno, e o atentado não pudera ser repetido pois a senhora von-Laufenstein viajara para visitar a irmã que morava em outra cidade e levara a cúmplice deles consigo. Como Túlia saía raramente e nunca sozinha, não havia como raptá-la; o cardeal estava fora de si e rondava diariamente a casa de suas vítimas. Naquele dia fatal, ambos haviam seguido a condessa e seus acompanhantes; percebendo que Túlia ficara um pouco para trás do grupo e perdera-se na multidão, Brancassis achara que aquela era a hora de agarrá-la. Ele realmente a agarrara e começara a arrastá-la consigo enquanto Hilário abria caminho. Ao reconhecer o cardeal, Túlia assustara-se e não conseguira pronunciar uma palavra; o povo, em volta, rira e fizera piadas sobre eles. Quando ela começara a gritar e a debater-se, alguns homens haviam tentado defendê-la, mas o cardeal gritara-lhes que ela era uma freira fugida e que ele a estava levando para as autoridades, o que fizera com que eles os deixassem em paz.
Ele, provavelmente, teria conseguido levá-la embora se Broda não os tivesse notado, o que os obrigara a fugir correndo. Furioso por seus planos não terem dado certo, Brancassis apunhalara Túlia para não deixá-la escapar viva. - Até agora ele não se conforma de as coisas não terem saído como ele queria... - Concluiu Hilário, cansado, olhando atemorizado para seus ouvintes. Depois, caiu de joelhos e começou a implorar perdão. Mas Broda, sem prestar atenção aos seus pedidos, tapou-lhe a boca novamente, soltou suas pernas e mandou-o segui-lo, se não quisesse experimentar o gosto do seu punhal. No dia seguinte, os vizinhos ficaram assustados com um terrível quadro. No gancho de ferro preso sobre a porta de entrada, em vez do lampião, balançava o cadáver de um monge. Quando o corpo foi retirado do laço, reconheceram no enforcado o padre Hilário, secretário do cardeal italiano que tinha morado naquela casa. O culpado pelo assassinato nunca foi descoberto e, na confusão dos acontecimentos extraordinários que se sucediam e agitavam a cidade, esse fato foi esquecido rapidamente.
Capítulo VI
A última informação que Huss recebeu, ainda no castelo de Gottliben, foi a de que seu ferrenho inimigo João XXIII - agora Baltazar Cossa - virará seu colega de desgraça e encontrava-se preso entre as mesmas paredes. A qualquer outro, tal castigo do destino proporcionaria satisfação, mas em sua alma sem maldade não havia lugar para sentimentos de vingança. "O deus terreno caiu e geme, acorrentado", escrevia Huss aos amigos. "O concilio o depôs por comercializar com indulgências, bispados e postos lucrativos. Ele foi condenado por aqueles que eram seus clientes e também comercializavam com isso. Mas que raça esperta! Por que não remover a tora do próprio olho? Parece-me que se o Senhor Jesus dissesse ao concilio: quem de vocês não tiver o pecado de comercializar coisas sacras que condene o papa João, não sobraria um único...".
A transferência de Huss para Constança, onde seria instaurado o processo, despertou as esperanças de todos os seus inúmeros amigos; eles não tinham dúvidas de que, se lhe dessem oportunidade para se defender, ele certamente rebateria todas as acusações que pesavam sobre a sua pessoa. Contudo, logo na primeira reunião, eles ficaram desiludidos ao descobrir que os respeitáveis padres do concílio não pretendiam fazer justiça. Na manhã de 5 de julho, no grande refeitório dos franciscanos, reuniram-se cardeais, bispos, prelados, mestres, doutores e outros membros do concilio; entre estes últimos estavam Pedro de Mladenovits e Ulrich, um jovem sacerdote, seu amigo. A reunião estava agitada. Antes mesmo de ser trazido o réu, foi feita a leitura do ato de acusação e tiveram início os depoimentos de testemunhas. Um dos presentes até propôs passar direto para o estudo dos artigos de acusação e para a votação cujo resultado seria informado a Huss.
Durante a discussão dessa proposta, o supracitado Ulrich, que se encontrava atrás do orador dos depoimentos de testemunhas, deu uma olhada nos atos, soltou um silencioso grito e empalideceu. Ele apressou-se para chegar até o seu amigo e sussurrou-lhe ao ouvido: - Acabei de ver, entre os papéis, a sentença pronta de Huss. Não menos surpreso, Pedro de Mladenovitz foi correndo avisar sobre isso a Jan de Khlum e Venceslau de Dub. Estes dirigiram-se a Sigismundo e conseguiram obter dele a interrupção de tal arbitrariedade; os prelados não ousaram contrariá-lo e Huss teve de ser convocado. Tal começo de julgamento não prometia boa coisa. Sério, concentrado e cheio de dignidade, Huss apareceu diante dos seus inimigos em cujas primeiras fileiras estavam Paletch e Miguel de Causis, ambos fervendo de ódio e zombando dele inso-lentemente. Teve início a leitura de algumas acusações; em seguida, foi feita a enumeração dos depoimentos de testemunhas que as comprovavam. Quando Huss tentou responder e dar a sua versão, a raiva mal contida dos presentes derramou-se sobre ele numa torrente de palavrões e ofensas que abafaram a voz do acusado.
Os gritos e o barulho eram tantos que Lutero, em uma de suas obras e com ousadas palavras, caracterizava assim essa cena revoltante: "Todos se agitavam como porcos selvagens, eriçando-se, rangendo os dentes e afiando suas garras contra Huss. Só ele permaneceu calmo na tempestade, olhando com tristeza para aquelas pessoas nas quais esperava encontrar juizes imparciais, mas encontrou somente inimigos". Quando a agitação amainou, Huss observou, sem raiva: - Realmente, eu pensava que neste concilio tudo correria de forma mais limpa, melhor e ordenada do que esta! Não se sabe se seus juizes, cegos pelo espírito do ódio partidário, sentiram a acusação que havia nas simples palavras do humilde sacerdote que eles queriam eliminar, mas o fato é que o cardeal-chefe (supremus cardinalis) de Camberra, Pedro de Alliaco, gritou: - Como ousa falar assim? No castelo, você falava com mais discernimento! - No castelo ninguém gritou contra mim. Agora, todos vocês gritam ao mesmo tempo. - Respondeu Huss. Sua resposta provocou uma nova explosão de ira e ofensas. Percebendo que a excitação dos respeitáveis padres não levaria a resultado algum, o presidente fechou a reunião.
Os barões tchecos, indignados, queixaram-se a Sigismundo e este prometeu estar presente na segunda reunião, marcada para 7 de julho. Infelizmente, os limites desta obra não nos permitem expor uma seqüência detalhada da revoltante paródia de julgamento que espezinhava todas as leis até da forma mais primitiva da Justiça. O processo era comandado por inimigos declarados de Huss; somente os depoimentos deles eram levados em consideração; a Huss era negado o direito à palavra e retirada, assim, qualquer possibilidade de defesa. Queriam obrigá-lo a negar aquilo que ele nunca dissera - como, por exemplo, a ridícula acusação de declarar-se a quarta pessoa da Santíssima Trindade, de não acreditar em Deus etc. Julgavam-no por defender e pregar as doutrinas de Wyclif- inclusive aquelas que ele próprio rejeitava. Podia-se supor que o concilio - que se mostrara mais conivente em relação aos ensinamentos de Jan Neti, muito mais perigosos e criminosos que a doutrina do filósofo inglês - castigava Huss nem tanto pela heresia, mas por sua coragem em desmascarar os vícios e desmandos do clero.
Huss apareceu diante do concilio por quatro vezes: três vezes para o interrogatório e suposta defesa e a quarta vez para a condenação e a anulação de sua tonsura. A segunda reunião aconteceu no dia 7 de julho, e a presença do imperador - que ameaçara expulsar da sala qualquer um que ousasse exceder-se - incutiu uma certa moderação aos presentes. O pior inimigo do réu, Miguel de Causis, lia o ato de acusação e o cardeal de Camberra, que presidia a reunião, impôs a Huss um rigoroso interrogatório com o objetivo de estabelecer se ele era cristão ou não. Depois, veio à luz uma das denúncias que provocavam mais ódio contra o sacerdote: a de que ele seria o culpado pela saída dos alemães de Praga. Essa acusação serviu de motivo para outras ainda mais ferozes e foi-lhe permitido se justificar em dois pontos. Essa permissão e as palavras de Huss fizeram renascer a esperança de um final feliz, mas... a ilusão durou pouco tempo.
O terceiro interrogatório começou com a leitura de diversos trechos do livro de Huss De Ecdesia e de outras obras que confirmavam as acusações de Paletch de que Huss negava o poder do Papa, no caso de este cometer um crime. Perguntado sobre isso, o sacerdote respondeu calorosamente, declarando que o costume de dar o título de santíssimo a um papa indigno e criminoso era algo nefasto e protestando contra muitas das opiniões atribuídas a ele, que na verdade ele nunca expressara, e também contra as interpretações erradas e as críticas parciais de suas idéias. Foi interrompido e a discussão foi abafada por diversas expressões ofensivas e maldosas indiretas de Paletch e de Causis. A reunião ficou agitada e, por fim, Pedro de Alliaco exigiu que Huss se submetesse à decisão do concilio, que declarasse estar errado nas obras que haviam sido apresentadas no julgamento, que as negasse publicamente e que, a partir daquele dia, pregasse e escrevesse o oposto do que dizia até aquela data. Apesar do perigo que pairava sobre sua cabeça, Huss permaneceu fiel às suas convicções.
Negando aos representantes da Igreja presentes no concilio o poder de obrigá-lo a ações que ele considerava vergonhosas, o corajoso lutador pela liberdade de consciência contra o autoritarismo da Igreja romana não percebia, por sua humildade natural, a grandeza de sua histórica missão e não tinha consciência de que, naquele momento, lutava pela liberdade do mundo ocidental do jugo opressor. Ele simplesmente respondeu que estava pronto a obedecer ao concilio e abdicar das idéias que defendia se lhe provassem pelas Escrituras que elas eram falsas. Também pediu aos seus juizes que não exigissem dele a renúncia de doutrinas que nunca pregara, pois sua consciência não lhe permitiria tais mentiras. Os arcebispos de Florença e de Camberra tentaram em vão convencê-lo a submeter-se incondicionalmente. - Ouça, Huss! - Disse o imperador, querendo atenuar o caso. - Por que você não renuncia a todas as idéias erradas sobre as quais você diz que as testemunhas lhe acusaram injustamente? Eu próprio estaria pronto a renunciar a quaisquer enganos e jurar que não iria mais cometê-los.
Isso não quer dizer que eu os cometia antes! - Meu rei! A palavra "renunciar" não tem esse significado. Vendo que lhe propunham um jogo de palavras para, salvandoo, conservar a autoridade do concilio, ele permaneceu firme. Seu caso estava claramente perdido, mas ele não queria salvar a vida renunciando às próprias convicções. Até Estéfano Paletch amansou diante da firmeza de uma única pessoa contra toda a Igreja cristã. Talvez por pena, talvez por dor de consciência pelo papel traiçoeiro que desempenhava, Paletch afirmou que achava importante declarar que, pessoalmente, nada tinha contra Huss e que somente o interesse pelo cristianismo o obrigava a exigir a sua condenação. E os padres do concilio aparentemente acreditaram nessa declaração de imparcialidade de Estéfano, pois o elogiaram por sua continência e filantropia. Mas se era possível admitir que Paletch - um sábio, conterrâneo e ex-amigo de Huss -envergonhara-se e lamentara o fato de ter de agir assim, a situação ficou risível quando Miguel de Causis aderiu à sua opinião.
Aquele filho de mineiro alemão, salafrário e mentiroso, inimigo mortal do pregador da capela de Belém, começou, de repente, a falar sobre a voz da consciência, o bem geral e a fé cristã. Huss só respondeu: - Deus os julgará. Sigismundo encerrou a reunião com as seguintes palavras ao réu: - Eu lhe prometi a minha proteção durante a viagem e na chegada aqui, para que você não sofresse a mínima ofensa e para que pudesse expor livremente suas opiniões e responder sobre suas crenças diante de todo o concilio. Você próprio está vendo com que consciência e condescendência os cardeais e bispos cumpriram a minha promessa, pelo que lhes estou grato.115 Depois disso, o bispo lohann von-Vallenrod, incumbido de guardar o acusado, ordenou que o levassem e colocassem-no de volta na prisão. No mesmo dia, na parte da tarde, o conde Hinek estava sentado perto de Rugena, que de manhã tivera outra vez um longo desmaio. O conde, preocupado, nem fora ao concilio, mesmo sabendo que naquele dia Huss apareceria.
Depois de tomar o remédio, Rugena sentiu-se melhor e quis respirar um pouco de ar puro. A jovem condessa foi levada ao jardim e colocada na sombra, enquanto Valdstein e Ana tentavam distraí-la conversando. Naquela hora, informaram da chegada do senhor Jan de Khlum, que desejava vê-lo. - Ele provavelmente veio contar o que aconteceu hoje no concilio. - Disse o conde, levantando-se. Mas Rugena parou-o. - Receba-o aqui, pai! Também quero saber como vai o processo do nosso mestre Jan. - Com prazer, minha filha. - Respondeu o conde e ordenou que conduzissem o visitante ao jardim. Após alguns instantes, no fundo da alameda, apareceu o barão Jan acompanhado de seu secretário, Pedro de Mladenovitz. O rosto afobado e o passo apressado do bravo cavaleiro indicavam que ele estava preocupado e aborrecido com algo. Depois de cumprimentá-los, o conde imediatamente perguntou como fora o processo de Huss e essa pergunta provocou uma explosão de indignação no barão Jan. - Chama aquilo de um processo? Será que aquilo é a justiça que deve ser prestada a qualquer cristão, por pior criminoso que ele seja? -
115 ' "Se não se tratasse de um assunto muito sério, não diríamos que o imperador zombava dos cardeais e, ao mesmo tempo, insultava a miséria de Jan Huss ", escreveu o historiador francês do concilio de Constança - Nota do autor. Obs.: - no original russo este texto está em francês.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.