Voltar ao livro Os Luminares Tchecos

Capítulo 17 de 51

Parte 17 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

A condessa Valdstein retornou de Bolonha muito antes do que pretendia. Ela tinha tanta pressa de regressar a Praga que, antes de chegar ao castelo Rabstein, enviou um comunicado avisando de sua volta e ficou no castelo apenas o tempo suficiente para fazer as malas. No fim de fevereiro, numa noite escura e enevoada, ela chegou com Rugena a Praga. A condessa e sua futura nora viajavam sentadas na mesma liteira. Ana e Iitka, em outra, enquanto padre Hilário viajava a cavalo ao lado de Matias, que comandava a guarda. Perto dos portões da cidade foram recebidos pelo conde Hinek e o filho, com um destacamento armado. Conforme as palavras do conde, a desordem na cidade fizera com que ele e Vok decidissem ir ao encontro dos viajantes para conduzi-los pessoalmente até a casa. E, realmente, Praga apresentava uma agitação fora do comum.

Apesar da noite - que normalmente afugentava cidadãos pacíficos das estreitas e escuras ruas que se tornavam pontos de ladrões noturnos, assaltantes e outras pessoas violentas -, agora se viam por todos os lados multidões de estudantes alemães, andando ruidosamente com tochas nas mãos, encarando com hostilidade qualquer tcheco que lhes aparecesse no caminho e até os ofendendo. O conde e o filho iam de cada lado das liteiras. A condessa e Rugena haviam colocado véus sobre o rosto, mas, a cada vez que no caminho aparecia uma casa iluminada ou que uma rua iluminava-se com tochas, a jovem olhava com curiosidade e receio para o seu noivo. Vok mudara muito e ficara mais bonito naqueles dois anos em que eles não se haviam visto. Adquirira um porte másculo, o rosto respirava energia e audácia, e o sorriso de desprezo que não saía de seus lábios revelava dentes bonitos e brancos. Portava sobre a cabeça um elmo leve, sem viseira, e estava inteiramente enrolado numa capa escura.

Os grandes olhos negros de Vok também olhavam a cada instante para dentro da liteira, onde estava sua noiva, coberta agora por um véu indevassável. Ao encontrá-los na entrada da cidade, a escuridão não deixara que ele visse melhor Rugena e tivera que se contentar com um beijo na pequena e branca mão, da qual fora retirada a luva de seda, recoberta com pele de animal. No caminho, foram barrados por ajuntamentos de estudantes ou cidadãos que, com gritos e ofensas, tentavam para-los. Mas, a cada vez, a numerosa guarda armada impunha à multidão o devido respeito e fazia-a abrir passagem. Finalmente, chegaram à casa dos Valdstein - um enorme e sombrio prédio, com duas torres de cada lado. Passando por um largo portão, revestido de ferro e cuidadosamente guardado, entraram no pátio. Vok apeou do cavalo e queria conduzir a noiva para casa, mas Rugena pegou Ana pelo braço e, sem retirar o véu, foi para dentro acenando para o noivo com as palavras: - Até logo, até o jantar! A raiva refletida no rosto de Vok divertia-a.

Sentindo-se abandonado, o jovem conde acompanhou a mãe aos aposentos dela, onde permaneceu até o jantar conversando sobre a viagem e outras novidades trazidas da Itália. A condessa lembrou ao filho que trouxera de Bolonha objetos maravilhosos que ele poderia oferecer à noiva como presente de casamento. - Comprei-os por um bom preço, graças ao primo Tomasso, que é grande conhecedor desse ramo! - Não é à toa que ele é bispo... - Observou Vok, ironicamente. E onde estão esses objetos? Gostaria de vê-los. - Já vou mostrar. Eles estão num baú especial. - Apressou-se a responder a condessa, não conseguindo parar de admirar cada movimento da bem-formada figura do filho. - Então é melhor deixar isso para amanhã! Você está cansada e já vão chamar para o jantar. - Disse ele, distraidamente, dirigindo-se ao refeitório. Rugena entrou quase ao mesmo tempo em que ele. Tinha trocado de roupa e usava um vestido de seda lilás, de grandes mangas, que contornava a figura do seu corpo esbelto. A cor escura do vestido destacava maravilhosamente seus cabelos dourados, emoldurando como uma auréola seu rosto pálido de emoção.

Seus grandes olhos, quase negros, olharam assustados e envergonhados para o jovem conde, que parou como encantado na soleira da porta. Vok não conseguia reconhecer naquela encantadora Rugena, parada diante dele no auge de sua beleza, aquela garota de 15 anos, magrela, pálida e doentia, devido ao rápido crescimento, que havia ficado em sua memória. - É você, Rugena, ou uma visão celestial? - Exclamou ele, com uma admiração tão sincera que Rugena corou; o conde e a esposa, que entravam naquele momento, desandaram a rir. - Beije-a e vai ter certeza de que não está diante de uma visão! - Gritou o pai, rindo. Vok não se fez de rogado e seguiu o sábio conselho do pai: abraçou a noiva e beijou-a apaixonadamente. Rugena não resistiu e, embaraçada, baixou a cabeça e depois se deixou conduzir à mesa, sentandose ao lado do noivo. Querendo animar as pessoas reunidas à mesa, o velho conde iniciou uma conversa com a esposa e o filho; assim, Rugena foi aos poucos se recompondo e se ambientando. - Diga, tio Hinek. - Perguntou ela, de repente. - O que acontece em Praga?

Até parece um levante! Você disse que aqui as coisas não estão tranqüilas e por isso veio com Vok ao nosso encontro. Por que os moradores e, principalmente, os estudantes estão tão agitados? - Ah! Você e Ana ainda não sabem da grande novidade? -Animouse o conde e começou a contar a história do decreto que concedia três votos aos tchecos. - Depois de sua publicação, os alemães ficaram loucos! - Prosseguiu ele. - Estão abarrotando o rei de queixas e protestos e irritandoo com delegações. Mas, como nada disso resolveu, eles ousaram apelar para ameaças. No dia 16, as três nacionalidades se reuniram numa conferência, e todos os mestres e estudantes prometeram, sob jura-

mento, abandonar Praga se o decreto não for revogado. E para tornar essa promessa ainda mais obrigatória, eles a assinaram no tabelião. Então, se alguém não cumpri-la, estará sujeito a um castigo quádruplo: em primeiro lugar, por falso juramento; depois, é expulso da corporação, desonrado e, finalmente, multado em grande soma de dinheiro. - E se eles realmente cumprirem a ameaça, será uma enorme perda para a cidade. - Observou a condessa. - Imagine, quantos milhares de professores, estudantes e artesãos alemães vivem aqui; quantos pergaminheiros, copistas, encadernadores etc. trabalham para a universidade. Todos eles, obviamente, seguirão os que partirem. - Mas não é certo sacrificar os interesses vitais do povo tcheco pelo bem-estar de copistas e encadernadores. - Intrometeu-se Vok, com desaprovação. - Se eles forem embora, restará mais pão aos nossos! Graças a Deus, a universidade não morrerá sem os professores alemães! Mas, não se preocupe. Eles não vão a lugar algum! Querem somente nos assustar para obrigar o rei a cumprir suas exigências. São uns idiotas!

Eles imaginam que esse truque vai dar certo aqui como deu em Bolonha de onde os professores e estudantes mudaram-se para Siena, quando a universidade considerou-se ofendida pela cidade e os bolonheses correram atrás deles para chamá-los de volta. Aqui as condições são diferentes, e essa ameaça não surtirá efeito. Isso é certo! As damas estavam cansadas da viagem e, por isso, todos se separaram logo após o jantar. De manhã, a condessa estava ainda ocupada com as criadas desempacotando a bagagem, quando entrou Vok e quis ver os presentes destinados a Rugena. A condessa dispensou a criadagem e abriu um porta-jóias todo trabalhado que estava sobre a mesa.

E. de Bonnechose, "Johann Huss und das Condi zu Costinitz " - Nota do autor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.