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Capítulo 44 de 51

Parte 44 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Nos primeiros dias de sua chegada, Vok ficou envolvido em duas circunstâncias: a primeira foi a partida do conde Hinek de Constança, motivada pelas notícias que ele próprio havia trazido e que exigiam a volta do velho Valdstein à pátria; a segunda circunstância foi a inesperada melhora na saúde de Rugena. A forte vontade do marido pareceu tê-la preenchido com uma torrente de nova vida; ela recuperou as forças, as faces ficaram mais roscas e os olhos voltaram a brilhar. Vok não cabia em si de felicidade; Ana e Svetomir também se animaram. Somente doutor Benelli permanecia sombrio, observando a paciente com preocupação. Nesses dias alegres e cheios de esperança, estabeleceu-se entre o casal uma afeição mais calorosa e completa. Vok dedicou-se inteiramente à esposa, como se esquecesse a diversão e as tentações que abundavam em Constança. Comovida e feliz com tal mudança, Rugena, vendo nos olhos do marido aquele amor profundo de entrega total pelo qual ansiara por todo o seu tempo de casada, não sabia como lhe expressar seu reconhecimento.

Mas uma nova recaída em seu estado de saúde outra vez levou todos ao desânimo. Certo dia, durante uma alegre conversa, Rugena sofreu um desmaio que durou algumas horas e, a partir daí, sua saúde começou a piorar rapidamente. Ela se desvanecia como cera e não havia mais esperanças - aproximava-se o fim. Arrancado de seus sonhos de felicidade, Vok perdeu o controle e, por sua natureza impulsiva, ora ficava completamente desesperado e sombriamente apático, ora explodia em fúria enlouquecida. Rugena sofria com tais mudanças que aguçavam ainda mais a amargura de despedir-se da vida. Ela procurava apoio na fé e na prece e tentava carinhosamente dirigir a fogosa alma do marido para a fonte divina da qual a humanidade obtém paciência, humildade e esperança. Setembro chegou. Certo dia, de manhã, Rugena sentia-se melhor e quis respirar ar puro. Vok levou-a ao jardim, onde logo chegou Svetomir, que passava diariamente algumas horas junto ao leito de sua amiga de infância, distraindo-a com as novidades da cidade.

Dessa vez, durante a conversa, ele observou ter ouvido comentários dando conta de que Jerônimo estava sofrendo muito na prisão e que até adoecera. Vok olhou preocupado para a esposa, em cujo rosto apareceram preocupação e profunda pena. - Deus queira que o infeliz morra antes que seus inimigos o submetam à mesma terrível execução do padre Jan. - Disse Rugena. -Se algum de vocês tiver a oportunidade de ver Jerônimo, transmita-lhe o meu último desculpe e a promessa de que rezarei para que o Senhor dirija-o e ajude-o na difícil provação. - Acrescentou ela, após um momento de silêncio. Depois dessas palavras, Vok passou o dia inteiro preocupado e pensativo. A emoção de Rugena, ao ser citado o nome de Jerônimo, despertara nele um ciúme passageiro que mudara rapidamente para um sentimento mais nobre e magnânimo. Durante as horas difíceis, quando a torturante dor da próxima separação superava todos os outros sentimentos, Vok criticava-se amargamente pelas loucuras passadas e pelo tempo que perdera com mulheres decaídas.

Naquele dia, ele dizia para si mesmo, envergonhado, que se não tivesse sido tão devasso, se não tivesse abandonado Rugena e ofendido seu legítimo orgulho, a atração infantil da esposa por Jerônimo nunca se teria transformado em amor. À noite, a sós com Rugena no quarto, Vok sentou-se na poltrona à cabeceira da cama e, inclinando-se para ela, perguntou de repente: - Você gostaria de ver Jerônimo uma última vez, se ele for condenado à morte? Quanto à sua doença, estou absolutamente convencido de que você irá sarar. E acho que você não deveria ter tais pensamentos ruins. Ela olhou-o com surpresa e um sorriso triste iluminou seu rosto. - Vamos esperar que eu esteja errada sobre a minha saúde, mas não quero ver Jerônimo, pois isso será muito difícil para você! Agradeço a sua magnânima proposta, mas não desejo obscurecer a nossa felicidade que, receio, será demasiadamente curta. Vendo os olhos do marido encherem-se de lágrimas e seus lábios tremerem, Rugena atraiu-o carinhosamente para si e beijou-o.

-Não vamos falar do passado do qual me envergonho... - Sussurrou ela. - Eu é que devo envergonhar-me do passado e não você! Não pense, Rugena, que tive ciúme imbecil do infeliz Jerônimo. Seria perfeitamente natural se você quisesse vê-lo para dizer algumas palavras de solidariedade a esse destacado homem que foi o herói dos seus sonhos de infância e cuja magnânima renúncia a você me inspira somente respeito e agradecimento. - É verdade que Jerônimo desempenhou na minha vida o papel de uma grande tentação - e bendito seja o mestre Jan que, com mão paternal, afastou-a. Apesar disso, não nego que seu destino me interessa muito e que, se ele estivesse em liberdade, eu iria, sim, querer me despedir dele. Contudo, sua rigorosa prisão impede isso. Assim sendo, imploro-lhe, Vok, se você me ama, desista dessa loucura que pode prejudicar-nos sem nenhuma necessidade. O conde nada respondeu, mas, em pensamento, decidiu ver Jerônimo e traze-lo para sua casa por uma ou duas horas, se isso fosse humanamente possível. Ele queria, de qualquer forma, dar à esposa essa demonstração de confiança e amor.

Dois dias depois dessa conversa, Vok, enrolado numa capa preta e com um largo chapéu na cabeça, dirigiu-se à noite ao cemitério de São Paulo, junto ao qual estava a torre da prisão de Jerônimo. O ouro generosamente distribuído abriu o caminho ao conde; o carcereiro já o aguardava e conduziu-o imediatamente para dentro. Assim que a porta se abriu, um sopro de ar frio, úmido e fedorento bateu-lhe no rosto e pelo corpo de Vok correu um tremor de repugnância. Quando eles entraram na casamata escura e contaminada por miasmas, onde há seis meses penava seu infeliz amigo, uma indescritível pena tomou conta da alma de Vok. Despertado pela repentina luz da lanterna, Jerônimo levantou-se em seu catre e olhou, surpreso, o visitante que não reconheceu à primeira vista. Ao sinal do conde o carcereiro saiu. Então Vok tirou a capa e estendeu os braços ao prisioneiro que os agarrou, feliz. - Vok! Com que milagre você conseguiu chegar até aqui? Sou vigiado atentamente como se fosse um perigosíssimo criminoso.

-Disse ele, emocionado. - A boa vontade e o ouro abrem qualquer cadeado... - Respondeu Vok, puxando um banco e sentando-se. - Como você consegue viver nesta cloaca? Pobre Jerônimo! Estou aqui há menos de dez minutos e já me sinto sufocado! - Oh! O ser humano é um animal resistente! Um búfalo no meu lugar já teria morrido há muito tempo enquanto eu, como vê, ainda estou vivo mesmo com as pernas cobertas de úlceras que acredito serem incuráveis... Estou apodrecendo vivo... -Notava-se uma profunda amargura na voz de Jerônimo. Depois, ele contou as terríveis torturas a que fora submetido no início de sua prisão, quando chegara a pensar que iria enlouquecer. Sua saúde, sempre tão resistente, em poucos dias havia sido destruída e ele estivera por um fio, à beira da morte.

A conversa passou a versar sobre o cruel e injusto processo que tramitava contra ele e o ódio insaciável de Estéfano Paletch e Miguel de Causis, que queriam eliminá-lo da mesma forma como haviam eliminado Huss. - Bem, chega de falar de mim. - Disse Jerônimo, depois de um pequeno silêncio. - Conte-me as novidades do mundo lá fora. O que fazem seu pai e a condessa? - Rugena está morrendo... - Disse Vok, ficando sombrio e baixando a cabeça. - Vim lhe contar sobre isso. Um grito surdo escapou de Jerônimo e ele olhou o conde com horror. - Vok! Você deve estar brincando! Uma mulher jovem, linda e cheia de vida está morrendo? Mas por quê? - Balbuciou ele. - É a triste verdade. - Respondeu o conde e, ao descrever o crime de Brancassis, cujas conseqüências nenhum remédio poderia impedir, em sua voz soavam a tristeza e a raiva. Jerônimo ouviu-o, respirando fundo e tremendo com todo o corpo. - Meu Deus! Quando terão um fim as maldades desse patife?

Quando a mão de Deus irá abatê-lo? - Gemeu ele, indignado. - Pois é. Esta longa espera por vezes nos obriga a duvidar da justiça divina... - Sorriu Vok, amargamente. - Na verdade, Jerônimo, o principal objetivo da minha visita é combinarmos como tirá-lo daqui numa noite por, pelo menos, uma hora. Sei que Rugena gostaria de vêlo para se despedir de você e farei de tudo para lhe oferecer esse minuto de felicidade! Agora, vendo em que situação você se encontra, e após conversar com seus carcereiros, percebo que os meus sonhos evaporaram-se. Jerônimo permaneceu calado. Apertando a cabeça com as mãos, ele mergulhou em pensamentos, aparentemente agitados, pois seu rosto pálido e magro cobriu-se de um febril rubor e, nos cansados e apagados olhos, acendeu-se a outrora firme vontade. - Vou conseguir, a qualquer preço, essa hora para o encontro que você me propõe e que é valiosíssimo para mim. - Disse ele, decidido. - Já achei o meio: vou renunciar e me submeter ao concilio. - Seu louco! Você, Jerônimo, amigo e correligionário de Huss, vai renunciar às verdades que ele professou?

Você manchará o próprio nome e dará um pernicioso exemplo com essa renúncia! - Exclamou Vok, indignado. Um sorriso enigmático passou pelo rosto do prisioneiro e seus olhos brilharam. Naquele momento, ele voltou a ser o antigo Jerônimo: corajoso e ousado, não se detendo diante de nada. - Calma, Vok! Eu conseguirei pagar essa fraqueza mais tarde e pagarei com a vida por essa hora de liberdade, mas preciso ver Rugena! Você entenderá, e espero que me desculpe por ter-lhe confessado que a amei como a nenhuma outra mulher na vida, mas com um sentimento diferente, que somente ela conseguiu me passar... - Nada tenho a lhe perdoar. Eu, infelizmente, percebi tarde demais o tesouro que Deus me concedeu e ao qual você teve suficiente coragem para renunciar! E não será diante do leito de morte do pobre anjo, ao qual ambos amamos, que ficarei enciumado. - Respondeu Vok, triste e abatido. - Faça o que lhe ditar o coração. Acredito em você, Jerônimo, e sei que saberá defender a sua honra!

Broda e Svetomir entrarão em contato com o seu carcereiro e, se você conseguir ficar em liberdade por algumas horas antes da morte de Rugena, que está extremamente fraca, um deles virá buscá-lo. Acertando mais alguns detalhes, os amigos separaram-se, emocionados e tristes. Passados alguns dias, correu pela cidade a notícia de que Jerônimo de Praga, cedendo às insistências dos cardeais, renunciara aos seus "enganos professados" e até assinara um ato no qual reconhecera todas as decisões do concilio e a ele submetera-se. Na verdade, mesmo tendo criticado os artigos de Wyclif pregados por Huss, Jerônimo acabou fazendo algumas omissões que comprovam o que custou ao infeliz a sua decisão. Assim, ele continuou a afirmar que ambos pregavam muitas verdades sagradas e que sempre gostara de Huss; notava-se claramente que, ao criticar "os enganos" do amigo, mantinha um sincero respeito por sua pessoa. Entretanto, apesar dessas omissões, o concilio parecia estar completamente satisfeito com a vitória e a submissão do famoso sábio.

Então, em 23 de setembro, quando Jerônimo repetiu solenemente a sua renúncia em audiência pública, declarando que nunca mais iria professar aquilo a que renunciara, sua situação foi um pouco abrandada: a vigilância sobre ele diminuiu e correu o boato de que iriam pô-lo em liberdade. Mas Jerônimo passava por um momento difícil. Sua orgulhosa alma torturava-se e sofria sob o jugo da humilhação de ter renunciado publicamente ao motivo de sua vida. Seu coração sofria com os entraves e as infindáveis dificuldades para obter aquelas poucas horas de liberdade que lhe custavam tão caro... O temor e o desespero corroíam-no por dentro ao pensar que seu sacrifício poderia ser em vão e que o olhar - onde certa vez lera tanto amor - e os adorados lábios de Rugena - que o haviam inebriado com suas palavras -poderiam fecharse para sempre antes que ele conseguisse, pela última vez, ver aqueles olhos cintilantes e ouvir o último "adeus". Svetomir e Broda visitaram-no e disseram que Rugena estava definhando rapidamente.

A tortura espiritual do infeliz atingiu seu apogeu quando, numa noite no final de setembro, Svetomir entrou na sua cela, acompanhado pelo carcereiro que trazia um embrulho. O amigo de infância de Rugena estava pálido e nitidamente emocionado. - Trouxe-lhe um traje, mestre Jerônimo! Vista-se rapidamente e acompanhe-me! Este bom homem irá deixá-lo sair. - Sim! Este senhor cavaleiro tentou-me com uma quantia de dinheiro que, para um pobre como eu, representa uma herança. Mas me prometa, mestre Jerônimo, que vai voltar! Mesmo que já falem sobre a sua libertação, não ouso libertá-lo e posso pagar com a vida por esta minha fraqueza. Não acabe comigo, minha pobre mulher e meus seis filhos! - Implorou o carcereiro. - Dê-me sua espada, Svetomir. - Disse Jerônimo. E continuou, pondo a mão sobre o cabo da espada em forma de cruz: - Pelo sinal de nossa redenção, que é sagrado para mim, juro retornar à prisão antes do amanhecer. E que a ira de Deus recaia sobre mim se eu faltar à minha palavra!

O carcereiro, mais calmo, ajudou-o a vestir o traje de veludo negro e enrolou-o numa larga capa com capuz que cobria o seu rosto. Depois conduziu Jerônimo e Svetomir para fora e disse que iria aguardar no portão a volta do prisioneiro. Vendo-se em liberdade, Jerônimo encheu o peito com o fresco e aromático ar noturno. Após tantos meses passados na escura e fedorenta prisão, sua cabeça começou a girar e ele balançou. Superando energicamente a fraqueza e o sofrimento que lhe causavam as pernas doentes, ele caminhou rapidamente ao lado de Svetomir, agradecendo-lhe o favor prestado. - Era extremamente necessário tirá-lo daquele buraco hoje, senão você não veria Rugena. Vok disse que ela deseja ver todos os amigos pela última vez. - O que você está dizendo? A condessa está tão mal? - Perguntou Jerônimo, estremecendo. - Infelizmente, sim! Hoje pela manhã, o médico disse a Vok que ela não passaria desta noite. O pobre conde está agindo como um demente.

Apesar disso, lembrou de você e pediu-me para traze-lo de qualquer maneira. - Respondeu baixinho Svetomir e, cerrando os punhos, amaldiçoou Brancassis, desejando fazer com o assassino traiçoeiro o que fora feito com Hilário. Jerônimo não sabia da morte de Hilário, e Svetomir, com especial satisfação, começou a contar-lhe todos os detalhes do enforcamento do imprestável monge. Naquele dia, pela manhã, Benelli achara por bem avisar Vok de que a condessa só tinha algumas horas de vida. Mesmo que esse final infeliz já estivesse previsto, a notícia do inevitável fim caíra sobre Vok como um raio e ele não tivera forças para conter sua explosão de infelicidade. Entretanto, essa fraqueza fora passageira: ele imediatamente convencera-se de que era sua obrigação não perturbar os últimos momentos da moribunda; pelo contrário, ele deveria, isso sim, cercá-la de atenção e paz. Então lembrara-se, por acaso, de Jerônimo e pedira a Svetomir que o trouxesse a qualquer preço. Depois, ele sentara-se à cabeceira de Rugena decidido a não deixála nem por um instante até o fim.

Após um profundo e pesado sono, a jovem condessa acordara terrivelmente fraca; a essa fraqueza juntara-se depois uma sensação estranha e pesada, nunca antes sentida. Um frio percorrera suas veias, fazendo-a tremer. Parecera, a Rugena, que algo se rasgava em todo o seu ser; por instantes sentira libertar-se do corpo e, então, uma negra cortina cobrira momentaneamente sua visão. "A morte se aproxima", pensara ela, tristemente. Rugena quisera contar a Vok o que sentia, mas, ao ver o temeroso e desesperado olhar do marido, desistira. Ela fechara os olhos e começara a rezar pedindo a Deus que amenizasse sua iminente e difícil passagem para a outra vida, invocando, com toda a sua alma, seu querido pai e o adorado amigo Huss, para que a recebessem à entrada do insondável e terrível outro mundo... A prece devolvera-lhe a calma, e o resto do dia passara sem maiores problemas. A noite chegou. Rugena, dominada por um temor crescente, começou a agitar-se no leito. Ana e Vok observavam, com desespero, a expressão de sofrimento do rosto quase transparente da paciente e os movimentos bruscos de suas mãos pelo cobertor.

Perto das 23h30, esse estado agravou-se. - Levantem-me... Estou sufocando... - Balbuciou ela, tentando sentar-se. Ana trouxe imediatamente um largo traje de seda noturno e vestiua. Vok tomou Rugena nos braços como a uma criança, colocou-a numa poltrona e cercou-a de almofadas enquanto Litka cobriu-a com cobertor. - Sente-se melhor, querida? - Perguntou Vok, ajoelhando-se diante dela e amparando a esposa, cuja cabeça caía sem forças sobre seu ombro. - Sim... - Respondeu Rugena, fracamente. - Mas onde está Svetomir? Por que ele não veio hoje? Chame-o... Chame também o Broda... Quero me despedir de todos. - Svetomir já vai chegar e pode ser que traga mais alguém que você vai gostar de ver. Vá, querida Ana, e ordene que Broda venha para cá assim que Svetomir chegar com seu acompanhante. Os olhos de Rugena brilharam de alegria e, a todo instante, dirigiam-se para a porta de entrada. Não precisou esperar muito: dez minutos depois, soaram passos no quarto vizinho e entrou Ana, seguida por Jerônimo, Svetomir e Broda.

No quarto de Broda, Jerônimo pôs em ordem o seu traje e o seu rosto pálido e magro aparentava ainda mais sofrimento. Ao entrar no quarto, ele estancou, abismado: nunca teria imaginado a terrível mudança que ocorrera com Rugena e as palavras não lhe saíam. Recobrando-se rapidamente, ele aproximou-se da paciente, ajoelhou-se e, em silêncio, levou aos lábios a sua magra e pálida mão. Rugena também olhava para ele, espantada. - Meu Deus! Como o senhor deve ter sofrido, mestre Jerônimo... - Sussurrou ela. - Mas... o que se há se fazer? Estou muito feliz em vêlo pela última vez. Sentindo suas lágrimas na mão, ela libertou-a delicadamente e carinhosamente passou-a pela cabeça inclinada diante dela. - Não chore, Jerônimo! A infelicidade de Vok e a sua tornam a minha morte ainda mais pesada e afastam a grande felicidade que Deus me enviou de juntar ao meu redor todos os que me são tão caros... A fraqueza não deixou que ela terminasse a frase; ela fechou os olhos. Vok e Jerônimo soltaram um grito ao mesmo tempo.

Ao ouvilos, Rugena, com um esforço da vontade, venceu a fraqueza e endireitou-se. - Isso não foi nada! Uma pequena fraqueza que já passou... - Sussurrou ela, em tom de desculpas. - Aproximem-se... Ana, Svetomir, Broda... Eu quero me despedir de vocês. Amparada por Vok e Jerônimo, ela abraçou seus amigos de infância e agradeceu a Broda por sua imutável e abnegada fidelidade. Depois, beijou Jerônimo na testa e lançou-lhe um longo olhar de amor e despedida. Vok apertou-a convulsivamente contra o peito e, não conseguindo mais se segurar, cobriu-a de beijos e lágrimas amargas. A coragem abandonou Rugena de vez e ela, com surdo pranto, desfaleceu nos braços do marido. O conde estremeceu e ficou ouvindo, temeroso, se ela ainda respirava. De repente, Rugena endireitou-se e levantou-se; seus olhos bem abertos dirigidos para o nada brilhavam de felicidade e emoção. Vok voltou-se, involuntariamente, para onde Rugena olhava e estancou, estupefato. No fundo do quarto, iluminado por um círculo de uma ofuscante e azulada luz estava... Jan Huss.

Ele vestia as mesmas roupas do dia de sua execução, mas em vez de negro, seu traje era alvo e cintilava à sua volta e nas dobras. Seu rosto, rejuvenescido e belíssimo, respirava paz, e seus olhos, profundos e brilhantes, olhavam com infinito carinho para Rugena. A visão, leve como névoa e completamente real, aproximava-se da moribunda, chamando-a ao mesmo tempo com a mão e com o sorriso. - Padre Jan! Você veio me buscar? Estou pronta! - Sussurrou Rugena e moveu-se em sua direção. Naquele instante, a visão desapareceu e o corpo de Rugena caiu pesadamente no chão... Por alguns instantes o quarto ficou num silêncio mortal. Todos viram e reconheceram o amigo que lhes acabara de dar uma brilhante prova de que as amizades terrenas permanecem também no "outro" mundo... Mas, por mais respeitado e caro que lhes fosse o misterioso visitante, sua aparição deixou-os em pânico e aterrorizados. Jerônimo foi o primeiro a se recompor: persignando-se, ele olhou em volta sem saber o que fazer.

Ana estava de joelhos e parecia não ver nada do que se passava ao seu redor; em seus olhos ardia uma estranha e fantástica excitação. Vok caiu na poltrona e desmaiou. Ele desconhecia o medo quando se tratava de pessoas vivas, mas seus nervos não agüentaram a aparição. Quando Jerônimo resolveu ajudá-lo, Svetomir e Broda, refeitos do susto, já estavam levantando o conde. Então, o discípulo de Huss inclinou-se para Rugena. Vendo que ela estava morta, pegou nos braços seu corpo ainda quente e, apertando-o contra o peito, colocou-o cuidadosamente na cama, fechou-lhe os olhos e cobriu-lhe os pés com um cobertor. Inclinado sobre o corpo, com os olhos cheios de lágrimas, Jerônimo ficou admirando por muito tempo o maravilhoso rosto da falecida no qual permanecera a expressão de surpresa e felicidade. Depois, ajoelhou-se e começou a orar fervorosamente. Vok voltou a si rapidamente. No primeiro momento, a vergonha por ter sido acometido por uma fraqueza puramente feminina superou todos os outros sentimentos.

Mas a consciência da perda que acabara de suportar tomou conta dele de imediato e sua terrível tensão nervosa explodiu em pranto convulsivo. Jerônimo parecia calmo externamente. Após conversar um pouco com Svetomir e Broda sobre a estranha visão, ele quis voltar para a cadeia, pois sentia necessidade de ficar só. - O meu caro carcereiro ficará feliz em me ver de volta e eu preciso ficar sozinho para meditar e orar. - Disse ele, com voz cansada. Dispensando a companhia de Svetomir e Broda, pois conhecia o caminho de volta, Jerônimo pediu somente que lhe dessem uma espada. Despediu-se mais uma vez da falecida, abraçou os amigos agradecendo o inestimável favor que lhe haviam prestado e apertou a mão de Ana, que estava parada em silêncio num canto, pálida e com o olhar errante, como se tivesse despertado de um sonho. Em seguida, Jerônimo enrolou-se na capa e saiu com Broda, que o acompanhou até o portão. Uma semana mais tarde, um cortejo fúnebre deixava Constança.

Sobre a carroça puxada por um par de cavalos ia um pesado caixão de carvalho com o corpo de Rugena, cuidadosamente embalsamado pelo doutor Benelli; atrás iam a cavalo Vok, Ana, Broda e Svetomir, que acompanharia os amigos até a primeira parada e depois voltaria para a cidade. Chegando lá, os amigos despediram-se fraternalmente e o séquito seguiu adiante. Pela dificuldade do trajeto, era preciso ir devagar e a viagem transcorria muito lentamente. Aquela dura inatividade e a constante visão do caixão inflamavam a ferida no coração de Vok e agiam deprimentemente sobre a natureza nervosa e agitada do conde. Sombrio e abatido, há dias ele viajava calado. Broda, que o observava, verificou que se tal situação continuasse, Vok sem dúvida adoeceria pelo caminho.

Numa das paradas para pernoitar em uma estalagem, Broda começou a conversar com o conde, tentando convencê-lo a se apressar para chegar a Praga, onde certamente tinham lugar, naquele momento, importantes acontecimentos políticos. - Senhor Vok, sua cabeça e sua espada podem ser necessárias por lá, enquanto por aqui o senhor em nada pode ajudar. - Isso provavelmente é verdade, Broda, mas como posso deixar os restos mortais tão caros para mim sem acompanhá-los até o túmulo? - Observou o conde, tristemente. - A senhora Rugena era um anjo - senão o santo mártir não teria vindo do céu para buscá-la -, e os anjos não dão valor aos costumes terrenos. - Disse Broda, num tom convincente. - De qualquer forma, ela vê o seu coração e a sua solidariedade. A honra de acompanhar seu corpo, o senhor pode deixar sob a minha comprovada fidelidade. Todos os outros argumentos do conde também foram refutados.

Então eles combinaram que, no dia seguinte, Vok seguiria adiante com alguns homens e levaria consigo Ana, se ela assim o quisesse; Broda, com o resto do séquito, ficaria para levar o corpo e a bagagem. Ana, entretanto, não quis viajar com o conde, preferindo acompanhar a falecida. - E melhor eu ficar com Rugena! Não tenho pressa de chegar a Praga, que se esvaziou de tudo o que amei. Se for consigo, conde, eu só iria atrapalhar. - Replicou ela.

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