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Capítulo 30 de 51

Parte 30 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Com a morte da condessa e a viagem do adorado pregador, um ambiente pesado tomou conta da casa dos Valdstein. Toda a família ainda estava sob o terrível choque dos últimos acontecimentos e até os criados, percebendo a sisudez dos senhores, sentiam-se inquietos e deprimidos. O velho conde e seu filho Vok passavam a maior parte do tempo com o rei no castelo de Gebrak, enquanto Rugena e Ana ficavam sozinhas e quase não saíam de casa por luto e por estarem predispostas ao recolhimento. Ana ainda não se recuperara totalmente do ataque que sofrerá. Ela se sentia bem fisicamente - só ocasionalmente era vítima de uma terrível dor de cabeça -, mas em sua aparência e em caráter ocorrera uma profunda e impressionante mudança. Ela emagrecera demais, o bonito rosto alongara-se e seu frescor mudara para pali-dez; os grandes olhos, antes brilhantes e alegres, haviam-se apagado e enchido de tristeza - só de vez em quando se acendiam repentinamente, com uma certa excitação selvagem. A alegria sincera, o bom relacionamento e o humor haviam desaparecido completamente, sendo substituídos por uma rígida e silenciosa sisudez.

Sempre usando trajes pretos, de corte quase monástico, ela passava longas horas em oração, evitava as pessoas e nada a convencia a sair de seu quarto quando havia visitas na casa. Rugena e o marido permaneciam em desentendimento desde aquela infeliz manhã após o atentado de Brancassis. Vok, mortalmente ofendido pela acusação de assassinato, não perdoara a esposa por ela ter suspeitado dele. O "castigo divino" que atingira sua mãe e depois sua terrível morte também o haviam deixado profundamente impressionado. Ele perdera o gosto por aventuras e estava sempre sisudo, calado e irritadiço, procurando briga com Rugena a qualquer pretexto ou insistindo em evitála. Para Vok, o distanciamento da esposa, mantido pela própria teimosia e pelo ego ferido, era muito duro e fazia-o sofrer. Apesar de todas as distrações e aventuras, ele continuava a amar Rugena profundamente e sua beleza continuava a encantá-lo. Ele ficara particularmente indignado por Rugena ter pedido desculpas a seu pai, e a ele não haver dirigido nem ao menos uma palavra de desculpas.

A própria Rugena sabia perfeitamente que estava errada e que a grave acusação absolutamente imerecida deveria ser reparada. Mas ela era por demais teimosa e orgulhosa para pedir perdão. Essa era a situação durante a viagem de Huss. Em sua última conversa com Rugena, quando o assunto fora o desentendimento da moça com o marido, Huss severamente desvendara a disposição de sua alma e até perguntara se o motivo de sua crueldade para com Vok não seria seu amor criminoso por Jerônimo. - Desisti para sempre de qualquer amor terreno para com ele. - Respondera ela. - Mas nunca deixarei de admirá-lo como um sábio, um patriota e um cavalheiro! Vou compartilhar de longe sua vida e rezar por ele. Deus não considerará isso como pecado! Terminando, ela prometera desculpar-se com Vok. Depois disso, duas semanas haviam-se passado. Quando Huss retornou a Praga, movido pela dor de consciência - pois lhe parecia que havia abandonado a cidade obedecendo ao conselho diabólico e temendo pela própria vida -, o casal ainda não havia feito as pazes.

A interdição foi novamente restabelecida com o mesmo rigor, a insatisfação popular aumentou e podia, a qualquer momento, explodir em sangrentas desordens. Certa noite, Rugena passou mais tempo no quarto da amiga. Ambos os condes estavam ausentes e aquela noite na cidade a agitação era maior. Algumas procissões fúnebres passaram pela casa. Na multidão que as acompanhava os palavrões misturavam-se ao pranto e até o encobriam. Grupos de homens armados andavam pelas ruas; parecia haver algo lúgubre no ar. Rugena, sentindo isso, abandonou seu quarto e instalou-se no quarto de Ana, onde o barulho da rua não chegava, pois a janela dava para o quintal. Quando os sinos da abadia bateram uma hora da madrugada, Rugena resolveu voltar aos seus aposentos; não tinha sono, mas se sentia cansada. Passando pelos longos corredores, ela viu o marido subindo a escada que levava para o andar inferior, acompanhado por seu escudeiro, que trazia uma vela. Vok estava pálido e, aparentemente, cansado. Seu rosto estava com a costumeira expressão dos últimos tempos - sombrio e irritado.

Vendo a esposa, o conde parou, surpreso. - Você ainda não está dormindo a esta hora? Por quê? - Perguntou ele, friamente, olhando-a desconfiado. - Estive conversando com Ana e nem percebemos que já era tão tarde. - Respondeu Rugena. - Você quer jantar? - Perguntou ela, depois de um certo silêncio. - Ninguém o esperava hoje e a cnadagem já está dormindo, mas no meu quarto tenho alguns frios preparados que ainda estão intocados. de - Essa longa corrida a cavalo realmente me deu fome e gostaria comer, se isso não lhe incomodar. - Disse Vok, indeciso. - Incomodar por quê? Nem um pouco! Vamos, enquanto Zimo-vit retira a sua armadura, eu acendo o fogo. Eles entraram na pequena sala contígua ao dormitório de Rugena; ali, o escudeiro retirou a armadura do conde e saiu. No dormitório, sobre a mesa estava preparada uma travessa de caça fria, pastéis e leite. Rugena tirou do armário mais uma caneca de vinho e acendeu os candelabros. Vok sentou-se à mesa e primeiro cortou um pedaço de caça para a esposa e depois para si.

Eles comeram em silêncio; havia um certo desconforto entre eles e a conversa não saía. Apesar da fome e da sede, Vok comeu pouco; bebendo uma caneca de vinho, ele colocou a faca na mesa, enxugou as mãos e levantou-se. - Boa-noite e obrigado! Você esteve muito tempo com Ana e não quero atrapalhar seu descanso. - Tive medo de ir dormir no meu quarto; o barulho da rua está interminável hoje... - Respondeu Rugena, baixinho. Vok nada disse e dirigiu-se para a porta. No rosto de Rugena havia uma expressão de luta interior e, no momento em que o conde estava pronto para sair pela porta, ela chamou-o, indecisa. -Vok! Ele parou imediatamente, voltou-se e ficou olhando para a confusa Rugena com um olhar sombrio e pensativo. - O que você quer? - Perguntou o conde, com voz surda. Ela correu para ele e pegou-o pela mão. - Perdoe-me por ofendê-lo injustamente com aquela torpe suspeita. Mas naquele horrível dia minha alma cobria-se de sangue.

A idéia de ser a esposa do homem que ajudara a matar meu pai era tão insuportável que perdi a cabeça. Seu maravilhoso rosto empalidecia e enrubescia e os radiantes olhos, cheios de lágrimas, olhavam para o marido com ar de culpa. A raiva de Vok desapareceu imediatamente. Ele puxou-a impetuosamente para si e deu um apaixonado beijo em seus lábios trêmulos. -Sua nervosinha! E não teve remorsos de segurar por tanto tempo a sua confissão? Será que era tão difícil falar ao marido: "Desculpe por considerá-lo um patife"? Abraçando-a pela cintura, ele levou-a para um banco coberto de almofadas e fê-la sentar-se ao seu lado. -Você quis me castigar pelas peripécias passadas. - Disse ele, ficando de bom humor. - Confesso que, por vezes, fui um marido detestável. Mas, de agora em diante, juro que lhe serei fiel e ficarei em casa como uma marmota na toca.

Rugena não pôde conter o riso. - Isso não vai parecer você mesmo: ser um marido exemplar e, principalmente, ficar como uma marmota na toca! - É claro que não vai ser fácil. O diabo é poderoso e encherá de tentações o nosso caminho. Mas você não entenderia isso porque a sua alma pura é imune às tentações; fechada em sua inquestionável lealdade, você é uma juíza rigorosa e tem todo o direito a isso! As últimas palavras do marido fizeram Rugena estremecer e um rubor de vergonha cobriu seu rosto. Ela lembrou os criminosos beijos que trocara com Jerônimo e que estivera tão próxima da queda, da fuga da casa do marido e da traição de sua obrigação; a dor de consciência moveu-se em sua alma. Essa sua emoção foi tão visível que Vok não pôde deixar de reparar e, estupefato, perguntou: - O que você tem, querida? Rugena livrou-se calmamente de seu abraço.

Agora ela estava pálida como o vestido branco que usava. - Não mereço a sua boa opinião e o seu amor. - Disse ela, decidida. - Não quero mais mentiras entre nós! Pode ser que você me mate, depois do que vou lhe contar, mas não importa, pois minha consciência estará tranqüila. Vok não acreditava nos próprios ouvidos; as últimas palavras de Rugena fizeram-no soltar um grito surdo e seus olhos acenderam-se com a ira comum à sua natureza apaixonada, diante da qual todos tremiam. Rugena imaginava que tinha chegado a sua hora. Entretanto, contra todos os seus prognósticos, não houve tempestade e Vok controlou-se com terrível esforço. Com a mão trêmula, ele enxugou a testa e disse, surdamente: - Você está delirando Rugena, ou estive cego? Como poderia você, cujo olhar reflete a pureza do céu, cometer um crime que mereça a morte? Mas não importa o que você confesse. Fale! Quero saber de tudo e tentarei ser condescendente. Ele sentou-se no banco e tapou o rosto com as mãos. Durante certo tempo o quarto esteve em silêncio.

Finalmente, Rugena começou a sua confissão, falando baixinho e parando constantemente. Ela falou da indignação, do amor-próprio e do orgulho feridos pela infidelidade do marido. Falou sobre a impressão que Jerônimo provocara nela na infância e como depois se tornara seu herói quando, ao encontrá-lo no dia do casamento, transformara seu sonho em realidade. Descreveu, com impiedosa franqueza, sua admiração pelo genial orador, que crescia ante seus olhos à medida que aumentavam as façanhas e o desprezo de Vok para com ela. Contou como ficara furiosa quando o encontrara com a vadia sentada na anca do seu cavalo. Falou sobre a visita inesperada de Jerônimo, que culminara em declarações de amor e plano de fuga impedidos por Huss, que lembrara a ambos os seus deveres. Contou também como, depois disso, Jerônimo desistira de seu amor para com ela e fora embora sem se despedir. Durante o relato da esposa, o rosto ágil do jovem conde refletia todos os seus sentimentos de surpresa e ciúme, raiva e indignação.

Ao ouvir o nome de Jerônimo, Vok teve até um sobressalto e, inclinandose para frente, ouvia, temeroso, cada palavra de Rugena. Quando ela terminou o relato e, sob o peso da culpa, baixou tristemente a cabeça, um sorriso de alegria maliciosa apareceu no rosto de Vok e um suspiro de alívio escapou de seu peito. Com um olhar meio zangado e alegre, ele mediu-a de cima abaixo e, sentando-se ao seu lado, pegou-a pelas mãos com que ela tapava o rosto. - Então você deixou aquele miserável beijá-la e ainda correspondeu aos beijos dele? - Perguntou ele. - Sim... - Respondeu ela, num sussurro. - E jura que além dos beijos nada houve entre vocês? Um forte rubor cobriu o rosto pálido de Rugena. -Vok! O que você está pensando? Eu não abandonei a sua casa! Não sou uma dançarina de rua qualquer para me entregar imediatamente a um homem, mesmo que o ame. - Nesse caso, estou pronto a esquecer tudo isso! E você promete não sonhar mais com fugas? - Eu juro!

Só se você me enxotar de sua casa, como bem o mereço... - Balbuciou Rugena e caiu em prantos. - Não sou idiota para enxotar uma esposa tão maravilhosa que conta os próprios pecados antes mesmo que lhe perguntem. Mas, pare de chorar, senão acaba ficando doente! Já disse que perdôo seus beijos e está dito. Ele lhe deu um copo de leite para beber e começou a acalmá-la; mas Rugena não conseguia controlar seus nervos e as lágrimas continuavam caindo. - Essas mulheres têm um reservatório de lágrimas que mais parece um chafariz... - Disse Vok, balançando a cabeça. - Se você se derreteu assim diante de Jerônimo não é de admirar que ele também tenha se derretido como um pedaço de sabão! Mas saiba, Rugena, que você nada ganharia com a troca. Ele é mulherengo e seduziu mais mulheres do que eu, pois atua na batalha do amor há muito mais tempo. Que ele é muito mais inteligente do que eu - isso é certo. E tem mais sorte, pois até as meninas se apaixonam por ele. Mas, quanto à sua bondade... Fi-u-u!

Nisso posso até apostar. A história dele com você somente prova que ele está envelhecendo e ficando bobo! Se estivesse no lugar dele, nem Deus me convenceria a desistir de tal sorte! Um fraco e envergonhado sorriso apareceu no rosto de Rugena. Então Vok inclinou-se para a esposa e olhou-a bem nos olhos. - Você entregou o seu coração inteiro ao seu homem ideal ou ainda restou pelo menos um pedacinho de afeição, a partir do qual poderíamos acender novamente o fogo do nosso amor que está quase se extinguindo? - Perguntou ele, com triste sorriso. Rugena, agradecida, abraçou-o e colocou sua maravilhosa cabecinha no peito do marido. - Como não amar você, quando demonstra tanta magnanimidade? Prometo fazer de tudo para merecer o seu amor. - Então, graças a Deus! Da minha parte, prometo ser virtuoso, pelo menos o suficiente para não carregar mulheres em cima do meu cavalo. Isso posso prometer! Ele abraçou a esposa e, levantando-a no ar como a uma pluma, beijou-a. - A paz está concluída e firmada! No dia seguinte, Vok foi visitar Jerônimo.

Agora ele entendia por que o amigo deixara de freqüentar sua casa. Chegando à casa de Jerônimo, disseram-lhe que ele havia saído, pois fora convidado para caçar num dos castelos do senhor Vartenberg. Vendo sobre a mesa uma folha de pergaminho em branco, Vok agarrou a pena, sentou-se e começou a desenhar. Desenhou um estreito caminho para o céu, íngreme e cheio de espinhos, que levava ao portão, onde sentava o apóstolo Pedro. Pelo caminho corria um burro de rabo levantado e com a cabeça de Jerônimo. Atrás dele, aparecia um maravilhoso fardo de feno. "O que você veio fazer aqui?", perguntava o apóstolo ao burro. "Todos os dias maridos chifrudos, moças abandonadas e amantes desiludidas vêm queixar-se de você". "Eu me regenerei, e uma vez fui até virtuoso. Entretanto, em vez de asas, recebi orelhas de burro", respondia Jerônimo, numa longa trilha que saía de sua boca. "Bem, não vou me esforçar em abrir os pesados portões do céu para você só por um único caso de virtude. Então, cai fora daqui!

Nesta pele de burro ninguém reconhecerá Jerônimo de Praga e nenhum marido precisará mais tomar cuidado contigo!" Terminando a caricatura, Vok dobrou o pergaminho, escreveu a quem este era destinado e, muito satisfeito consigo mesmo, foi visitar Huss. Encontrou-o sentado triste em sua cela, lendo. O conde quase o sufocou em seus abraços, beijando-o em ambas as faces. - Tem boas novas para mim, Vok? Por que está tão alegre? - Perguntou Huss, sorrindo. - Vim aqui, padre Jan, para agradecer o favor que o senhor me prestou não deixando minha esposa fugir com Jerônimo. Isso, certamente, me obrigaria a cortar a garganta de um amigo. - Mas como? Você sabe de tudo? - Surpreendeu-se Huss. - Sim, Rugena confessou tudo. Eu a perdoei e estamos em paz. - Graças a Deus! Era minha obrigação não deixar que aqueles dois cabeças-duras fizessem o que eles mesmos se arrependeriam mais tarde. Naquele instante Vok percebeu no chão uma mala e dois embrulhos. - O que significa isso, mestre Jan? O senhor pretende deixar-nos novamente? - Infelizmente, sim, meu amigo! Não posso mais ver o povo sofrendo com essa interdição; e o próprio rei deseja que me vá. Amanhã de manhã saio de Praga. - E para onde o senhor vai? - Perguntou Vok, com tristeza.

- Por enquanto, ao castelo de Kozigradek, onde o senhor Usti me ofereceu abrigo. Depois, Deus saberá me indicar o caminho. - Disse Huss, documente. Conversando mais um pouco e conseguindo de Huss a promessa de almoçar com eles e despedir-se antes da viagem, Vok apertou sua mão e foi embora.

Capítulo XI

Duas semanas haviam-se passado desde a partida de Huss. Praga readquirira sua aparência de costume - as igrejas estavam abertas e externamente tudo estava calmo. Nessa calmaria, porém, amadurecia uma tempestade. Rugena, sentada próxima à janela, bordava, enquanto esperava o marido para o almoço. Ela estava entretida no trabalho e trocava frases esporádicas com Ana, sentada à sua frente. De repente, o tropel de

Uma pequena localidade (Kosi Bradec), onde mais tarde surgiu o famoso Tabor - Nota do autor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.