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Capítulo 5 de 51
Parte 5 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
caso engraçado do Nikolai Pukhnik, o meritório canônico das cidades de Praga, Tcherninsk e Olomutsk, pároco das igrejas de São Nicolau e de "lernitsa" da Morávia, sujeito famoso por sua avareza. No rosto de Huss apareceu também um sorriso. - É mesmo! Foi quando o rei, só de brincadeira, permitiu que ele levasse consigo tanto ouro quanto pudesse carregar. Nikolai encheu tanto os bolsos e as botas que não conseguia se mover. É um caso engraçado e triste! - Mas o melhor foi a apoteose, quando o rei Venceslau, não agüentando de tanto rir, mandou que lhe tirassem tudo e o expulsassem. Às vezes, o rei tem grandes idéias e eu, francamente, gosto dele. Apesar de suas fraquezas, ele não é indiferente à Boêmia! Bem, parece que finalmente chegamos. Veja, Huss, aqueles pobres casebres lá à direita.
Trabalho obrigatório e gratuito do camponês para o seu senhor - Nota do tradutor.
Tomek Dejepís mesta Prahy, p. 175- Nota do autor.
Deve ser a aldeia a que você se referiu. E lá, perto da estrada, ao lado da igreja, aquele prédio de pedra deve ser a casa do padre. - É ela mesma! - Respondeu Huss, virando o cavalo para a estrada que conduzia à aldeia. Um alto e forte muro de pedra cercava a casa; os portões estavam escancarados e, no quintal, junto às gamelas com feno, estavam amarrados uns 20 cavalos selados. Havia alguns cães por perto e, sob a cobertura, havia uma carroça carregada com carcaças de dois cervos e um javali. - Parece que um grupo de caça ocupou a casa antes de nós. Veja que as janelas estão iluminadas e, pelo barulho, a festa deve estar no auge. Temos de voltar. - Observou Huss, desapontado. -Nada disso! Onde comem 20, comem mais dois e estou morrendo de fome. Apeie, irmão Jan, e vamos pedir aos caçadores que aceitem a nossa companhia. Eles devem ser os senhores da vizinhança. - Respondeu Jerônimo descendo rapidamente do cavalo.
Huss seguiu o seu exemplo e, após amarrarem os cavalos, dirigiram-se à casa de onde provinha o desordenado ruído de vozes, risos e cantos. No instante em que galgavam os degraus de pedra da entrada, a porta abriu-se de repente. No alpendre apareceu, com uma lâmpada na mão, um monge gordo de rosto vermelho e sebento e olhos piscantes e míopes. Por debaixo da batina escura, levantada e presa na corda que lhe servia de cinto, viam-se pernas grossas, calçando sandálias às quais estavam amarradas grandes esporas. Ele estava visivelmente bêbado e balançava, apoiando-se no batente da porta para não cair. A lâmpada em sua mão balançava para os lados; a batina estava manchada de vinho e brilhava com manchas de gordura. - Então, o Senhor nos envia mais convidados, e um deles é um irmão... - Balbuciou ele enrolando a língua e explodindo num riso bêbado. - Salve, salve! Entrem, meu padre e também o digníssimo senhor. Temos lugar para todos e também algo para comer. Dizendo isso, afastou-se para deixá-los passar.
Huss, com indisfarçável repugnância, seguiu atrás de Jerônimo pela porta que conduzia ao saguão e depois a um grande salão. Lá dentro, pararam, estupefatos. No meio da sala havia uma grande mesa coberta por diversos pratos e vinho. Restos de pastelões, carne de caça e as garrafas e copos vazios jogados no chão testemunhavam ostensivamente que a bebedeira já corria há muito tempo e os rostos vermelhos dos presentes demonstravam o farto consumo. Naquela hora a comilança já havia terminado e, afastados os pratos para um canto da mesa, os presentes jogavam dados em meio a montes de ouro, prata e cobre. O grupo era surpreendente: monges e padres, a julgar pela tonsu-
ra, quando esta revelava o seu cargo clerical, alguns militares e mulheres, entre as quais três monjas, cujos trajes desarrumados e cujas poses indecentes atestavam o grau de sua decadência. O centro da mesa estava ocupado por um homem ainda jovem, de uns 35 anos, mas totalmente calvo; seu rosto obeso e amassado testemunhava sua vida agitada. Em seu colo estava sentada uma cigana de saia multicolorida, braços e pescoço desnudos e cabelos soltos que caíam como crina negra pelos seus ombros. No momento em que Huss e Jerônimo entraram, ela levantou o copo de dados e, rindo alto, jogou os dados sobre a mesa. Com o aparecimento de estranhos o barulho da sala silenciou repentinamente. - Vejam, o Bertoldo nos trouxe reforços: um militar e um irmão - velhacos, assim como nós! - Exclamou o homem sentado no centro da mesa. - Entrem, prezados viajantes! Dietrich von-Stern, dono do lugar e reverendo pároco desta pobre paróquia, convida-vos para partilhar deste humilde jantar. Você, guerreiro, fique à vontade, enquanto você, irmão de batina, sente ali perto do Zdenka, que logo desabará para debaixo da mesa e deixará para você, de herança, a maravilhosa irmã Berta.
Consiste no corte de cabelo, na parte superior e posterior da cabeça, em forma de pequeno círculo; alguns regulares costumavam raspar a cabeça deixando uma espécie de coroa de cabelo. Era distintivo do clero católico - Nota da editora.
Jerônimo permaneceu calado, alisando nervosamente sua barba negra. O rosto pálido de Huss ficou rubro, os olhos chamejaram de ira e, aproximando-se, ele deu um murro na mesa com tal força que a louça tilintou. - Seu patife! Envergonhando o paramento que veste! - Gritou ele, ameaçador. - Não tem vergonha das próprias blasfêmias? Não se envergonha de segurar no colo essa moça e cercar-se desses animais? Recupere a razão, seu renegado de votos sacerdotais! Afogando-se na bebida, como o último dos soldados, e transformando sua casa num cabaré, numa espelunca... Surpreso, boquiaberto e com olhar imbecil, Dietrich von-Stern ouvia aquele severo e inesperado sermão. Mas esse torpor transformouse, de repente, num ataque de ira. - O quê? Como ousa falar assim comigo, seu infeliz fofoqueiro de rua? Vou ensiná-lo a não me ofender na minha própria casa! -Rugiu Dietrich em resposta, tentando levantar e empurrando para longe de si a cigana, que caiu no chão com um grito.
Ele finalmente conseguiu pôr-se de pé com dificuldade e começou a puxar da bainha a faca de caça que trazia na cintura. - Vou cortar-lhe a língua para que se lembre de que não estava passando um sermão a um sapateiro qualquer mas a Dietrich von- Stern! - Prosseguiu ele, com a faca na mão e aproximando-se cambaleante de Huss. Naquele instante, um dos monges bêbados agarrou um copo de barro e arremessou-o contra Huss. Errou o alvo e o copo arrebentou-se em mil pedaços contra o batente da porta a dois dedos da cabeça de Jerônimo. Este então sacou da espada e, num pulo, postou-se à frente de Huss, protegendo-o com o seu corpo; a lâmina brilhante da espada agitou-se diante do rosto distorcido pela raiva de Dietrich, que recuou involuntariamente e desabou pesadamente na cadeira. - Acalme a sua bebedeira, reverendo padre Dietrich, e pense na verdade que lhe foi dita! Uma luta comigo pode terminar mal para os seus digníssimos amigos! - Gritou ele com desprezo. - Vamos, Jan!
Vamos sair rápido deste covil! - Vamos, e limpemos dos nossos pés esta carniça! Um pedaço de pão sob este teto é pior que qualquer veneno! - Respondeu Huss com voz trêmula de emoção. Sem prestar atenção aos gritos e ofensas que desabavam sobre eles, ambos saíram da sala. No saguão, Jerônimo quase tropeçou no padre Bertoldo, caído no chão, em prantos, batendo no próprio peito e repetindo: "Mea culpa! Mea culpa! Pequei contra Ti, meu Deus e Senhor!". Enojados, eles passaram por cima do bêbado, montaram os cavalos e dirigiram-se rapidamente para a saída. Da casa ouvia-se um barulho infernal entremeado de gritos femininos. Por alguns minutos eles andaram em silêncio. - Eis um bom exemplo do que acontece com a Igreja. - Disse Jerônimo, refreando um pouco o cavalo. - Mas, partindo de Dietrich, isso não é de admirar. Três anos atrás, em Praga, presenciei um escândalo que mostrava claramente do que ele é capaz. Você lembra que na época eu morava na casa da minha tia, na "Cidade Baixa"?
Um dia, o mestre lakubek e eu voltávamos à tarde para casa quando, de repente, ouvimos à frente gritos, risos e assobios de uma multidão de pessoas, artesãos, garotos etc. Aumentamos o passo para ver do que se tratava e vimos um homem com tonsura na cabeça - na época ele ainda tinha cabelos - completamente nu, andando em ziguezague pela rua. O povo caçoava dele e jogava-lhe lama e ele respondia com palavrões e cuspia na turba. O patife teria apanhado se não sumisse a tempo no portão de uma casa de onde não mais apareceu. Lakubek, não cabendo em si de raiva, levantou imediatamente informações sobre isso e ficamos sabendo que esse desordeiro chamava-se Dietrich von-Stern, que fora a Praga para conseguir um lugar de canônico, vagando por cabarés e covis e jogando demais. Naquele dia não tivera sorte e, perdendo no jogo até a roupa do corpo, voltava para a "Cidade Alta" onde residia a
sua amante.
Ernest Denis, Huss e a guerra hussita, p. 13 - Nota do autor.
Na ocasião, Lakubek proferiu um discurso trovejante sobre o assunto, mas o arcebispo esfriou o caso e ordenou a Dietrich que saísse da cidade. Apesar disso, ele acabou conseguindo o lugar de canônico do capítulo de Praga. - Você viu um padre bêbado e nu em plena rua. Eu vi um que se negava a realizar os funerais de pobres, porque seus familiares não
tinham como pagar. Não sei qual deles é melhor. - Respondeu Huss, com amargura na voz. - Bem, graças a esse maldito Dietrich estamos novamente na estrada e por toda a noite. Os cavalos precisam de alimento e descanso mais do que nós. -Mas acho que logo encontraremos um abrigo. Lembrei-me de que aqui por perto está o castelo do barão Rabstein, que conheço de Praga. - Tranqüilizou-o Huss. - O barão sempre me recebe com grande amabilidade e até tornei-me amigo da sua pequena filha, Rugena. Sob esse teto seremos recebidos com todas as honras.
Capítulo III
Já estava completamente escuro, quando os viajantes finalmente conseguiram chegar ao castelo Rabstein - uma respeitável fortaleza feudal - e bateram à porta. Ao ouvir os nomes dos visitantes, o velho castelão deixou-os entrar sem delongas, apesar da ausência do dono e da hora. Foram conduzidos ao refeitório e, enquanto os quartos para seu pernoite estavam sendo arrumados, foi servido o jantar. O castelão contou que, dez dias atrás, o barão viajara a Praga, mas adoecera no caminho e fora levado a Pilsen por um bispo, seu conhecido.
Tomek, Dejepís mesta Prahy – Nota do autor. - Pode ser que isso nem seja verdade, mas mesmo assim, a notícia da doença do barão nos deixa muito preocupados. - Encerrou o fiel servo, com lágrimas nos olhos. De repente, a porta se abriu e na sala entrou correndo uma menina seguida por uma senhora de touca branca. A criança era encantadora. Alta, para os seus nove anos, esbelta, graciosa e vaporosa, ela dava a impressão de ser algo etérea. O rostinho fino, agradável e pálido estava iluminado por grandes olhos azuis e escuros, quase negros, que olhavam pensativos por debaixo de espessos e luminosos cílios. A menina trajava um longo vestido branco de lã, que se usava na época, e tinha na cabeça uma touca de veludo azul, por debaixo da qual saíam pequenas mechas de cabelos como uma cascata de ondas douradas. Seus olhos estavam inchados e vermelhos e o rosto pálido refletia a infelicidade que sentia. Escapando dos braços da aia que tentava segurá-la e, sem prestar atenção a Jerônimo, a menina correu para Huss. - Trouxe notícias de meu pai, mestre Jan? Ele está melhor? - Perguntou ela, com preocupação na voz. - Um mascate disse-nos que
ele estava muito doente e que foi levado numa liteira. Huss segurou solidariamente as mãos frias da criança. - Querida Rugena, não estou vindo de Pilsen, mas indo para lá, e nada sei sobre a doença de teu pai. Confie na misericórdia divina e acalme-se. Rugena levantou os encantadores olhos, cheios de lágrimas. - Você acha que Deus não irá permitir que meu pai morra, deixando-me sozinha? E os soluços cortaram suas palavras. - Ela chora sem parar, desde que recebeu a triste notícia. Já nem sei o que fazer! Assim que ouviu o som da trombeta no portão, tive de vesti-la imediatamente e traze-la para cá. É como se qualquer pessoa soubesse o que aconteceu com o amo. - Observou tristemente a aia.
Liteira: Veículo que consiste em uma espécie de cadeira fechada, suspensa por dois varais e carregada por dois homens ou atrelada a dois animais, um à frente e outro atrás. - Nota da editora.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.