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Capítulo 22 de 51

Parte 22 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

de Vok Valdstein. Para Rugena, esse tempo foi particularmente difícil e envenenado por problemas domésticos. Além do marido, que se destacava pelas aventuras, também a sogra começara a persegui-la. A condessa Iana ouvira as palavras de aprovação de Rugena, quando Hilário fora jogado pela janela. Agora, vingava-se da ofensa ao seu confessor, culpando a nora pelas loucuras de Vok e afirmando que ela afastara-o com sua frigidez, com seus caprichos e com suas exigências. Rugena sentia-se muito só e o relacionamento amigável e caloroso com Jerônimo agia como um bálsamo sobre seu coração ferido. Jerônimo, mesmo sendo partidário da Reforma e estando envolvido em sua discussão - que era assunto de todas as reuniões universitárias e políticas -, conseguia passar seu tempo livre com a jovem condessa e a divertia como podia: lia, cantava ou lhe ensinava artes e ciências. Essa atenção despertava em Rugena um profundo reconhecimento e criava entre eles uma perigosa aproximação.

As visitas de Jerônimo custavam à esposa de Vok muitas discussões com a condessa Iana, embora a sogra estivesse longe de suspeitar da fidelidade de Rugena, acusando-a simplesmente de receber Jerônimo para irritá-la. O amor de Jerônimo crescera, principalmente, desde o memorável dia do vôo de Hilário em que ele percebera o olhar apaixonado de Rugena. A idéia de ser amado por aquela encantadora mulher perturbavao e revelava nele um ardente desejo de certificar-se disso, olhando por baixo da máscara com que Rugena ocultava seus sentimentos. Um acontecimento inesperado precipitou a explosão. Vok realizava assiduamente expedições punitivas contra párocos de mosteiros e o clero em geral que havia participado da destruição dos livros de Wyclif, tomando deles resgates, levando tesouros de sacristias e ouro de baús. O sacerdote de uma das grandes e ricas paróquias na periferia de Praga trancara-se em casa, negando-se terminantemente a pagar a quantia exigida. Valdstein, então, tomara a casa de assalto e, ao procurar os tesouros, encontrara uma jovem e

Pelzel, p. 570 - Nota do autor. bonita moça. Apesar dos gritos e protestos do reverendo pastor da igreja, ele levara-a consigo e, em despedida, mandara dar umas boas chicotadas no "maldito padreco" por libertinagem. Por azar, ao retornar trazendo consigo a amante do padre, encontrara Rugena pelo caminho. A moça voltava de uma visita à rainha e pôde ver o marido com a bonita mulher sentada na garupa. O conde, olhando zombeteiro para a esposa, passou por ela com sua presa e foi festejar numa taberna. Rugena voltou para casa fora de si, repassando na mente os mais ousados planos de vingança. Naquele momento ela odiava o marido, imaginando que, pelo acontecido, todos ririam e apontariam para ela. Ela andava pelo quarto tão indignada e absorta em pensamentos que não percebeu nem o pajem anunciando uma visita nem a entrada de Jerônimo. Este, não recebendo resposta ao seu cumprimento, parou olhando-a com espanto. - Meu Deus! O que aconteceu, condessa? Algo terrível? - Perguntou ele, aproximando-se de Rugena. -Aconteceu que odeio Vok e não quero mais vê-lo! - Ela deixou escapar. - O felizardo provoca ciúmes!

Posso somente invejá-lo... - Disse Jerônimo, sorrindo tristemente. - Percebo que alguns pecadinhos do jovem pândego chegaram aos seus ouvidos; mas não deve levar isso ao coração. Ele é fogoso, teimoso e facilmente se distrai, mas será que pode não amá-la? Certamente ele logo aparecerá com ar de culpado... Rugena riu com desprezo. - O senhor está completamente enganado, mestre Jerônimo! Não tenho ciúmes de Vok, porque nunca o amei, e ele não virá pedir perdão, porque também não me ama. Sou vítima de um acordo familiar! Como poderia saber a que pessoa estavam me entregando? Ele via em mim uma rica herdeira que lhe traria de dote dez castelos, 80 aldeias e ouro para cobrir as dívidas de sua família e pagar as suas farras. Não preciso do amor dele, mas tenho o direito de exigir não ser ofendida publicamente! A idéia de estar ligada a ele e não poder cortar esses odiosos grilhões está me enlouquecendo! Ela desabafava com arrebatamento, mas, de repente, seu ardor transformou-se em desespero.

Sentou-se na cadeira e, tapando o rosto com as mãos, rompeu em prantos. Jerônimo nunca a tinha visto chorar e isso despertou nele amor e compaixão. Ele olhava, enfeitiçado, para as grossas lágrimas que corriam pelos finos dedos e caíam como brilhantes sobre o veludo escuro do seu vestido. - O que fiz para merecer essa vergonha? Todos me deixaram e ninguém me ama... - Dizia ela, soluçando. Jerônimo, esquecendo de tudo na vida, ajoelhou-se diante dela e pegou suas mãos. - Ninguém a ama?! Será que nunca percebeu que a amo com toda a alma e que estou pronto a entregar por você até a última gota do meu sangue? Rugena levantou-se, pálida. Será que ouvira bem? Seria possível que ele, o ídolo de toda a Praga, cujos conhecimentos superavam os de professores e cujas palavras encantavam multidões, poderia realmente estar apaixonado por ela? Então percebeu, por seu olhar cheio de sentimentos, que ele dizia a verdade e que o ídolo dos sonhos infantis estava, naquele momento, a seus pés. Se Rugena estivesse mais calma, talvez se assustasse com aquela confissão.

Mas o orgulho ferido e a raiva do marido indignavam todo o seu ser e o sentimento de vitória e embriagante felicidade acabou com qualquer vacilo, qualquer obstáculo. - É verdade que me ama, Jerônimo? - Perguntou ela, inclinando-se para ele. - Sim. Para minha desgraça, é verdade! Desculpe-me, Rugena, por essa louca confissão que suas lágrimas provocaram e não me mande embora... - Murmurou Jerônimo, tentando se levantar. Mas Rugena passou os braços em seu pescoço e, colocando a cabecinha em seu ombro, murmurou, com lábios trêmulos: - Nada tenho a perdoar. Pela primeira vez na vida, sinto a verdadeira felicidade. Eu também o amo há muito tempo, desde o dia em que o vi no castelo Rabstein. Em poucas palavras, ela contou-lhe seus sonhos de menina nos quais ele era o ideal. Embriagado pelo sucesso inesperado, Jerônimo puxou-a para si e encostou seus lábios nos dela. Rugena pousou a cabeça em seu peito; uma sensação ainda desconhecida - uma mistura de beatitude, paz e amargura doentia -encheu sua alma. Nesse momento, nas dobras da cortina do quarto, apareceu o rosto de Ana.

Inicialmente, ela ficou petrificada ao ver aquela cena de traição. Depois, baixando a cortina, não se afastou, querendo proteger a fraqueza de sua amiga de algum olhar indiscreto. Jerônimo recompôsse primeiro. Sentou-se ao lado de Rugena, ainda segurando sua mão. - Querida! - Disse ele, olhando-a com paixão. - Se, algum dia, pudesse imaginar que um velho falcão passageiro, como eu, iria agradar a uma encantadora menina, que já naquele tempo prometia transformar-se numa bela mulher, ter-me-ia tornado caseiro e disputado você com o resto do mundo. Mas agora, depois do que aconteceu, só me resta calçar as sandálias e fugir rapidamente, pois me tornei um criminoso em relação ao meu amigo. Rugena empalideceu. Estava acima de suas forças desistir da felicidade que acabara de conquistar; com isso, subiu-lhe o fel acumulado contra o marido. - Criminoso contra aquele traidor? Ele merece que o enganem. Eu, pelo menos, não me sinto obrigada a permanecer fiel àquele depravado, que sem nenhum pudor anda pelas ruas em companhia de mulheres decaídas. - Disse ela, com desprezo. - Por causa dele, devemos nos separar? Nunca!

Não quero que você me deixe e, se for embora, vamos juntos! Odeio esta casa; fugirei daqui e irei com você até o fim do mundo! - Não me tente, Rugena, pois suas palavras me enlouquecem! A consciência me diz que seria um crime juntar o seu destino ao meu e expô-la a toda sorte de desventuras da minha vida nômade e de eterna luta! Um herege como eu pode até futuramente parar numa fogueira; como posso oferecer à mulher amada um lar seguro e uma existência pacífica? Eu nem poderia morrer como se deve se soubesse que deixaria você numa situação ruim. - Não quero que você morra! Quero que viva e viva só para mim. Se me ama realmente, encontrará um meio de me libertar e levar-me consigo! - Retrucou Rugena, calorosamente. Jerônimo beijou-lhe as mãos, com amor. - A partir deste momento, sou seu escravo! Vou pensar em tudo e encontrarei um meio de salvá-la. Dentro de alguns dias iremos embora. Depois, estando em algum lugar seguro, iniciaremos a separação, pois você deve me pertencer diante de Deus e dos homens!

Agora preciso ir, mas amanhã virei novamente. Nós fomos demasiado imprudentes hoje. Ele inclinou-se, beijou-a novamente e, antes que Rugena pudesse entender o que se passava, já havia saído do quarto. Estava anoitecendo e ele, ao sair, não percebeu Ana parada na escuridão. Não encontrando ninguém pelo caminho, além de dois pajens que acendiam as velas dos candelabros, Jerônimo saiu para a rua e foi para casa. Sua cabeça ardia e o coração batia fortemente. O acontecido significava uma nova reviravolta em sua vida. Talvez o céu, ao enviar-lhe aquela indescritível felicidade, estivesse lhe dando um sinal indicando que eleja trabalhara o suficiente para os outros e estava na hora de pensar em si próprio. Para sua surpresa, ao chegar em casa encontrou Huss sentado à mesa, folheando um manuscrito. - Saudações, Jan!

O que está fazendo aqui? - Perguntou Jerônimo distraidamente, jogando o chapéu e a capa sobre a cadeira. - Bem, estava aguardando-o e lendo o seu tratado em defesa do "De Trinitate" de Wyclif. - Respondeu o padre, olhando-o surpreso. - Vim dizer que recebi uma carta do Jan de Lessenits, de Bolonha, com detalhes muito interessantes sobre o meu processo e as conversações do doutor Nas com o santo trono. - Oh! Isso é interessante... - Respondeu Jerônimo, num tom que revelava que seus pensamentos estavam longe e que ele ouvia somente com os ouvidos. Huss pegou-o pela mão e fê-lo sentar-se. - Bem, sente-se aqui e fale comigo. - Disse ele ao amigo. - Você está com uma aparência estranha, feliz e preocupada ao mesmo tempo. Alguma coisa lhe aconteceu. Você parece que perdeu a cabeça! - Você está certo! Dá mesmo para perder a cabeça... - Respondeu Jerônimo, passando as mãos pelos espessos cabelos. E ao ver o olhar inquisidor do amigo, continuou: - Jan! Se soubesse de onde vim e o que fiz, você me repreenderia muito.

Um sorriso triste passou pela pálida face de Huss. - A consciência já é metade da culpa! - Mas não desta vez. E nesse assunto não estou sozinho! Cometi um crime, perturbando um inocente coração. - Disse Jerônimo, levantando-se de sobressalto e começando a andar nervosamente pelo quarto. - Você é incorrigível. Será que nem os anos, nem a inteligência conseguem pôr um fim às suas aventuras amorosas? - Observou Huss, com desaprovação. - Sei que as mulheres o mimam, então pelo menos deixe as moças em paz. Pense só, que tipo de marido você seria: um nômade sem lar, como um "judeu errante", nunca encontrando sossego em lugar algum. - Mas agora é diferente, Jan. Chegou a hora de parar e deixar essa vida. Você está certo: eu me apaixonei muitas vezes, mas sempre superficialmente. Agora, entretanto, meu coração foi entregue definitivamente. A mulher, linda como um anjo e pura como o lírio, me ama. Entenda, Jan, ela me ama abnegadamente e... sou seu escravo. Um horror mortal refletiu-se no rosto de Huss e ele olhou severamente nos olhos do amigo. - Já entendi!

Essa mulher, linda como um arcanjo, é a esposa de Vok Valdstein, e sua pureza de lírio deve estar lhe incomodando tanto a vista que você quer manchá-la com a lama da vergonha. Foi a vez de Jerônimo ficar pálido. - Você adivinhou: é Rugena! Eu aceito que você, tendo vencido a carne e sobre quem as paixões não têm efeito, me critique como sacerdote e como amigo; mas existem situações que abrandam nossa culpa. Vok trai a esposa da forma mais imperdoável e o orgulho feminino dela é diariamente ferido. Então, não é de surpreender que ela tenha sede de amor e participação e anseie cortar os grilhões que a sufocam. Estou pecando, mas sou homem e não consigo lutar contra a tentação quando uma mulher como Rugena me diz: "Eu o amo e sempre amarei. Leve-me daqui e o acompanharei até o fim do mundo". O desejo dela para mim é uma ordem e eu irei embora com ela. Quero ser feliz e fazê-la feliz! A paixão e a irredutível decisão sentiam-se em suas palavras, em seus gestos e no brilho de seu olhar.

O rosto de Huss explodiu e ele levantou-se. - Você pretende raptar Rugena? Seu louco! Já não lhe basta atrapalhar a sua inocente alma com um amor proibido e você ainda quer rebaixá-la, transformando-a em refém e arrastando consigo aquele ser delicado, acostumado a mimo e luxo, para as vicissitudes da sua vida nômade? - Calma, Jan, não me ofenda sem motivo. Quero levar Rugena comigo e escondê-la, mas somente até o divórcio e para que ela possa estar ao meu lado diante do altar. - Você quer que ela se divorcie? E para qual dos papas você pretende apelar para o divórcio? - Sorriu Huss, zombeteiro. - Vai ver o

Gregório XII, em Rimini? Mas você negou abertamente obediência a

ele, e isso não vai ajudá-lo. João XXIII, em Roma, também não gos-

ta de você, por tê-lo chamado de Anticristo. O Bonifácio está longe demais daqui e o seu poder é reconhecido somente em Aragão. Se

Rimini: cidade onde morava Gregório XII, o papa da dissidência italiana, que não reconhecera a decisão do concilio de Pisa - Nota da editora.

Papa substituto de Alexandre V, eleito pelo concilio de Pisa de 1409 - Nota da editora.

Bonifácio, o terceiro papa da dissidência francesa, deAvignon, também não reconhecera as decisões do concilio de Pisa, refugiando-se em Aragão, na Espanha - Nota da editora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.