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Capítulo 25 de 51

Parte 25 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Matias acompanhava com crescente desconfiança e preocupação as freqüentes visitas de Brancassis e a amabilidade com que a jovem condessa o recebia. O velho não esquecera do papel suspeito e talvez criminoso desempenhado pelo italiano na morte do barão Svetomir, que na opinião do fiel servo fora assassinado. A idéia de que Brancassis podia ser perigoso para Rugena perseguia-o insistentemente e ele resolveu compartilhar sua preocupação com Broda, de quem se tornara muito amigo. Mas mesmo a ele não contou toda a verdade; simplesmente observou que lhe repugnava ver as longas conversas da jovem condessa com o cardeal italiano, pois o considerava um patife e um devasso - e como prova disso contou que o vira em Pilsen com uma mulher disfarçada de seu pajem. - Aposto que o pajem Túlio, que o acompanha agora, também é alguma Túlia. Essa observação não foi em vão. Broda passou a reparar e depois seguir o pajem que aparecia freqüentemente na casa, acompanhando o próprio cardeal ou cumprindo alguma ordem dele.

Ele logo percebeu que, em primeiro lugar, Túlio era com certeza uma mulher e, em segundo lugar, que essa mulher odiava Brancassis; o olhar do pajem era sombrio e em seu amargo sorriso aparecia um terrível sofrimento. Broda então suspeitou de que ela era uma vítima do cardeal; decidido a descobrir esse segredo, passou a seguir o pajem com maior atenção, vigiando-o nas suas saídas da casa do arcebispo. Qual não foi seu espanto ao ver, certa vez, o pajem - envolto numa capa com capuz - esgueirar-se até a capela de Belém para ouvir o sermão de Huss com notória humildade e lágrimas nos olhos. Broda seguiu-o e viu quando, num beco escuro, ele tirou a capa e foi diretamente ao palácio do arcebispo. Perto do mercado, Broda alcançou o pajem, cumprimentou-o e convidou-o a entrar com ele na taberna para tomar uma caneca de vinho. Túlio olhou-o com desconfiança. - Obrigado. - Respondeu, friamente. - Mas acho que o senhor não gosta do meu amo e... como fiel servo, não acho decente beber contigo. - Muito bem dito, jovem.

Mas se você não acha necessário ser sempre inimigo de todos os que não gostam do cardeal, então aceite meu convite. Pode ser que nossa conversa lhe agrade. O pajem olhou fixamente para os olhos sinceros de Broda. - Esta bem. Uma taça de vinho não compromete ninguém. - Respondeu ele. - Vamos lá, signore! Broda levou seu jovem acompanhante a uma taberna conhecida e soprou no ouvido do dono para que lhe abrisse uma sala separada e servisse vinho, frutas e pastéis de mel. Quando o taberneiro saiu, fechando a porta atrás de si, Túlio desandou a rir. - Pastéis de mel? - Observou ele, sorrindo maliciosamente. -O senhor parece que está convidando a sua amada. - Em todo caso, uma bonita mulher, querida Túlia! - Respondeu Broda, colocando sua mão sobre o ombro do pajem. Este empalideceu e recuou. - É mentira! - Gritou ele, com voz estranha e sacando um punhal. - Deixe esse brinquedo de lado, querida! Ele de nada vale diante da minha espada. Além disso, juro que não tenho nenhuma má intenção para com você.

Eu só queria dizer, minha senhora, que conheço há muito tempo o costume de Brancassis de trazer consigo mulheres disfarçadas. Percebi, entretanto, que a senhora não gosta muito do prezado Tomasso; e se uma mulher jovem e bonita como você sujeita-se a fazer esse papel ridículo para um homem que detesta, isso só pode significar que é obrigada a fazer tal coisa e, portanto, merece compaixão e ajuda de qualquer homem honesto. Essa ajuda, se você a quiser, eu lhe ofereço sem tentar desvendar seus segredos. Se não a quiser, juro por esta espada - e ele levantou o cabo cruciforme da espada - esquecer esta nossa conversa e deixá-la seguir o seu caminho. Túlio ou Túlia ouvia-o, com olhar perdido, respirando com dificuldade e, de repente, deixou-se cair na cadeira. - É verdade! Sou mulher... - Sussurrou ela, com desânimo na voz. - Suporto esta vergonha e não posso defender-me, pois esta vergonha é obrigatória para salvar aqueles que me eram caros. É uma longa história, mas, acredite-me signore: não sou vadia! - Se eu pensasse assim, nem falaria com você.

Então, é uma pobre vítima do amor sujo daquele monge porco! Túlia endireitou-se e seus olhos brilharam com um ódio selvagem. - Amor? Como poderia ele amar mesmo com amor impuro? - Gritou ela. - Não, esse patife só conhece a vulgar paixão animal. Oh! Não tenho palavras para expressar o asco que sinto por ele! - E ela apertou ambas as mãos contra o peito. - Se não fugi dele até hoje e se não procurei a salvação na morte, foi porque antes quero vingar-me dele. Vigio cada passo seu e já destruí alguns de seus planos e ele nem suspeita de onde veio o golpe; só estou aguardando uma oportunidade para acabar com ele definitivamente, enquanto ele não me levar para onde levou as que me precederam. Ela tremia como em febre e Broda tentava de todas as maneiras acalmá-la. Eles tornaram-se amigos e Túlia informou-lhe de que alguma coisa estava sendo confabulada contra os Valdstein, prometendo avisá-lo assim que soubesse de algo mais concreto. Eles saíram da taberna cada um por uma porta diferente.

Brancassis realmente pensava em liquidar Vok, o mais corajoso e ousado sacrílego; ele deveria pagar caro por ousar organizar a procissão bufa, assaltar mosteiros e tripudiar o clero. O cardeal tinha em Hilário e em Bonaventura dois fidelíssimos comparsas. Este último alimentava um particular ódio pelo jovem conde, após um fato que ocorrera com ele e cujo mentor ele acreditava ter sido Vok. Certa vez, ao voltar da "Cidade Nova" para o palácio do arcebispo, o padre Bonaventura fora capturado por um bando de desconhecidos que o haviam arrastado para o quintal de uma casa, aplicando-lhe, sem dó, um corretivo. Depois, os malfeitores haviam fugido levando consigo sua batina e os calçados, obrigando-o a voltar para casa só de camiso-la. Mas, antes de ser atacado, o monge ouvira uma voz que gritara: "É ele!" - e essa voz parecera-lhe ser do jovem conde Valdstein. A paixão de Brancassis aumentava a cada dia, em decorrência da própria impossibilidade de satisfazê-la.

Por vezes, ele mal tinha forças para ocultá-la e, com a insolente ousadia que lhe incutiam a longa impunidade e a devassidão moral daquele tempo, ele resolveu apressar o desfecho. Certa vez, após o meio-dia, Brancassis apareceu na casa dos Valdstein antes do horário normal e, dirigindo-se diretamente para Rugena, declarou que, em virtude de sua partida que se aproximava, trouxera-lhe uma lembrança. Então ele retirou, de um pequeno estojo, um medalhão em forma de coração, enfeitado de rubis e brilhantes. - Trouxeram-me isto de Roma, há alguns dias. Ele contém em seu interior uma pequena parte da Cruz do Cristo e a unha de uma santa mártir cujos restos foram descobertos recentemente nas catacumbas. Pareceu-me que não poderia agir melhor do que entregando estes sagrados objetos em suas inocentes mãos.

Sentida com a atenção do cardeal, Rugena agradeceu de coração. - Que isto lhe traga sorte! - Concluiu ele, parecendo compadecerse. - Parece-me, minha filha, que você é infeliz, mesmo que nunca confiasse a mim o que se passa em seu coração. - Eu não ousaria abusar do senhor, reverendíssimo. - Respondeu ela, confusa. - Mas devia, minha filha! Creia-me: tenho um sentimento pater-nal por você e motivos para saber o que se passa em sua alma. Contudo, preferiria conversar com você no oratório. Rugena olhou-o com surpresa, mas lhe pareceu impossível recusar um pedido tão simples a um prelado e ainda de tão alto posto, como Brancassis e, além do mais, ela estava curiosa. Então, levantou-se imediatamente e conduziu o cardeal ao oratório onde lhe indicou a poltrona e ajoelhou-se ao seu lado no facistol. - Não, minha filha, não pretendo tomar a sua confissão. Você já tem um confessor de sua consciência e não quero tirar-lhe o direito. Gostaria que você simplesmente me contasse, como amigo e sacerdote, se ama e respeita o seu marido e se é feliz com ele.

O tom e o olhar de Brancassis eram tão severos que Rugena murmurou, envergonhada: - Eu tento por dever amar Vok... Mas ele me traiu e ofendeu inúmeras vezes, nossas características não combinam e eu, às vezes, sinto-me muito infeliz. - Você nunca sentiu vontade de livrar-se desses grilhões?... - Ele parou, percebendo que Rugena ficara bem corada. - Seu rosto já meu deu uma clara resposta e mostra como devo agir para me livrar da dor de consciência. Pois eu, involuntariamente, provoquei essa desgraça. - Não estou entendendo. - Já explico. Mas você conseguiria ficar calada até o momento certo? - É claro, se for necessário... - Respondeu ela, com preocupação na voz. Brancassis levantou-se e olhou atrás da porta do quarto vizinho.

Certificando-se de que lá não havia ninguém, ele voltou ao seu lugar e inclinou-se para Rugena. - Prometo-lhe que receberá a possibilidade de procurar a felicidade com um outro que mereça o seu amor e que a Igreja desamarrará os laços que a mantêm unida a um homem que você nem tem obrigação de amar, pois ele conquistou-a de forma criminosa. - O que o senhor está dizendo? Que crime? - Exclamou Rugena, surdamente. - O assassinato de seu pai! Percebendo que Rugena cambaleava e estava quase desmaiando, ele tirou do bolso um frasco e deu-lhe para cheirar. - Tenha forças, minha filha, para ouvir o que vou lhe revelar. Rugena apertou a cabeça com as mãos. Parecia-lhe que caía num abismo; mas queria saber toda a verdade de qualquer jeito e, com desesperada força de vontade, venceu a própria fraqueza. - Pode falar, estou ouvindo! - Você provavelmente se lembra de Eulália, uma criada italiana da condessa que casou em Bolonha no mesmo ano que você... -Sim. - Essa mulher morreu algumas semanas antes de minha viagem para cá.

Antes de morrer, na confissão, ela transmitiu-me todos os detalhes dessa maldade, deixando-me usar esse conhecimento como bem entendesse. Eis o que eu soube: no ano em que morreu seu pai, o conde Vok fez 16 anos e Eulália era sua amante. Os Valdstein na época estavam quase arruinados em virtude das gastanças do velho conde e o único meio de sair da grave situação era tomar a enorme fortuna do barão Svetomir, fazendo você casar com Vok. Então, começaram as conversações e seu pai consentiu no projeto, pois gostava do primo e eles só divergiam nas opiniões políticas. Eu, pessoalmente, conversei com ele sobre isso quando estive em Rabstein e viajamos juntos a Praga, onde o barão deveria acertar essa questão com o conde. Seu marido, mesmo sendo muito jovem na época, conhecia o valor do dinheiro e não queria esperar longos anos para utilizar a sua enorme fortuna - ou talvez tenha sido instruído pelo pai. Enfim, eis o que eles planejaram.

Eulália, apaixonada como uma gata por Vok, tagareloulhe um dia que sua mãe havia-lhe ensinado o segredo de um veneno que matava sem deixar vestígios - não imediatamente mas depois de um certo tempo, dependendo da dose. Fazendo-a jurar silêncio, Vok ordenou-lhe que preparasse o veneno e separasse uma dose suficiente para que tivesse efeito somente após algumas horas e que não matasse antes de dois dias. Numa estalagem de Pilsen, onde se hospedou seu pai, esse veneno foi colocado em sua bebida por uma criada comprada por não sei quem. O crime aconteceu e o barão foi trazido moribundo para a casa do seu primo. Sem nada desconfiar, e comovido pelo tratamento que lhe estavam dispensando, ele ditou o testamento que você conhece. Rugena emudeceu. Teve dificuldade de respirar, a cabeça girava e o coração doía no peito.

Seu adorado pai fora traiçoeiramente assassinado e o criminoso era o seu marido. - Recomponha-se, minha filha. - Disse Brancassis, preocupado com sua aparência. - Entendo o seu horror de estar ligada a tal homem, mas, repito novamente: prometo libertá-la dele! - Agradeço-lhe, meu padre, por me ter aberto os olhos... - Sussurrou Rugena, surdamente. - Temo que você não terá forças para ocultar a verdade. Isso, entretanto, é necessário até eu enviar-lhe da Itália os documentos que confirmem o depoimento de Eulália, que possuo, com testemunhas. Rugena jogou com as mãos os cabelos para trás e endireitou-se; ela estava terrivelmente pálida, mas seus olhos brilhavam, sombrios. - Sim, vou guardar silêncio e esconder tudo, pois quero que o culpado seja acusado pelo assassinato e castigado com todos os rigores da lei. - Disse ela, baixinho. - E isso é justo. O sangue de seu pai clama por vingança do túmulo prematuro.

O desespero e a infelicidade que atormentavam a alma de Rugena foram suficientes para que não rejeitasse com repugnância aquele servidor da Igreja de Cristo que pregava o ódio e a vingança em vez da misericórdia. Naquele momento, ela havia perdido qualquer capacidade de raciocínio e discernimento. - Meu pai será vingado; e terei tempo de me recuperar, pois Vok só volta depois de amanhã. Aparentando calma, ela foi à sala onde geralmente se reunia a família. Lá fora chovia a cântaros e ela fez o cardeal ficar para jantar. Brancassis apresentava um ótimo humor; mas o olhar atento de Ana percebeu que os olhos da amiga brilhavam febrilmente e que seus pensamentos estavam longe. À sua pergunta, Rugena respondeu que estava com dor de cabeça, e Ana saiu da sala para lhe buscar um remédio. Durante sua ausência, Brancassis, disfarçada-mente, colocou na taça da jovem condessa o conteúdo de um minúsculo frasco que trazia escondido na mão.

Depois do jantar, o cardeal despediu-se imediatamente e foi embora, enquanto Rugena, alegando dor de cabeça, disse que estava indo dormir; na verdade ela sentia uma necessidade premente de ficar sozinha. Despiu-se rapidamente e mandou dispensar a todos, inclusive Ana, e começou a andar febrilmente pelo quarto de um canto a outro. Ela pensava no pai... Lembrava-se dele bonito e saudável, do jeito como era quando deixara o castelo. De repente, uma raiva insana apoderou-se dela. Por causa daquele malfeitor que ousara dar-lhe a mão assassina, ela fora obrigada a desistir de Jerônimo, suportando uma terrível luta moral interior somente para esquecer o homem amado e cumprir honestamente aquilo que considerava seu dever! Naquele momento, ela sentiu uma tontura e um mal-estar. "Estou nervosa demais! Preciso deitar logo na cama!", pensou Rugena. Com enorme dificuldade, pois suas pernas quase não a obedeciam, ela se arrastou até a cama e, ao deitar, adormeceu profundamente. Os condes retornaram inesperadamente na mesma noite para casa.

Ao saber que a esposa estava doente, Vok não quis perturbá-la e foi para o seu dormitório onde lhe serviram o jantar, após o qual ele também se apressou em ir dormir, sentindo-se cansado. Já era quase meia-noite e, na casa dos Valdstein, todos dormiam. Somente Broda mantinha-se acordado e, como de costume, estava imerso na leitura da sagrada escritura. De repente, uma pedrinha bateu na sua janela, depois outra e mais outra. Broda sobressaltou-se. Era o sinal noturno combinado entre ele e Túlia, para o caso de ela precisar comunicar-lhe algo importante e inadiável. Correu para a porta de entrada, cuja chave guardava consigo, e deixou entrar o pálido e ofegante pajem. - Sua jovem senhora está correndo algum perigo! - Disse Túlia, apressadamente. - Hoje à noite, ao voltar daqui, Tomasso ordenou que Bonaventura viesse imediatamente para cá, trazendo consigo padre Hilário, ficasse aqui a noite toda e fosse, à meia-noite, abrir-lhe a porta lateral. Você entende que o canalha pretende invadir a vossa casa com más intenções, ainda mais na ausência do jovem conde?

Não consegui ouvir tudo, mas eles falavam algo sobre um remédio soporífero, para que ninguém pudesse atrapalhá-los. - O conde Vok voltou para casa sem ser esperado. - Melhor ainda! Talvez Bonaventura consiga avisar o cardeal, pois eleja deve estar aqui; consegui adiantar-me a ele em somente alguns minutos. - Aguarde aqui que vou olhar o que está acontecendo por lá.

Capítulo VI

Sacando o punhal, Broda saiu correndo em direção ao quarto de Vok. O jovem conde dormia profundamente. Ainda mais apreensivo ao perceber que Rugena estava sozinha em seus aposentos, o mes-trede-armas tentou acordar o adormecido para avisá-lo de que na casa havia uma visita inesperada, mas suas tentativas foram vãs: o conde não se movia! Não fosse sua respiração, poderia ser considerado morto. Broda, preocupado, parou para pensar como agir quando, de repente, ouviu-se um som vindo do quarto vizinho, como se alguém tropeçasse num móvel. Ele correu imediatamente para o fundo do quarto e escondeu-se nas dobras da cortina da cama. Quase naquele instante uma pequena e insidiosa figura apareceu na porta e, como uma sombra, aproximou-se da cama - era Bonaventura. Os minúsculos olhinhos, inteligentes e maliciosos, examinavam, receosos, todo o quarto, e o magro rosto de raposa do monge respirava uma raiva diabólica. Inclinando-se sobre o adormecido, ele ouviu atentamente sua respiração, depois levantou um dos braços do conde e deixou-o cair inerte no cobertor. Então, agarrou uma almofada de seda da poltrona ao lado da cama e colocou-a sobre o rosto de Vok, que gemeu fracamente. Naquele instante, Broda agarrou o monge pelo pescoço, dobrou-o para trás e enfiou-lhe o punhal na garganta. Bonaventura desabou nos

degraus do baldaquim sem soltar um grito e segurando a almofada na mão. Sem olhar para ele, Broda retirou a arma do ferimento e, sem vacilar, correu para os aposentos de Rugena. Dissemos anteriormente que Ana notara a excitação anormal de Rugena e ficara observando-a, preocupada. A rispidez estranha com que a condessa a mandara dormir inicialmente a ofendera. Ana fora, então, para seu quarto e começara a despir-se. Mas o amor à amiga e a preocupação haviam prevalecido e ela, agasalhando-se num largo traje noturno, insinuara-se silenciosamente até o quarto de Rugena. Pelo vão da cortina, Ana vira a amiga andando nervosamente pelo quarto, depois a vira arrastar-se lentamente até a cama e deitar-se, desfalecida. Após aguardar por mais um quarto de hora, Ana entrara silenciosamente e aproximara-se dela; a condessa dormia, respirando com dificuldade, e seu rosto ardia, mesmo estando mortalmente pálido. - Meu Deus! Tomara que ela não tenha adoecido de novo! - Murmurara Ana, apalpando, assustada, a úmida e fria mão da amiga, desfalecida sobre o cobertor. x "Seria bom chamar um médico, mas onde achá-lo a esta hora?", pensara ela.

Decidira, então, passar a noite à cabeceira da amiga para, no caso de aparecerem novos sintomas preocupantes, acordar Matias para que ele fosse buscar o doutor. Ana ajeitara-se na poltrona junto à cama e, apoiando a cabeça no braço, começara a pensar no passado, no futuro e em Svetomir -que havia dois anos que não dava notícias. O campanário vizinho batera meia-noite e isso fizera Ana sair do devaneio. "Já está tarde", pensara ela. "Mas não importa; fico mais um pouco e depois chamo litka para me substituir". Menos de um quarto de hora depois, Ana cochilara. Inesperadamente, um leve ruído fizera-a abrir os olhos. Surpresa, ela aguçara o ouvido e ouvira claramente, pela segunda vez, o ranger

Espécie de dossel, sustidopor colunas e com cortinados pendentes, usado para adornar andares, leitos e tronos - Nota da editora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.