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Capítulo 11 de 51

Parte 11 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

não chegou a hora de dar um basta à humilhação do nosso povo? Sim, meus irmãos e amigos, sinto que se aproxima a hora da luta decisiva e cada um de nós deve estar pronto para uma guerra sem compaixão, pois a paz entre os alemães e nós é a nossa morte! Um inimigo secular é um inimigo terrível; ele usará de todos os meios para nos exterminar. Nem a consciência, nem a honra, nem o humanitarismo irão detêlo; violência, traição, vileza e mentira - tudo é permitido usar contra os tchecos. Mas eles se esquecem de uma coisa - que somos aqueles mesmos tchecos que geraram heróis como o corajoso Zaboi e o ousado Benikh Hermanovitch. No dia em que o país despertar, ele esmagará com seu calcanhar a cobra alemã! E para esse momento, meus irmãos, vamos preparar soldados e comandantes. Que cada um trabalhe na medida de suas forças, ajudando aqueles que vacilam e estimulando aqueles que lutam pela nossa língua, pelas nossas tradições e pelos nossos costumes! Conquistemos o lugar que nos é devido!

O objetivo vale a pena: a Boêmia para os tchecos, a vida feliz e livre dos tempos antigos, sob a guarda das leis tradicionais e a expulsão dos estrangeiros! Broda inspirara-se; seus olhos brilhavam com coragem e inspiração e sua poderosa mão apertava nervosamente o cabo da arma em sua cintura. Sob a luz avermelhada da fogueira e das tochas, sua imponente e poderosa figura, de rosto característico, transpirando inteligência e força, parecia a encarnação viva daqueles heróis legendários cujos nomes ele fizera relembrar na memória dos ouvintes. Ele também parecia a personificação do paciente e heróico povo tcheco, que 12 séculos de luta sem tréguas não haviam conseguido quebrar, e que até hoje permanece como valoroso e fiel sentinela, à guarda da raça eslava. Não se sabe se os ouvintes de Broda sentiram instintivamente um forte ímpeto de amor à pátria e fé no futuro que provinha daquele futuro soldado do exército de Zizka, mas de todas as bocas, inclusive de mulheres, saiu em uníssono o grito: - Viva a Boêmia! Morte aos alemães!

Então, o velho sacerdote levantou-se. - Nada acontece, meus irmãos, sem a vontade de Deus! Roguemos ao Pai Celestial não a morte dos pecadores, mas a sua expulsão, lembrando as palavras do Senhor: "A Minha vingança Eu próprio darei". Ajoelhando-se, ele iniciou uma prece, que todos os presentes repetiram em coro: - Pai Celestial! Ouça o seu povo tcheco! Atenda-nos e envie-nos

dias felizes! Depois da prece, e combinando a reunião para a próxima primavera, conversaram por mais algum tempo e, jurando um ao outro lutar incansavelmente com o inimigo, começaram a dispersar-se aos poucos. Tudo isso causou uma indelével e esmagadora impressão na natureza impressionável de Vok. Na viagem de volta, ele ficou por muito tempo pensativo ao lado de Broda e, de repente, tomou-o pelo braço e, inclinando-se, da sela, até ele, sussurrou apaixonadamente: - Broda, também vou trabalhar pela libertação da pátria e pela defesa da palavra de Cristo. - Acredito, senhor conde, e aceito a promessa! Se todas as pessoas nobres e ricas se juntarem a nós, venceremos... Mas, lembre-se: tudo o que você viu e ouviu deve permanecer em segredo absoluto. E depois, de manhã, teremos de caçar para não voltar para casa de mãos vazias e levantar suspeitas. - Respondeu Broda, sorrindo. E o corajoso caçador cumpriu a palavra. À tarde, ao voltar para o castelo, eles traziam no lombo dos cavalos a cabeça e os pernis de um grande javali. Rugena aos poucos foi se acostumando ao novo ambiente.

O conde e a esposa esforçavam-se para agradar à garota, mimavam-na e submetiam-se a todos os seus caprichos. Com o seu alegre e bondoso tutor, Rugena entrou rapidamente em acordo; mas a condessa, apesar de todo o seu carinho, permanecia-lhe antipática e nada conseguia vencer a aversão que a menina sentia por ela. Vok também se relacionava amigavelmente e com cortesia com a sua pequena noiva, e até se orgulhava de sua crescente beleza, mas a

49 Ernest Denis, p. 60 grande diferença de idade impedia que tivessem um bom relacionamento. Além disso, o caráter vivo e empreendedor do rapaz afastava-o da casa paterna, da vida enfadonha e repetitiva, mantendo-o por semanas e até meses longe deles. O melhor amigo e inseparável companheiro de Rugena era Svetomir. Sua vida mudara muito a partir da chegada da pequena benfeitora, cuja proteção estava sendo ainda mais substancial e influente do que a do jovem conde. Com sua inteligência fina e observadora, Rugena entendera imediatamente que estava sendo protegida e cuidada. Além disso, o conde era mais bondoso que a esposa, e ela lhe pedira que deixasse Svetomir sentar-se sempre à mesa com ela durante as refeições; quando seu amiguinho não estava no lugar, ela não comia nada. Com a mesma teimosia, conseguira que ele aparecesse para brincar com ela, assim que as aulas haviam terminado.

E mais: na primeira vez em que o padre Hilário ousara surrar o garoto com vara de marmelo, Rugena desandara a chorar e ficara em tal estado de choque que a condessa, assustada, pedira ao seu confessor que fosse mais cuidadoso em relação ao seu pupilo, que reduzisse o rigor e não provocasse conflitos com a sua futura nora por bobagens como a educação daquele "imbecil" Svetomir. Assim, a vida no castelo Valdstein corria relativamente em paz. Lá fora, entretanto, desencadeavam-se acontecimentos políticos de extrema importância, cobrindo a Boêmia de sangue e horrores da guerra interna. Alguns meses depois da chegada de Rugena, o conde-pai viajou para a corte do rei, que aguardava a chegada do seu irmão Sigismundo, rei da Hungria. Sigismundo era um homem falso, sem honra, que por toda a vida cobiçara a herança de Venceslau, e, quando podia, abusava de sua confiança. Dessa vez, esperava aproveitar aquele encontro para assinar um acordo secreto contra o próprio irmão com a união dos senhores e

duques austríacos. Conseguindo obter o assentimento de Venceslau

'' Palacky, "G v. B. ", parte III, p. 158 - Nota do autor. em nomeá-lo tutor do reino, ele, na primeira oportunidade, prendeu o rei em seu próprio palácio. Os dois anos seguintes foram tempos agitados e de guerra sem fim. Sigismundo pressionava o país com impostos e inundou-o com bandos de hostis magiares, cujas invasões dilapidavam a Boêmia com saques e incêndios, como se fosse terra conquistada. Tal comportamento de Sigismundo indignou o povo e trouxe a favor de Venceslau grande número de senhores. Mas a ocupação do monte Kutná, do qual foi tomado um impiedoso resgate e de onde o rei da Hungria roubou os tesouros de Venceslau, desencadeou ainda

mais a indignação geral. Em todos esses acontecimentos o conde Valdstein tomou parte ativa, e na maioria das ações militares ele estava acompanhado pelo filho, que se destacava pela coragem em combate; a natureza quente e arisca de Vok parecia criada para aquele tipo de vida. Seu castelo foi abastecido por forte guarnição e gêneros alimentícios e a guarda foi entregue a Broda, cuja experiência e cuja fidelidade estavam acima de qualquer suspeita. Às vezes o próprio conde voltava por uns dias para casa para ver os seus, verificar a guarda e dar as ordens correspondentes. Numa dessas vindas, ele trouxe consigo uma menina, uns dois anos mais velha que Rugena, deixando-a perto da futura nora para lhe servir de amiga. A menina chamava-se Ana e era irmã de um jovem nobre tcheco, Jan Zizka de Trotsnov, que combatera no partido do rei e era inimigo mortal de Henrique Rosemberg. As grandes propriedades deste último cercavam por três lados a pequena propriedade de Jan e, por isso, ele sofrerá muitas pressões do poderoso vizinho. Essa situação conquistara uma especial simpatia para ele do conde Valdstein, que tinha ódio de Rosemberg, não só como inimigo político, mas por causa dos boatos ofensivos que este soltava sobre a morte do barão Rabstein e o casamento de Rugena com Vok, que Rosenberg chamava sem pudor de "roubo de herança".

Nid, p. 148- Nota do autor. Durante a guerra fratricida que devastava a Boêmia, o castelo de

Trotsnov fora arrasado pelos soldados de Rosemberg. A velha parenta de Jan Zizka que lá vivia fora morta e Ana e seu irmão haviam conseguido escapar com dificuldade. Ao saber disso, Valdstein propusera a Jan tomar sua irmã aos seus cuidados para que esta crescesse junto com sua pupila até que a calma fosse restabelecida em todo o país e permitisse ao jovem rapaz arrumar-se de alguma outra forma. A Boêmia ansiava pelo retorno de Venceslau ao poder, mas o rei estava preso em Viena e, apesar de todas as homenagens aparentes, era muito bem guardado. No outono de 1403, alguns senhores, incluindo Valdstein e Jan Li-

echtenstein, organizaram um plano para libertar o rei. Apesar de sua juventude, Vok desempenhou nesse caso um importante papel. Disfarçado, ele infiltrou-se em Viena e conseguiu o apoio de Bogucha, um sacerdote da ordem maltesa, que tinha acesso a Venceslau. O jovem conde soube por meio dele que naquele período a vigilância sobre o prisioneiro real diminuíra consideravelmente, porque o rei, aparentemente, havia se conformado com sua sina. Aproveitando a ocasião, e com auxílio do mesmo sacerdote, Vok montou um simples mas ousado plano de fuga, que comunicou ao pai. Tudo correu da melhor forma: no dia 11 de novembro de 1403, depois do meio-dia, Venceslau, disfarçado, escapou de sua prisão e chegou sem qualquer obstáculo até as margens do rio Danúbio, onde Vok, vestido como se fosse um pescador, aguardava-o de barco. Atravessando o rio, eles conseguiram chegar a Standau, onde os esperavam Liechstein e Valdstein com amigos e 50 soldados armados de bestas. Antes de tudo, o rei correu para o palácio de Mikulov, na Morávia, depois para o monte Kutná, e de lá para Praga, onde entrou em triunfo. Em todos os lugares foi recebido com entusiasmo pela população, como seu salvador, e renovou o juramento de fidelidade. Todos esta-

52 Tomek, "Jan Gichka " - Nota do autor.

Palacky, "G v. B. ", parte III, p. 158 - Nota do autor.

vam cansados das divergências, queriam a ordem e a paz que a volta do legítimo rei ao poder prometia. Esse feliz acontecimento serviu para que ambos os condes Valdstein caíssem nas graças de Venceslau. O rei gostou de Vok, tornandoo um dos preferidos, e este mudou-se para Praga, onde pretendia fazer um curso universitário de belas artes, que estava em moda na época e que deveria completar a educação do jovem nobre.

Capítulo VII

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