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Capítulo 46 de 51
Parte 46 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
120 Daí provém o nome calicistas, para se referir aos que são adeptos da comunhão pelo corpo e o sangue de Cristo, ou seja, pela hóstia e pelo vinho servido no cálice - Nota da editora. O jovem conde tornara-se agora muito amigo de Jan Zizka de Trotsnov, o irmão de Ana. O ódio de ambos ao clero católico unia-os, apesar de suas radicais diferenças de caráter: Zizka era calado, previdente e fechado, enquanto Vok era sincero, imprudente e sempre pronto para qualquer ato tresloucado - se bem que, nos últimos tempos, o jovem conde mudara muito; a perda de Rugena abalara-o mais profundamente do que se podia supor e as emoções que sofrerá haviamlhe afetado a saúde. Durante algumas semanas o trabalho agitado manteve-o excitado, mas, depois, a doença incubada derrubou-o de repente... Antes de morrer, Rugena expressara o desejo de ser enterrada em Rabstein, ao lado de seus antepassados. Após uma longa e penosa viagem, Broda finalmente trouxe o corpo ao velho castelo, mas o mensageiro que enviara para anunciar a sua chegada encontrara Vok com febre e entre a vida e a morte.
Chegou a primavera, a natureza renascia e, dos campos enfeitados com tapetes de flores, soprava uma pura, tonificante e jovem força. Na capela do castelo Rabstein realizava-se o ato fúnebre. O grupo reunido era pequeno; Vok não quisera convidar estranhos para aquela triste cerimônia. Ao lado do caixão, inteiramente coberto de flores, estavam com ele somente o pai, Ana, seu irmão Zizka e os fiéis criados: Broda, Matias e litka. Lágrimas amargas foram derramadas por aquele ser puro e encantador, que fora levado prematuramente ao túmulo por uma mão criminosa. Quando o caixão foi levado à cripta e colocado ao lado do ataú-de do barão Svetomir, todos reverenciaram-no pela última vez e saíram, exceto Vok, que ficou para orar pela falecida. O conde permaneceu por muito tempo ajoelhado, com a cabeça encostada no caixão de sua amada, mas não rezava, pensando febrilmente em algo e respirando pesadamente. Quando levantou, seu rosto demonstrava uma sombria decisão. - Acredito que você me vê e me ouve, querida Rugena.
-Disse ele, baixinho mas nitidamente, pondo a mão sobre o caixão. - Então, receba de mim a promessa de vingar você e seu pai. Ambos caíram vítimas do mesmo malfeitor e juro que ele pagará caro por seu crime. Naquele instante, uma sombra apareceu do fundo da cripta e a mão de alguém pousou sobre o ombro de Vok. Espantado, ele voltou-se, irritado, mas as palavras congelaram em seus lábios, pois reconheceu Jan Zizka. Em seu rosto via-se uma fria e impiedosa severidade e seu único olho ardia com um ódio tão indefensável que paralisou Vok. - Quero fazer o mesmo juramento! - Disse Zizka, com voz surda. - Esquecido na oração, por acaso, fiquei aqui. Mas, senhor Vok, é preciso vingar-se não de um "padreco", mas de todos aqueles patifes! Somente com o sangue desses filhos do inferno conseguiremos lavar a honra das moças violadas por eles e a vida dos infelizes que eles liquidaram com suas calúnias, seus venenos e seus punhais! Vamos tirá-los de suas tocas com fogo e com incêndios reverenciaremos a memória do justo que eles desumanamente executaram.
Eles nos ensinaram a ser impiedosos e eu juro que, na primeira oportunidade, provarei ser um bom aluno! Vok apertou sua mão solidariamente. Ele não previa que o momento da sangrenta vingança estava próximo e que diante dele estava o futuro grande comandante e o mais terrível vingador que o mundo conheceu... Enquanto isso, em Constança, acontecia o último ato da sombria tragédia, posta pelo catolicismo no cenário da história universal sob o nome de "processos de Huss e Jerônimo de Praga". Os juizes mais previdentes e políticos - cardeais Ursino, de Camberra e de Florença - estavam a favor da libertação de Jerônimo. Na opinião deles, se Jerônimo submetera-se ao concilio, então a justiça e a prudência propunham a cessação da perseguição que somente aumentaria a agitação na Boêmia. Contra essa sábia decisão levantavamse os vingativos e ruins Paletch e Miguel de Causis.
Eles haviam convocado monges de Praga, constituído novas falsas testemunhas contra Jerônimo e conseguido atrair para o seu lado o voto do doutor Nazo, uma pessoa tão limitada e fanática que, diante do concilio reunido, não vacilou em acusar os cardeais que estavam a favor da libertação de Jerônimo de estarem sendo subornados pelo rei da Boêmia e seus dignos subordinados - tão hereges quanto ele. Diante de tal ofensa, os cardeais declararam imediatamente que abandonavam a comissão julgadora e o concilio designou novos juizes entre os quais estavam dois inimigos mortais de Jerônimo e de Huss: João Rocca e o patriarca de Constantinopla. No dia seguinte após essa reunião que indicou claramente o destino que esperava o prisioneiro, Svetomir teve um encontro com Jerônimo e, indignado, contou tudo o que acontecera. Jerônimo ouviu-o calmamente e quase sorrindo. - Então, o digníssimo Nazo acabou me fazendo um favor. - Disse ele, alegremente. - Ele me deu a oportunidade de voltar atrás na minha renúncia e declarar publicamente todas as minhas irrefutáveis convicções.
Às dúvidas do assustado Svetomir, ele respondeu, firmemente: - Quero a morte, pois somente com ela poderei resgatar a minha fraqueza e apagar a vergonha que me cobriu por renunciar à verdade e ao meu santo mestre e amigo Jan. Por força dessa decisão, Jerônimo negou-se a responder aos seus novos juizes e exigiu ser ouvido publicamente. Seu desejo foi satisfeito e, no dia 23 de maio de 1416, quando se completava exatamente um ano da sua detenção, ele apareceu diante do concilio. As discussões, que ocuparam duas sessões - em 23 e 26 de maio -, foram indubitavelmente a mais gloriosa conquista de Jerônimo. Às 107 acusações que lhe foram apresentadas, ele respondeu com tal presença de espírito e seqüência de raciocínio que foram quebradas as falsas e traiçoeiras redes de seus inimigos e desnudados os verdadeiros motivos do ódio que o perseguia.
Os presentes ficaram perturbados e não conseguiam entender como, após ter passado um ano inteiro de sofrimentos e privações numa fossa escura, ele ainda podia falar e defender-se com tal liberdade de pensamento e humor como se tivesse dedicado todo aquele tempo ao estudo do próprio caso e, naquele instante, estivesse no púlpito e não no banco dos réus. Talvez Jerônimo nunca tenha sido um orador tão brilhante como o foi naqueles dias; armado até os dentes com a erudição científica, discursos infiamantes e com a força de sua personalidade genial, ele defendia a própria causa mesmo sabendo perfeitamente que esta estava perdida e que pagaria com a vida. Os ouvintes, todos seus inimigos, foram arrasados, vencidos e já estavam quase a ponto de inocentá-lo. Jerônimo, entretanto, parecia não desejar a vitória. Depois da autodefesa, passou a elogiar Huss, dizendo que este, como o profeta Elias, subira aos céus numa carruagem de fogo para convocar seus indignos juizes e os que o odiavam, ao terrível julgamento de Cristo. Suas palavras provocaram alvoroço na reunião.
Enquanto uns gritavam e jogavam-lhe ofensas, outros, que queriam salvar aquele homem notável, tentavam calá-lo. Ele não se alterou. - Vocês imaginam que tenho medo da morte? - Perguntou, com desprezo. - Mesmo daquela terrível morte preparada para mim pelos meus inimigos e falsas testemunhas, que hão de responder a Deus por suas mentiras? Vocês próprios não estão me tratando com uma barbárie imperdoável a cristãos, deixando-me apodrecer vivo um ano inteiro na cadeia? Nunca me queixei, pois considero as queixas abaixo da minha dignidade. Não quero comprar a minha vida com mentiras e reconheço aqui que, de todos os pecados que algum dia cometi, o maior e o mais imperdoável foi a minha traiçoeira renúncia, a minha vergonhosa fraqueza de renegar os ensinamentos de um justo que foi meu mestre e amigo. Vocês condenaram Huss e Wyclif não porque eles, supostamente, alteraram os ensinamentos das Escrituras, mas porque eles desnudaram o orgulho, a corrupção e todos os vícios do clero. Essas acusações não foram rebatidas e eu os denuncio como eles o fizeram!
É impossível descrever a cena agitada que se seguiu. A testemunha desse acontecimento, o famoso italiano Poggio, escreve em suas memórias: "No meio daquela tempestade, Jerônimo permaneceu calmo, pálido, mas estóico e orgulhoso. Ele claramente desprezava a morte e até a chamava para si. Interrompido pelas calúnias que partiam sobre ele de todos os lados, ele respondia a cada um, obrigando alguns a enrubescer e outros a calarem-se!". Acompanhado pelos gritos de: "Ele próprio se condenou!", Jerônimo foi levado para a cadeia e posto a ferros. Cinco dias depois, em 30 de maio, após novas tentativas para convencê-lo a renunciar novamente, foi condenado à fogueira. Ele permaneceu fiel ao seu corajoso e firme caráter até o fim. Quando leram sua condenação, jogou seu chapéu aos presentes e colocou sobre a própria cabeça a carapuça enfeitada com demônios, destinada aos hereges; no local da execução, despiu-se sozinho e, quando o carrasco, por compaixão, quis acender o fogo às suas costas, ele lhe gritou: - Tenha coragem! Acenda na minha frente! Se eu tivesse medo da fogueira, não estaria aqui!
Depois, voltando-se para o povo, ele começou a recitar alto o Credo e acrescentou: - O que acabei de recitar é a confissão da minha fé, conforme os ensinamentos da Igreja Católica. Estou morrendo somente porque não quis reconhecer como justa a condenação de Huss. Quando o fogo passou a envolvê-lo, ele - como seu mestre -entoou uma prece e somente a fumaça calou sua voz. Acreditamos que a melhor forma de transmitir a impressão que causou sobre os contemporâneos a morte heróica dos dois mártires tchecos é transcrevendo as palavras de um dos membros do concilio. Um fervoroso católico, Enéas Silvio Picollomini, o futuro papa Pio II, escreveu: "Huss e Jerônimo suportaram corajosamente a morte; eles foram para a execução como se fossem convidados a uma festa e nem com uma única palavra demonstraram a menor fraqueza. Quando começaram a arder, entoaram hinos que foram cobertos pelas chamas e pela força do fogo. Nenhum filósofo enfrentou a morte com a coragem com que eles enfrentaram a fogueira".
O concilio, com grande presteza, tomou as medidas necessárias para eliminar as mínimas lembranças de suas vítimas; tudo que lhes pertencia foi queimado e as cinzas foram jogadas no rio Reno. Mas, os digníssimos e bondosos padres logo se convenceriam de que não é suficiente, baseando-se na lei, matar duas pessoas para exterminar as idéias que pregam, e que as cinzas de mártires são sementes perigosas que nem a água nem o fogo apagam. Indestrutíveis, como o pensamento que lhes deu vida, essas cinzas pairam no ar por anos ou séculos para germinar e amadurecer a seu tempo. Os injustos juizes veriam ainda em vida, e com os seus próprios olhos, a primeira colheita de sangue...
Capítulo XI
Três anos haviam-se passado desde a morte de Jerônimo. Chegara o dia 22 de julho de 1419 - dia de Maria Madalena - e os primeiros raios do sol iluminavam o monte nas cercanias de Usti, onde outrora pregara Huss, durante sua expulsão de Praga. O local mudara consideravelmente de aparência e até recebera um
novo nome, chamando-se agora monte bíblico de Tabor, em vez de morro Luzhitsky. Nas barracas montadas à sua volta haviam-se instalado sacerdotes utraquistas, expulsos pela recente revolução católica da própria cidade de Usti e de outras localidades. Em tempos normais havia muitos visitantes - os camponeses vizinhos reuniam-se em multidões para ouvir os sermões e comungar com o corpo e o sangue de Cristo. Naquele dia, entretanto, no monte havia uma agitação nunca antes vista e os habitantes de Tabor andavam para todos os lados com ares de importância e preocupação. Os olhares que
121 Tabor, em tcheco, significa barraca. Mais tarde, a esse nome foi associada a imagem do monte bíblico Thabor - Nota do autor. dirigiam para as estradas que se espalhavam para todos os lados indicavam que aguardavam alguém. Finalmente, ouviram-se cantos e, ao longe, apareceu uma grande procissão de homens, mulheres e crianças. Era encabeçada por um sacerdote que trazia nas mãos um cálice e inúmeros estandartes agitavam-se ao puro vento matinal. Os visitantes foram recebidos com gritos de alegria e colocados em volta de uma clareira no centro da qual elevava-se um altar. Logo se ouviram mais cantos e, de todos os lados, começaram a chegar mais e mais multidões de fiéis. A cada minuto crescia o número de visitantes. Parecia estar acontecendo uma migração do povo e, naquela massa superior a 40 mil pessoas, reinava absoluta ordem. Na multidão prevaleciam os trajes camponeses e as vestimentas simples de cidadãos.
As mãos que produziam o alimento - vermelhas e rudes -, os rostos magros e sisudos e aquela particular curvatura das costas provocada pelo longo trabalho acima das próprias forças indicavam que uma força estranha arrancara aquelas pessoas da luta diária pelo pão de cada dia e as atraíra irresistivelmente para lá. A idéia de uma outra vida melhor iluminara-as e concedera-lhes um sentimento de superioridade, fé em si próprias e na própria força que transparecia na expressão de seus rostos, andar e movimentos. O povo reuniu-se em volta do sacerdote: uns ouviam com devoção o sermão, outros confessavam-se e terceiros comungavam entusiasticamente com o corpo e o sangue de Cristo. Ao término da missa, os peregrinos sentaram-se na relva para ingerir as provisões que haviam trazido de casa; existia uma sensível unanimidade entre eles, lembrando as refeições irmanais dos primeiros cristãos.
Estavam unidas todas as classes sociais: o cavaleiro e o camponês partilhavam amigavelmente do vinho e da caça; certa nobre senhora - em trajes de seda - e uma cidadã - num vestido barato, com um simples lenço de linho amarrado na cabeça - conversavam sobre crianças e afazeres de casa. No monte Tabor, todos era realmente irmãos e irmãs. A relação calorosa e amigável e o elevado sentimento religioso selavam-nos com algo indescritivelmente grandioso: um ímpeto de amor e fé reunia os corações e elevava espíritos. Ao terminar a refeição, todos separaram-se em grupos; uns passeavam pela clareira, outros sentavam-se em um canto e discutiam entre si as diferentes questões políticas e religiosas que os interessavam. A partir da morte de Huss, as divergências internas na Boêmia nunca mais haviam cessado; a excitação crescia constantemente, principalmente durante os últimos meses, quando a repentina mudança de opinião do rei - própria de Venceslau - não fora em favor dos hussitas.
Os conselheiros de "Cidade Nova", todos hussitas, haviam sido substituídos por fanáticos religiosos; as igrejas ocupadas por utraquistas tinham sido devolvidas aos católicos e as casas dos religiosos, ao clero anteriormente expulso. Com sua habitual intolerância, o clero católico, imaginando estar com o poder totalmente em suas mãos, agira insolentemente e, com diversas opressões e ofensas, provocara o povo contra as medidas tomadas que, mesmo sem isso, já não agradavam à população. O trovejar da ira popular, anunciando a tempestade que se aproximava, ouvia-se cada vez mais nitidamente. Num grande grupo, composto em sua maioria por mulheres, estavam Marga Nakhodsky e Ana de Trotsnov; a primeira estava sentada com seus três filhos, enquanto a outra discursava entusiasticamente sobre uma pedra no centro do grupo que formara uma roda ao seu redor. Sua antiga graça havia desaparecido: as formas arredondadas femininas haviam-se alterado para uma magreza ascética, seu rosto magro estava pálido e, nos grandes e escuros olhos, luzia uma excitação fanática.
Trajava um vestido negro rigorosamente simples, um lenço de linho prendia seus cabelos e, numa correntinha de aço, trazia pendurada uma medalha de prata com a imagem de Huss. Ana descrevia detalhadamente a morte do mestre. - Foi assim, irmãs! O Senhor me concedeu a graça de testemunhar os últimos minutos do mártir e ver o enviado dos céus que, por ordem divina, veio resgatar a alma do bem-aventurado Jan e levá-la à residência dos eleitos. Esses crimes, entretanto, não ficarão impunes e o assassinato do justo provocará aqui na Terra uma terrível vingança. Vamos, então, orar e defender a verdade! Vamos permanecer fiéis até a morte ao "cálice" e ao Evangelho, para que o anjo destruidor, enviado para espalhar a ira divina, não nos atinja. O rosto de Ana ficou vermelho, sua voz tornou-se profunda e sonora e o olhar extasiado dirigiu-se para o céu. - Tempos difíceis se aproximam e os céus os anunciam com sinais visíveis e incompreensíveis a todos.
Lembrem-se do eclipse solar que aconteceu no dia em que Jan Huss compareceu diante do concilio - a escuridão foi tanta que a missa teve que ser realizada com lamparinas! Tal evento anunciava, como as trombetas do Juízo Final, que Cristo - o sol da verdade - eclipsou-se ao ver tanta mentira e selvageria nos corações dos ímpios juizes. E a chuva de sangue que caiu no terceiro ano e cobriu a neve? E, finalmente, o último e recente sinal, o mais terrível de todos: a cruz sangrenta que brilhou entre as nuvens e se transformou, à noite, em espada. Somente surdos que não querem ouvir e cegos que não querem ver podem ficar indiferentes a isso! Será que não está claro que a espada será desembainhada em defesa da cruz - símbolo de Cristo -, que a terra se cobrirá de sangue e que se aproximam terríveis desastres? Então, na luta que se aproxima, vamos tentar estar do lado do Senhor e lutar pela santa verdade deixada para nós por Seu Filho Divino.
Para que o juízo celestial não nos lance no abismo de fogo onde, por todos os séculos, irão arder os impuros "padrecos" cobertos de sangue, maculados pela simonia, pelas crueldades e pela depravação! Aqueles "padrecos" que, com sua mão sacrílega, assinam a sentença de morte de santos e nos proíbem daquilo que estabeleceu o próprio Salvador. O corpo de Ana estremecia espasmodicamente e parecia que ela agarrava e asfixiava, com suas próprias mãos, os sacerdotes que odiava e sobre os quais falava naquele instante. Seus sentimentos transmitiam-se aos ouvintes. Em todos os rostos lia-se um terror supersticioso; algumas mulheres caíam em pranto, outras oravam em voz alta, persignando-se e batendo com a mão no próprio peito. Outras ainda, mais aguerridas, juravam que não hesitariam diante de nada para defender o Evangelho e glorificar o mártir Jan Huss. Próximos a esse grupo, junto a um toco de árvore que lhes servia de mesa, sentavam-se alguns homens em roda; restos de pão, carne e algumas bilhas vazias haviam sido colocados em cestos e postos de lado. A conversa estava animada. Lá havia alguns sacerdotes hussitas
e, entre eles, Jan de Geliv - um monge premonstratense que abandonara a sua abadia e fora morar em Praga. Seus explosivos sermões e sua fidelidade ao hussismo haviam conquistado rapidamente a simpatia do povo por ele. À sua esquerda sentavam-se Milota Nakhodsky e mais um ca-
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