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Capítulo 32 de 51

Parte 32 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

escolhido por Deus para o mais terrível combate que o mundo já presenciou! Vejam! -Acrescentou ele. - Vou desenhar o mapa do local e vocês entenderão melhor o andamento da batalha. Vok, peça para trazerem um pedaço de giz! O pajem correu imediatamente para cumprir a ordem. Svetomir inclinou-se sobre a grande mesa de carvalho e começou a desenhar com grandes traços um mapa, bastante imperfeito do ponto de vista de algum oficial de quartel-general moderno, mas que ia obtendo total aprovação dos ouvintes à medida que o contador explicava o que estava desenhando. - Vejam, este círculo é a colina onde estava o oratório - vou tomálo como ponto de partida. Agora vocês estão vendo os litua-nos, que iam na frente, enquanto mais para o oeste estavam os poloneses. Como vêem, a curta distância do acampamento lituano localiza-se Ludvigedorf; a partir dele segue a estrada para a aldeia Grunwald, em cujo lado esquerdo existe uma floresta e depois, à direita, vem Tannenberg.

Ambos os acampamentos ainda estavam desorganizados e o rei ouvia a missa quando, de repente, do batalhão de guarda informaram que o inimigo estava saindo de Grunwald. Svetomir parou por um instante. - Muito do que vou contar agora não vi pessoalmente, pois, como entendem, não poderia estar em toda a parte; mas ouvi isso de testemunhas idôneas tais como os senhores Jyndram, Zguibnev, Olesnitsky e outros. Além disso, por ter um bom cavalo, eu muitas vezes levava ordens dos comandantes antes e durante o combate. Mas, voltando ao relato: como ninguém tinha previsto um avanço tão rápido do inimigo, eu tinha ido ao acampamento lituano para visitar um dos ajudantes de Vitovt e acabei vendo pessoalmente o inimigo. Sem vacilar um instante, montei no cavalo e corri para prevenir o rei. Estava sendo celebrada a missa e o rei Jagellon, ajoelhado, nada respondeu ao meu informe. Enquanto isso, todo o exército já estava em movimento. A todo instante o príncipe enviava mensageiros ao rei com o pedido de ordenar o avanço; por fim, Vitovt foi pessoalmente falar com o rei. Mas não adiantou.

Profundamente religioso, Jagellon não quis interromper a missa e, somente após ouvir duas missas, deu ordem para irmos à luta. Como sinal combinado, cada soldado colocou no elmo ou chapéu um punhado de feno; o chamado para os poloneses era a palavra "Cracóvia" e para os lituanos "Vilnus". O senhor Gyndram, sem perder tempo, colocou as tropas em posição de ataque. Nesse ínterim, reuniuse em volta do rei um grande número de nobres senhores, que ansiavam por receber o título de cavaleiros. O rei achou impossível negarlhes aquele pedido legal e desceu do cavalo. Eleja estava iniciando a cerimônia, quando foi interrompido: chegaram dois arautos do grande marechal da Ordem, Friedrich von-Villenrod, para entregar ao rei e a Vitovt duas espadas em sinal de desafio. - Se os alemães fossem previdentes e pudessem imaginar o que os estava aguardando naquele dia, não seriam tão insolentes. - Observou Jan de Khlum. - Talvez, mas naquele momento eles simplesmente sufocavam de orgulho e, com palavras pomposas, declararam que o grão-mes-tre estava enviando as espadas "para que elas nos sirvam na batalha" e oferecendo a escolha da hora e lugar.

O rei ouviu calmamente o discurso insolente e respondeu: "Temos espadas suficientes, mas estas também servirão... para cortar cabeças demasiadamente duras! Já a escolha do local e da hora, deixo por conta de Deus". Em seguida, ele e Vitovt aceitaram as espadas. Assim que os arautos foram embora, o rei dirigiu-se a todos os presentes com um discurso no qual citou todas as tramas da Ordem e expressou a certeza de que a Justiça Divina lhe daria a vitória sobre o nosso cruel e traiçoeiro inimigo. Depois, deixei Jagellon e juntei-me ao meu grupo na ala direita do exército. Lá estavam as tropas do rei comandadas por Andrei Tchilek de Zhelekhov e Jan de Sprov, da família dos Odrovatch. O quadro era solene: a garoa tinha parado e o sol, que aparecera por detrás das nuvens, brincava com seus raios sobre as brilhantes armaduras. Os cavalos relinchavam, as bandeiras tremulavam sob uma leve brisa e todo o exército cantou Santa Mãe de Deus.

Quando nós nos movemos para a frente, os alemães já estavam em formação de combate, mas ocupavam uma posição muito melhor que a nossa, pois o local estava em declive para o nosso lado. Além disso, sua ala direita estava bem coberta pela floresta. Ambos os exércitos estavam frente a frente à distância de um tiro de besta e separados por um estreito e plano vale. Não vou contar sobre o início do combate: a ação dos atiradores e os duelos entre cavaleiros. O verdadeiro combate começou quando ambos os exércitos com gritos ensurdecedores atiraram-se um contra o outro e desencadeou-se a luta corpo a corpo, terrível e sangrenta. A terra tremia, as colinas vizinhas tremiam ao tropel das patas dos cavalos, gritos de guerra, tilintar das armas e gemidos dos feridos. As lanças quebraram rapidamente, e a luta prosseguiu não só com as armas mas também com as mãos vazias; uns sufocavam na aglomeração geral, outros morriam sob as patas dos cavalos.

Os alemães começaram a dominar os lituanos, que lutavam do nosso lado direito e as primeiras fileiras caíram sobre as seguintes, provocando uma confusão na retaguarda. Finalmente, eles tremeram e correram arrastando consigo os destacamentos de poloneses encostados neles. O momento era terrível, a nossa ala direita ficou descoberta e, se os alemães nos atacassem por esse lado, a vitória seria deles. Mas as corajosas tropas russas salvaram a situação. Junto com o exército do príncipe lituano, além da horda de tártaros havia alguns destacamentos de Polotsk, Smolensk Vitebsk,

Kiev, Minsk e outras cidades. Todos eles iam sob a bandeira de Smolensk. Eu os via desde que os dois exércitos se juntaram - era um povo de aparência severa, mas inteligente e conhecedor da arte de guerra. Não se podia deixar de admirá-los quando o grande príncipe treinava os seus exércitos e realizava manobras de tropas. E foram eles que salvaram a situação. Enquanto todos em volta corriam, eles lutavam muito bem e pararam teimosamente como uma parede contra a qual se quebravam todas as tentativas alemãs; essa resistência é que permitiu aos outros se recuperarem. Finalmente Vitovt, que tudo via e estava presente em todos os lugares, conseguiu reunir parte do seu exército. Animados com a perseguição, os alemães passaram por nós

101 Soloviov, "História da Rússia dos tempos arcaicos", tomo IV, p. 1.044 - Nota do autor.

como um furacão, mas na volta os nossos pegaram-nos pela retaguarda e mataram uma parte e aprisionaram a outra. O sucesso inicial inflamara o inimigo que, aproveitando sua posição privilegiada, caiu como uma avalanche sobre as tropas polonesas e atropelou os tchecos e morávios que lutavam nas primeiras fileiras dos nossos exércitos sob a bandeira de São Jorge. Achando que nós estávamos em fuga - ou definitivamente batidos -, o grão-mestre decidiu que havia chegado a hora de acionar as 16 bandeiras de reserva que conduzira pessoalmente. Do alto de onde estava até aquele momento ele, de repente, apareceu do nosso lado. As principais forças que lutavam muito na frente não o notaram por causa da poeira e nós, as tropas do rei que estavam mais próximas dos alemães, tomamo-los por lituanos pela semelhança das lanças.

O movimento do grão-mestre ameaçava muito o rei que, guardado por somente 60 lanças (cerca de 120 homens), estava parado num pequeno bosque tão abertamente, que um dos cavaleiros teutônicos, percebendo isso, atirou-se sobre ele com espada em riste, mas foi detido por Zguibnev Olesnitsky e jogado no chão por uma lança. Depois, o rei e os cavaleiros da corte acabaram de matá-lo. Mais tarde disseram que aquele cavaleiro chamava-se Dippoldo von-Kektrits. Os três momentos seguintes consolidaram nossa vitória. Aqueles que corriam para o acampamento voltaram a atacar e golpearam o inimigo com tanta intensidade que os alemães foram amassados, recuaram e começaram a fugir em desordem; vendo isso, alguns destacamentos das tropas de von-Junguinguen, alugados da terra de Kholm (Kulmsk), também fugiram, em pânico. Deus estava conosco naquele dia e inspirou Dobeslav Olesnitsky a fazer uma inspeção do local na nossa ala direita, o que possibilitou descobrir a presença do grão-mestre e o perigo que corria o rei. Essa notícia correu as fileiras como um raio.

Os tchecos e morávios deixaram de perseguir os alemães que corriam em direção à floresta e atacaram pelo lado direito as fileiras desarrumadas do exército do grão-mestre, enquanto nós e o resto das tropas polonesas golpeávamos pela frente. Era o fim. Assolado por todos os lados, esmagado pela supremacia de nossas forças, o resto do exército alemão correu para o acampamento fortificado; o grão-mestre e os principais comandantes foram mortos, depois de desesperada defesa. Nada poderia fazer-nos parar. Caímos sobre o último abrigo do inimigo como uma torrente e todo o acampamento - com carroças, provisões e diversos bens - ficou para nós; todos os que ainda viviam foram mortos. O sol poente iluminou o campo de batalha coberto com 40 mil mortos. O enorme resgate - 51 bandeiras e 15 mil prisioneiros - coroou nossa vitória. Agora, se a Ordem algum dia se recuperar, não será tão em breve! Durante um certo tempo houve um silêncio na sala.

O relato causara uma profunda impressão sobre os ouvintes e cada um pensava na importância daqueles acontecimentos. - Você acredita, Svetomir, que os alemães não se recuperarão tão cedo desse golpe? Pois temo que eles, pelo contrário, recuperar-se-ão bem rapidamente! É que os alemães são teimosos e, como a erva daninha, difíceis de exterminar! - Observou Tchenek de Vartenberg, balançando a cabeça. - Em todo caso, eles receberam o que mereciam e o futuro só Deus sabe! Se eles continuarem a ser tão brigões e teimosos, Deus lhes preparará um novo Tannenberg! Na opinião de todos os comandantes, deveríamos continuar a perseguição e tomar Malborg (Marienburgo) onde naquela hora não havia nenhum soldado e só então os alemães estariam exterminados na raiz. Mas o rei passou alguns dias festejando a vitória - na ocasião fui consagrado cavaleiro -, e, quando nós nos aproximamos da cidade, ela já estava pronta para a defesa e não conseguimos tomá-la. - E como eram esses russos que lutaram tão bravamente? Pagãos como os lituanos?

- Que nada! Cristãos como nós, mas cismáticos! . E o seu príncipe, luri Lutvenievitch, é um verdadeiro herói; ele, com suas tropas, é

102 Cismáticos - Essa denominação surgiu com o cisma que dividiu a Igreja cristã, no século XI, entre Igreja Latina, seguidores do Papa, e Igreja Ortodoxa Grega. Essa separação definitiva deu-se após uma série de divergências a respeito do dogma, da liturgia, das práticas religiosas e de disputas políticas entre os papas e os patriarcas de Constantinopla, culminando no rompimento definitivo, em 25 de julho de 1054. Os russos foram os principais seguidores dos gregos no rompimento com o papado e, apesar de não serem chamados de heréticos, eram odiados e tratados da mesma forma pela Igreja Romana - Nota

da editora.

que decidiu a vitória. Para entender isso, olhem mais uma vez no meu mapa: aqui está os exércitos lituano e polonês formando uma linha, com o centro um pouco destacado; atrás da linha polonesa estavam os tártaros. Os alemães precisavam quebrar essa linha, pois contorná-la pelo comprimento seria difícil. Os russos ocupavam uma importante posição no meio do exército; o mais forte golpe do inimigo foi direcionado em cima deles e, quando os lituanos correram levando consigo parte dos nossos, os soldados da Ordem estavam tão crentes na vitória que começaram a cantar Cristo Ressuscitou. Mas, como já falei, as valorosas tropas do príncipe luri permaneceram firmes como rocha e Vitovt, percebendo a importância do momento, enviou-lhes ajuda. Esse grande príncipe mostrou naquele dia uma incomparável capacidade militar e coragem! - Pois é. Você falou dele tanto no começo quanto no fim do relato Mas o que fazia o rei? Parece que ele nem tomou parte? - Perguntou Zviretich. Svetomir riu, maliciosamente, e cocou a orelha. - Pare de esconder as coisas!

Somos todos amigos e pessoas honestas! - Exclamou Vok, impaciente. - Você não tem culpa se Jagellon não é um herói. - Não, o rei é um bom rapaz, mas os "padrecos" abusam de sua religiosidade; se ele cometeu alguns enganos foi por causa dos tonsados, que sussurram muita bobagem em seus ouvidos. Estou zombando deles - e Vok deve saber bem como eu os odeio. Aliás, posso dizer que soube muita coisa interessante sobre os russos cismáticos. Padre Hilário falava deles espumando pela boca, considerando-os piores que pagãos. Mas, na minha opinião, eles estão mais perto da verdade do que nós, católicos. Percebi tudo isso pelas conversas que tive com luri Lugvenievitch, que gostava de mim; fiquei muito amigo de um de seus comandantes e até prometi visitá-lo um dia, o que com certeza farei assim que retornar à Polônia. - Mesmo assim - acrescentou Vok, pensativo -, ao lembrar novamente a grande batalha, onde deitaram seus ossos tantos de nossos

103 Koslovitch, "Batalha de Grunwald", p. 9 - Nota do autor. irmãos e correu tanto sangue eslavo, chega-se à conclusão de que o príncipe Konrad Mazovetsky tomou uma decisão errada convidando os alemães a defender suas terras. Eles inicialmente acabaram com os

fracos prussianos e depois resolveram acabar com os poloneses e lituanos. É verdade que Konrad tinha dificuldade para se defender dos prussianos, mas se defender dos alemães é muito mais difícil! - Sim! - Interrompeu-o o conde Hinek. - O certo é que deixaram lobos guardando rebanho de ovelhas. Esses acordos com os alemães nunca levam a boa coisa! O prussiano é um selvagem, mas também o alemão é um bárbaro. E isto, nós, tchecos, sabemos melhor do que ninguém! Eles mantêm com mão-de-ferro as regiões sob seu domínio e engolem uma a uma as tribos. Os poloneses pagarão muito caro o erro do príncipe Mazovetsky! A conversa passou, aos poucos, para as questões religiosas e provocou uma nova explosão de indignação sobre as indulgências, a interdição e a expulsão de Huss.

Capítulo XII

O tempo transcorria calmamente na família dos Valdstein. Svetomir renovara a amizade com os antigos companheiros e professores, embora também passasse muito tempo em casa conversando com Rugena e Vok ou com o velho amigo Broda. Este o abarrotava de perguntas sobre a guerra com os alemães, a batalha de Tannenberg e adorava ouvir detalhes da derrota da Ordem Teutônica. Somente Ana mantinha-se afastada. Ela não chegava a evitar Svetomir, mas a amizade que permanecera entre ela e Rugena não se estendia a ele. Em conversas com a jovem condessa, Svetomir sempre

104 Essa separação entre alemães e prussianos só tem sentido nesse período, quando a Prússia era um Estado aparte, com uma população de origem tanto germânica quanto eslava; posteriormente, a Prússia tornou-se a principal região alemã, tendo liderado a unificação imperial no século XIX - ~ Nota da editora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.