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Capítulo 24 de 51
Parte 24 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
-Ah! Esses nossos bispos! "Nonprelati, sedpilati" - Confirmou Jerônimo, tristemente. - E o próprio herdeiro de São Pedro, em vez de almas humanas, prefere captar ouro em suas redes. - Sorriu Vok, zombeteiro. A condessa Iana não compareceu ao almoço, alegando sentir-se mal. Na verdade ela tinha brigado com o marido e o filho desde a hora em que chegara à cidade o emissário do Papa, Ventsel Tini, para vender indulgências e pregar a cruzada nas paróquias de Salzburgo, Magdeburgo e de Praga. O apoio às teorias de Wyclif e o bom relacionamento com Huss - claramente expressos pelos condes Hinek e Vok - nunca haviam sido do gosto da condessa Iana que, pelo seu estreito fanatismo, considerava a ambos hereges. Mas o impetuoso caráter do marido e a cega adoração do filho continham-na e, por algum período, foi mantida uma certa paz na família. Por fim, as inúmeras zombarias sobre indulgências e a afirmação de que estas não tinham nenhum valor e não podiam resgatar a alma do merecido castigo acabaram provocando na condessa um ataque de ira.
Ela começara a defender com tanto ardor o direito do "santo trono" de perdoar na terra e no céu que chegara até a confundir os dois condes. A partir desse dia, a condessa ficara amuada. Jejuava e orava fervorosamente, trancando-se no quarto toda vez que apareciam em sua casa alguns dos adeptos de Huss ou ele próprio.
"Não são prelados, mas sim Pilotos " - Nota do autor As relações entre Rugena e o marido haviam melhorado. Sob a pressão da dor de consciência e querendo apagar a culpa, a jovem mulher ficara menos rígida e tentara atrair Vok com condescendência e docilidade. Inicialmente, ele espantara-se. Depois, ficara sensibilizado e por realmente adorar a esposa, desistira das escandalosas aventuras, para não ofendê-la. Mesmo assim, o terrível choque nervoso pelo qual Rugena passara refletira-se bastante na sua delicada natureza, e a silenciosa mas dura luta contra o sentimento de amor a Jerônimo - que insistia em não ceder - esgotara-a definitivamente. Ela adoecera gravemente e, por duas semanas, sua vida estivera por um fio. O medo de perder a esposa fizera Vok voltar a si e trouxera-o, arrependido, à cabeceira da cama da paciente. Quando Rugena começou a melhorar, ele realmente tentou corrigir-se e seu arrependimento foi tão apaixonado e barulhento quanto suas loucuras amorosas. Rugena parecia bondosa e amorosa e quando, de tempos em tempos, o explosivo caráter de Vok arrastava-o para alguma aventura, ela permanecia sempre condescendente.
Contudo, após a doença, ela fechara-se, ficara séria, pouco sociável e uma tristeza oculta tomara conta do seu ser. Ana continuou vivendo na casa dos Valdstein apesar de aparecerem alguns pretendentes bem vantajosos e até das insistências do irmão para que se mudasse para a casa dele. Rugena brincava dizendo que ela estava esperando Svetomir, mas, no fundo, estava feliz por ter a fiel amiga a seu lado - a única que conhecia sua fraqueza. Ana havia-lhe confessado ter sido testemunha da cena entre ela e Jerônimo. O almoço transcorreu em clima de alegria. Rugena estava muito nervosa no início, mas a calma desenvoltura de Jerônimo ajudou-a a manter as aparências. Ela até participou da conversa que girava, principalmente, em torno do grande debate a respeito da questão das indulgências que aconteceria na universidade. Para tanto, Huss convocara professores e estudantes. - Quanto a isso, tenho um pequeno projeto e gostaria de conversar com você sobre alguns detalhes. Irei também a esse debate. - Disse Vok, quando Jerônimo preparava-se para sair. - Mas isso não vai custar caro?
Seus projetos costumam ser bastante arriscados... - Respondeu o amigo, sorrindo. - Mas não! É um negócio absolutamente inofensivo e a corte não se oporá. - Então, se você já se garantiu com a anuência do rei... - Nem tanto, mas creia-me: ele irá se divertir com essa minha idéia.
Capítulo IV
Alguns dias depois, pelas ruas da "Margem Pequena", localizada na margem esquerda do rio, passavam alguns cavaleiros. Um deles, que ia na frente e com a viseira do elmo fechada, estava trajando armadura leve; atrás dele vinham um padre, um pajem, um cavalariço e quatro homens armados guardando cavalos carregados com bagagem. À medida que se aproximavam do mercado, o caminho ficava cada vez mais difícil, pois o povo enchia as ruas; de longe ouviam-se cantos, gritos e ruído de multidão se aproximando. Saindo na praça, o cavaleiro foi obrigado a manter-se mais perto das casas e, finalmente, teve que parar. Por todos os lados estendia-se um mar de cabeças; em frente ao palácio do arcebispo, havia uma alta carruagem. Mas, por causa da multidão, era difícil enxergar os detalhes. De repente, a massa afastou-se, abrindo passagem para uma procissão que passou bem próxima aos viajantes. Músicos, tamborileiros e corneteiros, tocando a plenos pulmões, seguiam diante de uma grande carroça na qual se encontravam duas mulheres com expressões insolentes e aparência vulgar, trazendo no pescoço duas bulas papais.
Dos lados e atrás da carroça seguiam monges cantando hinos nada sagrados e bastante jocosos, zombando das indulgências, do Papa e de sua cruzada. O povo aplaudia, cantava junto com os monges e trocava piadas sobre o clero. Por fim, a multidão desapareceu atrás da esquina da rua. O cavaleiro permaneceu todo aquele tempo parado; somente a mão que segurava as rédeas tremia levemente, enquanto a outra apertava febrilmente o cabo do punhal que levava na cintura. Percebendo um escrivão que passava por perto, ele parou-o e perguntou em latim o que significava aquela procissão. - Estão levando triunfalmente as bulas do "Anticristo de Roma" para queimá-las sob o cadafalso na "Cidade Nova". - Respondeu o homem, com jeito de preocupado e apressado para alcançar a procis-
são. Finalmente, os cavaleiros conseguiram seguir adiante. Dirigiramse apressadamente à casa do arcebispo e entraram no pátio após trocarem algumas palavras com a guarda do portão. À tarde do mesmo dia, encontramos aquele cavaleiro nos aposentos do arcebispo, que haviam sido separados para ele logo após uma conversa com Albino, vice de Zbinek Zaits na paróquia de Praga. Ele estava sentado na poltrona, agasalhando-se numa larga manta de seda, de cor violeta; duas velas em candelabros de prata iluminavam com luz bruxuleante o rosto característico do nosso velho conhecido Brancassis. Ele pouco mudara nesse tempo e permanecia o mesmo homem forte e bonito, de cabelos negros como piche. Atrás de sua poltrona estava em pé o padre Bonaventura e diante dele, numa cadeira desmontável, sentava-se Hilário, que - com aparência de adoração - ouvia as palavras do prelado. - Vim para ver pessoalmente o que acontece na Boêmia e depois relatar tudo ao Santo Padre. Mas, para estar livre para agir, não quero desempenhar um papel oficial. Minha presença aqui deve ser, na me-
87 "Um dos favoritos do rei, o Sr. Vok von Valdstein, organizou, juntamente com o Sr. Jerônimo de Praga e outros dotados dos mesmos princípios, um confrontamento de natureza de sátira como paródia do que aconteceu dois anos antes do incêndio das padarias, etc... " - Palacky, "G.v.B. ", III, pp. 277-278 - Nota do autor. Obs.: no original russo esse texto está em alemão. dida do possível, conhecida de poucos. O senhor, padre Hilário, provavelmente, está bem informado de tudo e poderá explicar bastante. Estou muito interessado em conhecer os detalhes da cerimônia sacrílega que presenciei hoje. - Sim, reverendíssirno! Sacrilégios por aqui acontecem todos os dias e o que a alma cristã é obrigada a suportar, ouvindo zombarias e ofensas a tudo que é santo, nem dá para descrever! Mas, com sua autorização, tentarei descrever em todos os detalhes as bacanais realizadas pelos hereges durante a estada do digníssimo Vetsel Tim por aqui.
E, com frases cheias de fel, começou a descrever cenas de violência que teriam acompanhado as vendas de indulgências, atribuindo todo o mal à maldita e criminosa atividade de Jan Huss e Jerônimo. - Esses dois hereges, criados pelo próprio inferno, contaminaram toda a Boêmia! Deus sabe a que ponto isso pode chegar se o Santo Padre não tomar a tempo medidas severas contra esses revoltosos, que ousam cuspir naquilo que deveriam respeitar. Ninguém do clero pode garantir a própria segurança! - Exclamou Hilário, com o rosto vermelho de indignação. - É preciso calar a boca desse homem blasfemo chamado Huss e proibi-lo de pregar: ele ousa publicamente envergonhar o Papa, negar o poder de suas indulgências e, com seus discursos, agita a população. Ainda ontem, por sua iniciativa, houve um debate na universidade e um dos professores chamou-lhe a atenção diante dos outros, dizendo: "Você também é um sacerdote e ofende o clero. O pássaro que suja o próprio ninho não presta".
Então, todos começaram a zombar desse professor e Jerônimo pronunciou um discurso tão inflamado que os estudantes carregaram-no nos ombros. Quanto à procissão achincalhada que o reverendíssirno teve a infelicidade de presenciar, ela foi idéia do conde Vok Valdstein, que perdeu completamente a cabeça na heresia e na devassidão. Só posso atribuir à loucura ou à possessão diabólica a insolência de conduzir pela cidade mulheres vadias vestindo bulas papais. E, meu Deus, tantas coisas mais eles fizeram! Sobre o fosso da "Cidade Nova", eles colocaram um cadafalso; embaixo dele, acenderam uma fogueira na qual queimaram bulas; por zombaria, colocaram por perto uma caixa semelhante àquelas onde os fiéis colocam o dinheiro pelas indulgências, e começaram a jogar imundícies dentro dela. O povo ficou tão excitado que quando eu e o irmão Bojek, do mosteiro de Strakhov, voltávamos para a "Cidade Velha", a multidão gritava em nossa direção: "Pega! Pega os monges!". - Que canalhas! Espero que mais de um desses queime na fogueira no lugar das bulas! - Murmurou, irado, Brancassis. - Oh!
No dia em que queimarem Huss e Jerônimo, cantarei aleluias desde manhã até a noite! - Sibilava Hilário, e os seus pequeninos e anuviados olhos brilhavam maléficos. - Primeiramente - observou Brancassis -, o arcebispo deve queixar-se ao rei e Vok Valdstein deve ser excomungado. - Isso não vai levar a nada, reverendíssimo! Ninguém liga para as ordens do arcebispo e os hereges tanto convenceram o rei de que os enviados do Papa estariam roubando e arrasando o país, que este até escreveu uma carta mal-educada ao santíssimo. O conde Vok ainda ontem se gabava disso e lia a carta ao Huss. Ela começa assim -anotei o que pude: "Santíssimo padre! Para nossa profunda surpresa, soubemos com que ousadia, ganância e insolência agem os emissários do vosso Santo Padre, que pregam uma cruzada no nosso reino da Boêmia. Aos que pagam, eles prometem o reino dos céus que, entretanto,
pelo nosso entendimento, se consegue somente com boas ações" ... Por esse início, o senhor pode imaginar o resto! - Concluiu Hilário. Depois de longas confabulações, durante as quais o cardeal inquiriu cuidadosamente Hilário sobre Vok Valdstein, seu pai e outros senhores, partidários de Huss, ele dispensou o monge, ordenando-lhe que avisasse a condessa Iana que iria visitá-la dentro de dois dias, para não encontrar os dois condes que viajariam por uns dias a Totchnik, onde estava a corte. Nenhum dos eminentes interlocutores percebeu que o pajem de Brancassis, que fora por ele mandado dormir, escondera-se na cortina e não perdera uma palavra daquela conversa. Quando Hilário começou
88 Pelzel, p. 622 - Nota do autor. a se despedir, ele desapareceu como uma sombra e, esticando-se no seu catre, fingiu dormir. Era um bonito jovem, de altura média e muito esbelto, até magro; o rosto pálido era emoldurado por cabelos loiro-ruivos de cor quase metálica; os olhos castanhos, bonitos e lânguidos olhavam sombriamente, principalmente quando, enrolando-se no cobertor, ele sussurrou: - Com quantos malefícios e lágrimas de sangue cobrirá o seu caminho esse bando de patifes! Dois dias depois, encontramos Brancassis em companhia de sua prima, no palácio dos Valdstein. A condessa estava sentava com os olhos cheios de lágrimas; ela havia contado ao cardeal a sua desgraça quanto à ostensiva heresia do marido e do filho e, preocupada, tentava obter dele a informação se a indulgência que possuía seria suficiente para pagar a apostasia dos dois. Brancassis acalmou-a sobre isso, mas, mesmo assim, aconselhou-a, por garantia, a adquirir uma indulgência especial daquelas que a generosidade do Santo Padre oferecia agora aos fiéis.
A recusa de Brancassis em instalar-se em sua casa custou à condessa ainda mais lágrimas. - Entenda, madonna Iana - disse o cardeal, comovido pelo seu desespero -, que um príncipe da Igreja não pode utilizar a hospitalidade de hereges, que ofendem o que é sagrado para ele. Mas virei visitá-la assiduamente e espero que ambos os condes, em respeito a mim como parente e à minha posição, evitem me ofender abertamente. O cardeal perguntou, então, se a heresia afetara igualmente a Rugena. - Infelizmente, sim! Seu confessor é Huss e isso explica tudo. Seu comportamento, entretanto, é irrepreensível. Gostaria de vê-la, primo Tomasso? Ela foi acompanhar o meu marido e Vok, mas deve voltar a qualquer momento. Parece que já chegou, pois ouço o tropel de cavalos. Brancassis aproximou-se da janela e levantou a ponta da cortina abaixada. Seus olhos abriram-se de espanto quando viu Rugena, que chegava com Ana, Broda e Matias. Ela montava um belo cavalo branco, coberto por uma rica manta, e manejava-o habilmente.
A rápida corrida cobrira de um tom róseo suas normalmente pálidas faces; o vestido de veludo, negro e justo, destacava sua esbelta figura, e mechas de cabelos dourados, desarrumados pelo vento, brilhavam ao sol. Um rubor cobriu repentinamente o rosto do cardeal e seus olhos negros acenderam-se. Todavia, Brancassis era mestre em esconder sentimentos e, quando se afastou da janela, seu rosto já tinha assumido uma expressão indiferente. - A mulher confirmou o que a criança prometia. - Observou ele, paternalmente. - A condessa Rugena é encantadora e ficarei feliz em ser reapresentado a ela. Aceito o seu convite, madonna Giovanna, e fico para almoçar com a senhora e sua querida nora. Rugena recebeu Brancassis com contenção, mas respeitosamente; a maneira dele de se comportar e sua noção de alta posição incutiamlhe o devido respeito. Apesar do livre-pensar dela, o respeito natural ao clero, reinante no espírito da época, não podia deixar de afetá-la. No entanto, quando o amável cardeal começou a conversar amigavelmente com ela sobre o passado e lembrou-lhe do pai, a desconfiança de Rugena desapareceu completamente.
As palavras de Brancassis reviveram suas recordações da infância, e ela lembrou que o havia visto no castelo dos Rabstein, na véspera do dia fatal quando o barão Svetomir fora embora e voltara num caixão. Na época, o pai parecia ter relações amigáveis com o prelado, e fora ele a receber seu último suspiro. Todas aquelas circunstâncias favoreciam a Brancassis e, ao despedir-se, Rugena, inocentemente, pediu-lhe a bênção. A partir daquele dia, o cardeal tornou-se um assíduo visitante do palácio dos Valdstein, e o mais surpreendente é que era bem-recebido tanto pela jovem quanto pela velha condessa. Vok, descontente com aquelas visitas, brigava com elas; estava plenamente convencido de que Brancassis era um estelionatário, como a maioria do clero. Mas a fiel esposa acalmava-o e ele já não tinha vontade de discutir com a mãe.
Além disso, o jovem conde era por demais despreocupado para ficar por longo tempo com pensamentos sombrios e, durante as suas freqüentes e prolongadas ausências, provocadas pelo serviço ao rei, ele se distraía tanto que por vezes até se esquecia da existência do "espião do Papa" como ele apelidara Brancassis. Vok nem suspeitava da ameaça que pairava sobre sua cabeça, ardilosamente preparada pelo esperto italiano que o odiava duplamente por ser sacrílego e por ser marido de Rugena. Este segundo motivo era até maior, pois a grande beleza da mulher e a sua pureza espiritual eram uma isca especial para um cínico como Brancassis, cansado de tudo na vida. Na negra alma do cardeal acendera-se uma ameaçadora paixão que crescia a cada dia. Amoral por natureza, sem restrições às suas vontades, ele ansiava por possuir Rugena de qualquer jeito - por esperteza ou força. A mente maléfica, então, imaginou um plano diabólico no qual, antes de tudo, era preciso separar o casal para sempre.
Era necessário penetrar na confiança de Rugena e ele conseguiu comprá-la com a fingida bondade e com a misericórdia cristã com que se referia aos acontecimentos. E quando Rugena tomou coragem para falar de seu confessor, tentando justificá-lo em face das acusações que caíam sobre ele, Brancassis ouviu-a com falsa condescendência. Mesmo rejeitando o convite para um encontro pessoal com Huss, prometeu usar de sua influência junto ao Papa para pôr um fim ao processo contra ele, como se estivesse convencido de que Huss era, na verdade, um dedicado filho da Igreja que se encontrava confuso pelo esforço exagerado em busca da verdade.
Capítulo V
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.