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Capítulo 1 de 51
Parte 1 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
Romance histórico da época do despertar da consciência nacional tcheca.
A obra recebeu MENÇÃO HONROSA da Academia Imperial de Ciências da Rússia
Texto em tcheco: "Exaltemos solenemente a fama dos gloriosos Eslavos da obra "Slavy Dcery" de Jan Kolar
Texto em alemão: "Você se acha inatingível? neste caso, lá embaixo existem as florestas da Boêmia que agitam a sua folhagem em sonolenta e silenciosa paz. Aquele é o mundo do povo Eslavo! Quando este mundo acordar será um adeus à velha Europa!" Max Haushofer
Editora Cooperativista PETROGRADO
Prefácio
A questão Kardec –JHuss
Quando recebemos a tradução deste novo romance de J.W. Rochester, Os Luminares Tchecos, originalmente editado em russo no ano de 1915, interessou-nos profundamente saber que Jan Huss1 era um dos personagens. Vários autores, desde a afirmação do Espiritismo como Ciência, Filosofia e Religião, têm citado o fato de haver sido Jan Huss, uma das encarnações de Kardec.
O próprio Rochester, em outro livro seu, Herculanum, editado em 1888, escreve sobre isso. Na segunda parte do livro citado, de nome
Júpiter e Jesus, no primeiro capítulo, "O Eremita", encontramos o relato do encontro do patrício Caius Lucilius com um eremita, pai João. O patrício Caius fora ferido na fuga da cidade de Herculanum - atingida pela erupção do Vesúvio -, tendo sido encontrado e salvo pelo velho e solitário cristão. Durante sua convalescença, interessara-se pelo cristianismo, acabando por se converter ao ouvir pai João falar sobre Jesus. O eremita pai João contara ao rapaz sobre o tempo em que, servindo como soldado na Galiléia, tivera ocasião de conhecer Jesus. Como centurião Quirilius, recebera a tarefa de penetrar nas assembléias dos seguidores do Nazareno e, estando lá, comovera-se com a
figura e a palavra do Cristo. Mais tarde, quando Jesus estivera preso, sendo o responsável pela sua guarda, oferecera-lhe fuga, propondo-se
1 Jan Huss: sacerdote tcheco, reformador religioso, mártir e precursor da Reforma Protestante. 2 Herculanum foi editado no Brasil pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1937. a Consulta feita em exemplar da 10 edição de 1995. 3 Obra citada, p. 173. 4 Obra citada, pp. 187-188.
a ficar em seu lugar. Ao agradecer, Jesus relatara-lhe que ainda iria morrer por ele, mas isso seria em um futuro mais distante. É quando pai João conta ao patrício que tivera um sonho profético, assegurandolhe essa glória para uma existência futura. Nesse momento Rochester coloca uma nota de rodapé explicando que esse evento se deu vários séculos depois, quando Pai João, reen-
carnado como Jan Huss, morreu queimado em Constança em 1415. No epílogo do mesmo livro - "As sombras da cidade morta" , Rochester relata o encontro, séculos depois, de Caius, isto é, ele mesmo,
Rochester, com Allan Kardec. Caius-Rochester dirige-se a Kardec: "Tu mesmo, tu, valoroso centurião que não há muito foste Allan Kardec; tu que na última encarnação te devotaste à fundação de uma doutrina que esclarece e consola a humanidade, quantos dissabores que não amargaste". Na afirmação de Caius-Rochester, fica claro, pela maneira que o texto se coloca, que o centurião Quirilius (pai João), Jan Huss e Allan Kardec teriam sido a reencarnação de um mesmo espírito. Em nossa pesquisa encontramos outras afirmações sobre essas encarnações. Em um dos números do jornal Mundo Espírita8 há uma reportagem, de autoria não especificada, que afirma: "Segundo os anais espíritas fidedignos, Allan Kardec (1804-1869), o Codificador do Espiritismo, foi a reencarnação de Jan Huss (1369-1415)". O autor infelizmente não esclarece quais seriam esses "anais espíritas fidedignos", mas nos remete ao livro A Missão de Allan Kardec, de autoria de Car-
los Imbassahy. Nesse livro, em sua primeira parte, há um capítulo sobre Jan Huss. É lá que as fontes da afirmação acima são especificadas. Citando o Dr. Canuto Abreu, Carlos Imbassahy relata que a informação de que Allan
5 Obra citada, p. 191. 6 Obra citada, p. 192 7 Obra citada, pp. 350-353. Referimo-nos aqui quando nomeamos Allan Kardec a Hippolyte Léon Denizard Rivail, codificador do Espiritismo, desencarnado em 1869. 8 Jornal Mundo Espírita, edição n* 1.3 74, Curitiba, janeiro de 1999, p. 6. 9 A Missão de Allan Kardec, de Carlos Imbassahy, edição da Federação Espirita do Paraná, Curitiba, 2* edição de 1988, sendo a primeira edição de1957. Kardec fora Jan Huss data de 1857. Acrescenta que a informação veio por via medianímica pela psicografia de Ermance Dufaux.10 Segundo o Dr. Canuto Abreu, as fontes estavam, em 1921, na Livraria de Leymarie; ali, ele as copiara na sua quase totalidade. Em 1925 passaram para o arquivo da Maison dês Spirites. Durante a invasão de Paris, em 1940, os alemães as destruíram.11 Endossando as informações do Dr. Canuto Abreu encontramos na literatura espírita mais algumas assertivas a respeito. No livro de Victor Hugo, pela psicografia de Zilda Gama, O Solar de Apoio12, encontramos confirmação do famoso escritor de que Allan Kardec foi a re-
encarnação de Jan Huss. Ainda mais interessante foi a leitura do livro Léon Denis na intimidade, mais especificadamente o prefácio de Wallace Leal Rodri-
gues. Destacamos desse prefácio um trecho do artigo de Léon Denis para a Revue Spírite de janeiro de 1923, sob o título de "L'Spiritisme: Ia Theorie et lês Facts": "Há uma misteriosa ligação entre o discípulo e o Mestre? Reparemos em que meu nome está incrustado no de Allan Kardec que, na realidade, se chamava: Hippolyte Léon Denisard Rivail". Analisando a ligação supracitada entre o discípulo (Denis) e o Mestre (Kardec), Wallace Leal Rodrigues informa que: "Eruditos e estudiosos que tiveram acesso aos documentos particulares da Sociedade Espírita de Paris afirmam que os espíritos teriam revelado a Allan Kardec, além de sua encarnação como druida, sua vida na Boêmia, sob a personalidade de Jan Huss. Nesse caso encontramos uma valiosa pista para a compreensão dessas 'vidas quase de todo apagadas e dessa misteriosa ligação através de Jerônimo de Praga, guia espiritual de
Uma das médiuns que participaram de O Livro dos Espíritos. 11 2 Obra citada na nota n 8, p. 43 12 a O Solar de Apoio, romance mediúnico pelo espírito de Victor Hugo, psicografia de Zilda Gama, 6 edição, São Paulo, Lake, 1992.
Obra citada acima, p. 98.
Léon Denis na intimidade, de Claire Baumard (1872-1961), tradução e prefácio de Wallace Leal Rodrigues, datado de 1981. Edição da Casa Editora O Clarim, de Matão (SP) Léon Denis e que foi, igualmente, o maior amigo e o mais eminente discípulo de Jan Huss".15 Além desses dois, uma terceira pessoa é fundamental nessa articulação histórica: o reformador inglês John Wyclif. Quando moço, Jerônimo estudara na Inglaterra e fora bastante influenciado pelas idéias
de Wyclif, as quais mais tarde iria levar ao conhecimento de Jan Huss. O que mais nos interessa retirar desse interessante prefácio é a hipótese levantada pelo autor: Allan Kardec seria Jan Huss reencarnado e Léon Denis seria John Wyclif reencarnado, tendo como guia espiritual o espírito de Jerônimo de Praga. Mais provas sobre Denis ter sido reencarnação de J. Wyclif não são apresentadas, mas a argumentação do autor tem forte embasamento.17 Finalizando nossa pesquisa de fontes complementares para a assertiva de que Kardec foi Huss remetemo-nos a um artigo de Hermínio Miranda no Jornal Espírita da Feesp.18 Nesse artigo, o consagrado estudioso espírita analisa duas comu-
nicações na Revista Espírita de 1869, datada a primeira de 14 de agosto de 1869, assinada por Jan Huss, e outra comunicação de 17 agosto de 1869, assinada por Allan Kardec. Segundo Hermínio Miranda, na segunda comunicação Kardec sutilmente confirma que foi Jan Huss. Confiando nas assertivas expostas até aqui, só podemos aceitar a veracidade da afirmação de que o espírito de Allan Kardec foi o mesmo espírito que animou o corpo carnal de Jan Huss. É com a aceitação dessa verdade que voltamos ao livro Herculanum com que iniciamos este prefácio. Vimos que Rochester conta que o eremita pai João, que ajudou e converteu o patrício Caius, foi posteriormente Jan Huss. Ora, sendo
Obra citada, pp. 28-30.
A relação histórica entre J. Huss, J. Wyclif e Jerônimo de Praga já foi abortada na introdução e será mais esmiuçada no decorrer do livro pelo próprio Rochester.
Para essa questão indicamos o livro Allan Kardec, o druida reencarnado, de Eduardo C. Monteiro, 3ª.ed., 1998, São Paulo, Editora Espírita Eldorado-EME.
Jornal Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo, no. 90, ano VIII, dezembro de 1982
Revista Espírita de 1869, pp. 270-272, conforme citação do autor do artigo. isso válido, o centurião Quirilius, nome e cargo de pai João quando mais moço, que se oferece para ficar em lugar de Jesus, tinha em si o mesmo espírito que 19 séculos depois habitaria o corpo de Allan Kar-
dec, o codificador do Espiritismo. É desta forma que encerramos este prefácio iniciado com a intenção de expor algumas fontes da afirmação de que Allan Kardec foi a reencarnação de Jan Huss, com a frase em que o futuro professor Hippolyte Léon Denisard Rivail (Kardec), então como o centurião Quirilius, pede a Jesus que o deixe morrer em seu lugar: "Deixa-me morrer em teu lugar, porque a vida de um soldado obscuro não vale a de quem, como tu, é providencial e benéfica aos enfermos e desgraçados..." Orphila Conte Rodrigues Solange Vaz Maurício Brandão
"Sobre o encontro do centurião com Jesus, ver Herculanum, p. 191, e a nota de rodapé em que Rochester esclarece que futuramente ele será Jan Huss na página seguinte, 192.
Bibliografia
AUTOR NÃO ESPECIFICADO. Jornal Mundo Espírita n 1.374. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, janeiro de 1999. a HUGO, Victor (espírito) e GAMA, Zilda (médium). O Solar de Apoio. 6 ed. São Paulo: Lake, 1922. a IMBASSAHY, Carlos. A Missão de Allan Kardec. 2- ed. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, 1998.
MIRANDA, Hermínio. Jornal Espírita, ano VIII, n 90, São Paulo: Federação Espírita do Estado de São Paulo, dezembro de 1982. a MONTEIRO, Eduardo C. Allan Kardec, o Druida Reencarnado. 3 ed. Capivari: Editora Espírita Eldorado de São Paulo/Sociedade Espírita Anália Franco, EME, 1998. ROCHESTER, J.W. (espírito) e KRIJANOWSKY, Wera (médium). Herculaa num. 10 ed. Rio de Janeiro: Federação Brasileira, 1995. RODRIGUES, Wallace Leal. "Prefácio" de: BAUMARD, Claire. Léon Denis na intimidade. Matão: O Clarim, 1981.
Um pouco de História
O Tempo das Deformas
Somos todos hussitas. Lutero
Em que contexto histórico podemos situar a vida e a obra de Jan
Huss, sacerdote, mártir e reformador tcheco, personagem principal do livro? Qual era o panorama político-religioso europeu nos séculos XIV e XV, época em que Huss viveu? Em termos de história das religiões e da Igreja, com todo o seu significado espiritual e político, Jan Huss, seu amigo e principal discípulo, Jerônimo de Praga, bem como o reformador e pensador inglês John Wyclif, que muito os influenciou, pertencem ao período que a historiografia mais tradicional denominava como "a época da préreforma da Igreja". Seguindo o ponto de vista do historiador francês Pierre Chaunu, em magnífica obra - O Tempo das Reformas - que indicamos a todos, situamo-lo dentro do contexto do que ele chama de Primeira Fase da Reforma. Cronologicamente, o processo de transformação da cristandade latina inicia-se nos séculos XIV e XV, Essa chamada "pré-reforma" e as reformas protestantes do século XVI são perfeitamente solidárias. São tipicamente reformas da Igreja, questionam simultaneamente a relação com Deus - que desejam mais pessoal - e os fundamentos da dogmática, não para modificá-la mas para melhor fundamentá-la, para defendê-la, para preservar a sua identidade. Os reformadores da Igreja querem estar na Igreja, não aceitam ser afastados, não se consideram heréticos. É nesse sentido que existe toda uma linha de continuidade entre Wyclif, Huss, Lutero e Calvino.
Em outros livros editados no Brasil que se referem a ele também é chamado de John ou João Huss; adotaremos aqui a denominação Jan por considerarmos mais adequada.
Europa no século XV
A bela cidade de Praga, onde J.Huss viveu e pregou
As origens Igreja e Estado política e religião
Desde o Edito de Milão do Imperador Constantino no começo do século IV e da oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano pelo Imperador Teodósio, que a utilização da Igreja e da religião como instrumento político por parte de imperadores, reis, príncipes e duques foi uma constante. Paralelamente, por parte da Igreja Católica era hábito comum e corriqueiro a sua participação e ingerência em todos os assuntos da vida política e econômica do mundo secular. Se hoje já podemos exercer em muitos países uma prática religiosa como manifestação de crença do indivíduo, manifestação de uma convicção íntima, isso não foi o que ocorreu na maior parte da história do cristianismo. Em muitos casos a relação das entidades institucionais religiosas com os estados, com a política, foi embaraçosa e vergonhosa. A partir do século XI, com o fim das invasões dos chamados "povos bárbaros", a Europa entrou em fase de expansão.
O revivescimento do comércio que se seguiu teve um efeito perturbador sobre a sociedade feudal. A uma civilização exclusivamente rural sucedeu uma civilização cada vez mais de cidades e de mercadores. Concomitantemente a isso, a disputa entre o papado e os estados pelos poderes temporal e espiritual acirrou-se ainda mais. O Papa passou a envolver-se em diversos conflitos políticos com as monarquias medievais. Exemplo marcante desse conflito foi a questão das investiduras, quando o Papa chocou-se com o imperador alemão a respeito de quem teria o direito de nomear sacerdotes para cargos eclesiásticos. No século XI, o papado iniciou uma série de reformas internas na Igreja. Os costumes do clero eram vergonhosos, sombrios; os dois principais "vícios" do momento eram constantemente denunciados: a simonia - ação de obter por meio de influência ou em troca de uma soma em dinheiro um ofício divino - e o nicolaísmo - na linguagem corrente, recusa do celibato dos sacerdotes. Ao mesmo tempo em que realiza a reforma interna, o papado afirma a intenção de retomar a independência da Igreja.
Proclama o primado absoluto de Roma sobre a Igreja e o conjunto da cristandade, e proíbe o imperador de "investir" sacerdotes em cargos eclesiásticos. No século XIII, o poder papal atingira o apogeu. O Império germânico, aparentemente o estado mais forte da cristandade de então, tinha sido forçado a ceder, se não a todas, pelo menos a muitas das exigências papais. A excomunhão, instrumento brandido por uma diplomacia oportunista e brilhante, conseguira muitas vitórias. Na época do Concilio de Latrão, em 1215, o papa Inocêncio III sonhava em instaurar uma espécie de teocracia, por meio da qual todos os príncipes temporais submeter-se-iam ao patronato do Papa, vigário do Cristo.
As heresias
Esse longo período de liberalização do culto, oficialização do cristianismo, conversão dos povos "pagãos", expansão e fortalecimento do poder da Igreja estende-se basicamente do século III ao século XII- I. Foi o período em que o cristianismo deixou de ser uma religião considerada herética e perseguida e passou a ser a religião dominante em toda a Europa. Infelizmente, a mesma intolerância que os cristãos dos primeiros séculos sofreram, a Igreja cristã - assim que se viu oficial - passou a praticar, datando desde o século IV as primeiras perseguições e acusações de heresia a todos os que divergissem da ortodoxia oficial. Na mesma medida em que sofreu, perseguiu. Durante os séculos que se seguiram, afirmou-se uma série de seitas ou heresias; por sua atitude decididamente anti-hierárquica, hostil a Roma, essas seitas passaram a ameaçar seriamente a unidade espiritual do mundo cristão do Ocidente. A exaltação religiosa, as aspirações apocalípticas, as esperanças milenaristas, os questionamentos sociais, os sentimentos nacionais - tudo isso multiplicava a força desses movimentos "heréticos".
Rejeitavam a autoridade dos bispos e do Papa, e mesmo por vezes a dos soberanos. Proclamavam insistentemente a necessidade de uma renovação moral. Isso traduzia-se freqüentemente pela nostalgia de uma Igreja primitiva, evangélica, considerada como um modelo de pureza, pela vontade de retornar a uma ordem moral antiga - a dos primeiros tempos do cristianismo. De qualquer maneira, essas heresias rejeitavam a Igreja constituída, recusando a missa e a comunhão, todo o clero romano, o culto da Virgem e o dos santos. Esses movimentos apoiavam-se estritamente numa determinada interpretação do Novo Testamento. Dentre esses movimentos destacamos o dos patarinos, o dos cátaros, o dos albigenses e o dos valdenses.
As correntes de pensamento
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.