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Capítulo 8 de 51
Parte 8 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
enganos. -Vou sempre permanecer um pacato e obediente filho da Igreja Católica. Sou atraído para Wyclif pela fama que goza entre o bom clero na universidade de Oxford e entre o povo em geral, e não entre
Sebranè spisy (Coletânea de documentos). II, 305, III, 147 - Nota do autor.
"Pierre Chaunu, em obra citada na bibliografia da introdução histórica,confirma as diferenças entre os dois pensadores. Selecionamos um trecho: "Wyclif é sistemático, Huss é pastoral. Huss mantém uma concepção dos sacramentos em que rejeita a tentação wyclifiana que fazia depender a validade dos sacramentos da dignidade do padre. Sobretudo, Huss permanece fiel à concepção medieval tradicional do sacramento da consagração. Sua piedade eucarística defendia o realismo da presença divina, aponto de estimular um movimento que acabou por se definir por uma fidelidade ao cálice. Mantinha-se firme na transubstanciação " (Chaunu 1975, p. 237) - Nota da editora.
os maus, cobiçosos, pomposos e depravados prelados. Sou atraído por seu amor à lei de Cristo para a qual ele tenta, com todas as suas forças, atrair as pessoas. Contudo, o que mais atraiu minha atenção a Wyclif foi o fato de seus ensinamentos serem muito parecidos com os de Mathias de Janow, nosso famoso pregador que, como Wyclif, reconhecia Cristo como o único e legítimo chefe da Igreja e as sagradas escrituras como perfeitas instruções para a humanidade. A Igreja perdeu o espírito evangélico e afundou-se na confusão das idéias humanas, das formas mortas, dos pequenos detalhes e fórmulas de direito canônico nos quais qualquer teólogo se perderia e dos quais um simples leigo nada iria entender. Mathias de Janow e Wyclif concordam que, para ressuscitar a fé e conduzir a Igreja a uma unificação e à paz, é preciso retornar à iluminada simplicidade da palavra divina e do espírito vivo da sagrada escritura, pregando continuamente em todos os lugares numa língua que todos entendam.
Pois, repito, foi essa semelhança de opiniões com o venerado Mathias que me atraiu ao filósofo inglês. - Bem, já que falamos de Mathias, estou plenamente de acordo com você. - Disse Stanislau, entusiasmado. -Nós, por direito, podemos nos orgulhar de Mathias e de seu mestre Milic - valorosos lutadores não só pela fé de Cristo mas também pelos direitos do nosso povo. - Eles lutavam pela verdadeira Igreja, contra a alemã com seus indignos representantes, e pela liberdade do povo tcheco contra as pretensões dos estrangeiros! Então, caros amigos, como chegamos agora a um consenso, pedirei para guardarmos as discussões para mais tarde e reforçarmo-nos com uma taça de vinho e um pedaço de caça. - Observou Jerônimo, alegremente, levantando-se. Todos seguiram seu exemplo e sentaram-se em volta da mesa, sobre a qual havia uma jarra de vinho, uma torta, caça fria e presunto.
Durante a refeição, a conversa prosseguiu com o mesmo entusiasmo, mas sobre um outro tema que girava em torno da vida universitária e dos inúmeros acontecimentos que haviam ocorrido durante a estada de Jerônimo fora do país e desconhecidos para ele. Naqueles tempos agitados de discórdias políticas e religiosas, a universidade de Praga desempenhava um papel primordial. Fundada pelo imperador Carlos IV, pai de Venceslau, nos moldes da universidade de Paris, ricamente dotada e cercada de amplos privilégios, a universidade de Praga desenvolvia-se rapidamente e contava no período de 1372-1389 com até 12 mil alunos e mestres. Todavia, essa calma e brilhante aparência já ocultava o início da discórdia; aquele ódio popular, que na época rondava por toda a Boêmia, fartava-se nas próprias instalações universitárias. Da mesma forma que o protótipo de Paris, a alma mater de Praga dividia-se em raças: saxônica, bavária, polonesa e tcheca.
Em teoria, essa divisão representava nas eleições universitárias dois votos aos alemães e dois aos eslavos; mas, na prática, a facção polonesa era eslava somente no nome, pois a ela pertenciam algumas províncias alemãs. Por isso, a supremacia estava do lado dos alemães, que tinham três votos contra um tcheco. Essa situação era insuportável ao orgulho e ao interesse do povo. Em 1384, aconteceram grandes desordens. Os tchecos protestaram contra a apropriação por parte dos alemães de todas as cátedras de professores e de todos os cargos de reitores e decanos, contra a injusta
entrega aos estrangeiros de todas as prebendas e de todos os postos bem localizados que davam melhores lucros e grande influência sobre o povo. A ostensiva discórdia explodiu por motivo das eleições para um dos mais ricos colegiados, mais exatamente o colegiado de Carlos, que os tchecos não suportariam ver como de exclusividade dos alemães. A discussão saiu da universidade e tomou conta de toda a Praga; aconteceram combates sangrentos e o reitor Konrad Soltou - um alemão - foi agarrado e espancado impiedosamente por uma multidão de jovens tchecos mascarados. Quando ele ordenou que fossem suspensos as aulas e os exames, esperando com essa medida extraordinária forçar o inimigo a retroceder, os estudantes tchecos, bem armados, reuniram-se na universidade e seus mestres e bacharéis continuaram as aulas. O rei e o arcebispo de Praga, Jan de Jenstein, ficaram do lado dos tchecos e
Pagamentos ao clero por realização de cultos religiosos - Nota do autor.
este último decretou que todas as cadeiras do colegiado de Carlos deveriam ser, doravante, ocupadas por tchecos. Os alemães tentaram reagir, mas depois acabaram cedendo e assinando esse compromisso. Essa paz, entretanto, foi só aparente e a inimizade continuou, por vezes oculta, por vezes ostensiva. Esses acontecimentos, ilustrando a eterna luta do povo por sua sobrevivência, foram contados a Jerônimo pelos amigos reunidos naquele dia em sua casa. O orador principal foi o impetuoso lakubek, que - com sua característica espirituosidade - descrevia o confronto ocorrido no ano anterior, provocado por intrigas de professores alemães do colegiado "Todos os Santos", que haviam tentado impedir um tcheco de ocupar uma vaga aberta. - Você devia ver como todos ficaram furiosos com o sucesso dessa intriga. Tinham raiva especialmente do mestre Gubner, o mentor da trama. Esse empertigado cão alemão está sempre pronto a dilacerar qualquer tcheco; aquele seu sucesso transbordava como a espuma da caneca de cerveja e ele ironizava abertamente a nossa derrota. Estéfano de Colônia respondeu-lhe do púlpito da capela de Belém, com um discurso tão forte que o sermão agitou a população.
Acendeu-se a insatisfação contra os alemães e Gubner, ao voltar para casa à noite, foi ferido na cabeça por uma pedrada, conseguindo escapar só com um arranhão... - Que pena!... - Observou Jerônimo. - Pois é! Mas, ao sarar, isso não o impediu de proferir um inflamado discurso na reunião das raças germânicas contra a capela de Belém e contra o "ímpio clero que, criminosamente, ousava pregar no bárbaro jargão tcheco, próprio da plebe e indigno da Igreja, semeando a discórdia e excitando paixões". Como conseqüência do seu discurso, no domingo seguinte, uma multidão de cidadãos, encabeçada pelo rico açougueiro Kunts Leinhardt, reuniu-se diante da capela, começou a ofender os fiéis que lá entravam e tentou ele próprio entrar, para provocar a desordem. Rechaçados à força, os alemães começaram a briga, que terminou muito mal para eles, pois éramos em maior número. Além disso, a guarda da cidade também interferiu. Houve, entretanto, mortos e feridos, inclusive algumas mulheres que não tiveram tempo de se salvar na correria e foram pisoteadas.
Os oponentes se separaram, ruminando ódio um contra o outro. À noite, quando Gubner e seu irmão Lutz voltavam para casa, foram atacados por uma turba de mascarados que os surrou impiedosamente. Lutz Gubner recebeu uma facada e, em conseqüência disso, morreu alguns dias depois. Por isso, o bando de Gubner foi se queixar ao rei, que na época vivia no monte Kutná, mas receberam uma bofetada... Ah! Ah! Ah! - E lakubek desandou a rir. - Naquele momento Venceslau tinha acabado de receber a notícia de que os dignatários imperiais haviam tirado dele o título de imperador, acusando-o de não ajudar a promover a paz na Igreja e com isso reduzir a importância do Império, de não cumprir a paz latifundiária e de executar inúmeros atos de crueldade e violência. Isso, entretanto, deixou o povo substancialmente aliviado dos impostos e agora se pode andar por toda a Boêmia com um saco de dinheiro na cabeça sem nenhum perigo. Bem, o rei estava tão irado por ser substituído por Ruprecht Palatino, que tinha eólicas só de ouvir falar a palavra alemão.
Imagine quão amavelmente ele recebeu a delegação. O sobrinho do senhor Zmirzlik, presente à recepção, contava que o rei ficou tremendo de raiva e nem quis ouvir os queixosos. Aos gritos, ele disse estar saturado das indignações e das insolentes exigências dos alemães. Disse também que, se eles mais uma vez ousassem discutir com seus fiéis súditos tchecos, provocar agitações e interferir no que acontece na capela de Belém e na língua em que é feita a pregação, ele iria presenteá-los com o mesmo que Jan de Nepomuceno e seus companheiros receberam e ainda lhes proporcionaria um banho no rio Vltava. A delegação voltou assustada e, depois disso, amansou; mas fazem de conta que estão do lado de Ruprecht. Uma explosão de riso acompanhou as palavras de lakubek. - Pois é. A nossa capela de Belém é um cisco em seu olho. - Observou Huss. - Mas para o nosso povo ela é a fonte de luz, fé e força. - Benditos aqueles que abriram essa fonte!
Honra, saúde e longa vida aos magnânimos patriotas: o cavaleiro Hanuch de Mülhein e o mercador Krenz! - Exclamou Jerônimo, levantando a taça. - Salve a Boêmia e a sua liberdade! - Bradaram todos, levantando as taças e bebendo.
Capítulo V
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.