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Capítulo 13 de 51

Parte 13 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

dar a ambos para a fogueira". Os dois tagarelas, Huss e Jerônimo, ficaram totalmente chocados com as palavras do rei e saíram sem nada dizer. Mas a partir daí todo o covil tcheco se agitou. Durante todo dia

na casa de Zmirzlik aconteceram reuniões - vi isso daqui da janela.

Palácio no monte Kutná - Nota do tradutor.

Palacky, "G. v. B. ", parte III, p. 230 - Nota do autor.

Gelfert, "Huss und Hieronymus ", p. 103 - Nota do autor. Olhe lá, mais três estão saindo da casa em frente; eles confabularam durante mais de duas horas. O burguês inclinou-se curioso para a janela e viu três homens que naquele momento passavam perto da casa de Gubner. - Um deles é Nikolai Lobkovitz, o outro é Simon Tichkov, mas quem é aquele bonito jovem de capa azul? - E o jovem conde Vok von-Valdstein. Ele fez uma viagem ao estrangeiro e retornou logo antes da viagem do rei à Silésia. Mas vamos voltar ao nosso assunto. - Respondeu Gubner, voltando a sentar-se na poltrona. - O senhor disse ao entrar, caro mestre Kunts, que o trouxe aqui um assunto importante, mas depois nos distraímos. Agora estou inteiramente à sua disposição e quero muito lhe ser útil. Kunts Leinhardt assumiu uma pose pomposa e, após esvaziar a taça de vinho posta à sua frente, disse: - Sim, caríssimo mestre Gubner, vim tratar de um assunto importante. Estou aqui como enviado de meu filho Guints para pedir a mão de sua encantadora sobrinha Marga.

Meu menino está loucamente apaixonado por ela e, se o senhor não tiver nada contra a união de nossas famílias, então suponho que ficará satisfeito com o que estou preparando ao Guints e à sua jovem esposa. Comprei para eles a usina de cerveja do velho Kloper, e pretendo dar o matadouro ao meu filho caçula, Jacob. E agora, digníssimo mestre, diga-me o que acha disso. Gubner estendeu-lhe a mão. - Digo que aceito com alegria a sua proposta, e não tenho dúvidas de que Marga ficará orgulhosa e satisfeita em tornar-se esposa de tão bom e rico rapaz como o seu Guints. Diga a ele que venha amanhã mesmo para o beijo de noivado! E nós, velhos, em homenagem aos noivos, beberemos uma barrica de vinho envelhecido. Eles se abraçaram e depois de discutir questões relacionadas a dote, dia do casamento, noivado oficial e outros detalhes, despediram-se muito satisfeitos um com o outro.

Assim que Kunts saiu, Gubner ordenou imediatamente ao criado que chamasse ao seu gabinete a cunhada com a filha. - Não sei se elas já voltaram da cidade. - Respondeu o criado, indo executar a ordem. Meia hora depois, a cunhada e a sobrinha entravam no gabinete de Gubner. A cunhada era uma mulher de meia-idade, com um rosto triste e dócil; a sobrinha, uma jovem alemã de uns 18 anos, alta, esbelta e muito bonita. Seu rosto fresco com faces róseas, iluminadas por um par de grandes olhos azuis, respirava saúde e despreocupada alegria. Duas pesadas trancas louras desciam até abaixo dos joelhos. Ela aproximou-se de Gubner, rindo e mostrando o embrulho que segurava na mão: -Veja, tio Lohann, que lindo tecido comprei com aquele dinheiro que você me presenteou no Natal. O professor apalpou o tecido e beliscou carinhosamente a aveludada face da moça. - Maravilhoso! E tenho motivos para aprovar a sua escolha, Marga, pois você logo precisará vestir-se de modo especial. Tenho uma agradável novidade, minha pequena, e também para você, minha querida Luiza!

O seu coraçãozinho não lhe diz nada, sua fingidinha? - E, semicerrando um olho, olhou-a maliciosamente. O rosto de Marga avermelhou e o tecido caiu de suas mãos. - Milota esteve aqui? - Sussurrou ela, indecisa. Gubner recuou um passo para trás, franziu o cenho, e olhou severamente para a sobrinha. - Que Milota? Do que você está falando? Kunts Leinhardt esteve aqui para pedir a sua mão para o seu filho Guints, ao qual ele comprou a maravilhosa usina de cerveja do Kloper, e eu concordei. Nem poderíamos esperar um partido melhor do que esse jovem e rico rapaz! Marga empalideceu e encostou-se ao espaldar da cadeira. Um tremor nervoso passou por seu corpo e em seus olhos bem abertos lia-se o horror. A mãe correu para ela e fê-la sentar-se. - Mas, Lohann, como pôde dar tal notícia a uma moça? - Perguntou ela, com repreensão. - Imagino que antes deveria perguntar a Marga se ela gosta de Guints Leinhardt. - Verdade?

Como não pude prever que na cabeça de sua filha existe um Milota qualquer e que a minha cunhada iria desdenhar um dos mais nobres burgueses de Praga? - Sibilou Gubner, acidamente. - Chega de besteira! - Prosseguiu ele, severamente. - Vou perguntar-lhe com toda a seriedade: que relação tem o casamento da minha sobrinha com esse maldito nome eslavo? Quem é esse Milota, e como você pôde encobrir a ligação amorosa desta imbecil com um tcheco? Luiza Gubner endireitou-se com dignidade. - Você deveria perceber que eu nunca encobriria uma ligação amorosa. - Disse ela, sublinhando as palavras. - Mas sei que Marga ama um jovem cavaleiro: Milota Nakhodsky, sobrinho do burgo-mestre Zmirzlik, e que seu amor é correspondido. Não vejo por que um jovem nobre, bonito e rico não possa ser partido para sua sobrinha ou pelo menos tão aceitável e querido como o filho do açougueiro Leinhardt. - E eu lhe digo que, para mim, qualquer limpador de chaminés alemão está acima de qualquer cavaleiro tcheco. Eu nunca, ouça bem, nunca vou admitir que algum desses miseráveis eslavos entrem para a minha família!

Você se esqueceu de que é viúva de Luts Gubner, assassinado por tchecos, e agora está pronta para entregar sua filha a um deles? - Não me esqueci de nada! Mas não posso odiar um inocente por um crime cometido por algum patife e sacrificar por esse ódio a felicidade de minha filha. - Disse ela, acariciando a cabeça de Marga, que se achegou a ela. - Chega de falar besteira! Marga irá se casar com Guints Leinhardt a quem já dei a minha palavra; e um noivo rico facilmente a fará esquecer o Milota de bolso furado. Amanhã à tarde, toda a família Leinhardt estará aqui para comemorar o noivado. Portanto, tenha a bondade de providenciar a recepção adequada. E você, Marga, não ouse fazer careta quando Guints for beijá-la como noivo: é o direito dele. Estas são as minhas ordens! Marga pulou como se tivesse sido mordida. - Nunca! Nunca na vida vou deixar aquele grosso e repugnante Guints me beijar! Tenho nojo dele! - Exclamou ela, fora de si. O rosto de Gubner ficou roxo, as veias da testa saltaram e os olhos agitaram-se de raiva.

Ele saltou como um gavião sobre Marga, agarrou seu braço e apertou com tanta força que ela gritou. - Se você não me obedecer - sibilava ele por entre os dentes, agitando seu braço com toda a força - e envergonhar-me diante dos Leinhardt, vou surrá-la diante de todos e você irá morrer de vergonha, garota imprestável! É assim que me paga tudo que fiz por você? Com desonra e aventuras amorosas com o nosso inimigo? Tome cuidado e não me faça chegar a extremos! Se amanhã você não receber bem o Guints e não permitir que ele a beije, então você e sua mãe vão lamentar muito. Agora vá e lembre-se do que eu disse. Deus é testemunha que a minha vontade é inabalável. Marga nada respondeu, completamente muda de pavor, e a mãe levou-a embora.

Capítulo VIII

Em 1391, o rico parisiense Kryj e o cavaleiro Jan de Malgeim, preferido de Venceslau, fundaram na "Cidade Antiga", perto do colegiado de Lázaro, a capela de Belém, destinada exclusivamente a pre-

gações na língua tcheca. A capela era um grande e arqueado prédio de alvenaria e poderia ser chamada de igreja, por comportar até três mil pessoas, mas isso não era suficiente para a imensa multidão, que ansiava por ouvir os famosos pregadores. Seu primeiro capelão foi Jan Prakhatitsky, o segundo, Estéfano Kolinsky, e, a partir de 1402, esse importante posto foi ocupado por Jan Huss. Seus sermões inflamados, somados à sua grande popularidade, fizeram da capela de Belém o centro do movimento popular e religioso da Boêmia. Os sermões de Huss despertaram o coração e a consciência do povo e moldaram uma

58 Monument. Univers. Prag. - Nota do autor. 59 Ernest Denis, p. 62 - Nota do autor. ligação moral inquebrantável entre eles. A força dessa união entre Huss e o povo levantou toda a Boêmia para vingar a execução de seu preferido. O púlpito de onde o famoso orador - que marcou a verdade das suas pregações com o martírio - arrasava os vícios do clero e da sociedade do seu tempo era quadrado, simples, feito de tábuas de pinho. Era impossível subir nele pelo lado dos ouvintes, mas somente pelo lado de dentro, passando pela sacristia, onde ficavam guardados os paramentos e um jazigo que, conforme a tradição, continha os restos de uma das crianças inocentes mortas por Herodes. Atrás da sacristia, havia uma escada que levava ao corredor onde ficava a entrada do púlpito e, do lado esquerdo dessa entrada, havia um banco de madeira onde o pregador costumava sentar antes de aparecer diante dos ouvintes. No fundo do corredor, uma outra escada, estreita e íngreme, levava ao andar seguinte, a um quarto ou, mais exatamente, à cela de Huss.

Naquela cela absolutamente monástica, iluminada por um par de diminutas janelas, havia poucos móveis, mas as pilhas de livros e manuscritos sobre a mesa indicavam que seu dono era um trabalhador incansável. Naquele momento a pena descansava e Huss estava deitado na cama, gravemente enfermo e com a cabeça enfaixada. Não fosse a magreza, provocada pela doença, ele pouco mudara nos últimos tempos. Seu rosto fino e pálido, com a costumeira expressão triste, emagrecera em decorrência do trabalho e da vida de asceta; os grandes olhos, sempre pensativos enquanto neles não se acendia o fogo da indignação sagrada e da adoração religiosa, olhavam com docilidade, como de costume. No mesmo dia de janeiro em que ocorreu a triste cena entre o professor Gubner e sua sobrinha, na cela de Huss, junto à sua cama, reuniram-se três amigos. Um deles, sentado à cabeceira, trocando as compressas de tempos em tempos, era Jerônimo; o outro era Nikolai Lobkovitz, o principal tabelião da diretoria de minas da Boêmia.

O terceiro era Vok von-Valdstein. - Querido mestre Jan - dizia Lobkovitz a Huss, que o ouvia com atenção -, não leve ao coração as severas palavras do rei. Juro que a ira dele passou completamente e a sua causa não está indo mal. - A rainha está muito triste por perder o seu confessor e até me incumbiu de trazer-lhe alguns potes do melhor vinho. Vou mandar entregar-lhe hoje à tarde. - Confirmou Vok, com um sorriso. - Senhor conde, agradeça a Sua Alteza sua permanente atenção à minha pessoa e transmita-lhe que me sinto melhor e espero, com a ajuda de Deus, logo voltar ao seu serviço. Respondeu o paciente, com voz fraca. - Com bons desejos tudo irá bem, mestre Jan! E agora, ouça as novidades que lhe trouxe! - Começou novamente Lobkovitz. - Já lhe contei que a raiva do rei amainou rapidamente e sei, de fonte fidedigna, que o sucesso e o triunfo de que os alemães se gabam insolentemente, bem como a resistência deles no caso de obediência a Gregório XII, provocaram a insatisfação do rei. E a nossa causa, ainda por cima, recebeu fortes e ciosos adeptos vindos da embaixada da França, com

cujo chefe conversei ontem. O Prior Solon disse-me que as exigências dos tchecos são absolutamente justas, pois o imperador Carlos IV deu à nossa universidade estatutos idênticos aos parisienses. Lá, os naturais possuem três votos contra um estrangeiro. - Mas é claro! E não somente os costumes, mas também as leis canônicas e civis concordam que, num reinado tcheco, os tchecos devem estar em primeiro lugar, assim como os franceses na França e os alemães em suas terras. - Animou-se Huss, levantando-se e sentando na cama. - Que utilidade teria um tcheco que não soubesse a língua alemã, como um pároco ou bispo na Alemanha? Na verdade, ele seria tão útil como um cão mudo para um rebanho de ovelhas. E que direito os alemães têm de mandar em nós? Ou eles contam com o nosso eterno silêncio e a nossa eterna submissão? Sei que me culpam pelo ódio a eles. Deus é testemunha de que isso não é verdade e de que prefiro um alemão honesto a um tcheco patife, nem que este seja meu irmão! Mas o meu sentimento de justiça se indigna quando vejo os filhos naturais

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.