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Capítulo 16 de 51
Parte 16 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
alemão que a cercava, escolhera Jan Huss para seu confessor e freqüentava assiduamente a capela de Belém. Essa ostensiva preferência pelos tchecos trazia-lhe problemas com os parentes da Bavária, a ponto de seu irmão e os tios, duques Estéfano e Friedrich, não comparecerem à sua coroação. Já os alemães de Praga chamavam-na de herética e "belemista".65 - Que grave pecado você cometeu hoje, Sofia, para orar com tanta sofreguidão? - Perguntou o rei, percebendo que ela insistia em não notá-lo. - Nenhum! Orava por você, pedindo a Deus que ilumine seu coração e a mente, incutindo-lhe a neutralidade e a justiça, que devem inspirar orei... - E que eu devo demonstrar satisfazendo as exigências dos tchecos? Já ouvi essa canção antes, e não quero ouvi-la na cama. - Disse ele, em tom de quase brincadeira. A rainha levantou, aproximou-se do marido e beijou a sua mão.
Palacky. "G. v. B", pp. 121 e 125 - Nota do autor
Poenkov, Huss e Lutero, p. 39 - Nota do autor
Freqüentadora da capela de Belém - Nota do tradutor. - Ainda não lhe falei sobre isso, mas esse caso mexe comigo até o fundo do coração e, na minha opinião, é muito justo. - É injusto, pois os estatutos, os costumes e a vontade de meu falecido pai deram a primazia aos alemães. - Interrompeu-a o rei, calmamente. -Não me sinto capaz de julgar uma questão tão importante, mas, na opinião de Lobkovitz e do abade Solon, o finado imperador Carlos deu à nossa universidade os mesmos direitos que têm as universidades de Paris e Bolonha, que dão a primazia aos naturais do país. Não seria sua obrigação proibir a prática reconhecidamente injusta? E somente para seu interesse, gostaria de lhe dizer algumas palavras. A quem você defende meu rei e marido? Quem você quer ajudar em primeiro lugar, prejudicando os fiéis tchecos? Os seus piores inimigos! Existe ainda alguma traição ou ofensa que os alemães ainda não lhe fizeram? Não foram eles que, em favor dos próprios interesses, semearam a discórdia entre você e seu irmão Sigismundo? E os insolentes e revoltados
vassalos não titubearam em tirar-lhe o império, roubando-lhe todos
os seus direitos, somente porque a grande parte dos "curfiurstas" eralhe fiel? São os mesmos alemães! Em sua insolência, eles ousam criticar as suas decisões e opor-se à sua vontade; eles gostariam, que Deus me perdoe, de controlá-lo da mesma forma como controlam tudo na universidade! Lembre que, ainda recentemente, eles declararam que não abandonarão a "obediência" ao papa Gregório XII, enquanto os tchecos submeteram-se às suas ordens, sem vacilar. É por esses espertos estrangeiros que você quer sacrificar os legítimos direitos do seu povo? Enquanto a rainha falava, a cor da ira espalhava-se pelo rosto de Venceslau e em seus olhos acendeu-se a raiva. A repentina lembrança das ofensas suportadas despertou o ódio e o fel que guardava dentro de si. Em sua alma instável e apaixonada, houve uma reviravolta que
Indivíduo dependente de um senhor feudal, ao qual estava ligado por juramento de fé e submissão - Nota da editora.
Assim eram chamados no antigo império germânico os que tinham o direito de eleger o rei - Nota do tradutor.
derrubou todas as conclusões a favor dos alemães e decidiu a vitória dos tchecos. - Tem razão, Sofia! Não vejo motivos para não acreditar no meu sábio e fiel servo Nikolai Lobkovitz. Ele afirma, com razão, que o rei da Boêmia tem obrigação de proteger e defender os direitos do seu povo e não oferecê-lo em sacrifício aos estrangeiros! Amanhã mesmo ordenarei a preparação de um decreto que concede aos tchecos aqueles três votos que eles tanto querem. Feliz com a inesperada vitória, a rainha jogou-se nos braços do marido. No dia seguinte, Nikolai Lobkovitz, convocado pelo rei, apresentou-lhe o decreto, cujo texto já tinha preparado havia muito tempo. Após uma séria deliberação, Venceslau aprovou e assinou aquele importantíssimo ato que acabava com a vantagem dos alemães e teria conseqüências decisivas na história do povo tcheco. Essa reunião foi muito longa e extenuou o rei; mesmo assim, ele saiu satisfeito e feliz, como há muito ninguém via.
Após o almoço, ele se retirou para aquela mesma sala onde o encontramos na véspera e mandou chamar Vok Valdstein para uma partida de dados. O jovem conde apareceu, muito preocupado e nervoso. Ele havia encontrado Lobkovitz no caminho e este olhara-o de modo particularmente alegre e significativo, mas não tinham tido tempo de conversar em virtude da presença de numerosos nobres. O rei e seu preferido sentaram-se à mesa. - Hoje, Vok, você terá de me contar uma história bem engraçada, como prêmio pela boa notícia que vou lhe dar. - Disse Venceslau, alegremente. - De agora em diante você está para sempre livre do perigo de ser assado e comido pelos alemães! Acabei de aprontar-lhes uma boa, assinando um decreto que dá preferência à nacionalidade tcheca sobre as outras três. Valdstein empalideceu e levantou-se. Ele nunca poderia esperar por uma vitória tão completa. Depois, ajoelhando-se, beijou com fervor a mão do rei, enquanto Venceslau dava-lhe palmadas amigáveis no ombro. - Vejam só, que patriota fanático!
E eu que pensava que o seu interesse maior concentrava-se no amor e não na política. - Uma coisa não atrapalha a outra, majestade! É com as mulheres que se aprende política! - Respondeu Vok, alegremente. -Mas estou chegando ao fim das minhas aventuras amorosas e logo tudo estará acabado. - Observou ele, em tom sério. - Que besteira é essa que você está dizendo nesse tom de condenado à morte? - É quase a mesma coisa, majestade! A morte civil! - Mas que novidade! Como posso lhe ajudar? - Perguntou, rindo, Venceslau, supondo que o outro enchera-se de dívidas. - É impossível, majestade! Ninguém - nem mesmo Sua Alteza - poderia me ajudar, pois, devo me casar! - Juro que não ajudaria, mesmo se pudesse! Além disso, essa história será muito mais triste para a futura condessa do que para você. Mas, por que essa tristeza? Ela é feia? - Não, majestade! Linda como um anjo! - Então... deve ser burra... - Pelo contrário; penso que tão inteligente e esperta como qualquer doutor universitário. - Já sei!
É pobre como rato de igreja? - Ela irá me trazer grande fortuna! - Então, não entendo mais nada! - Deu de ombros o rei. - Ela é bonita, mas é fria e não me ama. Também não a amo, pois sua indiferença é por demais ofensiva para mim. - Mas, que diabos! A sua noiva é exigente demais, se um rapaz bonito como você não lhe agrada. Quem é ela e por que deve casar com você sem amá-lo? - Ela é Rugena Rabstein, filha única do finado barão Svetomir, e nós estamos noivos desde crianças por acordo familiar. Venceslau franziu o cenho. - Barão Rabstein? O amigo de Rosemberg? Ele me traz más recordações. Era um insolente revoltoso! - Majestade! Desde os nove anos de idade que Rugena é educada na minha família e acredito que isso já é garantia suficiente de que a ela foram ensinados o respeito e a irredutível fidelidade à sua pessoa. Espero a graça de sua autorização para apresentar a minha noiva a Sua Alteza e à rainha. - Autorizo com prazer! E quando será o casamento? - Não sei dizer exatamente!
Minha mãe está em Bolonha e somente quando voltar trará Rugena a Praga. - Se na época eu estiver na cidade, então virei ao seu casamento. Quanto ao amor, não fique triste! Se como noiva ela é fria, corno esposa pode ser fogosa. Existe uma grande diferença entre uma e outra. - A diferença é enorme! Até a hora de irmos para a igreja, quem manda é ela, e eu deixo-me pisar como um verme; depois, quem mandará serei eu, e vou fazê-la pagar caro pela insolência de não me amar. - Concluiu Vok, rindo. O rei acompanhou-o e, depois de rirem bastante, começaram a jogar. Venceslau estava inspirado, e suas constantes risadas eram ouvidas até nas salas vizinhas. O inesgotável humor do jovem conde divertia-o com histórias e aventuras picantes, que fariam o próprio Bocaccio morrer de inveja. À tarde do mesmo dia, Vok teve um curto encontro com Lobkovitz, que lhe confirmou a novidade sobre o decreto e eles imediatamente mandaram uma mensagem a Huss. A casa do professor Gubner estava cheia de gente. Festejava-se o noivado de sua sobrinha Marga com Guints Leinhardt.
Nas salas bem iluminadas, reunia-se a nata dos burgueses e mercadores da "Cidade Velha" acompanhados de suas esposas, elegantemente vestidas e enfeitadas com jóias; havia também muitos professores e estudantes. Gubner recebeu-os com fartura e todos comeram e beberam muito; o vinho envelhecido corria solto e abundavam doces e pastéis de açafrão. Mas a palidez e a tristeza mal disfarçada da noiva contrastavam fortemente com a ruidosa e despreocupada alegria da mocidade presente. Marga emagrecera demais. O antigo frescor do seu rosto desaparecera e sua costumeira vivacidade fora substituída por um nervosismo febril. Depois da cena com o tio, ela adoecera e ficara de cama cerca de uma semana, o que atrasara o noivado. Sua mãe tentara convencer Gubner a não forçar Marga a casar-se com um homem que a repugnava; poderiam esperar encontrar um outro alemão, já que ele não queria entregá-la a um tcheco. Mas o professor permanecera irredutível, considerando o nojo da sobrinha pelo noivo como um capricho que, em sua opinião, desapareceria com o tempo.
A sua palavra dada deveria permanecer intocável e ele não iria retirá-la por uma fantasia de uma garota estúpida que não percebia apropria felicidade. Assim que Marga sarara, Gubner chamara-a ao seu gabinete e confirmara sua vontade com tamanha grossura que ela desanimara de vez. Para seu desespero, o tio começara a vigiá-la, tornando-lhe impossível avisar o rapaz amado ou tentar encontrar-se com ele. Para ela, aquela festa era uma verdadeira tortura; foi com verdadeira repugnância que aceitou os beijos de Guints - um rapaz alto e forte. Mas o noivo parecia não notar a frieza da noiva e desfazia-se em carinhos e amabilidades diante dela - ou seja, comportava-se com tal simplicidade que ela ficou chocada com suas atenções. Enquanto a juventude se divertia a valer, os pais e outros convidados de meia-idade estavam nitidamente preocupados e excitados discutindo uma questão, aparentemente importante, a julgar pelo zunzunzum das damas e pelos rostos vermelhos dos homens. Falavam do decreto real que havia sido proclamado e que proibia a qualquer pessoa da Boêmia reconhecer doravante o papa Gregório XII
como chefe da Igreja cristã, sob pena de severos castigos. A maioria das mulheres estava indignada com essa medida, considerando-a parcial. Pela própria ignorância, elas estavam absolutamente cegas à cisão na Igreja, e o Papa - reconhecido como tal pelo arcebispo ou pelo seu confessor - era para elas o verdadeiro representante de Cristo. Já os homens viam o caso de modo diferente e do ponto de vista político, como era de se esperar naquele tempo, quando se mesclavam as questões políticas e religiosas. Os alemães entendiam perfeitamente que, ao abandonar a "obediência" a Gregório XII, Venceslau pretendia, por meio do novo Papa, restabelecer seu poderio imperial na Alemanha. Mas o partido alemão - por sua simpatia secreta a Ruprecht Palatino, inimigo de Venceslau - usava o seu predomínio na universidade para negar ao rei a sua "neutralidade", encontrando apoio no arcebispo Sbink e em seu clero. O fato de o rei não tomar conhecimento da sua opinião e abandonar Gregório era um mau sinal, e por isso provocava acaloradas discussões. Já era tarde, quando chegou um novo convidado que não era esperado àquela hora.
Era o professor Reinek, amigo de Gubner, que, por problemas de saúde, não pudera participar na véspera da festa familiar; sua visita àquela hora deixou todos surpresos. Aproximando-se do anfitrião, ele pediu para levá-lo ao gabinete de trabalho e chamou para lá alguns dos professores. Gubner, espantado com o nervosismo, a palidez e as mãos trêmulas do colega, apressouse a cumprir o seu pedido e, alguns minutos depois, seis pessoas reuniram-se em volta de Reinek. - Meus amigos, trago uma novidade tão triste, inesperada e importante que achei impossível adiar o seu anúncio para amanhã. -Disse Reinek, com voz surda. - A realidade superou as nossas piores expectativas e os alemães, a partir de agora, estão condenados a ser servos
68 Hei fert, p. 33 - Nota do autor. dos tchecos: o rei concedeu aos tchecos três votos no conselho universitário... A emoção não deixou ele concluir a frase. O quarto permaneceu em silêncio e lia-se nos rostos de todos um mudo espanto. Gubner foi o primeiro a recuperar-se. - Mas isso é impossível! Você provavelmente foi enganado por boatos! O rei pessoalmente prometeu manter todos os nossos privilégios! Ainda hoje de manhã falei com o reitor e ele nada sabia sobre a nova decisão. - É verdade, von-Baltengaguen ainda não recebeu o decreto real, mas sei que esse decreto existe e até conheço o seu teor. - Mas como? De que jeito? Explique-se! -As perguntas vinham de todos os lados. - Calma, vou contar como tudo aconteceu. - Respondeu Reinek, enxugando a testa. - Há alguns dias, eu voltava da "Cidade Nova" onde fora visitar um amigo canônico, para discutir com ele a questão da "obediência", e passei perto da residência de Huss, aquele maldito "intruso". Naquele instante, saíam de lá Jan Elias com um amigo. Isso muito me surpreendeu, pois ambos não pertencem ao grupo dos partidários do tagarela de Belém. Fiquei ainda mais espantado com o seu ar alegre e triunfal. E quando Elias, ao passar por mim, mediu-me com um olhar de profundo desprezo, comecei a desconfiar...
- Depois da negativa recebida em Kutenberg, os tchecos uniramse. - Interrompeu-o mestre Varentralpe, decano da faculdade de artes. - Até aqueles que antes discordavam de Huss sobre Wyclif estão visitando-o desde que adoeceu. Mas, mesmo assim, o comportamento de Elias é suspeito, pois, nos últimos tempos, os tchecos amansaram e puseram o rabo entre as pernas como cães surrados... - Agora nós é que somos os cães surrados, e vocês perceberão que aquele seu desdém tem fundamento. - Recomeçou Reinek, zangado. -
Já que suspeitei, resolvi tirar tudo a limpo e fui visitar Khotek' ele é
Palácio no monte Kutná - Nota do tradutor.
Palacky, "G. v. B. ", p. 287 - Nota do auto tcheco, mas é bom rapaz e inteiramente fiel aos alemães Ele tem ligações com a chancelaria real e, por várias vezes, conseguiu para mim valiosas informações. Eis o que ele me trouxe há duas horas. Reinek tirou do bolso um pedaço de pergaminho cuidadosamente dobrado e, abrindo-o, acrescentou:
-Agora, ouçam o decreto emitido pelo rei no dia 18 de janeiro: "Apesar de cada pessoa ter obrigação de gostar de todas as pessoas sem exceção, torna-se, entretanto, necessário que esse amor provenha de disposições congêneres; é injusto dar preferência ao estrangeiro antes dos naturais do país, pois todo amor está voltado inicialmente para si mesmo e somente depois distribui-se sobre os parentes e outros amigos. De acordo com informações que chegaram até o rei, o povo alemão, que não tem nenhum direito de residir neste reinado tcheco, apropriou-se na universidade de Praga de três votos, enquanto o povo tcheco, verdadeiro herdeiro da terra, possui somente um. O rei considera injusto que pessoas estranhas aproveitem excessivamente dos trabalhos dos residentes enquanto os naturais do país sofrem privações. Portanto, ordena ao reitor e à universidade que, a partir desta data, o povo tcheco tenha três votos em todas as reuniões, julgamentos, exames, eleições e outros, quaisquer que sejam, atos e conferências da universidade, conforme costume mantido pelo povo francês e todos os povos da Lombardia e da Itália.
O povo tcheco deve permanecer com esse privilégio para sempre, sem quaisquer alterações"... Na sala reinava o silêncio; os presentes não conseguiam falar, de estupor e raiva. - Bem, o que me dizem deste maravilhoso documento que nos priva até do direito de morar na Boêmia, se os tchecos não tiverem pena de nós e não permitirem isso? - Perguntou Reinek, enxugando o suor da testa. Sua pergunta pareceu romper o torpor, e começou uma verdadeira tempestade. Cada um, ao mesmo tempo, tentava expor sua opinião sobre como escapar do inesperado golpe. E todos chegavam à mesma conclusão:
Tomek, "História da universidade de Praga ", t. l, p. 149- Nota do autor. era melhor abandonar a cidade a submeter-se àquela enorme vergonha e humilhação. - O melhor é sair de Praga! - Exclamou um dos professores. - Sairemos e não nos submeteremos! Mas antes devemos experimentar um outro meio. - Observou o mestre Varentrale, mais calmo do que os outros. - Primeiro, vamos esperar que o decreto seja publicado e, então, poderemos fazer uma representação ao rei e lembrar-lhe das promessas que fez e, como ultima ratio, informá-lo de nossa irrevogável decisão de ir embora daqui! - Se nada mais adiantar, essa ameaça fará Venceslau voltar à razão. - Riu Gubner, jocosamente. – A nossa saída será a bancarrota da cidade e o fim da universidade. Nesse caso, toda a burguesia da "Cidade Velha" irá apoiar-nos. A discussão continuou no mesmo tom passional. A idéia de perder os privilégios e a primazia levava os alemães a um estado de ferocidade que tirava todo o autocontrole daqueles homens da ciência. Mas, mesmo que tivessem resolvido nada dizer aos outros convidados, a festa estava estragada.
A longa conferência e os ruídos de vozes exaltadas que provinham do gabinete fechado haviam chamado a atenção geral e os rostos exaltados e desanimados do anfitrião e dos outros professores confirmavam a suspeita de que ocorrera algo inesperado e terrível... A alegria anterior transformara-se em preocupação e os convidados apressaram-se a ir para suas casas.
Capítulo X
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.