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Capítulo 14 de 51

Parte 14 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

Ernest Denis, p. 84 - Nota do autor. do país serem obrigados a juntar migalhas que caem da mesma mesa onde eles deveriam estar sentados como senhores. - Ele parou e deixou-se cair sem forças no travesseiro. - Mas não se exalte dessa maneira! - Tentava convencê-lo Jerônimo, apertando-lhe a mão. - Sabemos que a sua alma odeia o vício. Já aos alemães que se gabam de ser nossos professores e de ter trazido para nós a sua ciência, eu irei um dia relembrar as últimas palavras aos Gaiatas: "O herdeiro, enquanto na infância, em nada difere do servo, mesmo sendo senhor de tudo. Ele se submete aos tutores e curadores até o prazo estabelecido pelo pai". Isso significa que, quando chegar a hora, todos devem se submeter a ele por ser o filho e herdeiro pela lei divina. E o prazo estabelecido chegou: os tchecos deixaram de ser crianças irracionais. Fora, tutores que procuram somente o próprio lucro!

Dêem lugar aos "filhos desta casa"! - Você poderia acrescentar também o que disse Cristo: "Não se deve tomar o pão de crianças e jogá-lo aos cães". - Observou Valdstein, com ímpeto. - Odeio esses alemães insolentes e sem honra que, para atingir seus objetivos, abusam da liberdade dada aos estudantes. Todos eles que vêm a Praga a negócios, comerciantes ou clientes, inscrevem-se na universidade somente para aproveitar as isenções que facilitam sua estada aqui! - Penso que é hora de irmos embora. O nosso prezado mestre precisa descansar. - Disse Lobkovitz, levantando-se e apertando a mão do paciente. - Estejam tranqüilos e não percam as esperanças! Não esquecerei as indicações que o senhor me passou e, se conseguirmos obter do rei os três votos dos tchecos, irei comunicar-lhes imediatamente. Huss agradeceu-lhe calorosamente e, em seguida, os visitantes se despediram, saindo acompanhados por Jerônimo, que prometeu ao paciente voltar em uma ou duas horas. Passou cerca de meia hora. Huss estava sozinho e cochilando quando, de repente, a porta abriu-se silenciosamente e na entrada apareceu Svetomir.

Mas o apurado ouvido do paciente percebeu o ruído e ele, abrindo os olhos, perguntou: - Quem está aí? - Sou eu, padre Jan, Svetomir Kryjanov. - Respondeu o jovem, aproximando-se e beijando a mão estendida para ele. - Bem-vindo, meu filho! Que bons ventos o trazem aqui hoje? - Vim para lhe comunicar uma importante decisão que tomei. Enquanto o senhor não aprová-la, o meu coração e a minha consciência não me deixarão em paz. - Conte-me e lhe responderei dentro das minhas limitações. Svetomir empurrou o banco até a cama, sentou-se e em poucas palavras contou as circunstâncias que o obrigavam a fugir do país e pôr-se a serviço da Polônia. -Amanhã, ao amanhecer, Zizka e eu deixaremos Praga e seria terrível eu ir embora com o pensamento de que o senhor, padre Jan, iria me considerar um desertor do exército divino. - Concluiu ele, indeciso. - Pensou errado, meu rapaz! Pelo contrário, aprovo a sua atitude. Seria um crime de sua parte fazer algo sem ter vocação para isso.

Já temos um suficiente número de maus sacerdotes e age com sabedoria aquele que, sentindo-se sem forças para se tornar um bom pastor, torna-se um corajoso guerreiro. Vá sem medo, meu filho, pelo seu novo caminho de vida e lembre-se de que em qualquer cargo pode-se fazer o bem, ser honesto, humano e cumprir os mandamentos de Deus. - Obrigado pelo bom conselho. Ninguém entende as fraquezas humanas como o senhor, um verdadeiro servo de Deus. - Sussurrou Svetomir, comovido, ajoelhando-se diante do leito do paciente. - Abençoe-me, padre, para que o Senhor me conceda forças para enfrentar todas as provações que me prepara o destino. Huss colocou ambas as mãos sobre a sua cabeça e concentrou-se numa fervorosa prece. - Deus te abençoe, meu filho, conduza-o pelo caminho do bem e da verdade e lhe dê apoio nos momentos de tristeza e desespero, para que a sua fé nunca vacile e, se tudo o mais lhe abandonar, que ela sozinha lhe dê forças e o conduza ao bom refúgio. Ambos estavam emocionados.

Conversaram mais um pouco, Svetomir contou-lhe seus planos de futuro e, por fim, despediu-se e foi embora. Após longos anos de abandono e silêncio, o velho castelo Rabstein acolhera novamente sob seu teto a sua jovem dona. Já fazia seis meses que Rugena mudara-se novamente para o ninho paterno junto com sua amiga Ana e os fiéis Iitka e Matias. Ela vivia em completa solidão; raramente saía do castelo e não recebia ninguém. Todo esse tempo que passara, ela vivera no castelo Valdstein, com exceção de dois invernos, que os tutores haviam passado em Praga. Absorta na sua exagerada religiosidade e muito calculista, a condessa evitava a sociedade; além disso, ela não desejava mostrar Rugena ao mundo enquanto a menina não se casasse com seu filho, temendo - e com razão - que a bonita e rica herdeira pudesse encontrar um admirador que seria um perigoso rival para Vok. Ela até olhava com desconfiança a amizade infantil de Rugena por Svetomir e não sossegou enquanto não o enviou a Praga para se preparar para a universidade.

A separação do amigo de infância deixara Rugena muito infeliz e seu estado de espírito deprimido favorecera a doença que aparecera após um forte resfriado que apanhara numa caçada onde a tinham levado a fim de distraí-la. Alguns meses após a saída de Svetomir, ela ficara tão gravemente doente que chegaram a temer por sua vida. Desde então a saúde de Rugena ficara abalada e o médico insistira para que o casamento fosse adiado por um ano ou dois. Para isso, aguardava-se somente a volta de Vok da França, onde o jovem fora passear e divertir-se. Então, repentinamente, a condessa recebera a notícia de uma herança recebida na Itália e resolvera viajar para lá imediatamente. Ela quisera levar Rugena consigo, mas esse plano não agradara à moça. Desde que a vira pela primeira vez, a condessa deixara nela uma má impressão, e nem o tempo, nem a atenção, nem o carinho haviam conseguido vencer aquela instintiva repulsa à mãe de Vok.

E como os parentes italianos que às vezes visitavam a Boêmia eram por demais repulsivos a Rugena, ela não quisera usar de sua hospitalidade e de sua companhia durante aqueles meses. Por isso, declarara que, na ausência da condessa, gostaria de se mudar para o castelo de seus pais, que não via desde a morte do pai, para rezar na sua sepultura e passar em isolamento os últimos meses de sua virgindade. O tutor dera a autorização sem problemas: o país naquele tempo estava relativamente calmo, o castelo era bem protegido e equipado com suficiente guarda e, além disso, localizava-se perto de Praga e o conde podia passar por lá nas horas vagas do seu serviço na corte. Rugena ficara feliz ao rever novamente os lugares onde passara os dias mais felizes de sua vida, onde cada objeto lembrava-lhe o adorado pai. Numa clara, mas fria manhã de janeiro, no mesmo quarto que um dia servira de gabinete de trabalho do finado barão Rabstein, duas amigas estavam sentadas perto da janela. Ana trabalhava com afinco numa branca toalha de seda para o altar, bordando com seda colorida um galho de videira.

Era uma moça graciosa, jovem, fresca e em pleno desabrochar; seus cabelos negros estavam entrelaçados em duas espessas trancas e desciam até os joelhos. O pequeno nariz aquilino e a enérgica expressão da boca faziamna parecer com o irmão, mas os grandes olhos escuros, felizes e dóceis, nada tinham do olhar severo e sombrio de Zizka. Rugena não fazia nada; sentada, encostada no alto espaldar de sua poltrona, olhava pensativamente pela janela o quadro invernal que se estendia ao longe. Ela comprovara as expectativas e tornara-se uma bonita e encantadora moça, alta e esbelta, com o rosto pálido, lindíssimos, lânguidos e enormes olhos azuis, e com um ousado levantar das sobrancelhas. Suas grossas trancas haviam mantido desde a infância sua cor dourada e destacavam-se bem, tendo como fundo o seu vestido azul-escuro. Sua jovem e esbelta figura, o rosto pálido e liso como porcelana, os cabelos ondulados e cheios e o olhar luminoso lembravam aquelas imagens etéreas e inspiradas criadas pelo pincel genial de fra-Angélico.

Na cadeira ao lado, deitado sobre a colcha, estava seu cãozinho predileto, que era acariciado maquinalmente pela linda mãozinha de Rugena, que parecia esculpida a cinzel. De repente o olhar sonhador da menina despertou e ela endireitou-se. - Dois cavaleiros se aproximam do castelo. Veja, Ana, quem serão eles? - Perguntou Rugena, olhando pela janela. A amiga deixou de lado as agulhas e também se aproximou da janela. - Eles estão longe e tão enrolados nas capas que é difícil distinguir. Talvez o teu noivo esteja te enviando uma carta por mensageiro especial. - Duvido que Vok perca tempo com isso... - Zombou, Rugena. - Ele agora está na corte e nem pensa nisso. Aliás, isso não me deixa nem um pouco magoada; nem anseio por vê-lo ou por ter notícias dele. Estou tão feliz aqui e gostaria de ficar. E você, Ana? - Para mim, está bom onde você estiver; sinceramente, desejo nunca me separar de você. -Respondeu Ana, beijando carinhosamente a amiga. Os cavaleiros desapareceram na curva da estrada e, alguns minutos depois, o chamado da trombeta nos portões anunciava a chegada de visitantes.

Mesmo interessadas em saber quem chegara, Rugena e Ana aguardaram até que o pequeno pajem chegasse correndo e, ofegante, anunciasse os senhores Jan de Trotsnov (Zizka) e Svetomir Kryjanov. Imediatamente, elas correram ao encontro dos recém-chegados. Ana jogou-se nos braços do irmão e Rugena quase seguiu o seu exemplo com Svetomir. Mas os três anos de separação haviam mudado tanto o seu amigo de infância que ela parou, embaraçada, e, finalmente, esticou-lhe ambas as mãos, que o jovem levou inúmeras vezes aos lábios. - Meu Deus, como estou feliz em vê-lo! Tenho tanto para falar e perguntar a você. Espere, querido! - Disse ela com um sorriso e libertando as mãos. - Devo ainda cumprimentar o seu companheiro! Após os cumprimentos, Rugena dirigiu-se à amiga: - Cuide do seu irmão, Ana! Ordene que preparem os quartos para ele e Svetomir e que sirvam aos viajantes algo para comer, e não se esqueça de acrescentar algo mais substancial para o almoço. Vamos, vamos passar para o refeitório. Depois de um reforçado almoço, as jovens anfitriãs e os visitantes separaram-se em pares.

Ana queria ter uma conversa de despedida com o irmão e Rugena queria falar com Svetomir. Como na infância, ela levou-o aos os seus aposentos e fê-lo sentar-se próximo à lareira. Aquela primeira impressão de estranhar uma pessoa querida que não via há muito tempo desvanecia-se aos poucos. Percebendo o olhar de indisfarçada admiração de Svetomir, ela perguntou: - O que é que você está olhando tanto? - É que não consigo parar de admirar você. Meu Deus, como você está bonita, Rugena! Parece um perfeito anjo e estou só procurando ver as asas. Rugena soltou uma gargalhada. - Além dessas besteiras, você não tem nada melhor para mim? Para não ficar atrás nas suas amabilidades, também direi que você cresceu, ficou mais bonito e que a penugem dos futuros bigodes cai bem em você. Mas vamos falar de outra coisa! Conte-me como veio parar aqui, junto com Jan. Então Svetomir contou o motivo que o estava obrigando a fugir para a Polônia. - E aproveitei a oportunidade para me despedir de você, para sempre. Quem sabe o que espera um pobre soldado?

O que você acha do meu plano? Durante o seu relato, o rosto expressivo de Rugena refletia a emoção que ela sentia, por mais que tentasse se conter. - Por que falar de separação eterna? - Começou ela, tentando dar um tom alegre à própria voz. - Cracóvia não está nos confins do mundo e nem todos morrem na guerra. Estou profundamente convencida de que nós ainda nos veremos, e quero acrescentar que compartilho de sua decisão. Não vale a pena tornar-se um sacerdote, como o padre Hilário, e acho que você nunca se tornaria alguém como o padre Jan. -Você está absolutamente certa! Só o pensamento de competir com eleja me parece um sacrilégio. - Replicou Svetomir, ardentemente. - O mestre Jan é um santo, cujos conhecimentos eqüivalem às suas boas ações! Todos os pobres, sofredores e infelizes de Praga correm para ele e a cada um ele consegue ajudar e consolar. A rainha o admira, os nobres o respeitam e veneram. E pensa que ele se orgulha disso? Nem um pouco!

Ele é humilde, dócil, acessível a todos e trata os pobres e ricos da mesma forma. E que pregador! Seus discursos emocionam e inflamam; ouvindo-o, a consciência estremece, a pessoa envergonha-se de sua miséria espiritual e tenta melhorar com todas as forças. E quando ele começa a arrasar com os vícios humanos, sem distinção de classe, aí então é um deus-nos-acuda! Até parece o próprio Arcanjo Miguel descendo do céu pronto para abater os demônios! Broda e eu não perdíamos nenhum sermão, e até a rainha vai assiduamente à capela de Belém. - Amo e respeito o mestre Jan de todo o coração. Naqueles invernos que passamos em Praga, ele me ensinava o catecismo e a minha primeira comunhão foi com ele. Meu tutor e Vok também o veneram e dizem que ele é o bom gênio da Boêmia. - Sem dúvida! Ele consegue despertar na alma o amor à pátria! E agora o mestre Jan está trabalhando no melhoramento das regras de

ortografia da língua tcheca, para que o nosso idioma seja tão gracioso e versátil como o latim, e os alemães já não falam que ele é um jargão bárbaro.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.