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Capítulo 48 de 51

Parte 48 de 51

Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester

125 Nobres com cargo de juizes, nas cortes eslavas da época - Nota do tradutor. - Como? Vão nos proibir as procissões? Se o tentarem, vão arrepender-se amargamente! Convoquei uma procissão para domingo e ela irá se realizar, eu juro! -Não agüentou Jan de Geliv, enfurecido. - Calma, calma, padre Jan! Esteja certo de que sua procissão irá se realizar e deixe Peter Kuss terminar de contar o que sabe sobre os alemães. - Interrompeu-o, impacientemente, o conde Hinek. - Sei que os Leinhardt estão incitando os seus para provocar um confronto no domingo. - Prosseguiu Kuss, um rico mercador de carne e fiel hussita. - Os cidadãos alemães já fizeram as suas reuniões; os açougueiros e cervejeiros já concordaram em provocar a desordem. Aquele velho cão, Kunts, mantém relações com o juiz Niklashko, que - como um verdadeiro católico - não quer saber de nada além de Roma e propicia as denúncias dos traidores tchecos que estão sentados entre nós nos conselhos municipais.

O que vim lhes prevenir é de que o dia de domingo será muito agitado. - Obrigado pelas preciosas informações. - Disse Zizka. - Tomaremos as medidas necessárias e os conspiradores não nos pegarão de surpresa! Meus irmãos, proponho que todos os nossos estejam armados e prontos a se defender. Para mostrar que não temos medo do inimigo, iremos ao prefeito e exigiremos do conselho municipal a libertação daqueles infelizes que eles prenderam alguns dias atrás sob a alegação de que provocavam desordens. - Certo, certo! Uma grande idéia, Zizka! -Apoiou Vok. - Entre aqueles presos está o meu pobre Matias e quero libertar o fiel servo de minha falecida esposa que foi preso somente por defender um dos nossos de um grupo de servos da catedral. -Nós o libertaremos! E agora, amigos, vamos discutir as medidas necessárias; existe muito a fazer e só temos o dia de amanhã. - Animou-se Zizka, que estava transformado e inspirado pela sede de ação. Todos se juntaram em volta dele e continuaram a confabular à meia-voz.

Uma hora depois, quando os chefes do movimento hussita se separaram, já tinham elaborado um detalhado plano de ação. O domingo de 30 de julho era um dia claro e calorento. Muito antes do início da missa, fileiras de fiéis seguiam em direção à igreja da Virgem Maria Imaculada, designada aos utraquistas por decreto real. Um observador atento talvez se surpreendesse com o pequeno número de mulheres naquela multidão e com o ar sombrio e preocupado de cidadãos e artesãos, todos, sem exceção, armados: uns com espadas e punhais; outros com dardos e lanças; outros ainda com simples porretes de madeira. O interior da igreja logo foi completamente tomado. Mas a multidão continuava a chegar, lotando o pátio, a rua e até a travessa vizinha. Ao término da missa, Jan de Geliv subiu ao púlpito e começou o seu costumeiro e exaltado sermão. Dessa vez ele estava particularmente excitado. Sua voz trovejante era ouvida até na rua através das portas escancaradas; cada palavra sua calava fundo no coração dos ouvintes.

Ele falava das desgraças dos tempos que estavam passando e das perseguições que suportavam os verdadeiros servos de Cristo. - Sim, meus irmãos, os nossos sofrimentos são grandes! Mas não vamos nos desesperar nem desanimar, pois tudo o que acontece já está escrito nas Escrituras e o apóstolo João viu tudo isso como num espelho. Nem poderíamos duvidar, mesmo por um instante, da visão profética do aluno de Cristo, descrita no Apocalipse: "E olhei, e eis um cavalo pálido, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhe dado o poder para matar a quarta parte da terra com espada e com fome, e com peste, e com as feras da terra!". Em seguida, veio a explicação que via no cavaleiro apocalíptico o Papa trazendo atrás de si o inferno na pessoa do viciado, maldoso e sequioso clero - verdadeiro exército satânico.

O pregador descrevia todas as desgraças que o Anticristo romano e seus partidários despejavam sobre a Boêmia: guerras, ataques de assaltantes estrangeiros, rios de sangue derramado e o martírio de inocentes por uma causa sagrada, entre os quais, os principais eram o santo Jan Huss e Jerônimo de Praga! - Todas essas vítimas, cujo sangue clama aos céus por vingança, o profeta viu e suas palavras abrem diante de nós o segredo do mundo de além-túmulo, quando diz: "E quando ele retirou o quinto selo, eu vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E estes clamavam com grande voz, dizendo: 'Até quando, ó verdadeiro e santo Senhor, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?'".

As explicações que acompanharam esse trecho convenceram os ouvintes de que São João referia-se aos mártires tchecos, mortos injustamente pelo concilio, e mostrava o caminho que deveriam seguir para ser o instrumento da ira divina. - Ouçam só as palavras do apóstolo e vocês não mais duvidarão da missão que o Senhor está lhes incumbindo: "E iraram-se os pagãos, e veio a Tua ira e o tempo de julgar os mortos e vingar aos Seus servos, profetas e santos e tementes de Seu nome, pequenos e grandes e destruir os destruidores da terra". Pois, preparem-se todos para serem executores da vontade divina! E difícil descrever o efeito que surtiu esse sermão sobre a excitada e fanática multidão que lotava o templo. As palavras explosivas do exmonge premonstratense conseguiram preparar a massa para a luta. Externamente, tudo parecia calmo. Mesmo que os rostos estivessem vermelhos e as mãos apertassem corajosamente as armas, os lábios cantavam hinos e a procissão seguiu atrás de Jan que, paramentado, ia à frente segurando o cálice.

Um rio de seres humanos corria lentamente pelas ruas da "Cidade Nova", mas estancou de repente, ao atingir o templo de São Estéfano. As portas da igreja estavam fechadas por ordem do sacerdote que, com isso, queria expressar sua desaprovação aos hussitas. A escolha do momento para tal desafio fora bastante inoportuna. Inicialmente, ouviu-se entre o povo um baixo murmúrio que rapidamente se transformou em rugido; a turba arremeteu para a frente e, num instante, as pesadas portas estavam quebradas. Se o próprio pároco caísse nas mãos da massa enfurecida já estaria morto; mas, para sua própria felicidade, ele escondeu-se e a multidão, satisfeita com sua primeira vitória, seguiu adiante. A casa de Milota Nakhodsky situava-se numa grande praça da Nova Cidade, em frente à prefeitura. No dia 30 de julho, de manhã, no quarto cujas janelas saíam para a praça, estavam Marga e Ana. Depois da morte de Rugena, a irmã de Zizka mudara-se para a casa da amiga, ajudando-a nos afazeres domésticos e, ao mesmo tempo, participando ativamente no grande movimento nacional-religioso que incendiara toda a Boêmia.

Pálidas e emocionadas, ambas olhavam pela janela, observando, temerosas, o que se passava na praça. Os conselheiros municipais reuniram-se na prefeitura; um destacamento da guarda policial perfilou-se contra uma das ruas, com o visível objetivo de impedir a passagem da procissão quando esta chegasse ao mercado. Marga estava particularmente temerosa; o marido proibira a ela e a Ana de irem naquele dia à igreja, e a ordem de preparar muitos curativos e pomadas convencera-na de que Milota e Zizka previam um confronto sangrento. Por isso, ainda na véspera, ela mandara as crianças para os Zmerzlik e, agora, aguardava ansiosamente os acontecimentos. Ana, externamente, parecia calma e observava a rua com olhar severo e perspicaz. - Veja! - Disse ela, cutucando a amiga. - Os Leinhardt, com um grupo de alemães, dirigem-se à prefeitura; isso não promete nada de bom. - Mas, claro! Esses dois patifes dirigem toda a confusão de Praga. Em seu ódio aos tchecos, eles procuram qualquer motivo para provocar derramamento de sangue. - Respondeu Marga e, benzendo-se, murmurou: - Meu Senhor! Guarde Milota e faça-o retornar para mim inteiro e incólume.

Naquele instante, ouviu-se de longe um surdo ruído. Em seguida, cada vez mais claramente ouviu-se um canto - misturado aos gritos e palavrões dos guardas, em sua inútil tentativa de conter a multidão que, esmagando-os, instantaneamente se espalhou pela praça. Jan de Geliv, que seguia na frente, parou diante do prédio da prefeitura. Ana abriu a janela, impacientemente, e pôs a cabeça para fora. Do andar superior ela via tudo muito bem. A voz sonora do padre Jan distinguia-se perfeitamente do ruído da multidão e chegava até ela. Ele exigia dos conselheiros municipais - que naquele instante apareceram nas janelas - a imediata libertação das pessoas presas injustamente alguns dias antes. - Veja lá, na janela à esquerda, atrás do juiz Niklashek está Guints Leinhardt! - Observou Ana. - Nem quero olhar para ele! - Respondeu Marga, afastando-se da janela. - Sinto-me mal só de passar perto dele. Mas Ana já não a ouvia; toda a sua atenção estava tomada pela conversação que se realizava diante da prefeitura.

A resposta do prefeito ao pedido de Jan de Geliv foi abafada pelo surdo rumor que correu pelas compactas fileiras da multidão, mas pelo gesto de sua mão dava para perceber que ele ousara dar uma resposta negativa aos hussitas. De repente Ana soltou um grito e empalideceu mortalmente. - Meu Deus, o que houve? - Balbuciou Marga, assustada, correndo para ela. - Guints jogou uma pedra no cálice e parece que o atingiu! Eu vi o padre Jan balançar! - Disse Ana, com voz entrecortada. Marga pôs as mãos na cabeça. - O cálice foi atingido? O sangue de Cristo foi jogado por terra? Oh! Que sacrilégio! E o fogo dos céus não o matou! - Sussurrou ela, fora de si, e também colocou a cabeça para fora da janela. A pedra atirada pela insolente mão atingira o cálice e, realmente, quase o arrancara das mãos do sacerdote. Ao ver tão inusitada insolência, a turba emudeceu. Depois, um urro selvagem escapou de milhares de peitos.

Parecia que um vento tempestuoso agitara aquele mar de cabeças, e a massa popular atirou-se à frente, atacando a prefeitura. Todas as portas e entradas do prédio estavam previamente bloqueadas e a guarda municipal defendia-se corajosamente, mas nada podia fazer contra a avalanche que arremetia cegamente para a frente, derrubando todos os obstáculos. Broda combatia nas primeiras fileiras. Ele trabalhava ardorosamente com o machado como um jovem e, sob seus poderosos golpes, a porta de carvalho partiu-se em pedaços. Foi o primeiro a entrar no prédio, deixando atrás de si uma trilha de sangue de enlouquecidos defensores; atrás dele, atendendo ao poderoso chamado de Zizka, ondas de atacantes avançaram aos gritos. Toda a resistência foi quebrada; pisoteando e derrubando tudo pelo caminho, o povo, finalmente, irrompeu na sala onde se encontravam os conselheiros. Alguns fugiram, ou se esconderam, mas sete

deles foram agarrados e jogados pela janela. Entre os que não conseguiram fugir estavam os dois Leinhardt. Guints, de costas para a janela, defendia-se desesperadamente. O pai fora derrubado pelos que fugiam e, por sua excessiva obesidade, não conseguia levantar-se. Broda, ao irromper na sala, tropeçou nele e soltou um palavrão. Depois, passando por cima, gritou aos que o seguiam: -Vamos lá, irmãos! Furem esta barrica alemã e libertem o sangue e o suor tcheco que o fizeram engordar. Um cidadão, um enorme botchar, gargalhando, enfiou a lança na barriga de Leinhardt e este uivou de dor, debatendo-se em agonia. Nesse ínterim, Broda atacou Guints e, entre eles, começou uma desesperada luta. Ágil e conhecedor das artes marciais, Broda decepou o braço do oponente junto com a espada e, em seguida, agarrou o enfraquecido Guints pelo cangote e jogou-o pela janela. - Peguem-no! - Gritou ele aos que estavam embaixo. - Foi ele que atirou a pedra no cálice! A praça transformou-se num terrível espetáculo. As pessoas jogadas de cima eram recebidas por uma floresta de lanças e dardos.

126 Esse episódio ficou conhecido como "Primeira defenestração de Praga " - Nota da editora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.