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Capítulo 19 de 51
Parte 19 de 51
Os Luminares Tchecos · Wera Krijanowskaia, pelo espírito J. W. Rochester
bom humor. Mesmo assim, ele acabou promulgando um decreto ameaçando com severo castigo a qualquer provocador de conflitos e agitações públicas. A cidade estava relativamente tranqüila. Os tchecos e os alemães evitavam um ao outro; além disso, os últimos estavam tão ocupados com conversações sobre os votos na universidade que consideravam secundário qualquer outro assunto. O professor Gubner ficou doente. No dia seguinte à catástrofe, quando ele ainda não havia conversado a seu modo com a cunhada, apareceram os Leinhardt, pai e filho. Ambos estavam furiosos e acusavam Gubner de imperdoável fraqueza no tratamento com tão imprestável e superficial moça, que o desonrara, obrigando-o a faltar à própria palavra. Guints estava particularmente fora de si, e essa discussão tomou tamanha dimensão que eles se despediram como inimigos e o professor caiu doente de inflamação na vesícula. Milota e a esposa, a conselho de Zmirzlik, saíram de Praga por algumas semanas, para dar tempo de tudo se acalmar.
"Para muitos homens e cortesãos, a luta era apenas um divertimento agradável do rei, especialmente depois do aparecimento do sr. Vok von Valdstein, alegre e espirituoso, que, sempre que podia, difamava os padres. No trabalho de afastar superiores na hierarquia da Igreja, com a concordância ou pelo menos com aceitação por parte do rei, ninguém se igualou ao sr. Vok". Helferí, p. 136- Nota do autor. Obs.: No original russo, este texto está em alemão.
Capítulo XI
O casamento de Rugena deveria acontecer em abril, logo após a Páscoa. Como a Quaresma proibia grandes festividades, a jovem vivia uma vida bastante enclausurada, mesmo depois de apresentada à corte por ocasião da chegada do rei a Praga. Venceslau ficara espantado com a beleza de Rugena, recebendo-a amavelmente. A rainha Sofia interessara-se demais por ela, recebera-a com carinho puramente materno e fizera com que ela entrasse para o seu círculo mais íntimo. Ela costumava levar Rugena consigo quando ia aos domingos e dias festivos à capela de Belém para ouvir os sermões de seu confessor, Huss. A admiração de Rugena pelo digno servidor de Deus crescia a cada dia; ela escolhera-o também como seu confessor e tinha absoluta confiança nele.
A menina seguia com o coração os discursos do pregador, quando ele, cheio de ardente fé, pronunciava as palavras de Cristo -revelando sua clareza e seu profundo sentido -, que não necessitavam de qualquer explicação humana, ou quando criticava amargamente a bazófia daqueles cujo dever era ensinar as Escrituras, mas que se enterravam em sofismas e procuravam não o bem do cristianismo, mas somente as suas próprias conclusões e a satisfação das próprias paixões. Huss descrevia com entusiasmo a imagem do verdadeiro sacerdote, ou como ele deveria ser: sábio, desinteressado, humilde, dedicado e cheio de amor, como o próprio Mestre divino. Depois, ele comparava aquele seu ideal com o clero ganancioso, que - usando vestes divinas e tendo as mãos sujas de avidez e sangue - ousava realizar os mistérios divinos.
Mas se os que procuravam o bem e ansiavam por ouvir a pura palavra evangélica corriam para a capela de Belém - de tal forma que a multidão chegava a ficar na rua -, os que se sentiam ofendidos com as palavras de Huss e viam os próprios vícios desnudados guardavam-lhe rancor e tinham por ele um crescente ódio. Graças a um conjunto de circunstâncias, o pregador de Belém ocupava uma posição especial, cuja importância somente ele não percebia pela sua sincera humildade. Ele tinha milhares de amigos e admiradores em todos os níveis da escada social. Contudo, também crescia o número de seus inimigos, e o alto clero via com inveja aquele modesto sacerdote, que usava somente seu saber e sua dignidade para se colocar à frente da Igreja tcheca. A ira dos que se consideravam desmascarados pelos sermões de Huss chegava a tal ponto que, às vezes, resultava em queixa ao rei.
Certa vez, ao voltar do palácio, Vok contou rindo que, pela manhã, aparecera a Venceslau uma delegação de canônicos do capítulo da "Cidade Alta" apresentando uma queixa contra Huss, afirmando que ele incitava o povo contra o clero, rebaixava e caluniava pessoas hierarquicamente superiores a ele, às quais ele teria obrigação de respeitar. O rei ouvira-os calmamente e dissera, com um sorriso irônico: - Enquanto Huss trovejava contra nós, leigos, vocês estavam satisfeitos. Agora, chegou a vossa vez. Portanto, fiquem também satisfei-
tos com o que ouvem agora. À medida que se aproximava o dia do casamento, Rugena ia ficando mais pensativa e calada, atormentada por um vago pressentimento. Em sua alma vivia a eterna lembrança do amor de seu pai; na família de seus tutores, ela sempre se sentira só. As pessoas mais pró-
Pelzel, "Lebensgeschichie dês rõmischen una bõhmischen Kõniga Wenceslaus " (A vida dos imperadores romanos e boêmios). - Nota do autor. ximas a ela eram Ana e Svetomir, mas ela alimentava por eles somente uma tranqüila atração fraternal. Do homem ao qual se uniria para sempre, ela esperava somente amor. E, apesar da amabilidade de cavaleiro dele, dos presentes que lhe oferecia e até de sua paixão revelada, a jovem não estava satisfeita. A mente séria, observadora e a inteligência perspicaz de Rugena faziam-na perceber, nas conversas interessantes do noivo, a costumeira tagarelice da corte e, em suas juras de amor, a leviandade e a embriaguez da paixão. Em vão procurava ela, nos olhos de Vok, aquela chama ardente e pura da atração pela qual ansiava e, em sua voz, aquele tom proveniente do coração que os aqueceria e os uniria num único e imortal sentimento. Às vésperas do casamento, achando-se particularmente triste, Rugena sentia uma incontida vontade de desabafar tudo o que reti-nha na alma e pedir ajuda e conselhos de alguém que a dirigisse para o escuro e insondável futuro.
Nunca antes, como naquele instante, Rugena sentira tanto a amarga sensação de ser órfã e não ter ninguém mais próximo a quem pudesse abrir o coração. Então, pensou em Huss. Ele era seu confessor e também um amigo, conhecido desde a infância; sua pureza, sua inteligência e sua bondade inspiravam-lhe total confiança. O casamento deveria acontecer na igreja de São Miguel, onde havia sido realizado o de Marga, mas, por insistência de Rugena, o sacerdote da cerimônia seria Huss. E, mesmo tendo confessado e comungado pela manhã, Rugena enviou uma carta ao confessor pedindolhe que viesse e lhe concedesse uma hora para conversarem. Recebendo a resposta confirmando a sua chegada, ela voltou ao seu oratório e ordenou que assim que o padre Jan chegasse, levassem-no para lá. Como de costume, a véspera do casamento era comemorada com uma reunião de jovens e jogos, mas Rugena declarou que a última noite de sua vida de solteira desejava passar sozinha e em meditação.
No oratório, ela ajoelhou-se diante do facistol e concentrou-se numa oração. Ela não ouviu a porta se abrir, Huss entrar e parar na soleira. Ele ficou olhando-a por muito tempo e uma expressão indefinida passou pelo seu rosto. Depois, aproximou-se e tocou-lhe a mão. Ela estremeceu e endireitou-se. - Você queria me ver, minha filha? Esqueceu algum pecado durante a confissão ou, simplesmente, quer algum conselho? - Disse Huss, sentando-se na poltrona ao lado do facistol. - Não tenho pecado na consciência, padre Jan! Somente algumas dúvidas que me atormentam. Não tenho mãe e o senhor é a única pessoa a quem posso contar tudo sem nada esconder e que pode me iluminar. Decidi incomodá-lo porque sinto hoje um certo mal-estar e uma grande preocupação. - Então fale. Espero que Deus me indique como tranqüiliza-la e desanuviar suas preocupações. Rugena pensou por um instante e falou, em voz baixa: -Amanhã devo dar a Vok o juramento de fidelidade e amor por toda a vida, mas não o amo como deveria. Huss endireitou-se. - Você não ama o conde?
Por quê? - Perguntou ele pausada-mente, surpreso. - Eu não quis dizer isso, padre Jan! Só que me parece que tanto da parte dele como da minha, o amor poderia ser diferente... - Tentando explicar em rápidas palavras e com a maior clareza o que a preocupava, Rugena acrescentou: - Dizem que o amor é um sentimento poderoso, que tudo suporta e perdoa. Entretanto, tenho consciência de que não suportaria nenhuma ofensa de Vok, nunca o perdoaria e deixaria de gostar dele. E penso que com ele aconteceria o mesmo. Huss balançou a cabeça, pensativo. -Não posso, minha filha, aprovar os sentimentos que você vai levar para o altar! O seu juramento voluntário obriga-a a dividir com seu marido as tristezas e alegrias, e sempre lhe expressar o mesmo apego que tudo perdoa e julga com condescendência. Amanhã você assumirá
Facistol: Cadeira episcopal móvel, sem espaldar - Nota da editora.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.