Voltar ao livro A Pluralidade dos Mundos Habitados

Capítulo 9 de 46

Grandeurs Comparees Des Planetes — parte 2 de 3

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

opinião de que, tendo em vista as variações incessantes de sua temperatura, desde o calor tórrido até o frio glacial, que fazem deles uma morada inóspita, deveriam provavelmente servir de lugar de suplício para os danados... Outros sistemas de explicações, mais ou menos engenhosos, foram aplicados a eles... Não vamos acompanhar estes atrevidos romancistas em suas especulações hipotéticas. Consideremos agora a questão das atmosferas na superfície dos planetas, as propriedades dos envoltórios aéreos sobre a economia dos seres e sua influência no sistema físico de cada mundo. Na Terra, a atmosfera é uma mistura composta de 79 partes de azoto e 21 de oxigênio; e desde o peixe, que respira por brânquias, até o homem, cujo aparelho pulmonar é o mais perfeito, é a esta composição química, um pouco mais ou um pouco menos modificada, segundo as influências locais, que os animais devem o sustento de sua vida. Há mesmo vegetais que respiram de dia por um modo inverso ao nosso, e de noite por um modo semelhante. O ar é, pois, o alimento primeiro e indispensável da vida terrestre.

Todo ser vivo depende da atmosfera, pois todo ser vivo carrega dentro de si um aparelho mecânico e químico de respiração construído segundo a natureza íntima desta atmosfera. Além das propriedades relativas à respiração, indispensável para a vida do globo, o fluido atmosférico possui outras, não menos notáveis. Se, para as funções internas do corpo, o aparelho pulmonar está organizado de maneira a transformar incessantemente o sangue venoso em sangue arterial, e a renovar assim sem cessar os princípios de nossa vida, para as funções externas, e especialmente as do ouvido e da vista, estão dispostos em condições de receber e de transmitir ao cérebro as influências exteriores das quais a atmosfera é o meio. De um lado, o mecanismo dos órgãos vocais imprime à atmosfera as vibrações que constituem o som e que levam a voz ao mecanismo do ouvido; de outro, o mecanismo do ouvido, de uma suscetibilidade correlata, recebe essas vibrações e é o seu intérprete para o senso íntimo do pensamento. Todo mundo desprovido de atmosfera seria, por isto mesmo, um mundo de surdos-mudos, uma morada de eterno

silêncio. O que acabamos de dizer para o sentido auditivo terá aplicações diferentes para o sentido da visão. Sabe-se, com efeito, que a difusão da luz é devida à massa atmosférica, e que sem esta, nunca haveria coisas visíveis, senão os objetos expostos diretamente à luz solar; não haveria sombra nem penumbra; a claridade esfuziante do Sol ou a obscuridade completa da noite; nem aurora nem crepúsculo, nem transições nos fenômenos da luz, e daí, nenhuma habitação possível ao ar livre, e todo um novo gênero de vida incompatível como que mencionamos aqui. E isto não é tudo. Sem atmosfera, nada de nuvens; uma luz monótona e fastidiosa, uniformemente vertida pelo astro ofuscante, sem a menor diversidade de aparência no céu. Que dizíamos sobre o céu? Não haveria céu! Este azul límpido que encanta a nossa visão, seria substituído por uma imensidade negra e lúgubre; o globo do Sol, na Lua e as estrelas o percorreriam sós em seu trajeto periódico.

Os jogos esplêndidos da lua em nosso céu, da manhã e do anoitecer, as radiações douradas da aurora sobre nossas paisagens que despertam, as nuvens vermelhas e as glórias do crepúsculo sobre nossas montanhas, as criações fantásticas de mil cores que se sucedem ao nosso redor, todas essas maravilhas seriam desconhecidas para um tal mundo privado de atmosfera, morno império que relembra as regiões silenciosas e vazias do Purgatório onde Dante encontrou os Espíritos do Limbo. Mas vamos mais adiante. A atmosfera envolve nosso globo como uma estufa quente que conserva o calor solar e o calor terrestre. Sem atmosfera, o calor e a luz do Sol seriam devolvidos aos espaços celestes, e nosso globo seria totalmente reduzido à sorte das grandes alturas dos Andes, do Himalaia e dos picos alpinos, onde a atmosfera rarefeita só reina sobre um deserto de gelo e morte eterna (1). Vamos mais longe ainda na exposição dos resultados funestos que acompanham inevitavelmente a ausência de atmosfera, e no estudo das vantagens que devemos ao envoltório que cobre a superfície do globo. Sabe-se que a água constitui o elemento principal de todos os líquidos em ação na economia terrestre, seja nos vasos sanguíneos

do animal, seja no tecido das plantas; que este elemento é, quase tanto quanto o ar, indispensável às funções da vida terrestre, e que sem ele as transformações orgânicas não poderiam se efetuar em um ou outro reino. Ora, a própria existência da atmosfera é uma condição necessária para a existência da água, ou de qualquer outro líquido na superfície de um astro; sua ausência implica por isso mesmo na ausência desses líquidos, todo acúmulo de águas necessitando, para se formar e se manter, de uma pressão atmosférica qualquer. Todos os mundos que fossem desprovidos de atmosfera seriam, ao mesmo tempo, desprovidos de todas as espécies de líquidos, e vemos que, se a vida tivesse aparecido em sua superfície, só poderia ser sob uma forma e num estado radicalmente incompatíveis e sem o menor caráter de analogia com as manifestações da vida sobre a Terra. (1) V. nossa extensa obra L'Atmosphère, Livro III, caps. 1 e II. Tais são as propriedades da atmosfera terrestre.

Mas aqui, como precedentemente, nosso mundo não recebeu o menor favor, e, talvez à exceção da Lua, todos os mundos onde se pode aplicar medidas relativas a este tipo de determinação foram encontrados como providos de atmosferas. Em Vênus, os fenômenos crepusculares, as manchas das nuvens, revelam a sua existência; em Marte, tempestades se erguem sobre os mares e vão, em volumosas nuvens, refrescar os continentes; em Júpiter e em Saturno, nuvens análogas correm de cada lado do equador e sulcam essas regiões com faixas brilhantes. Daqui observamos, sob as esteiras de vapores que atravessam as suas atmosferas, os ventos salutares e benéficos que sopram sobre aqueles campos longínquos; as evaporações que se erguem pelos ares e se condensam em nuvens; as nuvens que caem em chuvas refrescantes e que trazem a fertilidade para as pradarias; julgamos ver, nesses mediterrâneos e oceanos entrecortados, os traços de união que aproximam os povos e que são o veículo do comércio internacional; e sob os fatos que se destacam deste estado de coisas, cujo conjunto oferece tantas analogias com o que se passa na Terra, vemos lá, tanto quanto aqui, nações inteligentes entregues a todas as atividades de uma civilização progressista.

Quando falamos das atmosferas dos planetas ou de suas condições aquosas, não afirmamos com isto que por lá haja ar ou água, idênticos ao ar que respiramos e à água de nossas fontes. Nada nos prova que os líquidos ou os gases planetários sejam de uma composição idêntica à dos líquidos e dos gases terrestres. Somos de opinião, ao contrário, que eles podem diferir, porque se encontravam, na época em que se formaram, em condições totalmente diferentes das que presidiram à formação das substâncias terrestres. É tão mais importante apoiar-se sobre esta maneira de ver que certos autores modernos, que escreveram sobre a pluralidade dos mundos, enganaram-se grosseiramente imaginando, contra toda evidência, que todo meio atmosférico tem como expressão: 0,208 O + 0,792 Az, e todo acúmulo de água como notação química em equivalentes: HO; isto inevitavelmente os conduziu às conclusões as mais errôneas. Habituamonos aqui aos três estados diferentes dos corpos, determinados pela quantidade de calor existente ao nosso redor, e somos levados a ver nos outros mundos condições análogas às da Terra.

Mas, aprofundando a questão, chegamos a uma opinião contrária, e descobrimos que a composição dos corpos difere conforme o mundo, tanto por causa da diversidade original destes, quanto pelo seu estado calorífico atual. Este estado calorífico apenas bastaria, por exemplo, para reduzir a parte dos líquidos e até dos gases terrestres ao estado sólido, em Urano e em Netuno, e para elevar ao estado gasoso, em Mercúrio, um grande número de corpos que estão no estado líquido na Terra. Como seria irracional imaginar sobre todos os outros mundos água, ar e substâncias idênticas à água, ao ar e às outras substâncias do globo terrestre! (1) (1) Desde a primeira edição desta obra, a maravilhosa descoberta da análise espectral demonstrou que há, especialmente em Marte e Vênus, água, e que é quimicamente a mesma que a nossa. Uma diferença notável existe, ao contrário, entre o estado dos líquidos e dos gases de Júpiter e de Saturno e o das substâncias terrestres. (Nota da 25° edição.)

A física está aí, de resto, para nos ensinar que os três estados sob os quais os corpos nos aparecem, o estado sólido, o estado líquido e o estado gasoso, não são senão as transformações que todos os corpos podem sofrer,

e que são determinadas pela natureza desses corpos, pelo calor ambiente, pela gravidade e pela pressão atmosférica. Se se considera de início o fenômeno da fusão, quer dizer, a passagem do estado sólido para o estado líquido, vemos que o grau de temperatura em que se opera difere para cada substância: é assim que o mercúrio passa do estado sólido para o líquido a 39 graus acima de zero; a água, a O grau; o potássio, a 55 graus acima de zero; o enxofre, a 110 graus; o estanho, a 228 graus; o chumbo a 335 graus; o zinco a 500 graus; a prata a 20 graus do pirômetro, quer dizer, a 2020 graus; o ouro, a 2900 graus, etc. Vemos aqui uma diversidade tão grande quanto a das substâncias, e que levanta toda dificuldade relativa aos outros mundos. Se se considera o fenômeno da ebulição, quer dizer, a passagem do estado líquido para o gasoso, a diversidade é mais admirável ainda, pois aqui não é somente a temperatura que age, mas também o estado da atmosfera.

Os líquidos se evaporam quando a força elástica de seu vapor é igual à pressão atmosférica; assim a água, que evapora a 100 graus sob a pressão barométrica ordinária (Om,76), evapora muito mais rápido nas montanhas, onde a pressão é menor: no Monte Branco, por exemplo, a temperatura da ebulição da água é apenas de 84 graus; sob o recipiente da máquina pneumática, onde o ar é de rarefação extrema, a água ferve à temperatura ordinária; reciprocamente, se a pressão aumenta, a ebulição é retardada; só ocorre, por exemplo, a 121 graus, quando a pressão é igual a duas vezes a pressão atmosférica ordinária. O mesmo ocorre para outros líquidos: o éter passa do estado líquido ao estado gasoso a 35 graus somente, porque a este grau de temperatura a força elástica de seu vapor é igual à pressão atmosférica; o álcool, a 94 graus, pela mesma razão, o mercúrio a 360 graus etc. De outro lado, os gases se liquefazem sob certas pressões: por exemplo, o ácido sulfuroso se liquefaz sob a pressão de duas atmosferas, o hidrogênio sulfurado sob a pressão de 17, o ácido carbônico sob a pressão de 36, etc. Aplicado à diversidade de natureza dos mundos planetários, o quadro geral da física dos corpos terrestres estabelece com

autoridade na sua superfície um conjunto de transformações inorgânicas particulares, apropriadas à natureza específica de cada mundo. Acrescentemos agora, para completar a questão das atmosferas, que mesmo quando nos é impossível constatar a existência de uma atmosfera em torno de um globo, não é para dizer com isto que ela não existe; isto significa somente que ela escapa aos nossos meios de observação. Na Lua, por exemplo, as experiências de polarização não indicaram acúmulo de água na sua superfície, e as observações de ocultações de estrelas ou de planetas deixando suspeitar por vezes de ligeiros traços de atmosfera, não provaram que haja uma atmosfera normal. A questão é por isto respondida negativamente?

De modo algum, pois de um lado, o hemisfério que nos é perpetuamente invisível nos é, por força, desconhecido, e pode estar revestido de uma camada atmosférica cuja existência poderemos nunca constatar; por outro lado, se se refletir nas pequenas dimensões de nosso satélite, na sua pequena massa e na sua medíocre densidade, conviremos que ele poderá ser dotado de uma atmosfera ligeira, cuja altura seria muito pequena em comparação à da nossa, e que, ocupando apenas seus vales e planícies baixas, estaria longe de atingir o cume de suas gigantescas montanhas. Devemos examinar agora as relações de tamanho e superfície que caracterizam os planetas entre si; este exame nos mostrará, como os precedentes, que a Terra não foi distinguida entre os outros corpos celestes, que não é nem a menor em superfície, nem a mediana, nem a mais extensa.

O diâmetro de Marte é duas vezes menor que o da Terra, o que dá a este planeta uma superfície quatro vezes menor que a do globo terrestre; Mercúrio também é um mundo inferior ao nosso em extensão; mas acima da Terra, contamos, ao contrário, outros, incomparavelmente mais vastos; destarte, enquanto que o diâmetro médio de nosso globo não mede mais que 3.200 léguas (1), o de Saturno mede 28.650 e o de Júpiter perto de 36.000. A superfície de Saturno é oitenta vezes maior que a da Terra, e mede nada menos que 25 bilhões e 200 milhões de léguas quadradas. A superfície de

Júpiter é ainda de uma vez e meia maior e se estende por 40 bilhões de léguas. Esta comparação lembra uma das páginas mais engenhosas do livro de Fontenelle, onde a marquesa lhe pergunta se os habitantes de Júpiter puderam constatar a existência de nosso pequeno globo. "À boa-fé", responde-lhe o filósofo, "receio que lhes somos desconhecidos; seria preciso que vissem a Terra, cem vezes menor do que nós vemos o seu planeta; é muito pouco, e eles não a vêem. Eis somente o que poderíamos crer o melhor para nós. Haveria em Júpiter astrônomos que, depois de se dar a muito trabalho em montar excelentes lunetas, depois de escolher as mais belas noites para observar, descobririam no céu um pequeno planeta que jamais viram antes. De início, apenas o Jornal dos Cientistas daquele país falaria dele; o povo de Júpiter não ouve falar, ou apenas ri; os filósofos que com isto têm suas opiniões destruídas determinam-se a não crer em nada disto; as pessoas sensatas duvidam.

Observa-se mais, reencontra-se o pequeno planeta, certifica-se de que não é uma visão, e por fim, graças a todos os esforços dos sábios, fica-se sabendo em Júpiter, que nossa terra está no mundo... Mas nossa Terra não é nós: não se tem a menor suspeita de que ela possa ser habitada, e se alguém vier a imaginá-lo, Deus sabe o quanto todo Júpiter zomba dele." (2) (1) O raio terrestre médio, o que passa pelo meio da França, é de 6 bilhões 366 milhões 407 mil metros; o diâmetro médio do globo é pois de 12 bilhões 732 milhões 814 mil metros, e sua circunferência, de 4 mil miriâmetros, ou 10 mil léguas métricas. Uma observação não desprovida de interesse, que devemos fazer aqui sobre a relação entre as superfícies dos planetas, é que uma viagem de circunavegação que pode ser feita praticamente em um ano sobre a Terra, duraria, supondo circunstâncias idênticas, mais de nove anos em Saturno, e mais de onze em Júpiter, e mais de um século, para o Sol. (1) Les Mondes, IVª noite.

Poder-se-ia dar demasiado valor às palavras de Fontenelle e mostrar que ele chegou a pressentir como é pouca a visibilidade da Terra para os habitantes de Júpiter. Aqui temos um pequeno problema de trigonometria. Fazendo o cálculo, descobrimos que para Júpiter a Terra não se afasta do Sol senão numa oscilação de 11 a 13 graus de uma quadratura a outra, parecendo então (ao telescópio) como a Lua nos aparece em seu primeiro e

último quarto; ela só se mostra a seus habitantes pela manhã antes do nascer do Sol e à noite, após o ocaso; e que nunca fica mais de 22 minutos acima de seu horizonte. Esta duração tão curta da visibilidade da Terra é ainda mais breve para eles, relativamente à duração do dia, pois estes 22 minutos formam apenas 9 dos deles. Não são então "as mais belas noites" que os astrônomos jupiterianos podem escolher para observar nossa pequena Terra, mas sim os poucos minutos durante os quais ela pode ser vista na aurora ou no crepúsculo, de seis em seis meses, ou nos momentos em que ela passa, a cada ano, como um pequeno ponto negro, invisível a olho nu, perante o seu pequeno Sol.

Se, depois de ter comparado Saturno e Júpiter a nosso globo, lhe compararmos o Sol, estabeleceremos que o diâmetro deste é igual a 356 mil léguas, e sua superfície a 385 trilhões e 133 bilhões de léguas quadradas; de tal sorte que, se julgarmos por nosso globo, cuja superfície de 318 milhões de léguas quadradas alimenta perto de 1 bilhão e 400 milhões de habitantes (3) o Sol, cuja extensão é 12 mil vezes maior, poderia ter uma população que, sem ser mais densa que a da Terra, contaria com 16 trilhões de habitantes. Mas esta é uma conjetura talvez sem explicação possível. Reportemo-nos aos mundos planetários de Júpiter e de Saturno, de que falávamos há pouco, e constatemos o quanto sua importância os torna superiores ao nosso pequeno globo.

Se os habitantes dos outros mundos são levados, como os da Terra, a ver no Universo um edifício construído em seu favor, se eles também imaginam ser o objetivo da grande criação, quantas dessas esferas esplêndidas têm mais direito de considerar tais corpos planetários como lançados no espaço para lhes ensinar as leis do mundo e fazê-los admirar a sua harmonia, a eles, cujos anos se contam por séculos e que receberam tantas marcas de distinção da natureza! Quantos desses habitantes, privilegiados na ordem moral como numa ordem física, estariam mais fundados em observar a si mesmos como monarcas do mundo, eles, tão elevados acima das mesquinhas criaturas humanas que

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.