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Capítulo 43 de 46

Swedenborg — parte 1 de 4

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Das terras em nosso mundo solar que são chamadas planetas; De seus habitantes e de seus espíritos

Que há muitas Terras e sobre elas homens, e por conseguinte Espíritos e Anjos, é coisa bem conhecida na outra vida; pois lá, a quem quer o deseje segundo o amor da verdade c do uso que daí deriva, é concedido falar com os espíritos (1) das outras Terras, e ser por meio disso confirmado sobre a Pluralidade dos Mundos, e instruído de que o gênero humano não provém somente de uma Terra, mas de inumeráveis Terras; e ademais, que gênio e que tipo de vida têm seus habitantes, e qual é seu culto divino. (1) Swedenborg chama de espíritos de cada Terra as almas daqueles que a habitaram. Estas almas ficam nas regiões que circundam a sua Terra, porque elas são de mesmo gênio que aqueles que a habitam, que elas lhes prestam serviços, etc. E por estes espíritos que Swedenborg disse ter conhecido a habitação dos outros mundos.

Falei algumas vezes com os espíritos de nossa Terra sobre este assunto, e foi-me dito que o homem que desfruta de bom entendimento pode saber, através de muitas coisas de que sabe, que há várias Terras, e que elas são habitadas por homens... Há espíritos cuja única atividade é adquirir conhecimentos, porque só o conhecimento faz as suas delícias; em conseqüência, é permitido a estes espíritos ir para todos os lados, e passar assim do mundo deste Sol para outros Mundos, e recolher para si os conhecimentos: eles me disseram que há Terras habitadas por homens, não somente neste mundo solar, mas também fora deste mundo, no céu astral, em número imenso. Estes espíritos são do planeta de Mercúrio.

Da terra de Mercúrio

... Os espíritos vieram a mim, e foi-me dito do céu que eles eram da Terra mais próxima do Sol, planeta que sobre nossa Terra é chamado com o nome de Mercúrio; e assim que vieram, procuraram em minha memória as coisas que eu sabia: — é que os espíritos podem fazer muito habilmente, pois quando vêm para o homem, vêem em sua memória cada uma das coisas que há nela; assim, pois, que procuraram diversas coisas, e entre elas as cidades e os lugares onde estivera, observei que eles não queriam conhecer os templos, os palácios, as casas, as ruas, mas somente as coisas que eu sabia que foram feitas nesses lugares, e depois as que se referiam ao governo, o gênio e os costumes dos habitantes e outras coisas que tais, pois tais coisas aderem aos lugares, na memória do homem; é por isso que quando os lugares são rememorados, elas sobrevêm também.

Fiquei surpreso que esses espíritos fossem assim; daí, perguntei por que negligenciavam as magnificências dos lugares e procuravam apenas as causas e os fatos que ali se passaram; responderam que não tinham nenhum prazer em considerar os objetos materiais, corporais e terrestres, mas gostavam apenas de observar as coisas reais. Assim ficou confirmado que os espíritos desta Terra representam no Grande Homem a memória das coisas, abstração feita do que é natural e terrestre. Foi-me dito que tal é a vida dos habitantes desta Terra, quer dizer, que não dão nenhuma atenção aos objetos terrestres e corporais, mas se ocupam do estatuto das leis e dos governos das nações que existem, depois também das coisas que concernem o Céu, as quais são inumeráveis. Têm aversão pela linguagem das palavras, porque ela é material; também com eles, quando não havia espíritos intermediários, só pude conversar por uma espécie de pensamento ativo.

Desejei saber de que face e de que corpo são os homens da Terra de Mercúrio, e se são semelhantes aos homens de nossa Terra; então se ofereceu a meus olhos uma mulher perfeitamente semelhante às que há na

Terra, seu rosto era belo, mas um pouco menor que o das mulheres de nossa Terra; ela era também mais delgada de corpo, mas de mesmo tamanho; sua cabeça estava envolvida com um tecido colocado sem arte. Apareceu também um homem, que de corpo era também mais delgado que os homens de nossa Terra; estava com uma roupa azul-escuro, adaptando-se justamente ao corpo, sem dobras nem saliências: foi-me dito que assim eram os homens desta Terra, quanto à forma e à vestimenta do corpo. A seguir apresentaram-se as espécies de seus bois e vacas, diferindo pouco das espécies de nossa Terra, mas menores, aproximando-se de certo modo das corças e veados. —Se nos propuséssemos aqui comentar Swedenborg, comunicaríamos a estupefação que sempre produziu em nós a leitura dos relatos sobre os habitantes dos planetas. A leitura das obras escritas sobre o nosso tema faria verdadeiramente crer que aos olhos de seus autores, a Terra é o tipo do mundo, e o homem da Terra, o tipo dos habitantes do céu.

Todavia, é bem mais provável que, a natureza dos mundos sendo essencialmente variegada, os meios e as condições de existência essencialmente diferentes, as forças que presidiram à criação dos seres, e as substâncias que entraram em sua constituição recíproca, essencialmente distintas, nosso modo de existência não pode, de maneira alguma, ser considerado como aplicável aos outros globos. Os que escreveram sobre este assunto deixaram-se dominar pelas idéias terrestres e caíram no erro. Sobre os costumes, roupas justas no corpo ou outras, dos habitantes dos planetas, sua descrição muitas vezes leva os brincalhões a perguntar aos autores desses relatos se não há, nos mundos, alguma fábrica de tecidos ou de seda análogas às de Sedan ou de Lyon. A respeito disto, um anônimo muito curioso responde como segue: "Em Mercúrio, a natureza fornece vestimentas grátis, e é o imperador que as distribui. Os magazines estão sempre abertos, e qualquer um pode ir escolher, desde que apresente uma ordem do intendente destinado a este fim. Os que querem mais do que é regulado pela tarifa ordinária têm

necessidade de uma ordem do imperador, que só dificilmente lhes é concedida. Isto não impede que os guarda-roupas mais magníficos e os mais diversificados que há no Universo não estejam em Mercúrio. A manufatura destes tecidos contém toda a extensão de um grande lago, colocado nos jardins do imperador: este vasto jardim é todo cheio de um licor que os filósofos chamam Mercúrio-princípio. É desta substância que são compostos os tecidos fabricados pelas Salamandras. "As margens do lago onde estão todas estas obras-primas são rodeadas a uma certa distância por soberbos magazines (como no Palais-Royal), ao qual as Salamandras levam e conservam seu trabalho, que distribuem grátis à escolha dos que as desejam, desde que apresentem uma ordem do imperador, ou a marca do intendente. Além dos tecidos, encontram-se nestes magazines todo o sortimento do que convém à vestimenta dos homens, assim como à das mulheres. "Esse povo engenhoso e delicado só é dedicado às misturas industriosas da natureza e das produções da arte: assim, toda magnificência de seus tecidos consiste na fineza, no brilho da cores e na variedade dos desenhos.

Sobretudo nesta última parte é que as Salamandras se superam: representam em suas obras não somente as flores, os frutos, os animais, os grotescos, mas ademais, como sabem de tudo que se passa em Mercúrio e nos outros planetas, fazem pequenos quadros enigmáticos, de modo que se verá, por vezes, nunca mesma roupa as aventuras anedóticas de cinco ou seis planetas, pintadas como as miniaturas de nossas mais belas tabaqueiras (1). (1) Relation du Monde de Mercure, Genebra, 1750. Mas deixemos nosso romanesco autor, e retornemos a Swedenborg.

Da Terra de Vênus

No planeta de Vênus, há duas espécies de homens, de caráter oposto: há aqueles que são suaves e humanos, e há aqueles que são cruéis e quase selvagens (nisto não diferem muito dos habitantes da Terra). Os que são

suaves e humanos aparecem do outro lado de Vênus, os que são cruéis e quase selvagens aparecem deste lado (?). Alguns dos espíritos que aparecem do outro lado do planeta e que são suaves e humanos vieram até mim, e se apresentaram à minha vista acima de minha cabeça. Conversei com eles sobre diversos assuntos. Entre outras coisas eles me disseram que quando estavam no mundo, tinham reconhecido, e por mais forte razão agora reconheciam, Nosso Senhor como seu único Deus; diziam que em sua Terra eles o viram, e o representavam também como o tinham visto. Estes espíritos, no Muito Grande Homem (o Universo) representam a memória das coisas materiais, que concorda com a memória das coisas imateriais, que representam os espíritos de Mercúrio. E por isso que os espíritos de Mercúrio concordam muito bem com os espíritos de Vênus. Assim, quando estavam juntos, percebi, pelo influxo que provinha de lá, uma mudança notável e uma forte operação em meu cérebro.

Não conversei com os espíritos dos habitantes do outro lado, e que são cruéis e quase selvagens; mas foi-me contado pelos anjos de que caracteres são, e de onde lhes vens essa natureza tão feroz; é porque eles encontram muito prazer em suas rapinas, e o maior prazer em devorar o que pilharam... Também foi-me contado que esses habitantes, na sua maioria, são gigantes, e que os homens de nossa Terra só chegariam até seu umbigo; e depois, também, que são estúpidos, não se inquietam com o que é o Céu ou o que é a vida eterna, mas se ocupam somente do que se refere à sua terra e seus rebanhos.

Da terra de Marte

Entre os homens deste sistema solar, os de Marte são os melhores de todos, pois na maioria eles são homens celestes, não diferentes daqueles que foram da antiga Igreja sobre a Terra.

Um dia em que os espíritos de Marte estavam em minha casa e se apossaram da esfera do meu mental, os espíritos da nossa Terra vieram e quiseram se introduzir também nessa esfera; mas então os espíritos de nossa Terra ficaram como que loucos, e isso porque não podem entrarem acordo com os de Marte. Foi-me apresentado um habitante de Marte; não era, é bem verdade, um habitante, mas era semelhante a um habitante. Sua face era como a dos habitantes de nossa Terra, mas a parte inferior do rosto era negra, não de barba, pois ele não a tinha, mas de um negror que ocupava o lugar da barba: este negrume se estendia de cada lado, até as orelhas. A parte superior do rosto era loura, como a face dos habitantes de nossa Terra que não absolutamente brancos. Disseram-me que os habitantes dessa Terra se alimentavam dos frutos das árvores, e sobretudo, de um certo fruto redondo que germina em sua Terra; e além disto, de legumes; que vestem-se com roupas que fabricam com as fibras da casca de certas árvores, fibras que têm a consistência conveniente para serem tecidas, e serem também aglutinadas por uma espécie de goma que eles têm. Contaram-me, por outra, que sabem fazer um fogo fluido, pelo qual têm luz ao cair da tarde e à noite.

Da terra de Júpiter

Quanto aos espíritos que são desta Terra, fui informado de diversas coisas que concernem aos seus habitantes; por exemplo, como andam, como se alimentam, como moram. Quanto ao que concerne a seu caminhar, não andam com o corpo ereto, como os habitantes de nossa Terra e de muitas outras, nem se arrastando à maneira dos animais; mas quando caminham, ajudam com as palmas das mãos, erguem-se alternativamente um pouco sobre os pés; e ademais, a cada terceiro passo que dão ao caminhar, olham para o lado e para trás, e então curvam um pouco o corpo, o que é feito com rapidez, pois entre eles é indecente ser visto que não de frente. Quando caminham assim, mantêm sempre o rosto erguido, como

entre nós, para que desta maneira contemplem também o céu; (1) não abaixam o rosto para olhar para a terra, e dizem que isto é amaldiçoado; é o que fazem entre eles os mais vis, que, se não assumem o hábito de erguer o rosto, são banidos de sua sociedade. (1) Ninguém repudiará jamais o Os sublime dedit. Os que vivem em suas regiões tórridas andam nus, mas com um véu em torno dos rins; e não enrubescem com sua nudez, pois seus mentais são castos, e só amam a suas esposas e detestam os adúlteros. Surpreenderamse muito com os espíritos de nossa Terra, quando souberam o modo como caminham e que andavam nus tiveram pensamentos lascivos, e com não darem nenhuma atenção à sua vida celeste, mas se ocuparem somente dessas coisas; diziam que era sinal de que se aplicavam mais às coisas corporais e terrestres que às celestes, e que coisas indecentes ocupavam seus mentais.

Eu lhes disse que a nudez não é motivo de vergonha nem escândalo para os que vivem na castidade e no estado de inocência, mas que ela o é para os que vivem na impudicícia. Quando os habitantes desta Terra se deitam na cama, virem o rosto para a frente, ou do lado do quarto, e não para trás, ou para a parede etc... (Devese convir que estes detalhes e tantos outros são puerilidades bem terrestres. Seria difícil descobrir qual sua importância ou utilidade. Passemos às refeições.) Eles gostam muito de prolongar suas refeições, não tanto pelo prazer de comer, mas pelo da conversação. Isto é vantajoso para o homem, pois ele se empenha em ter um mental são num corpo são (2), acontecendo o oposto para aqueles dominados pelo paladar, porque seu corpo enlanguesce. (2) Um mental são num corpo são é a tradução mais literal de Mens sana in corpore sano.

Suas casas também me foram mostradas; são baixas, feitas de madeira, mas dentro elas são cobertas de líber, ou casca de um azul pálido, e por todos os lugares, à volta e no alto com pontas semelhantes a pequenas estrelas, à imagem do Céu, pois querem dar ao interior de suas casas a

imagem do Céu visível com seus astros, e isso porque crêem que os astros são as moradas dos anjos. Os habitantes da terra de Júpiter também têm uma linguagem de palavras, mas não é tão sonora como entre nós; uma linguagem ajuda a outra, e a vida é insinuada na linguagem das palavras pela linguagem do rosto. Fui informado pelos anjos que a primeira língua de todas em cada terra foi a linguagem pelo rosto, e isso por meio dos lábios e dos olhos, que são suas duas origens; se esta língua foi a primeira, é porque a face foi formada para apresentar a imagem do que o homem pensa e quer: daí também a face foi chamada imagem e sinal do mental. Swedenborg estendeu-se longamente sobre este tipo de linguagem em Arcanos da vida futura, nº 607, 1118, 7261 quanto à linguagem em geral, e nos nº 4799, 7359, 8248, 10587 quanto à linguagem nos planetas.

Da terra de Saturno

Os habitantes de Saturno são muito humildes no culto, pois se consideram como nada; adoram a Nosso Senhor, e o reconhecem como o único Deus: o Senhor lhes aparece, às vezes, sob uma forma angelical e também como homem, e então o Divino brilha sobre sua face e afeta o mental. Os habitantes também, quando chegam a uma certa idade, conversam com os espíritos, que os instruem sobre o Senhor, sobre a maneira como deve ser adorado, e sobre a maneira como se deve viver. Disseram-me que sobre sua terra há também homens que chamam de Senhor à Luz noturna, que é grande; mas estes são separados dos outros, e não são tolerados entre eles. Esta Luz noturna vem daquele grande Anel, que rodeia esta terra a distância, e das Luas que são chamadas satélites de Saturno. Eles sabem que viverão após a morte, por conseguinte, não fazem caso de seu corpo senão no que se refere à vida, que, tal como dizem, vai ficar

para que sirvam ao Senhor, e por isso mesmo não enterram os seus corpos, mas lançam-nos longe e cobrem-nos com ramos das árvores da floresta. Extraímos de Swedenborg o que tem de menos difuso, de menos incompreensível; ademais, longas citações seriam fastidiosas para um grande número de leitores. A título de comentário, diremos que em física Swedenborg não sai da Terra; que em metafísica, não sai do cristianismo — e que, se escapa às vezes da esfera humana, é freqüentemente para divagar em coisas vagas onde nenhuma razão pode segui-lo. De fato, é difícil imaginar que ele tenha tantos adeptos.

Charles Bonnet

De Genebra

Contemplação da natureza

O universo. Quando a sombria noite estendeu seu véu sobre as planícies azuladas, o firmamento desenvolve perante nossos olhos a sua grandeza. Os pontos cintilantes de que está semeado são os Sóis que o Todo-Poderoso suspendeu no espaço para iluminar e aquecer os mundos que giram ao seu redor. Os céus contam a glória do Criador, e o espaço faz conhecer a obra de suas mãos. O gênio sublime que se exprimia com tanta nobreza ignorava, porém, que os astros que contemplava fossem sóis.(1) Ele se adiantava ao seu tempo e entoava o primeiro hino majestoso que os séculos futuros, mais esclarecidos, deviam cantar depois dele, em louvor ao Mestre dos Mundos. (1) As opiniões diferem. Recordamos a discussão de Brewster, pág. 315 e seguintes. O conjunto desses grandes corpos se divide em diferentes sistemas, cujo número ultrapassa, talvez, o dos grãos de areia que o mar lança no litoral. Cada sistema tem, então em seu centro ou em seu foco uma estrela ou um sol, que brilha com luz própria, e em torno do qual circulam diferentes

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