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Capítulo 40 de 46

Extratos Filosóficos — parte 1 de 3

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

para servir à história da pluralidade dos mundos

Plutarco

Opinião de alguns pensadores antigos sobre a lua (1)

"Eu gostaria", disse Téon, que nosso diálogo tivesse como tema a opinião que coloca habitantes na Lua. Desejaria saber, não precisamente se ela é habitada, mas se é ao menos possível que ela o seja. Se é impossível que haja habitantes lá, não se pode sustentar razoavelmente que a Lua seja uma terra; caso contrário, ela teria sido criada em vão e sem motivo, pois que ela não carregaria nenhum fruto, e nenhuma raça de homens encontraria ali assento sólido para nascer e se alimentar, fins para os quais cremos, com Platão, que foi formada a Terra que habitamos; Deus a fez para ser a nutriz do gênero humano, para produzir o dia e a noite e manter fielmente sua duração. Sabei que se diz sobre isto muitas coisas sérias e muitas pilhérias. Pretende-se que aqueles que habitam debaixo da Lua têm, como outros tantos Tântalos, este planeta suspenso sobre sua cabeça; e que

os que habitam por cima, são presos a ela como outros tantos Íxions, e são arrebatados com ela numa rápida rotação. A Lua tem mais de um movimento; distinguem-se três, que fizeram dar a ela o nome de Trívia; ela se move no zodíaco em longitude, em latitude e em profundidade. (1) De facie in orbe Luna, Ed. Ricard. "Seria, pois, de surpreender se a violência desses movimentos fez cair uma vez da Lua um leão no Peloponeso? (2) Deve-se antes surpreender de não ver todos os dias milhares de homens e animais, fortemente sacudidos, cair de cabeça para baixo. Pois seria ridículo discutir sobre sua habitação na Lua, se não podiam nem nascer nem subsistir neste planeta.

Se os egípcios e os trogloditas, que só têm num dia, nos solstícios, o Sol perpendicular sobre suas cabeças, e que o vêem logo se afastar, são quase queimados pela secura do ar que respiram, como os habitantes da Lua poderiam sustentar todos os anos os calores de doze verões, quando o Sol, a cada Lua cheia, cairia a prumo sobre suas cabeças? Quanto aos ventos, às nuvens e às chuvas, sem os quais os frutos da Terra não podem nascer nem se conservar, seria possível supô-los existentes num planeta onde o ar é tão vivo e tão quente, pois que aqui embaixo mesmo as mais altas montanhas não experimentam invernos duros e rigorosos? (3) Como o ar ali é puro e tranqüilo por causa de sua leveza, está ao abrigo da condensação que o nosso experimenta durante o inverno.

A menos que se diga que, como Minerva dava a Aquiles o néctar e a ambrosia quando este herói não se alimentava, assim a Lua, que se chama e que é verdadeiramente Minerva, nutre seus habitantes, fazendo crescer todos os dias para eles a ambrosia, este alimento comum dos deuses, segundo Ferécidas. Quanto a essa raiz que certos povos da índia queimam, segundo Megástenes, que, não tendo boca, por este motivo são chamados Astomos, que não comem nem bebem, e só respiram o odor dessa planta, como poderia ela nascer na Lua, que nunca é irrigada por nenhuma chuva?" (2) Percebe-se que esta pretensa queda do leão da Neméia não precisa de refutação. O mesmo para a fábula sobre o povo da índia chamado de Astomos, que Plutarco vai relatar.

(3) A experiência desmente esta assertiva. Os gelos que cobrem as mais altas montanhas o ano inteiro mostram o rigor dos invernos que se experimenta nelas. — Não vamos nos deter em refutar os erros científicos de que este tratado está cheio; é do ponto de vista histórico que damos este extrato. Quando Téon terminou, tomei a palavra. Em tudo o que foi dito, nada prova que a Lua não possa ser habitada. Sua revolução suave e tranqüila torna o ar que a rodeia leve e homogêneo, e lhe dá uma agradável temperatura, de modo que não haveria queda a recear para os que a habitassem, a menos que caísse a lua mesma. A variedade e as aberrações de seu movimento não vêm de desigualdade ou de desordem; os astrônomos demonstram, ao contrário, que elas são o efeito de uma ordem e de um curso admiráveis.

Quanto ao excessivo e contínuo calor que o Sol a faria experimentar, cessaríeis de temê-lo, se opuserdes primeiramente às doze conjunções do verão as doze oposições, e a seguir, a continuidade destas mudanças, que, não deixando às afecções extremas um longo tempo, e retirando-lhes o que têm de demasiado violento, reduzem-nas a uma temperatura muito agradável, e tornam o tempo que se escoa entre os dois extremos bastante semelhante à nossa primavera. Além do mais, o Sol nos envia seus raios através de um ar espesso; e seu calor é alimentado por esses vapores, adquire mais força, ao passo que na Lua, onde o ar é sutil e transparente, os raios, não encontrando nenhum corpo que lhe sirva de foco e de alimento, se dividem e se dispersam.

Entre nós, são as chuvas que alimentam as árvores e as frutas; mas em outros lugares, como entre vós em Tebas e em Siena, não é a água da chuva que lhes fornece alimentação, é a da terra mesmo, que sempre, penetrada de um idade, fecundada também pelos ventos e rocio, não cede em fertilidade ao solo mais bem irrigado, tanto ela é naturalmente adubada e fecunda. Em nossas terras, as mesmas espécies de árvores que experimentaram um inverno rigoroso carregam em abundância frutos muito bons; mas na África, e entre vós, no Egito, as árvores são muito prejudicadas pelo frio. A Gedrosia e a Troglodítida, situadas nas margens do Oceano, são atingidas pela esterilidade e não produzem árvores

por causa da secura do solo. Mas o mar adjacente alimenta até no fundo das águas plantas de tamanho extraordinário, que uns chamam de oliveiras, outros de loureiros, e outros, por fim, de cabelos de Ísis. A planta chamada anacampserota, quando arrancada da terra e suspensa, se conserva tanto quanto se quiser, e mesmo faz brotar novas folhas. Entre os grãos que se semeia, há aqueles, como a centáurea, que, semeados em terra adubada e irrigada com freqüência, perdem suas propriedades naturais, porque gostam da secura, e um solo árido conserva toda a sua virtude. Há outras, tal como a maioria das plantas da Arábia, que nem suportam o rocio, e murcham e morrem assim que são molhadas. Que maravilha há, pois, se crescem na Lua raízes, sementes e plantas que não precisam nem de inverno, nem chuvas, e para as quais o ar seco, como o do verão, é o único que convém?

E por que não seria verossímil que haja na Lua ventos tépidos e suaves, e que mesmo o movimento de sua revolução excite sopros temperados, rocios e vapores ligeiros que se estendam por todos os lugares e bastam para nutrir as plantas? A temperatura deste planeta não é antes branda e úmida, ao invés de seca e ardente? Dela não nos vem nenhum efeito de secura, mas vários de umidade; e, se é permitido falar assim, de brandura fecundante, tais como o crescimento das plantas, o amolecimento das carnes, a alteração dos vinhos, os partos fáceis. No entanto, não chegarei a atribuir, como os estóicos, o fluxo e o refluxo do Oceano à umidade que cai da Lua. Há homens que vivem sem alimento sólido, até mesmo apenas do odor dos pratos. Epimênides provou-o por seu exemplo, e fazia ver que a natureza sustenta um animal com bem pouco alimento, e só era preciso o tamanho de uma azeitona para bastar ao seu sustento. Ora, os habitantes da Lua, caso haja, devem ser de uma constituição ligeira e fáceis de sustentar com os alimentos mais simples...

Como a Lua não parece em nada com a Terra, temos dificuldade em crer que ela seja habitada. Quanto a mim, penso que seus habitantes se surpreendem ainda mais que nós, quando percebem a Terra, que lhes parece como a borra e a escória do mundo,

através de tantas nuvens, vapores e névoas, que fazem dela uma morada escura e baixa e tornam-na imóvel. Eles têm dificuldade em crer que um tal lugar possa produzir e nutrir os animais que têm movimento, respiração e calor. Eles acreditam certamente que a Terra é um lugar assustador; eles não duvidam que o inferno e o Tártaro fossem colocados em nosso globo e que a Lua, igualmente afastada dos céus e dos infernos, seja a verdadeira Terra. Seja como for, podem existir na Lua certos habitantes; e os que pretendem que esses seres tenham necessidade de tudo que é necessário aos nossos nunca prestaram atenção à variedade que a natureza nos oferece, e que fazem que os animais tenham mais diferença entre eles do que eles mesmos diferem das substâncias inanimadas.

Cyrano de Bergerac

De uma língua universal, por um habitante de um dos pequenos planetas que revoluteiam ao redor do sol

Ao fim de um trecho do caminho, encontrei-me num charco onde encontrei um homenzinho inteiramente nu, sentado numa pedra, que repousava. Não me lembro se fui eu quem lhe falei primeiro, ou se foi ele quem me interpelou; mas tenho a memória fresca, como se eu o escutasse ainda, que discorreu para mim, durante três longas horas, em uma língua que sei muito bem nunca ter ouvido, e que não tem relação com nenhuma deste mundo, a qual, entretanto, compreendi mais depressa e mais inteligivelmente que aquela de minha mãe. Ele me explicou, quando me admirei de coisa tão maravilhosa, que nas ciências havia um Verdadeiro, fora do qual sempre se está longe do fácil; que quanto mais um idioma se afasta desse verdadeiro, mais se encontra acima do entendimento e é de intelecção menos fácil. "Assim", continuou ele, "na Música, esse verdadeiro nunca se encontra, e a alma, assim que arrebatada, se dirige para ele

cegamente. Não o vemos, mas sentimos que a Natureza o vê; e, sem poder compreender de que maneira somos absorvidos, ele não deixa de nos encantar, e não saberíamos observar onde ele está... Por isso, se tivésseis a intelecção dele, poderíeis comunicar e discorrer sobre todos os vossos pensamentos aos animais, e os animais a vós, sobre todos os pensamentos deles, porque esta é a própria linguagem da Natureza, pela qual ela se faz entender a todos os animais. "Que a facilidade, pois, com a qual entendeis o sentido de uma língua que jamais soou aos vossos ouvidos, não o surpreenda. Quando eu falo, vossa alma encontra, em cada uma de minhas palavras, esse Verdadeiro que ela procura tateando; e, mesmo que sua razão não a entenda, ela tem em si a Natureza, que nunca poderia deixar de entendê-la."

A língua dos habitantes da Lua

Cyrano conta que durante sua viagem à Lua, foi tomado por charlatão, e exibido como um animal curioso. Passava o tempo conversando com um demônio que vinha visitá-lo em sua jaula. Foi depois de uma destas conversas que vem o seguinte relato: "Discorríamos havia algum tempo, quando meu domador percebeu que a platéia começava a ficar enjoada com meu jargão, que não entendiam, e que tomavam por resmungos não articulados. Ele se aprestou a puxar por minha corda, para me fazer saltar, até que os espectadores, saciados de rir e após certificar-se que eu era tão esperto quanto os outros animais de sua terra, se retiraram para suas casas. Eu suavizava a dureza dos maus-tratos de meu senhor pelas visitas que me fazia meu oficioso demônio; pois quanto a conversar com os que vinham me ver, além de eles me tomarem por um animal dos mais enraizados na categoria dos brutos, eu não sabia a língua deles, e tampouco eles entendiam a minha, e julgai em que proporção, pois ficai sabendo que

nesta terra, são utilizados apenas dois idiomas: um que serve aos grandes, e outro que é particular da plebe. O dos grandes nada mais é que uma diferença de tons não articulados, mais ou menos semelhantes à nossa música, quando não se ajuntou as palavras à ária, e com certeza é uma invenção em geral bem útil e agradável; pois, quando se cansam de falar, ou quando desdenham prostituir sua garganta com este uso, tomam de um alaúde ou outro instrumento, de que se servem tão bem como da voz, para comunicar seus pensares; de modo que às vezes encontram-se quinze ou vinte reunidos, e que vêm a discutir um ponto de teologia, ou as dificuldades de um processo, por um concerto dos mais harmoniosos com que se poderia deleitar o ouvido. A segunda, em uso em meio à plebe, se executa pelo estremecimento dos membros, mas talvez não como se poderia imaginar, pois certas partes do corpo significam todo um discurso.

A agitação, por exemplo, de um dedo, de uma mão, de uma orelha, de um lábio, de um braço, de um olho, de uma face, constituirão, cada um em particular, uma oração ou um período, com todos os seus membros. Outros só servem para designar palavras, como uma ruga na testa, os diversos movimentos dos músculos, revirar as mãos, bater os pés, as contorções dos braços; de modo que quando falam, com o costume que têm de andar nus, seus membros acostumados a gesticular suas idéias, se remexem tão vigorosamente que não parece um homem a falar, mas um corpo a tremer.

Da sepultura

Vendo que se carregava um caixão envolvido em negro, informei-me com um transeunte o que queria dizer aquele comboio, semelhante às pompas fúnebres de minha terra. Ele respondeu que aquele homem mau — designado pelo povo por um piparote com o nariz sobre o joelho direito —, que fora condenado por inveja c ingratidão, morrera no dia anterior, e que o parlamento o condenara, havia mais de vinte anos, a morrer em seu leito, e

depois ser enterrado após a morte. Pus-me a rir desta resposta, e ele me interrogou por que: Vós me surpreendeis, disse eu, dizendo que o que é um sinal de bênção em nosso mundo, como a longa vida, uma morte pacífica, uma sepultura honorável, serve aqui como condenação exemplar. — Quê! Considerais a sepultura como algo precioso? retorquiu aquele homem. E por vossa fé, podeis conceber algo de mais espantoso que um cadáver caminhando sob os vermes que regurgita, à mercê de sapos que mastigam suas faces, enfim a peste vestida com o corpo de um homem? Bom Deus! Apenas imaginar de ter, mesmo que morto, o rosto coberto com um pano e sobre a boca uma porção de terra me dá falta de ar.

Esse miserável que vedes carregar, além da infância de ser lançado numa fossa, foi condenado a ser assistido em seu cortejo por cento e cinqüenta de seus amigos, e estes receberam ordene, como punição por haverem estimado um invejoso e um ingrato, de aparecer nos seus funerais com rosto triste; e porque os juízes tiveram misericórdia, imputando em parte seus crimes à sua pouca educação, não lhes ordenaram chorar. A parte os criminosos, aqui. todos são cremados: e isto é um costume mui decente e mui razoável, pois cremos que, o fogo tendo separado o puro do impuro, o calor reúne, por simpatia, esse calor natural que compunha a alma, e lhe dá a força de se elevar sempre, subindo até algum astro, a Terra de certos povos mais imateriais que nós, e mais intelectuais, porque sua temperatura deve corresponder e participar da pureza do globo que habitam.

Julgamento a propósito da Pluralidade dos Mundos (Alusão engenhosa ao então recente processo de Galileu)

Fui interrogado, em presença de grande número de cortesãos, sobre alguns pontos de física, e minhas respostas, segundo creio, foram satisfatórias, pois o que presidia me expôs prolongadamente as suas opiniões sobre a estrutura do mundo: elas me pareceram engenhosas, e sem que passasse à sua origem, que sustentava ser eterna, achei sua filosofia

muito mais razoável que a nossa. Mas assim que o ouvi sustentar uma fantasia tão contrária ao que a Fé nos ensina, rompi com ele, o que só o fez rir; e isto me obrigou a dizer-lhe que, como chegamos a esse ponto, eu começava a crer que o seu mundo era apenas uma Lua. — Mas, disseramme todos, vedes a terra, rios, mares; o que vem a ser tudo isso, então? Não importa, retorqui, Aristóteles assegura que é apenas a Lua, e se tivésseis dito o contrário nas classes em que fiz meus estudos, seríeis apupados. Isto provocou grandes risadas. Não se deve perguntar se foi por causa da ignorância deles, mas mesmo assim, fui reconduzido à minha jaula. Mas outros sábios, mais zelosos que os outros, sabendo que eu ousara dizer que a Lua de onde eu vinha era um mundo, e que seu mundo não era mais que uma Lua, julgaram que isto lhes fornecia um pretexto justo o suficiente para me condenar à água: esta é a maneira de exterminar os ímpios.

Para este efeito, foram em comitiva fazer queixa ao rei, que lhes prometeu justiça, e ordenou que eu seria julgado. Quando quis defender minha causa, fui libertado por uma aventura que vai vos surpreender. Um homens, que teve grande dificuldade em atravessar a multidão, veio lançar-se aos pés do rei, e arrastou-se longamente sobre as costas em sua presença. Esta maneira de agir não me surpreendeu, pois eu sabia que era esta a postura que assumiam quando queriam discursar em público. Eu apenas contive minha arenga; e eis a que ouvimos dele: "Justo, escutai-me! Não poderíeis condenar este homem, macaco ou periquito, por ter dito que a Lua é o mundo de onde veio; pois se ele é homem, mesmo que não seja proveniente da Lua, pois que todo homem é livre, não é também livre para imaginar o que quiser? O quê! Podereis constrangê-lo a não ter as suas opiniões?

Vós o forçaríeis a dizer que a Lua não é um mundo; mas ele não acreditará nisso: pois, para acreditar em qualquer coisa, é preciso que se apresentem à sua imaginação certas possibilidades maiores para o sim do que para o não; a menos que lhe forneçais esse verossímil, ou que ele venha por si mesmo se oferecer à sua mente, ele vos dirá até que crê, mas não é por isso que vai acreditar.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.