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Capítulo 44 de 46

Swedenborg — parte 2 de 4

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

ordens de globos opacos, que refletem, com maior ou menor brilho, a luz que emprestam dele e que os fazem visíveis para nós. Foi a astronomia moderna que veio a ensinar aos homens que as estrelas são realmente inumeráveis, e que as constelações que a antiguidade contava como um pequeno número encerram milhares delas. O céu dos Tales e dos Hiparcos era bem pobre em comparação com o que os Huygens, os Cassini, os Halley nos desvelaram. Mortal orgulhoso e ignorante! Ergue agora os olhos ao céu e respondeme. Se se subtraíssem algumas dessas luminárias que brilham na abóbada estrelada, tuas noites se tornariam mais escuras? Não digas pois: As estrelas foram feitas para mim, é para mim que o firmamento resplandece com esse brilho majestoso. Insensato! Não foste o primeiro objeto das liberalidades do Criador, quando ordenou Sírius e traçou as esferas. As estrelas, como outros tantos sóis, iluminam outros Mundos, ocultos a nós por sua distância prodigiosa, e que têm, como o nosso, suas produções e seus habitantes. A imaginação sucumbe sob o peso da criação.

Ela procura a Terra e não a destrincha, ela se perde nesse acúmulo imenso de corpos celestes como um grão de poeira numa alta montanha. Átrios resplandecentes da glória celeste, moradas eternas dos espíritos bem-aventurados, Santo dos Santos da criação, trono augusto d'Aquele que é, um verme poderia descrever-vos! Divisão geral dos seres. Os espíritos puros, substâncias imateriais e inteligentes; os corpos, substâncias extensas e sólidas; seres mistos, formados pela união de uma substância imaterial e uma corporal. são as três classes gerais de seres que vemos ou que concebemos no Universo. Se não existem duas folhas, dois insetos, dois homens semelhantes, o que será com dois planetas, dois turbilhões planetários, dois sistemas solares? Cada globo tem sua economia particular, suas leis, seus produtos. Talvez haja mundos tão imperfeitos relativamente ao nosso que lá só se encontrem seres da primeira ou da segunda categoria.

Outros mundos podem, ao contrário, ser tão perfeitos, que só haveriam neles seres próprios das classes superiores. Nestes mundos, os rochedos são organizados, as plantas sentem, os animais raciocinam, os homens são anjos. Qual é, pois, a excelência da Jerusalém celeste, onde o anjo é o menor dos seres inteligentes? Lá irradiam por toda parte os anjos, os arcanjos, os serafins, os tronos, os querubins, as virtudes, os principados, as dominações, os poderes. No centro dessas augustas esferas brilha o Sol de justiça, o Oriente lá do alto, do qual todos os outros astros tomam emprestada sua luz e seu esplendor. Habitantes da Terra, que recebestes uma razão capaz de vos persuadir da existência desses Mundos, não dirigireis jamais para eles os vossos passos? O Ser infinitamente bom que vo-los mostra de longe recusar-vos-ia para sempre a entrada neles? Não; chamados a tomar lugar um dia entre as hierarquias celestes, voareis como elas, de planeta em planeta; ireis eternamente de perfeição em perfeição. Tudo o que foi recusado à vossa perfeição terrestre, obtereis sob essa economia de glória: conhecereis, como fostes conhecidos.

Lambert

Sistema do mundo: população do Universo

Se estamos convencidos de que tudo é feito com um propósito, que tudo está ligado, que o mundo é a expressão dos atributos de Deus, seremos levados a crer que todos os globos são habitados, e que todo o espaço do Universo está também cheio de globos que poderiam sê-lo. Não podemos nos convencer a deixar vazios e lacunas numa obra tão perfeita: em todos os lugares onde há bons pontos de observação, colocamos observatórios e observadores.

Não vemos na Terra tudo cheio de vida e de movimento, e a natureza por todos os lugares ocupada em fecundar, organizar, animar a matéria? Num grão de areia, numa gota d'água, percebemos mundos e seus habitantes; mesmo assim, nossos melhores microscópios nos mostram apenas as baleias e os elefantes desses mundos; eles estão bem longe de atingir até os insetos. E quer-se-ia que todos esses vastos corpos que nadam conosco em torno do Sol, e que recebem como nós a sua luz c seu calor vital, fossem vazios e despovoados? Não sei da opinião mais irracional nem mais indigna de um ser que pensa. Se os corpos celestes fossem imóveis e sempre fixos no mesmo ponto, haveria provavelmente lugar para um número bem maior do que existe. Mas seu movimento era necessário à manutenção, à ordem e à perfeição do sistema; para reuni-los em um todo, era preciso essa gravitação recíproca em virtude da qual eles agem e reagem uns sobre os outros. Era preciso destinar-lhes trilhas onde cada um pudesse pacificamente cumprir e renovar sua curva.

O movimento se faz no tempo e no espaço: assim, o plano de um mundo bem ordenado exigia uma combinação regular destas duas coisas. Todo esse espaço é empregado em órbitas e em globos que os percorrem. Isso deve ser entendido não somente para o sistema solar, mas também para todos, sem exceção. Cada estrela fixa governa um mundo tão cheio e povoado como o nosso, na proporção de sua capacidade; e estes mundos são em tão grande número quanto o permite a capacidade do Universo inteiro que os encerra. Que belo, que arrebatador espetáculo essa máquina imensa que gira e mantém seus movimentos variados ao infinito pela lei mais simples, apenas pelo princípio da gravitação! Essa é a obraprima da inteligência criadora e o objeto eterno da admiração dos homens e dos anjos. Queremos que todos os globos sejam habitados; mas serão todos eles habitáveis? Os cometas parecem aqui ser uma exceção que só serviria para aniquilar a regra; pois, a julgar somente por aqueles cuja memória se

conservou, estes astros são em muito maior número no sistema solar que os planetas. Como conceber que os seres vivos possam durar num domicílio que passa pelas últimas extremidades do calor e do frio? Sem dúvida, precisam ser de temperamento bem mais vigoroso, e de constituição bem diferente da nossa. Mas onde está a necessidade de que todos os seres vivos sejam feitos como nós? Não é infinitamente mais verossímil que haja, de globo para globo, uma variedade de organização e de compleição relativa às necessidades dos povos que os habitam, correspondendo aos lugares de sua morada e às mudanças de temperatura que precisam sofrer? Em geral, já não renunciamos ao preconceito que longamente fez ver a zona tórrida e a zona gelada como desabitadas? Não há homens sobre essa terra? E se nunca tivéssemos visto peixes ou pássaros, não teríamos fundamento em considerar as águas c os ares como despovoados? Temos certeza de que o fogo não tenha seus habitantes invisíveis, cujos corpos sejam feitos de asbestos, ou qualquer outra substância impenetrável à chama?

Dizemos que a natureza dos seres que povoam os cometas nos é desconhecida, mas não neguemos sua existência, e ainda menos sua possibilidade. Gosto de imaginar esses globos errantes povoados com astrônomos que estão lá expressamente para contemplar a natureza em grande escala, como nós a contemplamos em pequena escala. Seu observatório móvel, vogando de um sol para outro, os faz passar sucessivamente por todos os pontos de observação, e coloca-os em condições de tudo observar, determinara posição e o movimento de todos esses astros, medir as órbitas dos planetas e dos cometas que rolam ao seu redor, saber como as leis particulares se resolvem em leis gerais, conhecer, em uma palavra, os detalhes e o conjunto.

Sir Humphry Davy

Os últimos dias de um filósofo

Sir Humphry Davy, presidente da Sociedade Real da Inglaterra, membro do Instituto etc., escreveu, perto de 1827, uma obra admirável, se bem que desconhecida na França: The Last Days of a Philosopher. Em 1867, passando uns tempos na ilha de Jersey, esta obra caiu-nos nas mãos, aparentemente pelo maior dos acasos. Surpreendeu-nos estranhamente pela originalidade de sua forma e pela profundidade dos assuntos tratados. E também muito surpreso que a obra fosse quase desconhecida em nosso país, consideramos um dever traduzi-la e publicá-la na França. Esta tradução foi publicada em 1869. A Pluralidade dos Mundos forma o tema de um destes diálogos filosóficos. O autor, solitário no meio das ruínas do Coliseu em Roma, é transportado por um espírito às esferas celestes, e examina os planetas habitados. Temos um verdadeiro prazer em extrair deste diálogo o fragmento seguinte, que testemunha as opiniões pessoais do grande químico a respeito da doutrina da pluralidade dos mundos habitados. Não se esqueça que estas páginas foram escritas antes de 1830. Transportado em espírito ao globo de Saturno, o autor descreve, nos seguintes termos, o espetáculo que se desdobrou perante ele.

Viagem a Saturno, e habitantes dos planetas

Havia sob meus olhos uma superfície infinitamente diversificada, oferecendo alguma semelhança com uma imensa geleira. Esse campo estava coberto de massas em colunas que pareciam ser de vidro, e às quais estavam suspensas algumas formas redondas de tamanhos diversos, que eu tomaria por frutos, se não fossem transparentes. Rios de um rosa suave e de púrpura brilhante saíam de montículos na aparência análogos ao gelo, cujo

tom era de um azul vivo, e caíam em bacias onde se formavam lagos da mesma cor. Voltando meu olhar para o céu, vi na atmosfera nuvens azuis, resplandecentes como safira, suspensas no vazio e refletindo a luz do Sol; este astro oferecia a meus olhos um aspecto novo, e parecia muito menor do que na Terra, como se estivesse envolto numa neblina azul. No espaço que se desdobrava à minha frente, vi seres gigantescos em movimento, de uma forma indescritível; pareciam munidos de um sistema de locomoção análogo ao do cavalo-marinho, mas percebi com grande surpresa que seus movimentos se efetuavam com o auxílio de seis membranas extremamente delgadas, de que se serviam como se fossem asas. Suas cores eram belas e variadas, as nuances dominantes sendo o azul e o rosa.

A parte anterior de seus corpos estava munida de um grande número de tubos móveis enrolados, cuja forma lembrava antes a de trombas de elefantes, do que qualquer outro objeto terrestre; não fiquei pouco surpreso, e diria mesmo desagradavelmente surpreso, pelo caráter bizarro dos órgãos desses seres estranhos; e experimentei mesmo um temor insólito quando percebi que um deles subia e dirigia seu vôo para uma daquelas nuvens opacas de que acabo de falar. "Sei que reflexões te agitam", disse-me o Gênio, que me levara a esse lugar. "A analogia te falta, e faltam-te elementos do saber para entender esta cena. Atualmente estás no caso em que se encontraria uma mosca se seu olho múltiplo fosse de chofre metamorfoseado num olho semelhante ao do homem, e ficas completamente incapaz de colocar o que viste em relação com os conhecimentos normais anteriores. Muito bem! esses seres que estão diante de ti, e te parecem tão imperfeitos quanto os zoófitos de vossos mares polares, aos quais se assemelham um pouco em sua organização aparente, são os habitantes de Saturno. Eles vivem na atmosfera.

Seu grau de sensibilidade e de felicidade intelectual ultrapassa em muito o dos habitantes da Terra. São dotados de sentidos numerosos, de meios de percepção cuja ação não poderias entender. Sua esfera de visão é muito mais extensa que a tua, e seus órgãos do tato incomparavelmente

mais delicados c mais finamente aperfeiçoados. É inútil que eu tente explicar-te sua organização, evidentemente não saberias concebê-la; quanto a suas ocupações intelectuais, procurarei dar-te uma idéia. Eles sujeitaram, modificaram e aplicaram as forças físicas da natureza de uma maneira análoga à que caracteriza a obra industrial do homem terrestre, mas, desfrutando de poderes superiores, obtiveram resultados igualmente superiores. Sua atmosfera tendo muito mais densidade que a vossa, e o peso específico de seu planeta sendo menor, puderam determinar as leis que pertencem ao sistema solar com muito mais precisão do que vos seria possível; e o primeiro desses seres que viesse ter conosco saberia anunciar-te quais são, neste momento, a posição e o aspecto de vossa lua com uma tal precisão que ficarias convencido que ele a está vendo, mesmo que seu conhecimento não seja senão o resultado do cálculo.

Suas fontes de prazer são da mais alta natureza intelectual; com o magnífico espetáculo de seus anéis e suas luas que giram ao seu redor; graças às combinações variadas necessárias para compreender e predizer as relações entre esses maravilhosos fenômenos, suas mentes estão numa atividade incessante e esta atividade é fonte perpétua de alegrias. Vosso conhecimento do sistema solar se limita a Urano, e as leis deste planeta traçam os limites de vossos resultados matemáticos. Mas estes seres penetraram os mistérios planetários de um outro sistema, e mesmo discutem sobre os fenômenos apresentados pelos outros sóis. Os cometas sobre os quais vossa história astronômica é tão imperfeita, tornaram-se bem familiares para eles, e suas posições estão marcadas em suas efemérides com a mesma exatidão que as de Júpiter e Vênus nas vossas.

A paralaxe da estrelas fixas mais próximas é tão rigorosamente medida para eles que a de seu próprio Sol, e possuem uma história detalhada das mudanças que ocorreram no céu, causadas por leis que me seria inútil procurar ensinar-te. Estão familiarizados com as revoluções e costumes dos cometas; conhecem o sistema dessas formações meteóricas de pedras que não deixaram de causar profundo assombro em vossa Terra; por fim, notaram as mudanças

graduais que se operam nas nebulosas durante suas transformações em sistemas, de modo que podem prever suas modificações futuras. Seus anais astronômicos não se parecem com os vossos, que só remontam a vinte séculos, ao tempo de Hiparco: abrangem um período cem vezes mais longo, e sua história civil é tão exata durante este período quanto sua história astronômica. Como não posso descrever, de modo que entendas, os órgãos desses seres maravilhosos, tampouco posso fazer com que conheças seus modos de vida, mas como procuram a felicidade nas obras intelectuais, podes concluir que esse modo de viver oferece a mais admirável analogia com o que na vossa Terra se chamaria a mais alta perfeição. Um outro ponto não menos importante é acrescentar que eles não têm guerras, e que não ambicionam senão a grandeza intelectual; eles não sentem nenhuma de vossas paixões, exceto um grande sentimento de emulação no amor da glória.

Se eu te mostrasse as diversas partes da superfície deste planeta, apreciarias os resultados maravilhosos do poder de que estão dotados essas altas inteligências e a maneira admirável com que souberam aplicá-los e modificar a matéria. Essas colunas, que parecem sair de uma geleira inferior, são obras de arte, e no interior das quais se cumprem trabalhos tendo por objeto a formação e acomodação de seu alimento. Fluidos de cores brilhantes são os efeitos dessas operações, análogas às que na Terra se fazem em vossos laboratórios, ou, para melhor dizer, em vossos aparelhos culinários, pois tudo isto tem como objeto seu sistema de alimentação. Eles não se alimentam como vós, de alimentos grosseiros, mas de fluidos.

Essas belas nuvens azuis, para as quais vias, há alguns minutos, um desses seres dirigir seu vôo, são também obras de arte; poder-se-ia chamálas de carros aéreos nos quais os habitantes se fazem transportar entre as regiões diversas de sua atmosfera, a fim de governar as quantidades de temperatura e de luz mais adaptadas a suas pesquisas científicas, ou as mais convenientes para as vantagens da vida física.

Poderia agora transportar-te para outros planetas e mostrar-te, em cada um, seres particulares, oferecendo certas analogias uns com os outros, mas diferindo essencialmente em suas faculdades características. Em Júpiter, verias criaturas análogas às que acabas de observar em Saturno, mas munidas de meios de locomoção bem diferentes. Nos mundos de Marte e de Vênus, encontrarias raças de formas mais próximas das que pertencem à Terra; mas em cada parte do sistema planetário, existe um caráter especial em todas as naturezas intelectuais: é o sentido da visão, a faculdade orgânica de receber as impressões da luz. Não deixarias de perceber que todas as disposições e movimentos dos corpos planetários, de seus satélites, de suas atmosferas tendem a este resultado. As almas, em suas transmigrações de um sistema para outro, progredindo sempre rumo ao saber e ao poder, conservam pelo menos este caráter invariável, e sua vida intelectual está em conexão permanente com a obra da luz.

O grande universo é ocupado em todos os lugares pela vida, mas o modo de manifestação desta vida é infinitamente diversificado, e é preciso que as formas possíveis, em número infinito, sejam revestidas pelas naturezas espirituais antes da consumação de todas as coisas. O cometa fugindo pelos céus, com sua cauda luminosa, já se mostrou a teu olhar; muito bem! Esses mundos singulares são também a morada de seres vivos, que tomam os elementos e as alegrias de sua vida na diversidade das circunstâncias às quais são expostos; atravessando, por assim dizer, o espaço infinito, são continuamente encantados pela visão de mundos e sistemas novos. Imagina, se podes, a esfera incomensurável de seus conhecimentos! Posso, se desejares, dar-se uma visão de um mundo cometário." Arrebatado de novo por um movimento rápido, passei com a maior velocidade através de um espaço luminoso, vi Júpiter com seus satélites, Saturno e seus anéis, o Sol chegou perto de mim, não mais velado pela névoa azul, mas com todo o seu esplendoroso brilho. Envolvido numa esfera misteriosa e numa espécie de luz avermelhada brumosa, semelhante

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